Desenvolvimento e persona profissional de Roque Ehrhardt de Campos

Tenho compartilhado fragmentos da minha trajetória existencial de forma assistemática, muitas vezes sem o foco ou a estrutura devida. Decidi, agora, apresentar-me de maneira mais objetiva, examinando os fatores que determinaram minha formação profissional. Quero registrar como essa jornada me permitiu não apenas garantir o pão de cada dia, mas, acima de tudo, honrar o compromisso de cuidar da minha família na ordem signiticativa que nós, eu e minha esposa, Cristina, estabelecemos como desejável e bom.

Antes de mais nada, ha que se considerar minha origem, começando pelos meus pais: Ana e Weimar.

Tenho dificuldade em acrescentar como era efetivamente ter crescido na moldura descrita no pointer acima porque embora eu tenha sido de certa forma “sacrificado” pela falta crônica de meios que caracterizou este período da vida de meus pais, acho que fizeram o melhor que puderam. Eles sempre estavam ali, compondo uma familia estável, um porto seguro, e um lugar e contexto que para sempre vai deixar em mim saudades e aquela sensação de querer retornar que caracteriza quando os pais agem da maneira correta.

Acredito que tudo na vida não é o que fizeram com você, mas o que você fez com o que fizeram com você. Uma verdade que vale para meus pais, para mim, para meus filhos e netos — e para todo ser humano que já teve de reconstruir algo a partir de cacos que não escolheu.

Tanto meu pai quanto minha mãe vieram de lares desfeitos, cada um à sua maneira.

Meu pai cresceu assistindo e sofrendo os descontroles e violências de um pai que, sem dúvida, carregava perturbações mentais sérias. A separação dos seus pais, quando ele ainda entrava na adolescência, foi um ato de coragem e proteção — tão grave a situação que contou com o consentimento, a aprovação e o amparo do tio bispo de minha avó, D. Francisco de Campos Barreto, homem de fé e de palavra, cuja intervenção diz muito sobre o peso daquele momento.

Minha mãe perdeu o pai de outra forma — não pela violência, mas pela crueldade silenciosa do acaso. Meu avô Paulo morreu de infecção hospitalar aos cinquenta anos, vítima da falta de acesso a antibióticos que já existiam. Uma morte evitável, que deixou minha avó Julia viúva e minha mãe órfã de pai numa época em que não havia rede de proteção para mulheres sozinhas com filhos.

A visão de mundo que construíram, portanto, nasceu diretamente do que haviam vivido. Não tinham mapas herdados para guiar uma família — tinham cicatrizes, e foi com elas que tentaram traçar o caminho dos filhos.

Meu pai seguiu o modelo da mãe, que era professora primária. Cursou a mesma escola que ela, absorveu a mesma vocação, e assim se fez professor — não por vocação descoberta, mas por trilha conhecida. Era o que se via em casa, o que parecia seguro, o que tinha nome e forma.

Minha mãe seguiu o modelo que a cultura da época oferecia às mulheres: o lar. Não como resignação, mas como missão. Cuidou dos filhos, da casa, da comida, da roupa, da educação — de tudo que sustenta uma família por dentro, invisível e indispensável. Era o que se esperava, e ela cumpriu com a dedicação de quem não conheceu outra forma de amor que não fosse o trabalho silencioso.

Ambos eram profundamente cautelosos — não por falta de inteligência, mas por excesso de memória. Quem cresceu vendo o chão ceder não arrisca passos largos. A continuidade e a previsibilidade eram, para eles, não virtudes menores, mas conquistas duramente conseguidas e que deviam ser protegidas.

O problema é que essa prudência, tão compreensível nas suas origens, chegou até mim no momento errado. Quando eu deveria estar me orientando para o ensino superior, dois obstáculos se somaram silenciosamente.

Meu pai carregava o sonho antigo de ser advogado. Um sonho que, ao contrário de tantos, ele realizou — com determinação e constância, vencendo obstáculos que teriam desanimado qualquer um. Como Campinas sequer tinha uma faculdade de direito, ele fez um curso à distância em Niterói, o que significava viagens ao Rio de Janeiro de avião, hospedagem em hotel, provas presenciais. Os custos do curso em si nunca me foram revelados, mas tenho certeza de que contaram com a ajuda de minha avó Zuleika. Ele cumpriu tudo isso, e viria a se revelar um excelente advogado.

