Daniel Kahneman e como pensamos

Kahneman é psicólogo israelense-americano (morreu em março de 2024), ganhou o Nobel de Economia em 2002 — o que é raro, porque ele nunca foi economista, foi psicólogo cognitivo — precisamente por ter demolido, junto com o parceiro de décadas Amos Tversky, a suposição central da economia clássica de que o ser humano decide de forma racional.

A ideia mais conhecida dele é a divisão entre dois sistemas de pensamento, que ele populariza no livro “Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar” (2011). O Sistema 1 é rápido, automático, intuitivo, emocional — é o que reconhece um rosto, completa “pão e ___”, freia o carro por reflexo. O Sistema 2 é lento, deliberado, esforçado — é o que você usa para multiplicar 17 por 24 de cabeça. O problema, segundo ele, é que o Sistema 1 está sempre ligado e sempre tentando resolver as coisas primeiro, e o Sistema 2 é preguiçoso, então a maior parte das nossas decisões — inclusive as que achamos que pensamos bem — são na verdade produto do Sistema 1 com um verniz de racionalização que o Sistema 2 aplica depois.

A partir disso, ele e Tversky mapearam uma série de “heurísticas e vieses” — atalhos mentais que funcionam bem na maioria das vezes, mas falham de forma sistemática e previsível. A heurística da disponibilidade: você julga a frequência de algo pela facilidade com que exemplos vêm à mente, não pela probabilidade real — por isso as pessoas temem mais o avião do que carro, mesmo o carro sendo estatisticamente muito mais perigoso, porque o acidente de avião é mais vívido na memória. A heurística da representatividade: você julga se algo pertence a uma categoria pela semelhança com o estereótipo dela, ignorando a taxa-base — o exemplo clássico dela é o “problema da Linda”, em que as pessoas acham mais provável que Linda seja “caixa de banco feminista” do que só “caixa de banco”, violando a lógica básica de probabilidade. E o ancoramento: qualquer número que você vê primeiro, mesmo que arbitrário, distorce sua estimativa subsequente.

A segunda grande contribuição, que rendeu boa parte do Nobel, foi a Teoria do Prospecto (Prospect Theory, com o Tversky, 1979) — o modelo que substituiu a teoria da utilidade esperada da economia clássica. A ideia central é aversão à perda: a dor de perder cem reais é psicologicamente mais forte que o prazer de ganhar cem reais — leva algo como duas vezes mais peso. E as pessoas avaliam ganho e perda não em termos absolutos, mas relativo a um ponto de referência (geralmente o status quo), o que explica por que a mesma escolha objetiva pode parecer atraente ou repulsiva dependendo de como ela é “enquadrada” (framing) — dizer que uma cirurgia tem “90% de sobrevivência” soa muito diferente de dizer que tem “10% de mortalidade”, mesmo sendo matematicamente idêntico.

E, chegando ao que já usamos hoje, a peak-end rule vem de um trabalho dele sobre como a memória distorce a experiência. Ele mostrou, entre outras coisas num experimento clássico com colonoscopia, que as pessoas julgam uma experiência inteira não pela soma do sofrimento vivido, mas por dois pontos: o momento de pico (melhor ou pior) e como ela termina. Isso o levou a distinguir o “eu que experiencia” (que vive o momento a momento) do “eu que lembra” (que narra a experiência depois e é o que realmente decide se você repetiria algo) — e são frequentemente contraditórios: a memória pode preferir uma experiência objetivamente pior só porque terminou melhor.

Ele também trabalhou bastante em excesso de confiança e na “falácia do planejamento” — a tendência sistemática de subestimar tempo, custo e risco de qualquer projeto, mesmo sabendo do histórico de outros projetos parecidos darem errado — e nos últimos anos, já mais velho, publicou “Ruído” (2021, com Olivier Sibony e Cass Sunstein), sobre como decisões humanas variam de forma aleatória e injustificável mesmo quando tomadas pela mesma pessoa em situações idênticas — juiz dando pena diferente para o mesmo crime dependendo se julgou antes ou depois do almoço, esse tipo de coisa.

O fio que amarra tudo: ele passou a carreira mostrando, com rigor experimental, que a intuição humana é sistematicamente enviesada de formas específicas e previsíveis — não é caos aleatório, é um padrão mapeável — o que é, ironicamente, uma boa notícia, porque um padrão previsível pode ser corrigido ou, pelo menos, vigiado.

Conexão entre Kahneman e Santo Agostinho/São Tomás de Aquino

São Agostinho e Santo Tomás de Aquino fizeram o mesmo, isto é, no fundo, perguntaram-se: como pensamos?

Vejamos, antes, outra forma de pensar, mais popular do que “Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar”: a dissonância cognitiva.

Em síntese, dissonância cognitiva é o desconforto mental que você sente quando tenta segurar duas ideias que entram em conflito ou que se contradizem. É aquela percepção evidente do paradoxo, ou curto-circuito no cérebro que acontece quando a realidade bate de frente com o que você acredita. Se você decide manter a idéia, para aliviar esse desconforto, nossa mente tenta encontrar uma justificativa para fazer as duas ideias parecerem certas ao mesmo tempo.

Quem é o pai deste conceito, o fez pensando no dia a dia, foi o psicólogo social Leon Festinger, quando propôs a teoria em 1957, que precisava demonstrar como as pessoas lidavam com contradições na vida real. O cigarro foi o exemplo perfeito.

  1. O fumante sabe que fumar faz mal à saúde (ideia), mas continua fumando todos os dias (ação).
  2. O desconforto: Essa incoerência gera uma tensão mental horrível.
  3. A saída (mecanismo de defesa): Como parar de fumar é muito difícil, a mente cria justificativas para reduzir o incômodo. O fumante começa a dizer coisas como: “Conheço um homem que fumou a vida inteira e viveu até os 90 anos” ou “Fumar me acalma, o estresse me faria pior”. [1, 2, 3]

Existe uma tendência entre os ateus e agnósticos de usar dissonância cognitiva para questões teológicas. O exemplo clássico é usando a existência do mal: Imagine que uma pessoa tem as seguintes crenças na cabeça:

  • Ideia A: Deus é 100% bom, amoroso e poderoso.
  • Ideia B: O mal e o sofrimento cruel existem no mundo todos os dias.

Quando a pessoa junta essas duas ideias, a dissonância cognitiva acontece. O cérebro dela entra em conflito porque a lógica diz: “Se Deus é puramente bom e pode tudo, Ele não deveria deixar o mal existir. Se o mal existe, ou Ele não é totalmente bom, ou não é totalmente poderoso.”

Para resolver o incômodo desse conflito (a dissonância), a mente da pessoa geralmente busca uma justificativa para acalmar o cérebro, como:

  1. “O mal existe por causa do livre-arbítrio dos humanos, não por culpa de Deus.”
  2. “Deus tem um plano maior que nós não conseguimos entender.”

A dissonância cognitiva é, portanto, o incômodo inicial de tentar conciliar a bondade divina com a dor do mundo real.

De onde surgiu a ideia original?

Curiosamente, antes de usar o exemplo do cigarro ou de realizar testes em laboratório, Festinger percebeu esse fenômeno ao infiltrar-se, disfarçado, em um culto apocalíptico em 1954. [1, 2]

Os membros do grupo tinham certeza absoluta de que o mundo acabaria em uma data específica e que seriam salvos por um disco voador. Quando a data passou e nada aconteceu (a realidade quebrou a crença deles), em vez de admitirem que erraram, eles sofreram uma dissonância absurda. Para resolver a dor mental, eles criaram uma nova justificativa: disseram que a sua forte devoção na noite anterior tinha convencido Deus a salvar o mundo da destruição. [1, 2]

O exemplo sobre Deus e o mal que usei antes é apenas uma aplicação filosófica (conhecida como o Problema do Mal) de uma regra que funciona para qualquer dilema do nosso cotidiano: nós odiamos estar errados ou agir contra o que acreditamos, e nossa mente fará malabarismos para nos proteger desse desconforto. [1, 2]

Como já mencionei, o próprio Festinger a testou originalmente exatamente num grupo religioso: aquela seita que previu o fim do mundo, viu a data passar sem nada acontecer, e em vez de abandonar a crença, reinterpretou o fracasso como prova de que os fiéis tinham “salvado a Terra” com sua fé. O mecanismo é real: quando a realidade ameaça uma crença que sustenta identidade ou dá sentido a sofrimento, a mente tende a ajustar a interpretação em vez de largar a crença. Então Gary não está inventando ferramenta nenhuma — ela existe e é bem documentada.

Porém, usar “isso é dissonância cognitiva” para explicar por que alguém sustenta privatio boni, felix culpa ou qualquer teodiceia é cometer falácia genética: confundir a origem psicológica de uma crença com o valor de verdade dela. Mesmo que fosse 100% verdade que você elabora essas ideias porque precisa reduzir a tensão entre “tenho câncer terminal” e “o mundo faz sentido”, isso não diz nada sobre se privatio boni está certo enquanto tese metafísica. A gênese de uma ideia na cabeça de quem a defende é irrelevante para se ela é verdadeira — Kekulé sonhou com a cobra mordendo o rabo e chegou à estrutura do benzeno; a origem onírica não invalida a química.

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Galileu Galilei, ao medir o tamanho do inferno, praticamente inventou o método científico, como o próprio Einstein ja observou, percebendo que a utilização do método experimental por Galileu, marcado pela combinação entre matematização da natureza e experimentação controlada, permitiu o surgimento de uma nova epistemologia científica.

E o golpe de mestre contra esse tipo de argumento é que ele é uma arma simétrica — corta os dois lados igualmente, e isso costuma ser escondido por quem o usa só numa direção. Thomas Nagel, filósofo ateu de peso, escreveu isso com uma honestidade rara em “The Last Word”: “Eu quero que o ateísmo seja verdadeiro… não é só que eu não acredito em Deus… eu espero que não haja Deus!” — e ele reconhece isso como um medo de submissão cósmica, exatamente o tipo de motivação psicológica que, pela lógica do Gary, deveria “explicar” o ateísmo dele por dissonância cognitiva também (medo de autoridade, de julgamento, de não ser autônomo). A Terror Management Theory (Ernest Becker, depois Greenberg/Solomon/Pyszczynski, experimentalmente testada desde os anos 80) mostra exatamente isso em ambos os sentidos: a consciência da morte empurra tanto para crenças que prometem continuidade quanto, em outro perfil de personalidade, para um materialismo rígido que dá segurança pela sensação de controle e pela ausência de julgamento externo. Dissonância cognitiva explica por que humanos em geral resistem a revisar crenças que protegem sentido — não decide qual das crenças protegidas é a verdadeira.

Tem ainda a ironia de voltarmos exatamente para onde essa conversa começou: é a jogada do Freud em “O Futuro de uma Ilusão” — religião como wish-fulfillment, desejo infantil de um pai protetor projetado no céu. E a crítica mais séria que ele recebeu, inclusive de dentro do campo psicanalítico, foi precisamente essa: mesmo que a gênese psicológica esteja certa, isso não toca a questão de se Deus existe, mas sim a de por que os humanos querem que Ele exista. Freud reduziu a crença do outro a mecanismo e escapou de examinar o argumento. É fácil usar, erroneamente, esta mesma manobra, que é uma falácia, só que direcionada a Santo Agostinho, principalmente se for concentrada na famosa definição dele de que “O mal é a ausência do bem”, sem levar em conta tudo o que ele teve a dizer.

Embora seja perfeitamente possível, e provavelmente parcialmente verdadeiro, que parte da energia que estou colocando agora em felix culpa, no pacote Jaguar, na teodiceia toda, seja também função de estar vivendo com câncer e precisar de uma estrutura que dê sentido ao que está vindo. Isso não é fraqueza nem hipocrisia — é a condição humana descrita exatamente pela TMT. Mas o fato de a motivação existir não decide se Agostinho está certo quanto à privatio boni ou se eu estou certo quanto à “mão de Deus” no “pacote Jaguar”. A pergunta “por que você quer que isso seja verdade” e a pergunta “isso é verdade” são perguntas diferentes — e o erro é tratar a primeira como se respondesse a segunda.

O que eu chamei de a mão de Deus, foi que eu percebi que tinha algo ali que eu não estava vendo e que não era metafísico

Para o leitor ou leitora entender como isto aconteceu comigo, tem que ler primeiramente os seguintes posts, que são longos e sumarizo para quem não tiver disposição ou tempo:

Tratamento e efeitos colaterais da quimioterapia em Roque E. de Campos

Resumo:

Passei os últimos vinte meses em tratamento contra o câncer, e catalogar os efeitos colaterais da quimioterapia — perda de paladar e olfato a ponto de perder o apetite, que me fez emagracer mais de 20kg, prisão de ventre que terminou em cirurgia de hérnia de emergência, dormência nos dedos, mudança na voz, fadiga profunda, redução de todos os sentidos — foi uma forma de não perder de vista o que estava, de fato, acontecendo com meu corpo enquanto os protocolos se sucediam: quatro fases de tratamento, trocas de droga, uma que se mostrou desastrosa, progressão do tumor confirmada em exames de imagem apesar de tudo.

