É possível deixar sua marca depois dos 80 anos?

Pensando no post de Monica Rayol no instagram

Valorizar a maturidade é importante, mas isso não significa ignorar as barreiras concretas enfrentadas pelas pessoas mais velhas. A idade não se torna irrelevante apenas porque algumas pessoas conseguem reconstruir sua carreira, manter visibilidade pública ou transformar sua experiência em uma marca pessoal.

Há uma diferença importante entre afirmar que a maturidade possui valor e sugerir que esse valor precisa ser convertido em produtividade, influência, empregabilidade ou reconhecimento no mercado. A primeira afirmação reconhece a dignidade e a experiência acumulada ao longo da vida. A segunda corre o risco de submeter a velhice à lógica da performance: a pessoa idosa seria valorizada apenas se conseguisse se reposicionar, vender sua imagem e provar que continua economicamente útil.

Também é problemático tratar o sucesso profissional na maturidade como resultado predominantemente de escolhas individuais. Recomeçar uma carreira aos 50, 60, 70 ou 80 anos depende de condições que não estão igualmente disponíveis para todos: saúde, renda, patrimônio, educação, rede de contatos, acesso à tecnologia, apoio familiar e oportunidades reais de trabalho. A desigualdade social, o preconceito etário e as limitações do mercado não desaparecem porque algumas pessoas conseguem superá-los.

Exemplos de celebridades, empreendedores ou profissionais bem-sucedidos na maturidade podem ser inspiradores, mas não representam necessariamente a experiência da maioria. Usá-los como prova de que “a idade não é um problema” pode produzir uma falsa impressão de que quem não consegue se reposicionar fracassou por falta de iniciativa, coragem ou mentalidade adequada.

O discurso da marca pessoal pode ser útil para quem deseja divulgar seu trabalho, reorganizar sua carreira ou encontrar novas oportunidades. Entretanto, ele deve ser apresentado como uma ferramenta possível — e não como uma obrigação moral. Nem toda pessoa precisa transformar sua história, sua aparência, sua experiência ou sua idade em produto.

Além disso, a maturidade não precisa ser justificada pelo mercado. Uma pessoa com 70 ou 80 anos não tem valor apenas porque ainda trabalha, produz, empreende, influencia ou permanece visível. Sua existência, memória, vínculos, trajetória e capacidade de escolher como deseja viver já possuem valor próprio, inclusive quando ela não está interessada em construir uma marca pessoal.

Uma análise mais responsável, portanto, deveria combinar duas ideias: a maturidade pode trazer novas possibilidades, mas essas possibilidades são condicionadas por fatores sociais, econômicos e de saúde. Incentivar alguém a continuar ativo pode ser positivo; transformar essa atividade em parâmetro de valor pessoal pode ser excludente e cruel.

O problema não está em combater o etarismo nem em reconhecer as possibilidades de reinvenção. O problema surge quando uma questão estrutural é apresentada como se fosse apenas uma questão de posicionamento individual. Uma sociedade verdadeiramente inclusiva não deve exigir que pessoas mais velhas provem continuamente sua relevância. Deve também garantir que possam trabalhar, descansar, criar, cuidar, participar ou simplesmente viver sem serem tratadas como obsoletas.

Pensando como homem

Tenho 83 anos, e nos últimos tempos tenho visto circular pela internet uma ideia que me irrita cada vez mais. Influencers, gurus de bem-estar e vendedores de juventude repetem que as limitações da idade são “coisa da cabeça”. Que envelhecer é uma decisão. Que, se aos 80 você quiser ser modelo, atleta ou começar uma carreira, basta querer, porque idade é só um número.

Acho isso uma cretinice. E quero explicar por quê, antes de responder à pergunta do título, que merece resposta séria.

O corpo não lê livros de autoajuda

Quem passou dos 80 sabe do que estou falando. A idade não pede licença. Os músculos perdem força, a vista e o ouvido pioram, o sono fica mais curto e mais leve, qualquer gripe leva o dobro do tempo para passar, e as pequenas doenças vão se acumulando como correspondência atrasada. Isso não é mentalidade negativa. É biologia, e nenhuma atitude positiva revoga a biologia.

Dizer a um homem de 85 anos que o cansaço dele é “psicológico” não é incentivo; é desconhecimento, ou má-fé.

No dia em que você sair na rua e vir os automóveis da sua infância e juventude rodando ao lado dos carros novos, na mesma proporção, pode começar a acreditar que o tempo perdoa alguma coisa.

A crueldade escondida no otimismo

O que mais me incomoda nesse discurso nem é a falsidade. É o que ele faz com quem está envelhecendo. Se a idade é só uma decisão, então quem sente o corpo falhar passa a ser culpado. Tem a “cabeça errada”, não se esforçou o suficiente, não acreditou o bastante. Uma perda real vira fracasso pessoal.

É crueldade vestida de encorajamento. E quase sempre, no fim do vídeo, aparece um produto, um curso ou um suplemento.

O grão de verdade que eles distorcem

Seria desonesto, porém, dizer que não há nada de verdade ali. Há, e ela é interessante.