O outro obstáculo era eu. Mostrava um perfil que resistia ao modelo escolar convencional — dificuldade em estudar dentro dos trilhos, em cumprir o roteiro que levava à universidade pelo caminho esperado. O desfecho veio aos catorze anos, quando fui reprovado em História por um décimo de ponto: tirei 3,5 quando precisava de 3,6. Foi a gota final que levou minha mãe a me chamar e sentenciar, com a objetividade de quem não tem margem para hesitar: você vai trabalhar de dia, estudar à noite, e contribuir com 20% do salário para as despesas da casa.

Para quebrar o impacto dessa frase em quem estiver lendo — o que sobrava de um mês de salário dos empregos totalmente absurdos que tive nessa época dava para comprar um Long Play. O que eu fiz. E assim, sem querer, iniciei minha coleção de Ray Conniff.

Saí do Culto à Ciência — apesar de tudo, ou talvez por causa de tudo. Era um colégio extremamente exigente, e é a ele que devo coisas fundamentais na minha formação. O inglês que aprendi lá me acompanharia a vida inteira. O português — nosso vernáculo, que prezo e pelo qual sinto ter algum talento natural para a redação. E todas as demais matérias, que para serem superadas exigiam um exercício constante de vontade sobre si mesmo, uma disciplina de cumprir o que professores ambiciosos estabeleciam num currículo que não fazia concessões.

Só mais tarde eu viria a entender uma parte importante do meu problema escolar: motivação. O que não me interessa, simplesmente não me interessa — e não há força de vontade que substitua o interesse genuíno. História, da forma como aquele professor a ensinava, era exatamente esse caso. Matéria morta, transmitida sem vida, sem conexão com nada que me alcançasse.

Ele percebeu minha ausência — não de corpo, mas de espírito. E a interpretou, com a arrogância e a presunção que lhe eram características, não como um problema de método, mas como falta de respeito à sua disciplina. E puniu com o único instrumento que tinha nas mãos: aquele décimo de ponto que me custou um ano e mudou o rumo da minha vida.

Eu teria sido um dropout do ensino médio, não fosse o alistamento militar. Sem estar quite com o serviço militar, não havia carteira de trabalho — e sem carteira de trabalho, não havia nada. Fiquei completamente à toa, esperando que aquele nó se desfizesse. Foi minha mãe quem o desfez, com a habilidade discreta de quem sabe onde bater: uma amiga sua, casada com um vereador, conseguiu minha dispensa por um caminho que nunca soube exatamente qual foi, mas que me poupou uma perda de tempo considerável.

Resolvido o militar, restava o colégio. No Culto à Ciência, a presença era condição sine qua non para a promoção — não havia negociação possível. E eu, totalmente insatisfeito e esgotado pelos empregos idiotas e mal pagos que conseguia, simplesmente parei de aparecer. Só por isso, já estava reprovado — independentemente de qualquer nota.

Quando decidi encerrar aquele ciclo de vez, abandonando tudo, ainda havia o segundo semestre pela frente. Alertado por colegas, que tinham o mesmo problema e descobriram uma forma de resolver, matriculei-me no Colégio Diocesano — uma instituição que fazia vista grossa para a presença e operava pela mesma lógica que regia todas as instituições do seu tipo, inclusive o Culto à Ciência: pelas regras da época, atingindo nota máxima nas provas finais, você aprovava, independentemente do que tivesse acontecido antes. Zero acumulado ao longo do semestre? Não importava. Um dez nas provas e o caminho estava aberto. Coisa obviamente impossível no Culto à Ciência, onde a reprovação por faltas já havia ocorrido. No Colégio Diocesano, porém, a porta ainda estava aberta — e dava para tentar.

Foi exatamente o que fiz.

Para minha própria surpresa, o que havia absorvido no Culto à Ciência — sem perceber, e com grata surpresa — transformou-me num aluno excepcional quando submetido às provas do Diocesano. Tirei nota máxima em todas as matérias. Saí com o diploma do colegial na mão — que, para todos os efeitos práticos, valia exatamente o mesmo que o diploma do Culto à Ciência.

Comecei a desconfiar da minha suposta incapacidade de aprender — e de tudo que havia aceitado sobre mim mesmo até então.

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