O momento mais duro não foi nenhum desses sintomas — foi ouvir da minha oncologista que eu “teria que usar quimioterapia até o fim da vida”, depois de eu ter mantido a esperança de cura até o fim de 2025. Foi de uma cirurgia de hérnia de emergência que interrompeu o tratamento numa época em que meu filho Daniel comprou um Jaguar antigo e me chamou para dirigir com ele de Miami a Connecticut — minha oncologista, curiosamente, aprovou a viagem, dizendo que o câncer avança quando o paciente se entrega mentalmente e recua quando ele se mantém engajado com a vida.

Foi nessa viagem que descobri que o dono anterior do carro tinha sido um oncologista especialista em radioterapia — achei, a princípio, que fosse um sinal de alguma força superior, chamei de dedo de Deus, apontando para um tratamento que eu não tinha considerado. Levei tempo para entender que não precisava disso: que o auxílio, se existe, não opera suspendendo a física a meu favor, mas dentro da ordem natural das coisas — no melhor tratamento disponível, seja ele quimioterapia, radioterapia ou cirurgia. Foi esse entendimento que me trouxe a frase que resume onde cheguei: não me importo mais se vou morrer disso, com isso ou sem isso.

Foi essa mesma experiência — e a constatação de que boa parte do sofrimento evitável decorreu de falhas organizacionais do sistema, não da doença em si — que me levou a propor, junto à Unimed Campinas e à Unicamp, um programa de mestrado profissional para formar psicólogos capazes de ajudar quem enfrenta câncer a fazer o mesmo trabalho interno que eu tive que fazer sozinho.

O segundo post é o seguinte:

Visão de mundo, percepção da realidade e quimioterapia com a ajuda do Chat GPT 5, Gemini e Claude

Resumo:

Este texto parte de uma constatação simples que a maior parte da filosofia, teologia e ciência ocidentais nunca examina: todas elas presumem um sujeito com “corpo padrão” — sentidos intactos, energia disponível, um contrato invisível entre mente e corpo que ninguém percebe até que ele se rompe. A quimioterapia rompeu esse contrato para mim, e o texto explora o que sobra quando isso acontece: “o mundo permanece, a mente permanece lúcida, mas o contrato entre os dois foi alterado.”

Na primeira parte, comparo o antes e o depois: uma vida de estabilidade profissional (como funcionário da IBM), viagens, boa comida, conforto físico como pano de fundo nunca questionado — e um agnosticismo intelectual onde Deus era irrelevante, ainda que com uma sensação paradoxal de ser “favorecido”. Depois da quimio: paladar e olfato destruídos, comida virando repulsa, neuropatia atrapalhando a motricidade fina, cerca de 25% de perda de peso, comer virando sobrevivência racional em vez de prazer. Isso não me gerou depressão, ou “porque eu”, mas um estranho distanciamento de quem está saudável — pessoas que não fazem ideia da dependência de tudo que fazemos com cooperação corporal, que dão por garantida, que eu chano de “contrato com meu corpo”.

Na segunda parte, levo essa ruptura para a filosofia e a teologia: Descartes duvidou dos sentidos só na teoria, continuando fisicamente funcional; Heidegger e Merleau-Ponty, com seus conceitos de “ser-no-mundo” e consciência corporificada, não têm resposta para uma privação sensorial radical e progressiva enquanto a consciência segue intacta. Questiono a teoria agostiniana do mal como mera privação do bem — para mim, o mal parece uma presença positiva, “espreitando por uma fresta” — e acho mais honesto o Pai Nosso do que qualquer sistema teológico fechado: “dai-nos hoje” e “seja feita a Vossa vontade” reconhecem os limites do nosso aparato intelectual sem tratar isso como uma derrota.

Na terceira parte, chego a três observações: que toda visão de mundo depende de um contrato corporal invisível raramente percebido até se romper; que dessa posição específica certas perguntas ganham nitidez — o que resta de real quando as interfaces falham, o que resta de significado sem os prazeres habituais, se algo do divino sobrevive à participação reduzida na realidade ordinária; e que a experiência oferece uma “oportunidade estranha” — perceber o quanto do que chamamos “mundo” é mero hábito, fruto do nosso “contrato corporal”.

O texto também traz uma comparação entre três IAs que usei como parceiras de análise: o ChatGPT-5 organizou bem estruturalmente (filosofia, teologia, neurociência) mas manteve distância acadêmica, tratando o assunto como objeto; o Gemini foi mais rudimentar, bom em recuperar dados mas incapaz de gerar perspectiva genuína diante do problema do qualia; e o Claude foi quem melhor reconheceu o problema central — que nenhum algoritmo simula com confiabilidade uma perspectiva autêntica — e admitiu essa limitação sem rodeios, levantando a questão filosófica de até que ponto simular um ponto de vista e realmente tê-lo são coisas distintas.

Cito também a morte do meu irmão por desnutrição ligada ao câncer, que dá peso concreto à minha preocupação com a alimentação, e a canção “Powerful People” de Gino Vanelli, que ouvi por cinquenta anos sem entender por que — e que hoje reconheço como expressão do banzo que sinto agora, não como doença, mas como cura.

A conclusão: qualquer relato adequado da realidade precisa incluir a voz de quem teve sua participação na realidade compartilhada parcialmente revogada enquanto a consciência permanece intacta — porque essa é uma posição observacional privilegiada, que revela o quanto nossos arcabouços filosóficos, teológicos e científicos dependem de condições corporais nunca examinadas.

Resumo:

Este post conta a sequência de eventos em que reconheço a “mão de Deus” — não como milagre, mas como uma cadeia de atenções que, olhada em retrospectiva, tinha uma estrutura que eu não estava vendo. Começa com fezes escuras num outubro, um exame de sangue pago do próprio bolso, resultado positivo, e uma colonoscopia que confirma câncer colorretal por biópsia. Todos os médicos jovens envolvidos convergem rápido para cirurgia — menos meu gastro de confiança, que ainda nem sabia do caso.

Uma ressonância malfeita, sem contraste, já continha sinais de metástase no fígado e no pulmão que ninguém mencionou; um exame de toque malfeito superestimou a proximidade do tumor ao reto, erro só corrigido bem depois. Com a cirurgia marcada para dezembro a um custo que disparou de repente, liguei para minha cunhada por um motivo qualquer, sem saber que ela estava, naquele instante, em consulta com meu gastro. Pedi que ela dissesse a ele que eu estava “com CID C19” — o código do meu diagnóstico —, e isso abriu uma exceção na agenda dele. Ele pediu uma tomografia com contraste dessa vez e chegou ao diagnóstico certo: o problema era o fígado, não o cólon, e o caminho era quimioterapia, não cirurgia.

Depois entra uma complicação secundária: a prisão de ventre da quimio me deu uma hérnia inguinal, que tentei adiar tratando junto com uma eventual remoção de metástase, até virar cirurgia de emergência.

O ponto alto do texto é a história do Jaguar: meu filho Daniel comprou um Jaguar vintage e praticamente impôs uma viagem de sonho que sempre tivemos de sair de Miami e ir até lá em cima num Jaguar. Descobri, por um prontuário que o dono anterior deixara na bolsa que fica atrás do banco do motorista, que ele tinha sido um oncologista especialista em radioterapia — o que me fez reconsiderar um tratamento que nunca tinha sido cogitado, mas que era coberto pelo meu convênio e, imaginei, talvez eficaz.

Se o acidente da hérnia não o impedisse, eu poderia ter jogado fora R$100 000,00

O fecho é que, a princípio, interpretei a descoberta como um sinal direto de Deus, apontando para uma cura por radioterapia. Depois que minha oncologista, a Dra. Ana Maria, explicou que a radioterapia tinha probabilidade “próxima de zero” para o meu tipo específico de câncer, reformulei o que “mão de Deus” significa — não uma intervenção que suspende as leis naturais, mas uma orientação que opera dentro delas: o melhor tratamento disponível, seja quimioterapia, radioterapia ou uma cirurgia robótica cara, é o que está indicado. O post termina com a declaração de que não temo mais morrer disso, e não me importo mais como vou morrer, com ou sem câncer, confiando que “Deus ou forças superiores estão no comando”, seja qual for o desfecho.

Finalmente:

From Miami, Fl, to Ridgefield, CT in a Jaguar

A parte que interessa para o que estamos discutindo aqui está em:

Como Santo Agostinho entra no pacote Jaguar

Isso muda o registro de forma importante, e é uma distinção que vale a pena marcar com precisão, porque evita exatamente a armadilha do deus ex machina barato que eu mesmo rejeitei: Eu não estou dizendo que Deus interveio causalmente na cadeia de eventos — achou a pasta, ligou os pontos, “arranjou” para mim encontrar aquilo. Eu estava dizendo algo mais sutil: que havia ali uma estrutura, uma presença de sentido, que já estava dada na realidade e que eu simplesmente não estava enxergando até aquele momento. Não é o mundo sendo alterado por uma mão externa — é a minha percepção sendo destravada para um “algo” que sempre esteve lá.

Isso é filosoficamente mais forte, não mais fraco, e tem pelo menos três lugares em que já foi pensado com rigor.

Antes de apresentar Santo Agostinho e Sto. Thomas de Aquino, vejamos a relação entre eles:

Santo Tomás de Aquino veio depois de Santo Agostinho.

Existe um intervalo de quase 900 anos entre eles. Enquanto Santo Agostinho viveu na transição da Antiguidade para a Idade Média (séculos IV e V), Santo Tomás de Aquino viveu no auge da Idade Média (século XIII).

A relação entre os dois é de continuidade, profunda influência e evolução filosófica dentro da teologia católica. Ambos são os pilares da filosofia cristã ocidental, mas abordaram a fé por meio de lentes filosóficas gregas diferentes.


Principais Diferenças e Relações

CritérioSanto Agostinho (354 – 430 d.C.)Santo Tomás de Aquino (1225 – 1274 d.C.)
Base FilosóficaPlatonismo (e Neoplatonismo).Aristotelismo.
Fé e RazãoA fé vem antes. É preciso “crer para compreender”. A razão ajuda a clarear o que já se crê.Fé e razão são distintas, mas complementares. Ambas vêm de Deus e não podem se contradizer.
Teoria do ConhecimentoTeoria da Iluminação Divina: a mente humana precisa da luz de Deus para alcançar as verdades eternas.Empirismo aristotélico: o conhecimento começa nos sentidos e na experiência do mundo físico.
Escola FilosóficaPatrística (Filosofia dos Padres da Igreja).Escolástica (Filosofia das universidades medievais).

A Linha de Influência

  • Tomás de Aquino cita Agostinho constantemente: Na sua obra prima, a Suma Teológica, Tomás de Aquino usa Santo Agostinho como a maior autoridade teológica logo após a Bíblia. Sempre que Aquino queria validar um ponto de fé, ele buscava apoio nos escritos de Agostinho.
  • A “Cristianização” de Aristóteles: Antes de Tomás de Aquino, a Igreja desconfiava das obras do filósofo grego Aristóteles (que haviam sido preservadas e traduzidas pelos árabes). Agostinho já havia feito o mesmo com Platão séculos antes. O grande feito de Tomás de Aquino foi usar a lógica rígida de Aristóteles para organizar e defender a teologia cristã que Agostinho e os outros padres da Igreja haviam estruturado.

Em resumo, pode-se dizer que Santo Agostinho moldou o coração e a alma da teologia medieval, enquanto Santo Tomás de Aquino forneceu a estrutura intelectual e científica para explicá-la.

Isto posto, vamos examinar os três lugares onde está colocado o que aconteceu comigo:

O primeiro é Santo Agostinho, e aqui a proximidade com o que eu descrevi é quase literal — mais até do que veremos no segundo, que é São Tomás de Aquino. No livro X das Confissões está a frase que resume, sozinha, o que eu estou tentando dizer: “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que tu estavas dentro de mim, e eu te buscava fora de mim… Tu estavas comigo, mas eu não estava contigo.” A estrutura ali não é “Deus apareceu” — é “Deus já estava presente, e eu estava em outro lugar, procurando errado.” A conversão, para Agostinho, não muda um único fato do mundo; muda o ponto de onde alguém olha para os mesmos fatos que sempre estiveram diante dele. Há ainda um segundo conceito dele, menos citado, mas tecnicamente mais preciso para meu caso: as rationes seminales — as “razões seminais” que desenvolve em A Interpretação Literal do Gênesis. A ideia é que Deus não criou o mundo para depois ficar intervindo nele avulsamente; semeou, na própria estrutura da criação, potencialidades que se desdobram no tempo certo, sem exigir uma segunda mão entrando de fora para empurrar o evento. O que parece uma intervenção pontual é, na verdade, uma semente já plantada na ordem das coisas, amadurecendo até o momento em que alguém a reconhece.