Com a idade, as pessoas ficam muito mais diferentes entre si. Aos 20 anos, quase todos têm corpos parecidos. Aos 80, há quem suba escadas com folga e quem mal saia da cadeira. Parte dessa diferença é sorte e genética, mas parte depende de hábitos: exercício, sobretudo de força, convívio social, ocupação da mente. Uma pesquisa conduzida em Yale chegou a sugerir que pessoas que encaram a velhice de forma menos negativa vivem, em média, alguns anos a mais.

Mas é preciso ler direito. Isso é margem dentro de um declínio, não a abolição dele. Dá para envelhecer melhor ou pior. Não dá para não envelhecer.

Nem tudo se perde no mesmo ritmo

Há um fato que os dois lados costumam ignorar: a idade não leva tudo de uma vez nem na mesma velocidade.

A rapidez de raciocínio e a memória imediata começam a cair cedo. O nome do ator do filme de ontem some. Mas o vocabulário, o julgamento, a capacidade de enxergar o conjunto e de reconhecer um padrão que já se viu cem vezes resistem muito mais tempo. Às vezes até melhoram. A velhice tira velocidade e costuma deixar perspectiva.

Então: é possível deixar sua marca depois dos 80?

É. Mas não fingindo que a idade não existe. Deixa-se a marca com aquilo que a idade não tira.

A história tem exemplos. Verdi estreou Falstaff, uma de suas óperas mais admiradas, aos 79 anos. Goethe terminou o Fausto aos 82. Oscar Niemeyer projetou o Museu de Arte Contemporânea de Niterói perto dos 90 e continuou trabalhando depois dos 100. Cora Coralina, que só conseguiu publicar o primeiro livro aos 75, foi descoberta pelo Brasil aos 90, quando Drummond escreveu sobre ela.

Nenhum deles virou atleta ou modelo. Nenhum negou a própria idade. Todos fizeram o que só se faz depois de uma vida inteira: juntar experiência, ofício e perspectiva numa obra que um jovem não poderia ter feito.

E a marca não precisa ser uma ópera. Pode ser escrever o que se viveu antes que se perca. Pode ser uma conversa honesta com um amigo antigo, sabendo a hora de discordar e a hora de parar. Pode ser organizar, com calma e clareza, o que se deixa para os que ficam, para poupar a eles trabalho e conflito. Pode ser simplesmente ensinar alguém a ver o que você aprendeu a ver.

A posição honesta

Não acredito em “idade é só um número”. Também não acredito que a idade leve tudo. Ela leva muito, e leva de forma desigual. O que nos cabe é cuidar do que ainda responde a cuidado e usar bem o que ela deixa.

A marca que se deixa depois dos 80 não vem de negar o tempo. Vem de saber o que ele nos deu.

A matriz intelectual do Prof. Ademir Petenate

Ademir José Petenate formou-se em Ciência da Computação pela Unicamp em 1973. Fez o mestrado em Estatística também na Unicamp, em 1979, e o doutorado em Estatística na Iowa State University, em 1983, sob orientação de Oscar Kempthorne. Professor aposentado do Departamento de Estatística do IMECC, segue como professor colaborador. É membro fundador e coordenador do NEMO, onde responde pelos cursos de extensão Yellow, Green e Black Belt, voltados à formação de profissionais em melhoria de processos, produtos e pessoas.

Sua formação combina quatro linhagens que se reforçam.

Kempthorne e Iowa State. Iowa State é um dos berços da estatística experimental americana, na tradição de Snedecor, herdeira direta de Fisher. Kempthorne, seu orientador, foi um dos grandes teóricos do delineamento de experimentos e da aleatorização como fundamento da inferência. Vem daí o rigor com que Petenate trata a experimentação: antes de analisar dados, é preciso saber como foram gerados.

Box. De George Box vem a visão da estatística como ferramenta de aprendizado iterativo. Nessa visão, a experimentação é sequencial, cada resultado orienta o próximo passo, e o modelo é instrumento, não verdade. Vale aqui o princípio de Box: “todos os modelos estão errados, alguns são úteis”. Planejamento de Experimentos, Controle Estatístico de Processos e Melhoria de Processos são justamente as áreas de atuação declaradas de Petenate.

Deming. De Deming vem o quadro conceitual mais amplo: a teoria da variação, o pensamento sistêmico e o ciclo PDSA como método de aprendizado organizacional. Nesse quadro, a estatística deixa de ser técnica isolada e passa a ser uma forma de gerir.

API e IHI. A Associates in Process Improvement transformou Deming num método operacional, o Modelo de Melhoria, que o Institute for Healthcare Improvement levou para a saúde. Petenate traduziu para o português o livro-base dessa escola, “Modelo de Melhoria”, de Langley, Moen, Nolan, Nolan, Norman e Provost (Mercado de Letras, 2011). Também orientou dissertações que aplicam esse modelo.

Em síntese: Kempthorne deu o fundamento, Box o método de aprendizado, Deming a filosofia de gestão e API/IHI a operacionalização. O resultado é uma estatística voltada para melhorar sistemas reais, com forte vocação para ensino e extensão. O ferramental Seis Sigma, que ele ensina, funciona como veículo dessa base, não como substituto dela.