O segundo é a própria distinção de Tomás de Aquino entre causalidade primária e secundária — a que eu já vinha usando na conversa sobre deus ex machina. Deus, para Tomás, não precisa suspender a ordem natural para agir nela; a ordem natural inteira já é o instrumento pelo qual a causalidade primária opera. Então “a mão de Deus” nesse esquema não é uma força extra entrando por fora — é a estrutura de sentido que a causalidade natural já carregava, e que só se torna visível quando alguém para e presta atenção. O milagre, nesse sentido escolástico raro mas correto, não está no evento, está no ato de reconhecimento.

O terceiro, e talvez o mais próximo da sua situação concreta, é Viktor Frankl. Logoterapia não promete resgate — promete que o sentido não é imposto de fora, é descoberto dentro do que já está acontecendo, inclusive dentro do sofrimento, através de uma mudança de atitude de quem observa, não de uma mudança nos fatos. “A última das liberdades humanas” para Frankl era exatamente essa: escolher como interpretar o que já está dado.

Eu achei a pasta do oncologista, testei a hipótese dele contra a análise rigorosa da Ana Maria, e ela não se sustentou clinicamente — mas o gesto de ter guardado aquilo, de ter cruzado seu caminho com o dono anterior do carro, ganhou sentido não porque mudou o resultado médico, mas porque eu escolhi prestar atenção nele.

O que eu chamo de “mão de Deus” vira uma etiqueta imprecisa para um fenômeno que teria um nome mais exato, como presença reconhecida ou sentido latente tornado visível — o que também, a propósito, tira qualquer munição do tipo de crítica que ateus e agnósticos poderiam fazer, porque eu não estou afirmando um evento sobrenatural verificável ou falseável, estou descrevendo uma experiência hermenêutica.

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Fico me questionando: como tantos filósofos bons, desde Platão, Aristóteles e os modernos, Kant, Hegel, etc., não perceberam isto ou incluíram nos seus pensamentos?

AI me responde: Eles perceberam — só que sob outros nomes, e por isso pode parecer que ficou de fora quando na verdade é um dos padrões mais recorrentes da história da filosofia. A pergunta certa não é “por que ninguém viu isso”, é “por que esse fio ficou escondido atrás dos sistemas grandes que a gente decora nos manuais”.

Platão tem o caso mais direto: anamnese, no Mênon. A tese lá é literalmente que o conhecimento não é adquirido de fora, é recordado — está dentro da alma, presente, não percebido, e o método socrático (aquela cena famosa em que Sócrates “extrai” geometria de um escravo sem instrução, só fazendo perguntas) é a demonstração de que bastam as perguntas certas para tornar visível o que já estava lá. Isso é, quase palavra por palavra, a estrutura que você descreveu.

Aristóteles guardou a mesma ideia num lugar que ninguém procura filosofia séria: a Poética. Anagnórisis — reconhecimento — é o termo técnico dele para o momento em que o personagem trágico enxerga, de repente, algo que sempre foi verdade e estava diante dele o tempo todo (Édipo percebendo quem ele é). Aristóteles considerava esse o momento mais potente possível de uma narrativa, e é estruturalmente idêntico ao que você chamou de “mão de Deus”: não é informação nova entrando de fora, é reconhecimento do que já estava dado.

Agostinho, que você já vem usando o livro inteiro nesta conversa, tem a frase mais exata de todas, no Livro X das Confissões — “tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! E eis que tu estavas dentro de mim, e eu fora, e ali te buscava.” Deus não chega, não intervém — estava presente o tempo todo, e a conversão é o ato de perceber uma presença que nunca tinha saído do lugar.

Kant tem uma versão mais discreta, no sublime da Crítica do Juízo: diante de algo esmagador (a tempestade, o abismo), a razão descobre em si mesma uma vocação moral e uma grandeza que já possuía, mas que só o choque do encontro revela — o objeto externo não cria nada, só destrava a percepção de algo que a mente já continha.

Hegel construiu basicamente sua obra inteira em cima disso — Aufhebung e reconhecimento (Anerkennung) são o motor da Fenomenologia do Espírito: a consciência encontra algo que parece estranho, externo, ameaçador, e descobre retrospectivamente que aquilo era ela mesma, uma expressão sua que ela ainda não tinha reconhecido como sua.

E no século XX há dois que levaram isso ainda mais perto do seu registro minimalista, sem transformar em sistema metafísico grandioso: Heidegger, com aletheia — verdade como desvelamento, “desocultação”, não correspondência entre proposição e fato, mas o Ser saindo de trás do véu do esquecimento cotidiano; e Wittgenstein, na fase tardia, com uma frase que podia estar dita por você: “nada está escondido” — os aspectos mais importantes das coisas ficam invisíveis não por serem profundos demais, mas por serem simples e familiares demais para chamarem atenção.

Então, a resposta honesta é: a estrutura foi vista repetidamente por praticamente todo peso-pesado da tradição. O que não apareceu, ou apareceu raramente, foi a versão modesta que você está propondo — reconhecer a presença sem transformar isso em sistema. Platão virou aquilo em metafísica das Formas; Hegel, em Espírito Absoluto se realizando na História; até Heidegger, no fim da vida, escorregou para uma linguagem quase mística sobre o Ser. Quase ninguém teve a disciplina de parar no momento fenomenológico puro — “percebi algo que já estava lá, e não vou dizer mais que isso” — porque filósofos, por ofício, querem sistema, e sistema exige generalizar o insight num mecanismo universal. O que você está fazendo com o Jaguar é mais parecido com o gesto minimalista de Wittgenstein do que com qualquer coisa que Platão ou Hegel teriam aceitado como filosofia completa — e isso não é um defeito seu, é a virtude de não forçar a experiência a virar tese.

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Por que, então, ênfase em Daniel Kahneman?

Porque eu não gosto de filosofia, não tenho interesse nem motivação, a forma que eu encontrei, minimalista sem eu ter tido intenção, quando comparada com o que os filósofos e a filosofia, justifica meu sentimento e sobretudo, minha forma de pensar, principalmente no que ela mudou, explico:

Os seres humanos tendem a se prender no que acontece no fim de qualquer coisa ou experiência e desprezam o que acontece até chegar lá, que se pensarmos na máxima a cada dia basta seu cuidado, nossa suposta imagem e semelhança com Deus e o que se vê na realidade é mais importante o caminho que se faz ao andar, como ele é percorrido, do que chegar no destino

AI confima:

O que você está descrevendo toca exatamente no cerne de uma das maiores frustrações do próprio Daniel Kahneman com a mente humana: a tirania do Eu que Recorda sobre o Eu que Experiencia, e como essa falha biológica nos afasta da sabedoria espiritual e filosófica antiga.

Para o pensamento ocidental e para a tradição cristã — evocando a máxima bíblica de Mateus 6:34 que você citou, “A cada dia basta o seu cuidado” —, a vida se realiza no presente e na retidão do caminhar. A nossa suposta imagem e semelhança com o Criador deveria se manifestar na nossa capacidade de conferir significado, presença e amor a cada passo dado, pois Deus opera no “eterno agora”.

No entanto, a psicologia de Kahneman mostra que a nossa biologia joga contra essa espiritualidade. Nós somos programados para desprezar o caminho e supervalorizar o desfecho.


A Ditadura do Fim: A Regra do Pico-Fim

Kahneman demonstrou isso em um experimento clássico sobre a dor. Dois grupos de pacientes passaram por exames médicos desconfortáveis:

  • Paciente A: Passou por 10 minutos de dor intensa, e o exame acabou abruptamente no pior momento.
  • Paciente B: Passou pelos mesmos 10 minutos de dor intensa, mas o médico deixou o aparelho parado por mais 10 minutos, gerando uma dor leve/moderada antes de terminar.

Logicamente, o Paciente B sofreu por mais tempo (20 minutos no total). Porém, ao avaliar a experiência depois, o Paciente B lembrou do exame como algo muito menos doloroso que o Paciente A.

Por quê? Porque a nossa memória obedece à Regra do Pico-Fim: nós avaliamos uma experiência calculando a média entre o momento mais intenso (pico) e os momentos finais (fim). O que acontece no meio do caminho — a duração, a constância, o processo — é simplesmente deletado pela nossa mente.

O Conflito com a “Imagem e Semelhança” e o Caminhar

Essa nossa armadilha mental gera uma inversão de valores profunda entre o que a psicologia observa e o que a filosofia/espiritualidade prega como o “viver bem”:

  • O Destino vs. O Caminho: O “Eu que Recorda” é um tirano focado em metas. Ele quer a foto no topo da montanha, o diploma, o casamento perfeito, o saldo bancário no final do mês. Ele despreza as horas de caminhada, o suor, as aulas ou a rotina do relacionamento. Para a nossa mente narrativa, o processo é apenas um custo a ser pago para se chegar ao fim.
  • A Ilusão do Desfecho: Se uma viagem de duas semanas foi maravilhosa, mas no último dia o voo atrasa e a mala é extraviada, o “Eu que Recorda” arruína a memória da viagem inteira. Nós declaramos: “As férias foram horríveis”, desprezando 13 dias de pura alegria.

A Sabedoria do “A cada dia basta o seu cuidado”

Quando Jesus diz para não andarmos ansiosos pelo amanhã e que cada dia tem seu próprio cuidado, Ele está fazendo um apelo direto ao Eu que Experiencia. É um chamado para resgatar a dignidade do presente.

Se somos feitos à imagem e semelhança de algo divino, essa divindade não pode estar projetada apenas em um ponto futuro ou em um julgamento final estrito. Ela se manifesta na nossa consciência ativa enquanto caminhamos. Quem foca apenas no destino viaja anestesiado; torna-se um colecionador de metas cumpridas, mas um analfabeto na arte de viver o trajeto.

Como você bem sintetizou: a realidade da vida humana é o caminho que se faz ao andar e como ele é percorrido. O destino final é apenas o pretexto que usamos para começar a andar.

O |”pacote Jaguar” foi a graça que recebi para compreender tudo isto dentro dos padrões de pensamento com os quais eu nasci e me são inevitáveis e que me impedia de perceber tudo isto, pior, considerar idiotice, principalmente á luz da ciência, da lógica e da razão como eu a herdei dos que me proporcionaram existir, ou seja, a vida.

Examino em separado como esta descoberta de Daniel Kahneman nos permite entender o Cristianismo

Daniel Kahneman em uma perspectiva ampla e o cristianismo

Tratamento e efeitos colaterais da quimioterapia em Roque E. de Campos

Tive várias combinações de remédios na minha quimioterapia e, excetuando quando usei Vectibix, que vou analisar em separado quando eu fizer um inventário de como foi durante o ano de 2025, no início de 26, quando eu tive uma terceira opinião, o que sofri foi o seguinte, por ordem de importância para mim:

  • Perda do paladar, apetite, olfato e fome com gradual emagrecimento e sensação de que ia morrer por anorexia
  • Constipaçao intestinal que, antes de resolvida, me levou a uma hernia que encarcerou e foi operada na emergência
  • Perda da sensibilidade nas pontas dos dedos da mão
  • Amortecimento da sensibilidade dos pés e mãos
  • Alteração na voz, parece que estou com problema e perdi a voz
  • Os olhos vertem lágrimas como se estivesse chorando
  • Secura na boca e um pouco de feridas algumas vezes, dependendo da quimio, sem nada, na maioria das vezes
  • Alteração na velocidade do crescimento das unhas, cabelos, barba e na composiçãodeles
  • Rebaixamento de todos os sentidos, visão, audição,olfato, paladar e tato, sendo que o olfato e o paladar praticamente sumiram
  • Perda do equilibrio (como se tivesse labirintite)
  • Qualquer resfriado demora meses para ir embora
  • Profunda irritação com perda total da compostura
  • Fadiga: qualquer esforço fisico esgota minha energia rapidamente
  • Falta de concentração: não consigo ver filme na TV
  • Reduz muito a necessidade do sono e vou dormir tarde e acordo cedo
  • Não sei como frasear: Minha debilidade aparece, eu ando como meio bêbado, falo como um velhinho e aparece gente que me ataca, tentantdo me tirar algo, ou mesmo roubar, como notoriamente acontece para pessoas mais velhas, mesmo sem câncer

Em suma, perdi o que chamei de meu contrato com meu corpo e descrevo com detalhes como tudo issk e faz sentir na fase mais “down” do tratamento em:

Visão de mundo, percepção da realidade e quimioterapia com a ajuda do Chat GPT 5, Gemini e Claude

Como o método que a UNIMED usa trata destes problemas

Quero, antes de contar os problemas que tive e o que o projeto que vou apresentar pretende resolver, como poderia ser inserido e como muita coisa poderia ter sido evitada se tivessem sido colocados estes dispositivos que proponho para resolver o problema, declarar que estou extremamente satisfeito com o tratamento que recebi, levando em conta a realidade brasileira, os recursos disponíveis e disponibilizados. Se chamado a opinar, eu diria que, com todos os problemas que possam ter havido comigo e, com certeza, do mesmo tipo para outros, eu qualificaria como tratamento de primeiro mundo, inclusive, com toda certeza, melhor que o dos Estados Unidos, onde morei bastante tempo e onde meus filhos e netos moram, inclusive já como cidadãos e sei muito bem como funciona o sistema americano, ao qual estive sujeito, encondições excepcionais, pois era funcinario da IBM, onde “money was no objectin”.