Para entender o conteudo intelectual desta matriz, que foi a base, como ela evoluiu e chegou no Deming e sua aplicação nos cursos que ele criou, veja primeiramente:

George Box & Oscar Kempthorne & Quality Control

Como o Deming entra neste quadro:

Como o Prof Ademir Petenate foi decisivo para a Unicamp se tornar centro de referência mundial e principal da America Latina

O IMECC foi o primeiro Instituto que a Unicamp instalou e nasceu junto com a Computação, em 1968, da qual se separou em 1996.

Eles começaram com um IBM 1130 (1967/1968). Deram um salto gigantesco indo para o Digital DEC 10-60 em 1972, com o qual ficariam até o final da década de 80, quando adquiriram um IBM 3090, como parte do convênio que fizeram com a IBM para instalar o Mestrado de Qualidade com incentivos fiscais, que tambem foram usados para o aporte desta máquina, que fazia parte do pacote que viabilizou a criação do primeiro Mestrado Profissional da Unicamp, o Mestrado em Qualidade, que eu projetei e fui o principal interface para sua implantação do lado da IBM e o Prof Ademir Petenate do lado da Unicamp.

Com olhos de 2026, vejo que O SAS nasceu originalmente na Universidade da Carolina do Norte e teve sua empresa fundada em 1976. O foco inicial de desenvolvimento do SAS foi escrito quase que exclusivamente para a arquitetura de mainframes da IBM (rodando sistemas operacionais como MVS, OS/390 e VM). [1, 2]

Quando o DEC 10-60 foi instalado na Unicamp em 1972, o SAS ainda estava em suas versões embrionárias nos Estados Unidos (o “SAS 72”). Naquela década de 1970 e início de 1980, os estatísticos e pesquisadores do IMECC que utilizavam o DEC-10 rodavam rotinas estatísticas principalmente programando diretamente em Fortran ou utilizando pacotes que possuíam versões robustas adaptadas para o sistema TOPS-10 da Digital, como as primeiras versões do SPSS e do BMDP. [1]

  • A grande migração e a era de ouro do SAS na Unicamp aconteceram em 1989, quando a universidade adquiriu o supercomputador IBM 3090. Ele foi o primeiro dessa categoria instalado em uma universidade da América Latina. [1]
  • O impacto no IMECC: Registros históricos do Jornal da Unicamp da época destacam explicitamente que geólogos, sociólogos, economistas e, principalmente, os estatísticos do IMECC foram os maiores beneficiados pelo poder de processamento do IBM 3090 ao rodarem o aplicativo SAS. [1]

Nesse período (fim dos anos 80 e início dos anos 90), as fitas magnéticas de grandes bancos de dados públicos — como os dados brutos da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE — eram trazidas para a Unicamp e processadas em programas SAS dentro do IBM 3090 para gerar os cruzamentos estatísticos das teses e pesquisas do instituto.

O 3090 foi comprado com base num incentivo de renúncia fiscal que a IBM já sabia, havia tempo, que estava a caminho — muito antes de o Presidente Collor sancionar formalmente a Lei 8248, em outubro de 1991. A IBM havia sido deixada de fora da reserva de mercado nos produtos que queria fabricar no Brasil (eu mesmo perdi duas viagens de treinamento em máquinas que nunca chegaram a ser produzidas aqui — o Sistema/32 e um caixa eletrônico — porque o lobby do Bradesco e do Itaú tirou a IBM dessas frentes). Sem conseguir competir nesses nichos, sobrou pra IBM o que ninguém mais no Brasil conseguia fazer: mainframe — e o governo entregou essa ‘bomba’ com a condição de que 50% fosse nacionalizado. Totalmente entrosada com o jogo político em Brasília, a IBM já sabia que poderia estruturar Pesquisa e Desenvolvimento e usar o dinheiro da renúncia fiscal pra empurrar suas máquinas, muito antes da lei sair do papel. O convênio com a Unicamp é de 1989, mesmo ano em que o 3090 chegou à universidade — e meu projeto do Mestrado em Qualidade, também de 1989, foi exatamente o P&D que viabilizou o negócio. A edição da Lei 8248, dois anos depois, apenas formalizou algo que já se sabia de longa data e que, na prática, já era o eixo central do convênio que deu origem ao mestrado e à compra do 3090.”

Se não existisse o Mestrado em Qualidade, que entrou como P&D para justificar o uso do dinheiro detnro da Lei 8248, sem o que não seria possivel para a Unicamp ter um 3090, que simplesmente não tinha dinheiro para isto.

Acreditem se quiser, havia um movimento interno contra a instalação do Mestrado Profissional e o Prof. Ademir teve enorme dificuldade para formalizar o curso junto a CAPES!

Em termos práticos, o suporte computacional deles para estatística era o SAS rodando no DEC 10 de forma meio provisória em mainframe — o que, em si, não seria problema, pois eu conhecia o mainframe por dentro, tendo ajudado a desenvolver um. O problema era que, na prática, poucos realmente usavam o sistema com profundidade, e o que usavam exigia submeter o processamento através de JCL complicado, sem interatividade nenhuma — o tipo de burocracia que desanima qualquer pesquisador a encostar diretamente nos dados.

Eu não sabia nada disso e acabei rodando no 4341, programas que faziam DOE, Designs of Experiments, que é a cereja do bolo da estatística, para surpresa do Ademir, que ainda estava assistindo à entrada do 3090, que iria abrir as portas para realmente usar a estatística Full Blowm! Full-blown quer dizer em estágio avançado ou completo.

Hoje vejo que o que o Prof. Ademir sofreu foi um caso clássico de desacoplamento que George Orwell descreveu.

De todas as áreas de aplicação que eu sabia na época serem cobertas pela estatística — medicina, economia, engenharia, controle industrial — a única em que aquele grupo claramente dominava a aplicação prática era o teste de reações farmacológicas. Um nicho respeitável, mas estreito.

Eu estava propondo que a estatística saísse do mainframe e fosse para onde os problemas de qualidade existiam de verdade — que o conhecimento teórico encontrasse o mecanismo autocorretivo que a Unicamp, ainda jovem naquela área, não havia conquistado.

O que aconteceu depois não foi apenas consequência intelectual do projeto. Foi consequência política — no melhor sentido da palavra, o sentido de quem tem poder real e sabe reconhecer competência quando a vê. O IMECC não tinha um programa de pós-graduação no mesmo nível dos outros institutos da Unicamp. A IBM, por sua vez, tinha recursos que em parte seriam usados para instalar um supercomputador ali. Carlos Vogt, o pai da ideia, viu a chance de matar dois coelhos com uma cajadada só.

Quem salvou a Unicamp e indiretamente possibilitou o IMECC e a Unicamp realmente se tornaram a referência que se tornaram, foi o Prof. Ademir Petenate, pois para usar o incentivo fiscal que o Pres. Collor disponibilizou pela lei 8248, tinha que ter P/D e é impossivel fazer isto sem um suporte compuacional adequado, no caso, o IBM 3090 e um mestrado como o de Qualidade que ele foi o principal responsavel dentro da Unicamp

__________________________________

George Box & Oscar Kempthorne & Quality Control

George Box (1919–2013) and Oscar Kempthorne (1919–2000) were contemporaries who followed deeply parallel life paths: [1, 2]

  • The British Roots: Both were born in England in 1919. Both cut their teeth working in pioneering British institutions during and immediately following World War II—Box with the British Army Engineers and Kempthorne under Frank Yates at the legendary Rothamsted Experimental Station. [1, 2, 3, 4]
  • The Fisher Connection: Both men were profoundly influenced by Sir Ronald A. Fisher. Box eventually became Fisher’s son-in-law (marrying Joan Fisher Box). Kempthorne, while maintaining an independent mind, considered Fisher a “genius” and dedicated much of his life to mathematically formalizing Fisher’s ideas on the design of experiments and genetic statistics. [1, 2]
  • The American Brain Drain: Both immigrated to the United States to anchor the rapidly growing American field of academic statistics, bringing their British practical-empiricist traditions with them. [1, 2]

⚔️ The “Friendly” Tug-of-War: Pragmatism vs. Foundational Logic

Despite their mutual respect, Box and Kempthorne famously stood on opposing sides of a deep philosophical debate regarding statistical inference:

  • Kempthorne was the champion of strict frequentist randomization inference. He believed that the validity of a statistical conclusion stems strictly from the physical act of randomizing an experiment, and he was deeply skeptical of subjective mathematical models. [1]
  • Box, on the other hand, became a leading pioneer of Bayesian data analysis and robust iterative modeling. He famously believed that while models are approximations (“all models are wrong”), they are necessary tools for scientific discovery when used iteratively. [1, 2, 3]

They frequently debated each other at conferences, challenging the foundational logic of the other’s work, but always maintained the polite, witty rapport of two old British expatriates.


🏫 The University Connection: UW-Madison vs. Iowa State

The dynamic between Box and Kempthorne perfectly mirrored the institutional history of the University of Wisconsin–Madison and Iowa State University, which became two of the dominant “Maccabees” of agricultural and industrial statistics in the United States.

Feature🌪️ Iowa State University (ISU)🦡 UW–Madison
Statistical IdentityThe “Iowa School” of experimental design and analysis of variance.The birthplace of modern industrial quality, time-series, and Bayesian pragmatism.
History & TimingOne of the oldest in the nation. The legendary ISU Statistical Laboratory was founded by George Snedecor in 1933.A younger, aggressive department founded later by George Box in 1960.
Primary DriverDeeply rooted in agricultural genetics and crop experimentation, continuing the legacy of Rothamsted.Deeply rooted in chemical engineering, industrial productivity, and business.
Philosophical AnchorOscar Kempthorne joined in 1947, making ISU a bastion for strict Fisherian randomization and linear models.George Box built the department from scratch to blend theory intimately with engineering and medicine.

💡 Summary of the Legacy

In the mid-to-late 20th century, if you wanted to learn the ironclad mathematical foundations of experimental design and agriculture, you went to see Kempthorne at Iowa State. If you wanted to learn how to iteratively build models to optimize a chemical plant or predict a time-series, you went to see Box at Wisconsin. Together, the two men and their respective universities turned the American Midwest into the global epicenter of statistical science. [1, 2, 3]

Would you like to dive deeper into the specific scientific debates they had regarding Bayesian vs. Randomization inference, or explore the famous textbooks that came out of the Wisconsin and Iowa State departments?