Já vou indo, nesta data de setembro de 2026, para 20 meses de tratamento e, quando na ativa, profissionalmente, grande parte da minha vida foi dedicada a mexer com tempos e métodos, processos de fabricação, atendimento e manutenção de produtos complexos, como, por exemplo, mainframes da IBM.

Análise de Risco e Custo: Aluguel via Plataforma Tecnológica (QuintoAndar)

Para quem tem um imóvel financiado e precisa da renda do aluguel para pagar as parcelas, a escolha da administração envolve um equilíbrio entre velocidade de ocupação e segurança jurídica.

1. Como funciona a engenharia financeira da garantia

  • O modelo: A plataforma dispensa o fiador tradicional e o depósito caução. Ela oferece ao proprietário o “Pagamento Garantido”, prometendo depositar o aluguel todo dia 12, mesmo se o inquilino atrasar.
  • O lastro do risco: Diferente de uma imobiliária tradicional — que exige um fiador com um imóvel físico penhorável como garantia —, a garantia da plataforma é corporativa. O pagamento depende da saúde financeira da própria empresa e dos fundos de investimento a ela associados.
  • O limite da cobertura: A garantia de pagamento e a proteção contra danos ao imóvel possuem tetos financeiros e prazos máximos descritos nas letras miúdas do contrato. Se uma ação de despejo judicial demorar mais que o limite coberto pela empresa, se o prejuízo do período excedente for decidido deve no contrato estar previsto isto volta para o proprietário. Que duvido que esteja no contrato da Quinto andar.

2. Relação de Custos (O Preço da Comodidade)

Para sustentar o risco de inadimplência dos inquilinos, a plataforma cobra taxas mais altas que a média do mercado tradicional:

  • Taxa de Administração: Gira entre 8% e 10% sobre o valor do aluguel todos os meses.
  • Taxa de Intermediação: A plataforma costum reter 100% do valor do primeiro aluguel integral como taxa de corretagem pela locação do imóvel. O fato de ter baixado para 50% é mau sinal porque não vai indo bem na parte mais crucial do esquema dela: Volume de clientes.
  • Impacto no Financiamento: Para quem usa o aluguel para abater o financiamento bancário, esse custo inicial (ficar sem o primeiro aluguel) e a taxa mensal de até 10% devem ser calculados na planilha para garantir que a sobra financeira seja suficiente.

3. O Processo de Análise de Crédito

  • Aprovação Automatizada: A análise do inquilino é feita por algoritmos e inteligência artificial de forma muito rápida.
  • Outro mau sinal, pois a analise é feitda “nas coxas” e visa aprovar quem aparecer não quem tem efetivamente condições de honrar o contrato
  • O Trade-off (Compensação): O lado positivo é a velocidade para alugar o imóvel (geralmente mais rápida que o mercado tradicional). O lado negativo é que análises 100% automatizadas podem deixar passar perfis de risco que uma análise humana detalhada recusaria. A plataforma assume esse risco, diluindo-o nas taxas mais altas cobradas de todos os clientes.

Resumo para a Tomada de Decisão

  • Vantagem principal: Velocidade para colocar o inquilino para dentro e fluxo de caixa previsível (recebimento todo dia 12), o que ajuda a planejar o pagamento das parcelas do financiamento no curto prazo.
  • Risco principal: Dependência jurídica de um contrato corporativo com uma startup, em vez de garantias reais (bens penhoráveis) atreladas à Lei do Inquilinato. Se o inquilino trouxer problemas que estourem o teto do contrato da plataforma, o proprietário assume as custas e o tempo da justiça tradicional.

Podemos calcular exatamente quanto sobra para ele pagar o financiamento no primeiro ano (considerando a perda de 50% do 1º aluguel e as taxas mensais). Se quiser, basta me informar o valor aproximado do aluguel.

Financiamento / Prestação da Hipoteca: R$ 950 | valor do aluguel R$1650,00 Taxa de Administração do Imóvel (10%): R$ 165 pegam 50% do primeiro aluguel e dos 10% sai uma parte para um fundo que vai cobrir a inadimlencia por no máximo 3 meses.|

O problema deles é que a análise que eles fazem do possivel inguilino é por AI e nas coxas, porque o ganho deles provem de volume e no caso deles irem a falencia, este fundo é deles

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Com os números exatos em mãos, o cenário ficou perfeitamente claro: o aluguel é suficiente para cobrir o financiamento nos meses regulares, gerando uma folga financeira, mas o filho do seu amigo enfrentará um déficit logo no primeiro mês devido à taxa de corretagem da startup.

Aqui está o desenho exato do fluxo de caixa (Cash Flow) para ajudar o jovem a se planejar e equilibrar as contas com total segurança:


📊 O Fluxo de Caixa Real (Mês 1 vs. Próximos Meses)

Considerando que o inquilino arca diretamente com o Condomínio (R$ 320,00) e o IPTU (R$ 50,00), o dinheiro que transita pela conta do proprietário funciona assim:

Categoria de Fluxo🗓️ Mês 1 (Entrada do Inquilino)📅 Meses 2 a 12 (Fluxo Regular)
Aluguel Bruto+ R$ 1.600,00+ R$ 1.600,00
Taxa QuintoAndar– R$ 800,00 (50% de corretagem)– R$ 160,00 (10% de administração)
Líquido Recebido+ R$ 800,00+ R$ 1.440,00
Parcela do Financiamento– R$ 925,00– R$ 925,00
Resultado Final (Bolso)– R$ 125,00+ R$ 515,00

⚠️ Três pontos de atenção do “Startup Model” para ele monitorar:

  • O Fôlego Inicial: No primeiro mês, ele precisará desembolsar R$ 125,00 do próprio bolso para completar a parcela de R$ 925,00 do financiamento. É vital que ele tenha essa reserva antes de assinar o contrato.
  • A Ilusão da Folga: A partir do segundo mês, sobrará uma folga de R$ 515,00. Oriente o filho do seu amigo a não gastar esse dinheiro. Como o QuintoAndar retém os 10% para garantir a inadimplência, o fluxo de caixa mensal está seguro enquanto houver contrato, mas esses R$ 515,00 devem ir direto para uma poupança ou reserva de emergência do próprio imóvel.
  • O Perigo Oculto da Vacância: A proteção contra inadimplência da startup funciona muito bem se o inquilino parar de pagar, mas ela deixa de existir se o inquilino rescindir o contrato e sair. Se o apartamento ficar vazio por 2 meses entre uma locação e outra, o filho do seu amigo perderá a receita de R$ 1.600,00 e passará a dever, mensalmente: R$ 1.300,00 (Financiamento R$ 925 + Condomínio R$ 320 + IPTU R$ 50).

💡 Recomendação Estratégica:

Nos primeiros 6 meses de fluxo positivo (Meses 2 a 7), a folga de R$ 515,00 vai acumular um total de R$ 3.090,00. Esse valor cria uma “blindagem de segurança” equivalente a quase 2 meses e meio de custos totais do imóvel caso ele fique desocupado no futuro. Atingindo essa meta, as finanças dele estarão verdadeiramente equilibradas e protegidas.

Resumo

Três alertas cruciais para o financiamento dele:

  1. O Limbo do Primeiro Mês: Como o QuintoAndar retém o primeiro aluguel integral como taxa de corretagem, o filho do seu amigo terá que pagar a primeira parcela do financiamento totalmente do próprio bolso. Ele tem esse fôlego financeiro para o primeiro mês?
  2. O Risco da Vacância (Imóvel Vazio): A garantia de pagamento só vale enquanto o contrato de locação estiver ativo. Se o inquilino sair e o imóvel ficar 2 ou 3 meses vazio, o QuintoAndar não paga nada, e o condomínio, o IPTU e o financiamento acumulam nas costas do proprietário.
  3. Imposto de Renda (Carnê-Leão): O valor do aluguel recebido soma na renda dele e pode ser tributado em até 27,5%. Se ele usar o dinheiro bruto achando que vai sobrar para o financiamento, pode ter uma surpresa desagradável na malha fina
  4. Mesmo que a quinto andar não quebre, ela não vai se responsabilizar pelo despejo, que pode levar anos e o cara se for malandro pode fazer isto intencionalmente, e ele vai morar de graça até o processo terminar

Acho fria e deve levar suas especificações para a CMB que eu uso há quase 20 anos e com vários inquilinos que habitaram nosso apartamento

Como foi minha experiência no Mestrado em Qualidade na UNICAMP

Apresentação do projeto ao IMECC em 21 de Julho de 1989. 

O IMECC foi o primeiro Instituto que a Unicamp instalou e nasceu junto com a Computação, em 1968, da qual se separou em 1996.

Eles começaram com um IBM 1130 (1967/1968). Deram um salto gigantesco indo para o Digital DEC 10-60 em 1972, com o qual ficariam até o final da década de 80, quando adquiriram um IBM 3090, como parte do convênio que fizeram com a IBM para instalar o Mestrado de Qualidade com incentivos fiscais, que tambem foram usados para o aporte desta máquina, que fazia parte do pacote que viabilizou a criação do primeiro Mestrado Profissional da Unicamp, o Mestrado em Qualidade, que eu projetei e fui o principal interface para sua implantação do lado da IBM e o Prof Ademir Petenate do lado da Unicamp.

Com olhos de 2026, vejo que O SAS nasceu originalmente na Universidade da Carolina do Norte e teve sua empresa fundada em 1976. O foco inicial de desenvolvimento do SAS foi escrito quase que exclusivamente para a arquitetura de mainframes da IBM (rodando sistemas operacionais como MVS, OS/390 e VM). [1, 2]

Quando o DEC 10-60 foi instalado na Unicamp em 1972, o SAS ainda estava em suas versões embrionárias nos Estados Unidos (o “SAS 72”). Naquela década de 1970 e início de 1980, os estatísticos e pesquisadores do IMECC que utilizavam o DEC-10 rodavam rotinas estatísticas principalmente programando diretamente em Fortran ou utilizando pacotes que possuíam versões robustas adaptadas para o sistema TOPS-10 da Digital, como as primeiras versões do SPSS e do BMDP. [1]

  • A grande migração e a era de ouro do SAS na Unicamp aconteceram em 1989, quando a universidade adquiriu o supercomputador IBM 3090. Ele foi o primeiro dessa categoria instalado em uma universidade da América Latina. [1]
  • O impacto no IMECC: Registros históricos do Jornal da Unicamp da época destacam explicitamente que geólogos, sociólogos, economistas e, principalmente, os estatísticos do IMECC foram os maiores beneficiados pelo poder de processamento do IBM 3090 ao rodarem o aplicativo SAS. [1]

Nesse período (fim dos anos 80 e início dos anos 90), as fitas magnéticas de grandes bancos de dados públicos — como os dados brutos da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE — eram trazidas para a Unicamp e processadas em programas SAS dentro do IBM 3090 para gerar os cruzamentos estatísticos das teses e pesquisas do instituto.

Ora, o 3090 foi comprado com incentivo de renúncia fiscal que a IBM usava através da Lei 8248, editada pelo Presidente Collor, que acabou com a reserva de mercados e criou um conjunto de incentivos para Pesquisa e Desenvolvimento baseado em renuncia fiscal, considerando P&D o envolvimento com entidades educacionais, disponibilizando em torno de 10% da renda bruta das empresas filiadas ao programa.

Se não existisse o Mestrado em Qualidade, que entrou como P&D para justificar o uso do dinheiro detnro da Lei 8248, sem o que não seria possivel para a Unicamp ter um 3090, que simplesmente não tinha dinheiro para isto.