  • Iowa State UniversityCollection: Oscar Kempthorne papers | Iowa State UniversityBiography/Profile From 1941-1946 he was employed under Frank Yates at the Rothamsted Experimental Station, perhaps the first agric…
  • Oxford AcademicObituaries | Journal of the Royal Statistical Society Series AWhen Box went to the University of Wisconsin—Madison in 1960 with Stuart Hunter, he built a world class statistics department whic…
  • Oxford AcademicObituariesGeorge Edward Pelham Box He was appointed to the newly created R. A. Fisher Chair at the University of Wisconsin in 1971, and as V…

How George Box and Oscar Kempthorne contributed to Quality Control in the USA

While George Box and Oscar Kempthorne both revolutionized American industry, they contributed to Quality Control (QC) from two completely different philosophical angles.

Box was a direct, hands-on driving force of the American “Quality Revolution” in manufacturing and chemical processing. Kempthorne, true to his academic nature, provided the underlying mathematical ironwork for how industrial experiments are designed to ensure absolute quality. [1]

Here is how each man left his mark on Quality Control in the United States:


🏭 George Box: The Pioneer of Industrial Productivity and Adaptation

George Box is considered one of the foundational figures of modern industrial statistics. His contribution to QC was deeply practical, focusing on helping factories and chemical plants continuously improve their output without shutting down production. [1, 2]

  • Evolutionary Operation (EVOP): Invented by Box in the 1950s, EVOP changed American manufacturing. Before EVOP, factories only did QC by checking finished parts or stopping lines to run tests. Box introduced the idea that a production process should be run to generate both a product and information on how to improve the product. EVOP introduced tiny, systematic variations to daily operations that didn’t ruin the batch but allowed plant workers to mathematically “nudge” the process toward optimal quality. [1]
  • Co-Founding Technometrics: In 1959, Box co-founded and edited Technometrics, a premier journal published by the American Statistical Association (ASA). This journal became the primary vehicle for introducing advanced statistical quality control (SQC) and engineering statistics to American industry. [1]
  • The Center for Quality and Productivity Improvement (CQPI): In 1984, Box co-founded the CQPI at UW–Madison. During the 1980s quality crisis—when American manufacturing was losing ground to Japan—the CQPI became a major hub, training US engineers in robust design, process optimization, and response surface methodologies. [1]

🧬 Oscar Kempthorne: The Architect of Experimental Validity

Oscar Kempthorne did not visit factories or consult for chemical giants the way Box did. Instead, Kempthorne’s contribution to Quality Control was structural. He provided the mathematical proof that made modern quality testing reliable. [1]

  • Formalizing the Design of Experiments (DoE): In 1952, Kempthorne published his landmark textbook, The Design and Analysis of Experiments. While originally aimed at agriculture and genetics, this book became the bible for any scientist or engineer in the USA trying to set up a controlled test. In QC, if you cannot trust the data from your trial run, you cannot fix the assembly line. Kempthorne gave American engineers the rigid frameworks needed to set up foolproof experiments. [1, 2]
  • The Randomization Guardrail: Kempthorne’s obsession with strict “frequentist randomization” served as a crucial quality check on statistics itself. He proved mathematically that if an engineer doesn’t strictly randomize their product testing, hidden biases (like machine wear or temperature changes throughout the day) will corrupt the data. This mathematically forced American industrial standards to require strict randomization protocols in quality assurance. [1]
  • The ISU Pipeline: As a leader at the Iowa State Statistical Laboratory, Kempthorne trained generations of Ph.D. students who went straight into American industry, military logistics, and government agencies (like the USDA and the US Census Bureau). They carried his uncompromising standards for data validity and experimental quality into the infrastructure of American governance and production.

⚖️ At a Glance: Two Sides of the Same Coin

Dimension🦡 George Box🌪️ Oscar Kempthorne
QC PhilosophyPragmatic & Adaptive: Use ongoing operations to actively learn and optimize the process.Rigid & Structural: Ensure the mathematical setup of the test is perfect before drawing conclusions.
Key FrameworkEvolutionary Operation (EVOP) and Response Surface Methodology.Linear Models and Randomization Theory.
Primary ImpactDirect optimization of chemical, manufacturing, and industrial plants.Establishing scientific validity in product testing, pharmaceuticals, and agriculture.

Would you like to look closer at Evolutionary Operation (EVOP) to see how a plant actually applies it, or read about how their work intersected with other quality gurus like W. Edwards Deming?

Both, Please

Here is a breakdown of how Evolutionary Operation (EVOP) works in practice and how the work of Box and Kempthorne intersected with the iconic Quality guru, W. Edwards Deming, during the American “Quality Revolution.” 


🔄 1. How Evolutionary Operation (EVOP) Actually Works

Before George Box introduced EVOP, optimizing a factory meant shutting down normal production, bringing in scientists, running expensive “controlled experiments,” and then restarting. This was costly and disruptive. 

Box realized that a manufacturing process should not just produce a product; it should produce information on how to improve itself. 

The Cycle of Continual, Tiny Nudges 

EVOP introduces very small, systematic changes to the operating variables of a live, full-scale production line. These changes are kept so small that they do not ruin the batch or affect product specifications, meaning the factory keeps selling the goods. 