Acreditem se quiser, havia um movimento interno contra a instalação do Mestrado Profissional e o Prof. Ademir teve enorme dificuldade para formalizar o curso junto a CAPES!

Em termos práticos, o suporte computacional deles para estatística era o SAS rodando no DEC 10 de forma meio provisória em mainframe — o que, em si, não seria problema, pois eu conhecia o mainframe por dentro, tendo ajudado a desenvolver um. O problema era que, na prática, poucos realmente usavam o sistema com profundidade, e o que usavam exigia submeter o processamento através de JCL complicado, sem interatividade nenhuma — o tipo de burocracia que desanima qualquer pesquisador a encostar diretamente nos dados.

Eu não sabia nada disso e acabei rodando no 4341, programas que faziam DOE, Designs of Experiments, que é a cereja do bolo da estatística, para surpresa do Ademir, que ainda estava assistindo à entrada do 3090, que iria abrir as portas para realmente usar a estatística Full Blowm! Full-blown quer dizer em estágio avançado ou completo.

Hoje vejo que o que o Prof. Ademir sofreu foi um caso clássico de desacoplamento que George Orwell descreveu.

De todas as áreas de aplicação que eu sabia na época serem cobertas pela estatística — medicina, economia, engenharia, controle industrial — a única em que aquele grupo claramente dominava a aplicação prática era o teste de reações farmacológicas. Um nicho respeitável, mas estreito.

Eu estava propondo que a estatística saísse do mainframe e fosse para onde os problemas de qualidade existiam de verdade — que o conhecimento teórico encontrasse o mecanismo autocorretivo que a Unicamp, ainda jovem naquela área, não havia conquistado.

O que aconteceu depois não foi apenas consequência intelectual do projeto. Foi consequência política — no melhor sentido da palavra, o sentido de quem tem poder real e sabe reconhecer competência quando a vê. O IMECC não tinha um programa de pós-graduação no mesmo nível dos outros institutos da Unicamp. A IBM, por sua vez, tinha recursos que em parte seriam usados para instalar um supercomputador ali. Carlos Vogt, o pai da ideia, viu a chance de matar dois coelhos com uma cajadada só.

Quem salvou a Unicamp e indiretamente possibilitou o IMECC e a Unicamp realmente se tornaram a referência que se tornou, que seria impossivel sem um supoercomputador, foi o Prof. Ademir Petenate!

A Torre de Marfim e o Chão de Fábrica: quando a realidade bate à porta da academia

Quando entrei pela primeira vez na UNICAMP para apresentar um projeto de mestrado em qualidade, entendi visceralmente o que isso significa.

Eu vinha da IBM. Mais especificamente, da fábrica de Sumaré, onde era responsável por todos os sistemas de qualidade dos produtos que saíam daquela linha — e tendo participado do desenvolvimento do 4341, o que me dava uma visão bastante precisa onde as coisas pegavam. Não era teoria. Era o tipo de conhecimento que só se adquire quando se tem responsabilidade real sobre algo que tem que funcionar — porque quando não funciona, todo mundo sabe, e sabe rápido.

Porém, tinha um PhD, na plateia, o Prof. Ademir Petenate que, se nos orientássemos pela formação dele e pelo que ele fez, toda esta crítica do Orwell cairia por terra, e explico por que. Percebi isto recentemente, (2026) quando estava atrás de informações sobre a introdução do Mestrado em Qualidade na Unicamp, o Ademir me disse que, naquela época, estava indeciso sobre a que tema iria se dedicar, uma vez que estava praticamente começando sua carreira e, quando viu meu projeto, pensou: É isto que eu quero!

Prof. Ademir foi orientado pelo Professor Oscar Kempthorne, e fez seu doutorado Iowa State University (1983).

A relação entre Oscar Kempthorne e George Box é de profunda sintonia geracional, rivalidade intelectual e cooperação acadêmica. Eles foram dois gigantes contemporâneos (ambos nascidos em 1919 na Inglaterra) que moldaram os rumos da estatística e do Planejamento de Experimentos (DoE) no século XX.

Vou privilegiar o Box aqui, porque fomos visitá-lo na primeira viagem que fizemos aos EUA para sentir debaixo da pele como a coisa era feita lá, mas como vou pautar a formação do Prof. Ademir, por favor dar uma olhada em George Box & Oscar Kempthorne & Quality Control

Eu pautei a formação do Prof. Ademir no post acima, por favor ir diretamente onde faço isto:

Onde Box & Kempthorne mscla com Demings e o quadro é basicamente o raciocinio do Prof Ademir Petenate que ele trouxe para sua cátedra e seus cursos

Box nasceu em Gravesend, Kent, em 1919. Durante a Segunda Guerra foi convocado e fez experimentos expondo animais a gás venenoso pro Exército britânico — e aprendeu estatística sozinho pra conseguir analisar os próprios resultados. Depois da guerra, graduou-se em matemática e estatística no University College London e fez doutorado sob Egon Pearson (filho do Karl Pearson). De 1948 a 1956 trabalhou como estatístico na ICI — Imperial Chemical Industries —, onde desenvolveu o trabalho fundacional em delineamento de experimentos (DOE) e metodologia de superfície de resposta. Ou seja: a Inglaterra é onde ele forjou o método rigoroso, testado contra processo industrial real, com consequência física concreta — exatamente o tipo de “mecanismo de autocorreção” que a gente discutiu a propósito do Orwell: erro em DOE aplicado a planta química aparece na hora, não é validado só por consenso de pares.

Em 1960 ele foi pra Universidade de Wisconsin-Madison fundar o departamento de estatística, e só em 1985 — já nos EUA, contemporâneo do auge da fama americana do Deming — fundou o Center for Quality and Productivity Improvement, junto com Bill Hunter. É exatamente aí, em Wisconsin, na década de 80, que as duas tradições se encontram fisicamente: a filosofia de gestão do Deming (PDCA, os 14 pontos, robustecida pelo sucesso no Japão nos anos 50 e pela fama americana a partir de 1980) e o rigor experimental do Box (DOE, response surface). Um professor formado nesse ambiente — como foi o caso do Ademir — sairia de lá com as duas coisas fundidas: não só a filosofia de melhoria contínua do Deming, mas o instrumental estatístico rigoroso do Box pra testar se a melhoria é real ou impressão. Isso explicaria por que o Ademir abraçou um mestrado que juntava rigor metodológico com filosofia de qualidade aplicada — e por que, mais tarde, isso migrou naturalmente pra saúde via IHI, que é IHI que também bebe direto da fonte Deming.

A relação do Prof. Ademir com a qualidade foi totalmente especial e oportuna, uma sorte, pois, sem ele ter este genuíno apreço pelo que fazia e essa competência, não sei se este projeto teria vingado como vingou.

Como o Mestrado em Qualidade ajudou a Inserir o Brasil na Globalização através do PBQP

Numa das reuniões em que detalhávamos como faríamos uma primeira viagem de reconhecimento dos programas internacionais — inclusive o de George Box, que era uma das referências que eu havia identificado — havia um homem que chegou e ninguem viu e que ninguem conhecia. Ficou em silêncio durante toda a reunião, observando. Enquanto eu liderava a discussão e assumia que iria providenciar o que precisava ser providenciado — coisa normal na IBM, onde money was no objection — ele ficou quieto, vendo como as coisas se organizavam.

No fim da reunião, sem preâmbulo, ele me convidou para representar o Brasil numa reunião do CASCO e do TC 176 em Genebra e interfacear com o MERCOSUL.

Eu recusei. Não por descaso — havia uma razão concreta. Havia tomado a decisão de me estabelecer definitivamente no Brasil, viajar menos, a pedido de Cristina, e de olhar para aquele convite era óbvio que implicava exatamente o que eu havia prometido evitar: muitas viagens, ausências, a vida que eu havia concordado em deixar para trás.

Só depois fui saber quem era aquele homem. Paulo Silveira havia sido Secretário de Ciência e Tecnologia — uma secretaria que já havia sido ministério. Era egresso da Petrobras, onde havia feito coisas que ninguém havia feito antes no mundo: desenvolveu a extração de petróleo em águas profundas, tecnologia que a Petrobras ainda hoje explora como vantagem estratégica. Estava emprestado ao governo e havia concebido o PBQP — o Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade — com uma série de metas ambiciosas que ele ainda não sabia exatamente como executar, e que acabariam caindo nas minhas mãos.

Quando cheguei em casa e contei a Cristina o que havia acontecido e por que havia recusado, ela viu imediatamente o que eu não havia visto. Inteligente como é, percebeu que aquilo não era um problema — era uma oportunidade. Boa para minha carreira, boa para o sustento da família, e boa para mim, que andava meio perdido sem fazer as coisas que sei fazer bem e que até então só havia conseguido fazer nos Estados Unidos ou em contexto internacional. Aquele convite seria uma forma de agitar de dentro do Brasil um conjunto de competências que estavam, na prática, paradas ou não existiam e tinham que ser criadas.

Voltei. Aceitei.

E foi o que foi — Genebra, o CASCO, o TC 176, MERCOSUL, o documento de 320 páginas que se tornou norma oficial do INMETRO e base de trabalho da ABNT, ISO 9000 certificada no Brasil por brasileiros, acesso ao Mercado Comum Europeu, etc.

Eu explico em detalhes num post separado onde eu descrevo Projetos de Paulo Sislveira em que me envolvi

Peterson tem razão sobre a torre de marfim. Mas a história que acabo de contar tem uma nuance que ele não menciona: às vezes o mecanismo autocorretivo da realidade não aparece sob a forma de uma ponte que cai ou de um experimento que falha. Aparece sob a forma de um homem silencioso numa sala que sabe observar quem realmente sabe o que está fazendo — e que faz o convite certo, na hora certa, para a pessoa certa.

O resto é questão de ter a sabedoria de aceitar quando a oportunidade chega. E, se necessário, de ter uma esposa que te ajude a enxergar isso.

Como era “trabalhar” no mestrado da Unicamp

Minha intenção neste post é tentar transmitir uma ideia de como era trabalhar no mestrado da Unicamp que ajudei a criar. Mas a primeira dificuldade é justamente a palavra trabalhar.

Numa universidade, especialmente quando se está tentando criar alguma coisa nova, você não vai simplesmente executar um trabalho previamente definido. Você vai procurar ideias, conhecimentos e pessoas que possam ajudá-lo a resolver um problema.

Passei a imaginar a universidade como uma espécie de fábrica de tijolos.

Com tijolos podemos construir uma casa, uma igreja, uma escola ou uma fábrica. Mas não existe um tijolo universal que resolva qualquer construção. Dependendo do edifício que se pretende erguer, serão necessários determinados materiais, dimensões, propriedades e técnicas — todos, naturalmente, obedecendo às regras que permitem que aquilo continue sendo um edifício.

Com o conhecimento ocorre algo parecido.

Uma Escola de Engenharia possui disciplinas, professores, laboratórios, pesquisa, métodos, regras acadêmicas e critérios para conferir um título. Esses são os “tijolos”. Mas o edifício que eu precisava construir não havia sido desenhado pela universidade.

Eu sabia razoavelmente bem qual era o edifício. Sabia também de vários tijolos de que precisaria. O que eu não sabia era como produzi-los dentro de uma universidade, respeitando ao mesmo tempo sua lógica acadêmica.

E havia uma razão para isso.

O problema que tínhamos pela frente não havia nascido na universidade. Havia nascido de um projeto industrial: nacionalizar 50% dos mainframes para que pudessem ser fabricados no Brasil.

Mesmo contratando engenheiros oriundos das melhores escolas do país, descobrimos uma coisa inevitável: parte do conhecimento de que precisávamos simplesmente não havia sido ensinada a eles. Não por deficiência das universidades. Seria praticamente impossível. A tecnologia dos computadores estava explodindo e a fronteira industrial avançava mais depressa do que qualquer currículo universitário conseguiria acompanhar.

Portanto, não podíamos simplesmente perguntar à universidade:

“Que cursos vocês têm?”

A pergunta tinha de ser invertida:

“Este é o problema que precisamos resolver. Que conhecimentos e competências precisamos reunir para resolvê-lo — e como transformá-los num programa acadêmico legítimo?”


Eu sabia qual era o edifício que queria construir. Sabia aproximadamente de que tijolos precisaria. O que não sabia era como produzi-los — e, antes disso, precisava descobrir quem, no mundo, estava produzindo os melhores.

Era óbvio que todo o conhecimento necessário não existia na Unicamp. Nem seria razoável esperar que existisse. Estávamos lidando com problemas decorrentes de uma tecnologia em transformação extremamente rápida e de uma maneira de pensar sobre Qualidade que também estava mudando.