Imagine a chemical plant trying to maximize the yield of a product by adjusting two variables: Temperature and Pressure. 

  1. The Grid: The plant manager sets up a small grid of 4 target settings around the current operating standard (e.g., standard temp ±plus or minus± 2 degrees, standard pressure ±plus or minus± 5 psi). 
  2. The Repeat Cycle: Workers run the plant at Setting A, then B, then C, then D. They repeat this cycle over and over. 
  3. Filtering the Noise: Because the changes are so small, a single run won’t show a difference because of normal background noise (humidity, raw material variations). However, after 20 or 30 cycles, the background noise averages out. 
  4. The Mathematical Shift: A clear statistical trend emerges, showing that moving slightly toward Setting C increases yield by 1%. 
  5. The New Normal: The “standard” setting is permanently moved to position C. The grid is then redrawn around this new point, and the process repeats indefinitely. 

Through EVOP, the factory “evolves” toward higher quality and lower costs completely on autopilot, run entirely by the plant workers rather than outside scientists. 


🤝 2. The Intersection with W. Edwards Deming

In the 1980s, American manufacturing hit a massive crisis. Japanese companies (using strategies taught to them by W. Edwards Deming) were outperforming US companies in automotive, electronics, and steel production. Deming returned to the US to help spark the American Quality Revolution, and it was here that his philosophy directly collided and fused with the work of Box and Kempthorne. 

   [ The Quality Revolution Triumvirate ]

W. Edwards Deming
(The Management System)
"Fix the Culture"
│
┌────────┴────────┐
▼ ▼
George Box Oscar Kempthorne
(The Toolmaker) (The Proofmaker)
"Adapt & Map" "Validate the Data"

Box and Deming: Soulmates of the “PDSA” Cycle 

W. Edwards Deming is famous for promoting the PDSA Cycle (Plan-Do-Study-Act) for continuous improvement. George Box’s entire philosophy of statistics was a perfect mathematical mirror to this. 

  • Deming argued that management must stop blaming workers and start fixing systems.
  • Box provided the exact tools (like EVOP and Response Surface Methods) that allowed those workers to actually study and fix the systems.
  • Box and Deming frequently cross-referenced each other. Box’s Center for Quality and Productivity Improvement (CQPI) at UW-Madison became one of the main academic hubs that actualized Deming’s management philosophies into practical engineering workflows. 

Kempthorne and Deming: The Battle Against “Sloppy Science” 

Deming was notoriously critical of American businesses using bad data to make decisions, famously saying, “In God we trust; all others must bring data.” But Deming also knew that bad data was worse than no data. 

  • This is where Oscar Kempthorne’s legacy intersected. Kempthorne’s rigid principles on experimental design and randomization became the backbone of Deming’s demands for statistical integrity. 
  • If a company wanted to implement Deming’s strict Quality Management standards, their engineers had to use the tight, bias-free experimental designs perfected by Kempthorne to ensure their quality tests were actually valid. 

🌟 The Combined Legacy

Ultimately, Deming provided the corporate culture change, Box provided the practical, adaptive tools for the factory floor, and Kempthorne provided the uncompromising mathematical guardrails. Together, their philosophies pulled American industry out of the 1980s crisis and laid the groundwork for modern frameworks like Six Sigma and Lean manufacturing. 

Would you like to look at a visual layout of an EVOP grid to see how the mathematics map out, or see a specific example of how Box’s industrial tools are used today in modern data science? 

Here is a breakdown of how a classic EVOP grid is mapped out by factory operators, followed by how George Box’s industrial principles are applied today in modern data science, A/B testing, and AI.


🗺️ 1. The EVOP Grid Layout

An Evolutionary Operation grid is designed to be simple enough to draw on a whiteboard right on the factory floor.

Let’s look at the example of a chemical plant adjusting Temperature and Pressure to maximize Yield (%). The current operating standard is the center point (0). The grid plots four tiny variations around it:

        Pressure (psi)
             ▲
             │
      (4) ───┼─── (3)   ◄─── Tiny increase in Pressure
       │     │     │
       │    (0) ───┼──────── Current Factory Standard
       │     │     │
      (1) ───┼─── (2)   ◄─── Tiny decrease in Pressure
             │
             └─────────────► Temperature (°C)
          Tiny      Tiny
        Decrease  Increase

Running the Cycle

Operators run the manufacturing line at these five specific points in a fixed, repeating sequence (e.g., 0 ➔ 1 ➔ 2 ➔ 3 ➔ 4).

  • At first, the background noise hides any differences.
  • After multiple cycles, the average yield at each point is calculated.
  • If point (3) consistently yields 86% while the center standard (0) yields 84%, the statistical evidence shows a true signal.
  • The Shift: Point (3) becomes the new center (0), a new grid is drawn around it, and the evolution continues.

💻 2. How Box’s Tools Power Modern Data Science

If you think EVOP and Box’s methods sound like things tech companies do today, you are exactly right. The algorithms powering the modern internet are digitized versions of George Box’s industrial theories.

🅰️ A/B Testing and Multi-Armed Bandits (Digital EVOP)

When Netflix tests two different thumbnails for a show, or Amazon tests two different layouts for a checkout button, they are running digital EVOP.

  • In data science, this has evolved into Multi-Armed Bandit algorithms.
  • Instead of a factory operator changing a valve setting, a machine learning algorithm introduces tiny, automated variations to web traffic to see which layout yields a higher conversion rate. Just like EVOP, it maximizes profit while simultaneously gathering data to optimize the system.

📈 Response Surface Methodology & Hyperparameter Tuning

In machine learning, data scientists have to train models (like Neural Networks or XGBoost). To make these models accurate, they have to tune settings called hyperparameters (like learning rates or tree depth).

  • Data scientists use Bayesian Optimization and Response Surface Methodology—a framework pioneered by George Box—to find the perfect settings.
  • Instead of guessing randomly, the algorithm maps out a “surface” of the model’s performance, calculates the mathematical slope, and quickly glides toward the peak performance zone with the fewest possible trial runs.

🤖 Bayesian Data Analysis

Box’s fierce defense of Bayesian statistics (which Oscar Kempthorne famously challenged) won out in the computing age.

  • Modern data science relies heavily on Bayesian inference for things like spam filters, predictive text, fraud detection, and algorithmic trading.
  • Box championed the idea that we should update our mathematical models as new data flows in. Today, that iterative loop is the foundational definition of Machine Learning.

💡 The Big Takeaway

George Box famously said, “All models are wrong, but some are useful.” Today’s tech giants live by this rule. Data scientists no longer chase a single, permanently “perfect” algorithm. Instead, they build systems that constantly run tiny, automated experiments—proving that Box’s 1950s factory-floor philosophy is the literal engine of the 2020s digital economy.

Would you like to look at the mathematical formula behind Box’s response surfaces, or explore the specific textbooks he wrote that data scientists still study today?

No, I want something similar to what you did to George Box, but with Kemphorne in mind

How Kempthorne shielded scientists from fooling themselves

While George Box gave data science its fast, adaptive engineering loops (like A/B testing), Oscar Kempthorne provided the heavy mathematical discipline that prevents data scientists from fooling themselves.

If Box’s legacy is the engine of automated optimization, Kempthorne’s legacy is the structural integrity of data architecture. Here is how Kempthorne’s rigid, anti-bias philosophies from Iowa State power modern Machine Learning, Causal Inference, and Big Data today.


🎲 1. The Randomization Guardrail (The Core of True Causal Inference)

Kempthorne famously argued that you cannot trust a statistical model just because the math looks elegant. He proved that the only thing that makes a data conclusion valid is the physical act of randomization.

How this applies today:

  • The War Against “Spurious Correlations”: Today’s AI models are incredibly good at finding patterns, but they struggle with causality (knowing if X actually causes Y, or if they are just random coincidences). For instance, an AI might notice that people who buy premium dog food have higher credit scores, but changing their dog food won’t raise their credit score.
  • Tech’s Gold Standard: Big Tech companies (like Meta, Google, and Uber) rely on Kempthorne’s exact principles to run Randomized Controlled Trials (RCTs). Before a company claims a new algorithm feature boosted revenue, Kempthorne’s mathematical guardrails are used to ensure users were randomized perfectly, filtering out hidden biases (like time-of-day or user demographics) that would otherwise corrupt the data.

🧬 2. The Linear Models Pipeline (The DNA of Feature Engineering)

Kempthorne’s 1952 masterpiece, The Design and Analysis of Experiments, laid out the strict mathematical foundation for breaking a complex system down into its individual components. In statistics, this is called the Analysis of Variance (ANOVA) and Linear Models.

    [ Kempthorne's Factorial Decomposition ]
    
    Total Variance in Data
         │
         ├──► Main Effect of Factor A (e.g., UI Color)
         ├──► Main Effect of Factor B (e.g., Load Speed)
         └──► Interaction Effect (A × B) ◄─── (The "Magic" Combo)

How this applies today:

  • Feature Selection in Machine Learning: When data scientists build models with hundreds of variables (or “features”), they use Kempthorne’s foundational work on factorial designs to isolate exactly which variables actually matter and which ones are just noise.
  • Understanding Interactions: Kempthorne specialized in “interaction effects”—how two things work together. In modern recommendation engines (like Spotify or TikTok), the algorithm isn’t just looking at what music you like (Factor A) or what time of day it is (Factor B); it is isolating the interaction of what music you like at that exact time of day to give you the perfect recommendation.

🛡️ 3. The Linear Mixed Models (LMM) in Advanced Analytics

Kempthorne was deeply involved in quantitative genetics, where he had to model how traits are passed down through complex family trees. To do this, he helped pioneer Linear Mixed Models, which separate “fixed” effects from “random” environmental noise.

How this applies today:

  • Hierarchical and Grouped Data: Modern data science frequently deals with data that is clustered. For example, if an EdTech company is analyzing student test scores across the country, students are clustered in classrooms, which are clustered in schools, which are clustered in districts.
  • The Algorithm: Data scientists use Kempthorne’s Mixed Models to separate the true effect of a new learning software from the random, localized noise of a specific classroom or teacher. It keeps algorithms accurate when applied to massive, chaotic datasets.