A primeira providência, portanto, foi identificar centros de reconhecida competência e ir ver o que eles estavam fazendo.

Como Paulo Silveira já havia entrado na história, como contei anteriormente, ampliamos o grupo para incluir também pessoas da UFRJ e da Universidade Federal de Santa Catarina. No começo apareceram naturalmente nomes como MIT e Harvard — afinal, quando se pensa nas melhores universidades americanas, são nomes que vêm imediatamente à cabeça. Mas logo percebemos que precisávamos procurar menos pelo prestígio da universidade e mais por onde estava efetivamente o conhecimento de que precisávamos.

E fomos procurar.

No MIT participamos de um simpósio que tratava justamente do problema que nos interessava, inclusive examinando o que o Japão estava fazendo. Em Detroit fizemos o curso de Taguchi Methods, do American Supplier Institute. Fomos ao centro de excelência de Marquette, à ASQC, a Rutgers e ao Center for Quality and Productivity Improvement da University of Wisconsin–Madison, onde tivemos contato com o ambiente intelectual de George Box. Passamos também pelo IBM Education Center, em Thornwood.

Isso teve um efeito que nenhum relatório teria produzido: o pessoal sentiu na pele do que se tratava.

Deixamos de discutir abstratamente como deveria ser um programa de pós-graduação em Qualidade. Passamos a conhecer diretamente quem estava trabalhando na fronteira, o que estava ensinando, que métodos utilizava e, principalmente, o que daquilo servia para o problema que nós tínhamos no Brasil.

Um dos participantes acabou efetivamente fazendo seu pós-doutorado em Harvard; outro, algum tempo depois, seguiu caminho semelhante em outro centro.

Mas a ideia de Paulo Silveira ia além. O objetivo era que aquilo que estávamos fazendo na Unicamp pudesse gerar experiências semelhantes em outros lugares do país. E foi, em boa medida, o que aconteceu.

O programa da Unicamp acabaria gerando centenas de dissertações de mestrado. UFRJ e UFSC desenvolveriam iniciativas na mesma direção, ainda que em escalas diferentes. CNPq, FAPESP e outras instituições tradicionais de fomento começaram também a incorporar uma lógica que permitia justificar bolsas para esse tipo de formação. Foram tantas que perdi a conta.

Mais tarde, fui chamado diversas vezes para avaliar e validar programas semelhantes em diferentes partes do Brasil.

Ou seja, aquilo que havia começado como a necessidade muito concreta de encontrar alguns “tijolos” para resolver nossos próprios problemas começou a produzir outras fábricas de tijolos.

Mas nada disso teria acontecido apenas porque tínhamos uma boa ideia.

Dentro da Unicamp houve uma pessoa absolutamente fundamental: o professor Ademir Petenate.

Era preciso transformar aquilo que imaginávamos em algo que pudesse existir dentro de uma universidade: disciplinas, créditos, professores, dissertações, critérios acadêmicos — e, além disso, fazê-lo passar pelas regras e procedimentos da própria Unicamp e da CAPES.

Ai surgiu a figura do Prof Ademir Petenate, que foi a pessoa que tornou isso possível.

Foi ele quem ajudou a tornar aquilo academicamente possível dentro da Unicamp e compatível com as exigências e procedimentos da CAPES. Em outras palavras, ajudou a transformar uma necessidade que vinha da indústria numa estrutura que continuasse sendo autenticamente universitária.

Ele conseguiu compatibilizar aquilo que precisávamos construir com aquilo que uma universidade e um programa de pós-graduação precisavam ser juntando a teoria com a prática.

Acabou se tornando um grande amigo, e desfrutamos muitos bons momentos fazendo tudo isso.


O que eu só fui entender melhor depois

Naquela época eu estava fazendo. Só mais tarde fui estudar teoricamente o que havia por trás daquilo que eu fazia.

Depois dessa experiência, e já envolvido com outros problemas do ensino superior, comecei como aluno especial um doutorado na Faculdade de Educação da própria Unicamp e escolhi justamente disciplinas relacionadas com currículo e com as diferentes concepções de universidade.

Descobri que aquilo que eu havia vivido na prática fazia parte de uma discussão muito mais antiga.

Não existe propriamente um modelo de universidade.

Havia a tradição inglesa, associada à formação intelectual e liberal; a tradição francesa, que teve enorme influência na formação das antigas escolas profissionais brasileiras; a tradição alemã de Humboldt e Jaspers, baseada na pesquisa e na união entre pesquisa e ensino; e a concepção americana, que encontrei particularmente bem expressa por Whitehead, aproximando ensino, pesquisa, criatividade, aplicação e progresso da sociedade.

Whitehead dizia, em essência, uma coisa que eu havia aprendido de outra maneira na IBM: conhecimento que não é posto em movimento corre o risco de virar conhecimento inerte. No trabalho que fiz na época, encontrei justamente a ideia de que uma descoberta de laboratório pode transformar-se em invenção técnica e esta, por sua vez, em inovação industrial; para isso precisam existir contatos e canais entre todos os que participam da execução.

E a educação universitária deveria ensinar não apenas princípios gerais, mas a capacidade de aplicá-los a diferentes situações concretas.

Comecei então a distinguir três coisas que muitas vezes misturamos:

Education, Skill e Know-how.

Educação forma a capacidade intelectual. Skill é a capacidade individual de fazer alguma coisa. Know-how é algo maior: uma capacidade organizada e coletiva de realizar.

Uma pessoa sabe determinadas coisas. Mas dizemos que a IBM sabe fazer computadores, ou que uma empresa aeronáutica sabe fazer aviões. Esse “saber fazer” não está inteiro na cabeça de ninguém. Está distribuído entre pessoas, métodos, laboratórios, equipamentos, experiência e organização.

Talvez seja exatamente isso que uma boa Escola de Engenharia deva ajudar uma sociedade a construir.

Da IBM ao aluno que não havia jantado

Tive a sorte de enxergar esse problema de posições quase opostas.

Em Endicott, trabalhando no desenvolvimento dos diagnósticos do IBM 4341, encontrei talvez um dos ambientes mais sofisticados que seria possível imaginar. A IBM podia selecionar gente excepcional, reunir conhecimento de altíssimo nível e colocar à disposição os recursos necessários para resolver problemas extremamente difíceis. Como costumávamos dizer: money is no objection.

Depois conheci por dentro a pós-graduação da Unicamp.

Mais tarde, na EESC-USP em São Carlos, dei aula fechando um curso de Engenharia de Produção para alunos altamente selecionados e procurei utilizar a pedagogia mais avançada que conhecia para fazê-los usar, em problemas reais, aquilo que haviam aprendido durante o curso.

E depois fui trabalhar como assessor numa grande rede privada de ensino superior.

A realidade era outra.

Havia alunos que trabalhavam o dia inteiro e iam estudar à noite. Lembro-me de algumas vezes comprar um sanduíche para um aluno que claramente havia vindo direto do trabalho e não tivera sequer tempo ou dinheiro para jantar.

Como ensinar esse aluno?

Certamente não fingindo que ele era o mesmo jovem que eu havia encontrado nos ambientes privilegiados das melhores universidades ou dos laboratórios da IBM.

Foi então que comecei a perceber um paradoxo.

Talvez estivéssemos fazendo a pergunta errada

É natural que uma universidade brasileira queira ser comparada ao MIT, Harvard ou às melhores universidades europeias. O problema começa quando concluímos que todas as instituições de ensino superior devem procurar se transformar numa versão delas.

Curiosamente, nem os próprios Estados Unidos fizeram isso.

Quando estudei o sistema americano, encontrei uma enorme diversidade: Research Universities, Doctoral Universities, Masters Colleges, universidades estaduais, instituições profissionais, colleges residenciais, universidades urbanas e muitas outras.

Cada uma procura fazer alguma coisa.

Isso me levou a uma conclusão que, se eu tivesse terminado aquele doutorado, provavelmente teria sido minha tese:

Não existe um modelo ideal único de universidade. Uma instituição de ensino superior deve ser julgada pela coerência entre aquilo que pretende fazer, os alunos que efetivamente recebe, as necessidades da sociedade em que está inserida e aquilo que consegue acrescentar a ambos.

Isso não significa aceitar mediocridade. Muito pelo contrário.

Significa que a excelência não deveria ser medida apenas pela fotografia da saída, mas também pela transformação produzida entre a entrada e a saída.

Uma universidade que recebe alunos excepcionalmente preparados e entrega profissionais excepcionalmente preparados pode ser uma excelente universidade.

Mas uma faculdade que recebe um rapaz que estudou numa escola deficiente, trabalha oito horas por dia, chega à aula à noite sem jantar e, quatro ou cinco anos depois, o transforma num profissional competente também pode ter realizado um trabalho educacional extraordinário.

São missões diferentes.

O Brasil precisa de instituições capazes de produzir ciência na fronteira mundial. Precisa de lugares nos quais seja possível concentrar os melhores cérebros e equipamentos para resolver problemas extremamente difíceis. Precisa de Escolas de Engenharia capazes de levar uma ideia científica até uma coisa que efetivamente funcione.

Mas precisa também educar milhões de brasileiros que não tiveram o ponto de partida de um aluno do MIT.

Adequar-se ao Brasil não significa conformar-se com o Brasil que existe. Significa começar nele para chegar ao Brasil que queremos construir.

Afinal, o que significava “trabalhar” naquele mestrado?

Agora posso finalmente responder à pergunta com que comecei este post.

Não era simplesmente dar aulas.

Não era administrar um curso.

Não era fazer pesquisa no sentido convencional.

Era começar com um problema que existia fora dos muros da universidade, descobrir quais conhecimentos seriam necessários para enfrentá-lo, procurar onde esses conhecimentos estavam, trazer pessoas, ideias e métodos, submetê-los à disciplina acadêmica e finalmente devolvê-los ao mundo na forma de pessoas capazes de fazer alguma coisa que antes não sabíamos fazer.

Talvez por isso eu tenha chegado à imagem da fábrica de tijolos.

A universidade pode produzir tijolos extraordinários: ciência, teorias, professores, pesquisadores, artigos, teses, laboratórios e patentes.

Tudo isso é indispensável.

Mas o tijolo não é o edifício.

E talvez a pergunta mais importante para uma universidade — e particularmente para uma Escola de Engenharia — continue sendo aquela que, sem saber formular dessa maneira, nós fizemos quando começamos aquele mestrado:

Que edifício precisamos construir?

Somente depois disso faz sentido perguntar:

De que tijolos precisamos?

E, se eles ainda não existirem no Brasil, talvez seja exatamente aí que comece o verdadeiro trabalho de uma universidade.

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Muitos anos depois, fui visitar em Troy, no estado de Nova York, a escola de Engenharia onde meu neto Tiago se formou, o Rensselaer Polytechnic Institute. E lá encontrei uma história do século XIX que me fez lembrar de tudo isso…

Na segunda metade do século XIX, o Japão recém-aberto ao Ocidente enviou jovens a Troy, no estado de Nova York, para estudar Engenharia no Rensselaer. Alguns daqueles engenheiros voltaram ao Japão e participaram diretamente da construção e organização de seu nascente sistema ferroviário; dois deles, Souichiro Matsumoto e Seijiro Hirai, chegariam à direção das ferrovias imperiais japonesas.

Mas, nem sempre os tijolos viram edifícios…

A história das ferrovias brasileiras é um bom contraponto à ideia dos “tijolos” que usei para descrever a criação do nosso mestrado.
Um país pode ter conhecimento, engenheiros, universidades e até projetos. Pode, portanto, possuir muitos dos tijolos. Mas isso não significa que o edifício será construído.
No começo do século XX, o Brasil possuía uma rede ferroviária bastante significativa para o estágio de desenvolvimento do país. No início dos anos 1950, as 18 ferrovias que mais tarde seriam reunidas na RFFSA somavam cerca de 37 mil quilômetros de linhas.
Não era, porém, uma verdadeira malha nacional integrada. Grande parte das ferrovias havia sido construída no século XIX obedecendo essencialmente a uma lógica:

Fazenda ou mina → porto e não: cidade → cidade → região → país.

Eram companhias diferentes, com bitolas distintas e sistemas pouco integrados, construídos principalmente para transportar café, minério e outros produtos de exportação.
Depois da Segunda Guerra Mundial, o Brasil tomou uma decisão que mudaria definitivamente essa história.
Em vez de desenvolver rodovias e ferrovias como sistemas complementares, passou a fazê-las competir entre si. A partir da segunda metade dos anos 1940, chegaram a ser construídas estradas paralelas às ferrovias já existentes.

Com Juscelino Kubitschek, essa opção ganhou enorme velocidade.
É simplista dizer que “JK acabou com as ferrovias porque preferia automóveis”. O automóvel era muito mais do que um meio de transporte. Fazia parte de um projeto de industrialização.
A implantação no Brasil de empresas como Volkswagen, Mercedes-Benz, Ford, GM e Willys impulsionava a siderurgia, a borracha, o vidro, o petróleo, as autopeças, as oficinas, a construção pesada e a criação de milhares de empregos. O Plano de Metas, a construção de Brasília e a indústria automobilística faziam parte de uma mesma visão de desenvolvimento.
Além disso, a estrada tinha uma vantagem extraordinária para um país continental que precisava crescer depressa.
Uma estrada pode começar a ser utilizada à medida que avança. Uma ferrovia exige trilhos, material rodante, sinalização, terminais e uma operação coordenada para funcionar como um sistema.
Naquele momento, portanto, a escolha pela rodovia fazia sentido.

O problema veio depois.

Quanto mais estradas eram construídas, mais atraente se tornava o transporte por caminhão. Quanto mais carga migrava para as estradas, menos receita sobrava para as ferrovias. Com menos receita, diminuíram os investimentos e a manutenção. A ferrovia piorava e, justamente por piorar, perdia ainda mais carga para o caminhão.

Criou-se aquilo que hoje chamamos de um loop de feedback positivo.

O Brasil ainda tentou reagir. Em 1957, no próprio governo JK, criou a RFFSA, reunindo 18 ferrovias federais para tentar administrá-las, reequipá-las e modernizá-las.
Mas a direção fundamental já estava estabelecida: a rodovia havia se tornado o eixo do sistema de transportes brasileiro.
Nas décadas seguintes, o investimento ferroviário continuou insuficiente. A deterioração tornou-se particularmente grave nos anos 1980. Em 1989, segundo o DNIT, os investimentos da RFFSA haviam caído para apenas 19% do que eram no início da década.
Nos anos 1990 veio outra tentativa de solução: as concessões à iniciativa privada.
Elas recuperaram partes importantes e economicamente viáveis do sistema, mas consolidaram uma ferrovia especialmente eficiente naquilo em que ela é mais rentável: transportar enormes quantidades de minério e produtos agrícolas por determinados corredores até os portos.

O que não fizemos foi transformar as ferrovias numa verdadeira malha nacional. E aí aparece o paradoxo.
Poucos países têm características tão favoráveis ao transporte ferroviário de cargas quanto o Brasil. Temos dimensões continentais, enormes volumes de minério e grãos e distâncias de centenas ou milhares de quilômetros entre as regiões produtoras e seus destinos.

O caminhão é uma invenção extraordinária. Sua grande vantagem é justamente chegar a qualquer lugar, sendo facil de carregar e descarregar e ja indo direto ao destino com a carga.
Mas não é necessário que aquilo que chega a qualquer lugar faça também sozinho todo o percurso.
A lógica poderia ser:

fazenda → caminhão → ferrovia → caminhão → destino ou: fazenda → caminhão → ferrovia → porto → navio.

O caminhão seria o sistema capilar. A ferrovia, as grandes artérias.
O mais interessante, entretanto, não é concluir retrospectivamente que aqueles que escolheram as rodovias estavam simplesmente errados.
Provavelmente não estavam.
Para o Brasil dos anos 1950 — industrialização urgente, construção de Brasília, necessidade de ocupar o interior e recursos limitados — a opção rodoviária tinha argumentos poderosos a seu favor.

O erro foi outro.

Transformamos uma solução adequada a determinado momento histórico numa solução permanente.
Construímos indústrias, cidades, cadeias logísticas, profissões e interesses econômicos em torno da estrada. Cada nova decisão reforçou a anterior, até que aquilo que havia sido uma escolha passou a parecer uma inevitabilidade.

E é aí que volto aos meus tijolos.

Um país não se desenvolve simplesmente porque possui boas Escolas de Engenharia ou porque forma bons engenheiros. É preciso haver um edifício que se decidiu construir.
O Japão do século XIX decidiu que precisava de ferrovias e decidiu mandar jovens ao exterior para aprender a construí-las.

Anos depois, em 1995, quando fui à Escola de Engenharia de São Carlos para assumir minha bolsa de pesquisador em Melhoria da Qualidade de Ensino na Engenharia e me  encontrei  com seu diretor, o professor Rosalvo Tiago Ruffino, que se transformou num dos melhores amigos que já tive, uma das primeiras coisas que ele quis saber foi:

“O Dino Ferraresi ainda está lá? O que aconteceu com as ideias dele?”

No Brasil também tivemos engenheiros que perceberam a importância de desenvolver competências. Dino Ferraresi, na época da implantação da Engenharia Mecânica da Unicamp, chegou a imaginar uma capacidade específica de pesquisa e desenvolvimento em Engenharia Ferroviária.
O laboratório que imaginava não chegou a se materializar daquela forma.

A competência ferroviária, porém, não desapareceu. Ela continuou sendo desenvolvida na Unicamp e veio a se institucionalizar no Laboratório Ferroviário — LaFer — que até hoje forma mestres e doutores e desenvolve pesquisas diretamente ligadas aos problemas reais do transporte ferroviário brasileiro.

Nunca esqueci a pergunta.

Talvez porque ela resume muito mais do que a história de um laboratório que não foi construído.

Toda a estratégia por trás do desenvolvimento do Brasil seguia a mesma lógica quando se tratava de adquirir o know-how para fazer algo que se privilegiasse, por qualquer razão que fosse.

O logo da Unicamp, se analisado, depende exatamte disto:

A figura do logotipo da Unicamp é um desenho esquemático do plano diretor urbanístico do próprio campus de Barão Geraldo, em Campinas. Idealizado pelo reitor Zeferino Vaz e criado na década de 1970 pelo artista plástico Max Schiefer e pelo arquiteto João Carlos Bross, o símbolo representa a irradiação do conhecimento de forma abstrata e sem contornos definidos. [1, 2, 3, 4]

Cada elemento geométrico possui um significado específico detalhado no Portal da Unicamp: [1]

  • Círculo central branco: Representa o Ciclo Básico do campus, projetado como a grande praça central de integração e o ponto de encontro de pessoas. [, 2]
  • Três círculos vermelhos: Simbolizam as três grandes áreas do conhecimento humano que se conectam no campus:
    • Superior: Ciências Biológicas.
    • Inferior: Ciências Exatas.
    • Médio à direita: Humanidades. [1, 2]
  • Linhas radiais: Mostram o conhecimento se espalhando e sendo irradiado para a sociedade. [1, 2]
  • 13 polígonos pretos: Formam o contorno do desenho e fazem alusão direta às 13 listras da bandeira do Estado de São Paulo, destacando o caráter público e estadual da instituição

Ora, dentro dos circulos vermelhos podem ser criadas fábricas de tijolos dentro do conceito que descrevi, do que você quiser!

Claro que Zeferino Vaz não devia imaginar isto como “fábrica de tijolos”, mas com certeza sua idéia seguia estas lógica e eu soube, depois de ter vivido lá, que ele não apenas pensasva na teoria, mas tambem na prática, projetando um laboratório para cada uma destas “fábricas de tijolos”, como eu chamo, que na prática são os Institutos, com seus laboratórios para juntar a teoria com a prática.

No caso do Dino Ferraresi, que o Rosalvo me pergundou, o Centro de Tecnologia que ele ajudou a criar desenvolveu posteriormente um Programa de Engenharia Ferroviária em cooperação com a Alemanha, além de testes ferroviários ligados ao projeto Carajás.

E isso acabou deixando descendência institucional: a Unicamp mantém hoje o LAFER — Laboratório Ferroviário, trabalhando com dinâmica de composições, frenagem, interação veículo-via etc

Creio que este exemplo sumariza o que aconteceu com a Unicamp

Como sempre conto alguma história dos lugares que trabalhei, tenho uma logo que comecei a interagir com o pessoal do IMECC:

Teoria e prática

Como eu explico a formação de minha persona profissional, pertenço a um grupo que substituiu a falta de profissionais devidamente formados nas escolas e fomos treinados pelas empresas que se instalaram no Brasil naquele período de intensíssimo progresso.

Os poucos engenheiros que estavam disponíveis automaticamente entravam em posição de gerência ou chefia por razões óbvias, mas a formação deles refletia um tempo em que o Brasil como produtor de bens modernos como automóveis, eletrodomésticos, máquinas operatrizes, etc., incluindo bens de consumo como detergente, shampoos, sabonetes, etc. simplesmente engatinhava. Pela população que tinha na época, era claramente um mercado de consumo pronto para explodir e isto que atraia os investimentos das multinacionais. Nós, que fizemos esta revolução, não percebíamoss que na prática, estavamos desempenhando o papel de engenheiros e profissionais equivalentes na parte prática, orientados pelos verdadeiros engenheiros treinados e capacitados que nos ensinavam como fazer e não a parafernália teórica que lá na terra deles havia gerado o perfil profissional deles.

Na prática, isto gerava uma porção de problemas, pois os chefes/gerentes não entendiam o que fazíamos e normalmente supervisionavam sem se meter, salvando a cara da melhor forma possível. Quando os temperamentos e idiosincrasias combinavam, não dava problema, a coisa rodava, mas se houvesse alguma antipatia, ou o cara fosse excessivamente incompetente e dai ele sentisse medo de que a alta chefia percebesse e pegasse algum de nos sem diploma e o substituisse, acontecia o que a gente chamava de estrategia de Herodes, que ficou famoso como personagem da Biblia que mandou matar todos os bebes na esperança de matar Jesus, que iria nascer e ser o rei dos reis.

Passei por uma destas na Clark. Eu tinha um desempenho excelente. Montei a linha das empilhadeiras Michigan e detectei que as máquinas que vinham dos Estados Unidos como “investimento” não tinham capacidade de usinar as engrenagens e outras peças dos câmbios que fabricávamos, pois, na verdade, eram scraps do tempo da guerra, quando os fabricantes tinham que produzir quantidade e qualidade, para algo que vai ser destruído em alguma batalha; qualquer coisa servia. As máquinas vinham com uma placa que explicava, em inglês, claramente : “esta máquina não representa os padrões de qualidade de nossa empresa pela instrução XYZ do board de guerra”. Como isto implicava que não conseguíamos atingir os padrões dos câmbios atuais, eu cometi a besteira de levar o problema ao gerente-geral da engenharia, um japonês que ficou totalmente constrangido e não teve explicação para isso. Eles já sabiam disto, e eu ainda vi a chegada de algumas máquinas modernas suíças, que eram impressionantes. Um dos problemas que dava na linha das Michigans era que, quando prontas, eram supostas a levantar do chão — não me lembro de quantos quilos — até a posição vertical e não conseguiam, pois a usinagem dos êmbolos dos cilindros dos braços que levantavam o peso não atingia a especificação do projeto e parava no meio do caminho, ou melhor, a 3/4 da altura suposta.

Fui despedido sem explicação, o que foi ótimo, pois entrei na Bosch e lá o “approach” era oposto e me dei muito bem, como conto em Swift, Gessy Lever, Bosch

Apesar de todas estas experiências, eu achava natural que as pessos com diploma, mesmo incompetentes, ocupassem posições de mando, desde que não enchessem o saco, pois eu não tinha atração alguma por mandar, eu gostava de fazer.

Com esta mentalidade eu fui apresentar o projeto de mestrado em qualidade para uma plateia de PhD’s na Unicamp, morto de medo, mão não inseguro, coisa que nunca fui, mas com a impressão que eu estava diante do suprasumo da sabedoria e competência, que deveria ser respeitada e reverenciada.

Minha sorte foi o Ademir estar na plateia.

Levei um problem para eles que tinha chegado ao meu departamento, não sei exatamene porque, mas era o seguinte:

A IBM, fábrica Sumaré, tinha uma população trabalhando lá e morando em Campinas, de aproximadamente 1000 pessoas.

Nosso horário de entrada, para bater o ponto, era chegar no estacionamento em torno de 7:45 para andar até nosso lugar de trabalho.

A viagem, a partir de um ponto central de Campinas, naquele tempo de estrada pista unica, demorava 40 minutos.

Foram estabelecidos um certo numero de pontos de embarque, não me lembro quantos, em que quem quizesse vir de ônibus deveria estar e o ônibus deveria passar pelo último ponto em torno de 7:00 para chegar na IBM até 7:45

Como cada ônibus carregava 40 passageiros, teóricamente, se todos viajassem cheios, bastariam 25 ônibus.

Na prática, por mais que a Caprioli, do Tonhão se esforçasse, usavam mais de 50 ônibus e havia uma reclamação constante, porque algumas linhas a viagem era menor que 40 minutos, outras maior, tinha gente que andava demais, enfim, só reclamação, sem nem pensar no custo.

Precisávamos de uma solução que otimizasse tudo isto e eliminasse as queixas.

Fui percebendo, pois o projeto implicava em saber coisas que eu achava que para eles era tabuada do 2, que eles não demonstravam saber, e conclui que não era nem o que eu pensava, nem o que parecia, pois se tem uma coisa que, no Brasil, quem tem Dr. no nome sabe fazer, é o papel…

Devo esclarecer que isto não se aplica a todos que vivem ou sairam da Unicamp, USP, etc. Encontrei gente muito competente e boa, que se tornaram amigos meus, mas todo cuidado é pouco quando, por exemplo, você for fazer uma consulta médica e o médico está vestido com um jaleco que deveria ser usado na Unicamp que mostra bordado que ele é catedrático, ou coisa que o valha, toma cuidado…

Infelizmene, os bons pagam pelos maus e isto é uma nódoa que não precisava existir.

Um problema que não dizia qual matéria usar

Em certo momento, levei ao grupo da Unicamp, que ouviu o projeto do Mestrado em Qualidade, um problema absolutamente real. A IBM tinha cerca de mil funcionários que utilizavam ônibus fretados. Como cada ônibus comportava aproximadamente 40 passageiros, teoricamente 25 ônibus poderiam transportar todo mundo. Na prática, a Caprioli precisava de mais de 50.

Nosso horário de entrada exigia chegar ao estacionamento por volta das 7:45. De um ponto central de Campinas até a fábrica, naquele tempo, ainda por estrada de pista única, eram aproximadamente 40 minutos. Havíamos estabelecido diversos pontos de embarque pela cidade, mas o resultado era ruim: algumas linhas demoravam demais, outras faziam percursos pouco razoáveis, havia funcionários que precisavam andar muito até o ponto, ônibus circulavam com lugares vazios e as reclamações eram constantes.

Coloquei o problema na mesa e desafiei aquele grupo de PhDs a resolvê-lo.

Vieram várias explicações sobre por que o problema era difícil, as muitas variáveis envolvidas, as limitações etc., mas, para minha surpresa, ninguém parecia ter uma ideia muito clara de como chegar a uma solução. No fim, devolveram o desafio para mim.

Parti para a luta.

A IBM mantinha uma biblioteca mundial de programas desenvolvidos em diferentes países e disponíveis para quem, dentro da companhia, precisasse deles. Procurando ali, descobri na Alemanha um programa destinado a rotear caminhões frigoríficos.

Esses caminhões tinham apenas uma porta de carga, na traseira. Era necessário combinar a rota com a disposição dos produtos de tal maneira que, na primeira parada, a mercadoria daquela entrega estivesse acessível; depois a da segunda, e assim sucessivamente até esvaziar o caminhão.

Percebi que o nosso problema, abstraído suficientemente, era parecido. Caminhões podiam virar ônibus, produtos podiam virar pessoas e locais de entrega podiam virar pontos de embarque.

Pedi o programa à Alemanha. Isto era 1974. A IBM já possuía uma rede internacional de comunicações e o programa foi transmitido por satélite para São Paulo, onde foi gravado em fita magnética. Pedi a fita, consegui emprestado um dos sistemas que ficavam disponíveis montados, carreguei o programa e o rodei.

A máquina “sentou”.

Ficou aproximadamente três horas processando até produzir uma primeira solução. Não era ainda aquilo que queríamos. Fomos modificando condições e restrições, rodando novamente e ajustando os resultados até chegar a uma solução que funcionasse.

Reduzimos os onibus para 35/40 dependendo da mobilidade que o grupo apresentava por mudanças, etc. e as viagens ficaram mais parecidas e as reclamações desapareceram.

O mais curioso é que eu nunca soube — e continuo não sabendo — exatamente qual matemática os alemães haviam colocado dentro daquele programa. E talvez essa seja parte da história.

Quando fiz o curso básico de Engenharia, Cálculo foi um sofrimento. Lembro até hoje de ter passado na disciplina e, voltando à noite da cidade onde estudava, Itatiba, para Campinas, parar o carro na estrada, sob uma lua extraordinariamente brilhante, e rezar agradecendo a Deus por ter conseguido passar. Sempre fui péssimo quando me apresentavam Cálculo, derivadas e integrais “a seco”.

Paradoxalmente, sempre fui muito bom em resolver problemas que exigiam cálculo quando havia um computador à disposição.

Mais tarde, quando dei aulas aos alunos do quinto ano de Engenharia, na EESC – USP S.Carlos, procurei fazer justamente o contrário do que haviam feito comigo. Começava pelo problema, geralmente por meio de um estudo de caso, e caminhava de trás para frente. Quando aparecia a necessidade de uma derivada, de uma integral, da Estatística ou de qualquer outra ferramenta matemática, ficava muito mais fácil perceber por que aquilo existia e para que servia. E, já nos anos 1990, os PCs tinham potência suficiente para fazer os cálculos.

Veja esta experiência em detalhes

Não estou dizendo que engenheiros não devam aprender Cálculo. Estou dizendo que talvez tenhamos confundido durante muito tempo saber fazer cálculos com saber usar a Matemática.

O problema dos ônibus não dizia no cabeçalho “aplique Pesquisa Operacional”. Dizia apenas:

“Temos mais de 50 ônibus, teoricamente 25 deveriam bastar, todo mundo reclama. Resolva.”

Nenhum ser humano iria experimentar na mão as combinações necessárias para resolver aquilo. O computador levou umas três horas. Minha tarefa não foi competir com ele. Foi descobrir o que mandar o computador fazer.

Que deveria ser uma matéria introdutoria de Cálculo nos cursos de exatas e é perfeita em Estudos de Caso, que, no fundo, foi o que postei aqui.

Isto posto, dê uma olhada em:

Brain4Care value take assumptions

Ademir Petenate

Although Carlos Frederico Bremer is the key strategist with the background and intellectual capacity to develop a business case determining Brain4Care’s current value—especially given his role in its creation and his intimate knowledge of the underlying realities—a study of this nature requires validation by someone with unparalleled, top-tier credentials.
It need not be him specifically, but rather someone with a profile like that of Professor Ademir Peteneate—an expert who not only masters statistics but has also implemented operational improvements at both the Faculty of Medical Sciences and the Unicamp Hospital, and whose track record demonstrates a detailed explanation of the assumptions used to calculate Brain4Care’s value.

Methodology

Brain4Care’s technological breakthrough is already widely recognized, not only in scientific literature but also through its adoption by leading institutions such as Johns Hopkins.
A methodological breakthrough for quality improvement was introduced by William Edwards Deming (1900–1993)—an American statistician, professor, and consultant widely recognized as the “father of modern quality” and of data-driven management. He is renowned for leading Japan’s industrial revolution following World War II, transforming products once labeled as “low quality” into global benchmarks of excellence and technological innovation.
His key contributions included:

  • The PDCA Cycle: He popularized a continuous improvement method comprising four essential steps: Plan, Do, Check, and Act.
  • The 14 Principles of Quality: He developed guidelines to transform business management, focusing on eliminating fear in the corporate environment, breaking down departmental barriers, and doing away with arbitrary numerical targets.
  • The System of Profound Knowledge: A management philosophy grounded in four interconnected pillars: a systems view of the organization, an understanding of statistical variation, the theory of knowledge, and the psychology of human behavior.

IHI adoption of Deming’s methodology

The Institute for Healthcare Improvement (IHI) is a global non-profit organization leading the worldwide movement for patient safety and continuous quality improvement in healthcare. Founded in 1991 by Don Berwick and a group of visionaries, the IHI sought to address a critical problem: the high rate of preventable medical errors, resource waste, and dangerous variability in patient care.

The IHI’s major innovation was adapting the science of industrial improvement directly to hospital and clinical settings, utilizing theoretical foundations established by W. Edwards Deming.

The IHI’s Model for Improvement and Deming’s Legacy

The IHI consolidated its methodology into the renowned Model for Improvement, which serves as the backbone of its interventions worldwide. This framework integrates Deming’s statistical and human principles into a practical approach to healthcare:

Model for improvement in detail

What specific metrics should be used to track progress in health initiatives? How can teams ensure that the changes they make are evidence-based? What are some examples of practical changes that have successfully led to improvement in healthcare settings?

How this connects with Brain4care:

Why use the Model for Improvement Methodology to ask for NCS/CONITEC reimbursement catalog

For two basic reasons:

First, it had not been taken into account that, as much as a technological breakthrough — and it was flawlessly defended —including the strategy of emphasizing it particularly for healthcare sectors responsible for recognizing and incorporating it into their fields of activity, the issue of how it would be paid for and by whom was not addressed. This resulted in there being no way to obtain compensation for using the braincare method through reimbursement, because the definition and the reason why health insurance plans should pay for it had not yet been established.

Second, this definition must be based on standardized criteria and methodology used by both parties’ systems, so that this inclusion becomes acceptable. The choice of method indicated by the Institute for Healthcare Improvement is the most appropriate to do this and was used in this valuation of Brain4Care, and here it is explained why:


The IHI Triple Aim Framework

The Triple Aim is a foundational framework developed by the Institute for Healthcare Improvement (IHI) to help health systems optimize performance. It asserts that any healthcare initiative must balance three critical dimensions simultaneously to achieve true systemic improvement: [1, 2]

Healthcare Triple Aim: How Nursa Helps Hospitals & Clinicians

A Guide to Measuring the Triple Aim: National Health Care for the Homeless Council

Medical Respite Care Programs & the IHI Triple Aim Framework

An Overview of the IHI Triple Aim – YouTube

Improving the Patient Experience: Enhancing the overall quality, safety, patient satisfaction, and accessibility of care. [1, 2, 3]

  • Improving Population Health: Bettering health outcomes for an entire geographic or demographic community (e.g., managing chronic diseases). [1]
  • Reducing Per Capita Cost: Eliminating medical waste and reducing the overall financial burden of healthcare on families and institutions. [1]

(Note: In recent years, this has evolved into the Quadruple Aim, adding a fourth pillar: improving the work-life of healthcare providers to prevent clinical burnout).


Practical Healthcare Example: A Hospital PDSA Cycle

Let’s look at a concrete healthcare scenario applying Deming’s PDSA Cycle (Plan-Do-Study-Act).

The Problem: An inpatient medical ward has an unacceptably high average discharge time of 4.5 hours after the physician signs the discharge order, leading to emergency room boarding bottlenecks.

 [Plan: Pick 1 doctor & 2 patients] ──> [Do: Test the new checkout checklist]
▲ │
│ ▼
[Act: Adapt the checklist for Ward B] <── [Study: Discharge took only 45 mins]

Cycle 1 (Small Scale Test)

  • Plan: The team predicts that utilizing a dedicated “Discharge Checklist” completed by the nurse the night before discharge will cut wait times. They plan to test this with only 1 physician and 2 patients tomorrow morning.
  • Do: The selected nurse and physician execute the plan. They use the checklist for those 2 specific patients, tracking the exact timeline.
  • Study: The data reveals that the discharge for those 2 patients dropped from 4.5 hours to just 45 minutes. However, the pharmacy took longer than expected to deliver the take-home medications.
  • Act: Based on the learning, the team decides to adapt the process. They will run Cycle 2 next week, expanding to the entire daytime nursing shift and looping the hospital pharmacist into the planning stage.

Run Charts: Visualizing Improvement over Time

A Run Chart is a graph of data ordered over time. It is one of the most powerful tools the IHI borrowed from Deming’s statistical toolset because it distinguishes a real improvement from random daily fluctuation.

Run Charts – Improvement | the Complete Medic

How to Select and Use Run and Control Charts: Learning Network

Key Structural Elements:

  • Y-Axis: The quality measure being tracked (e.g., Discharge Time in Minutes).
  • X-Axis: A time sequence (e.g., Days, Weeks, or successive Patients).
  • The Median Line: A horizontal line calculated from baseline data to serve as the reference point.
  • Annotations: Specific text markers added directly to the chart indicating exactly where a PDSA change was introduced. This explicitly ties your interventions directly to changes in the data trend line.

How to Identify Real Improvement (Non-Random Variation):

When monitoring a Run Chart, healthcare managers use specific mathematical rules to prove a change actually worked:

  • The Shift: Six or more consecutive data points falling entirely above or entirely below the median line. If discharge times stay below the median for 6 straight days following a PDSA cycle, the process change is statistically validated as a true success.
  • The Trend: Five or more consecutive data points consistently heading in a single direction (all climbing or all dropping).

The above examples of Run Chart dataset simulation using Python and explorations of how to handle clinical resistance when introducing these PDSA tools to medical staff are presented, detailing the why and how they connect to reimbursement plans and are entitled of