⚖️ Box vs. Kempthorne in the 21st Century

To summarize how both titans live on in modern tech:

  • When you want to build a system that adapts on the fly—tuning a self-driving car’s sensors or maximizing ad clicks through continuous iteration—you are using George Box’s pragmatic, Bayesian philosophy.
  • When you need to prove a system actually works—validating a medical AI’s diagnostic accuracy, auditing an algorithm for algorithmic bias, or ensuring an airplane’s software is flawlessly reliable—you are using Oscar Kempthorne’s rigid, frequentist guardrails.

Como foi minha experiência no Mestrado em Qualidade na UNICAMP Claude

versão Claude sem Ademir

Uma experiência totalmente diferente da que eu teria posteriormente na EESC – USP.

Talvez porque eu quando entrei na UNICAMP para instalar o Mestrado em Qualidade eu ignorava totalmente com funciona e o que é o mundo acadêmico e quando eu entrei na EESC – USP, eu já tinha tido suficiente experiência para entender como era realmente.

Antes que eu me aproximasse da Unicamp, que ocorreu por causa do meu projeto de instalar um Mestrado Profissiona na área da qualidade, eu tinha uma idéia até certo ponto paradoxal. Por um lado, um Professor Doutor, PhD na nomenclatura americana, doutorado é o nível máximo de educação formal e titulação acadêmica que você pode obter no Brasil e no mundo. Na prática do sistema educacional brasileiro, PhD e Doutor significam exatamente a mesma coisa. [1, 2, 3]

Por outro lado, tive experiências profissionais frustrantes como PhDs e, talvez por sentimento de inferioridade, já que não tenho nenhum título formal de qualquer curso universitário, em certa época eu os desafiava, especialmente porque eu dispunha de mainframes e seus programas worldwide, e, na verdade, era covardia; eles não conseguiam nem entender os problemas que eu levava para eles, quanto mais resolvê-los.

A Torre de Marfim e o Chão de Fábrica: quando a realidade bate à porta da academia

Não vou entrar nesta seara, porque foge ao objetivo deste post; apenas vou tentar resumir a explicação, ou melhor, a crítica, que George Orwell teve para isto. Algumas disciplinas têm o que ele chama de mecanismo autocorretivo da realidade. Em engenharia, a ponte cai ou não cai. Em medicina, o paciente melhora ou não melhora. Em física, o experimento confirma ou refuta. A realidade entrega seu veredito sem cerimônia e sem possibilidade de recurso. Nesses campos, ideias parasitárias — aquelas que sobrevivem não por serem verdadeiras, mas por serem convenientes para quem as sustenta — têm vida curta, porque o custo de sustentá-las aparece rapidamente e é alto.

Em outras disciplinas — certas humanidades, certas ciências sociais — esse mecanismo está desconectado. É possível construir uma carreira inteira sobre ideias que nunca precisam se provar no mundo real, porque o critério de validade não é funcionar, mas impressionar os pares certos dentro do sistema certo. E aí,, o intelectual que vive genuinamente isolado da realidade pode se tornar promulgador de nonsense com todas as credenciais formais para fazê-lo com autoridade.

Quando entrei pela primeira vez na UNICAMP para apresentar um projeto de mestrado em qualidade, entendi visceralmente o que isso significa.

Eu vinha da IBM. Mais especificamente, da fábrica de Sumaré, onde era responsável por todos os sistemas de qualidade dos produtos que saíam daquela linha — e tendo participado do desenvolvimento do 4341, o que me dava uma visão bastante precisa de onde as coisas pegavam. Não era teoria. Era o tipo de conhecimento que só se adquire quando se tem responsabilidade real sobre algo que tem que funcionar — porque quando não funciona, todo mundo sabe, e sabe rápido.

Eu discuto meu primeiro encontro com os PhDs da Unicamp encarregados de entender, julgar e aprovar ou desaprovar meu Mestrado sobre Qualidade, que está descrito em detalhes no site que fiz sobre toda aquela experiência, que foi o primeiro Mestrado Profissional Strictu Sensu que a Unicamp criou e aqui, vou falar mais sobre a vivência depois que o Mestrado começou a funcionar.

Como era “trabalhar” no mestrado da Unicamp

Minha intenção neste post é tentar transmitir uma ideia de como era trabalhar no mestrado da Unicamp que ajudei a criar. Mas a primeira dificuldade é justamente a palavra trabalhar.

Numa universidade, especialmente quando se está tentando criar alguma coisa nova, você não vai simplesmente executar um trabalho previamente definido. Você vai procurar ideias, conhecimentos e pessoas que possam ajudá-lo a resolver um problema.

Passei a imaginar a universidade como uma espécie de fábrica de tijolos.

Com tijolos podemos construir uma casa, uma igreja, uma escola ou uma fábrica. Mas não existe um tijolo universal que resolva qualquer construção. Dependendo do edifício que se pretende erguer, serão necessários determinados materiais, dimensões, propriedades e técnicas — todos, naturalmente, obedecendo às regras que permitem que aquilo continue sendo um edifício.

Com o conhecimento ocorre algo parecido.

Uma Escola de Engenharia possui disciplinas, professores, laboratórios, pesquisa, métodos, regras acadêmicas e critérios para conferir um título. Esses são os “tijolos”. Mas o edifício que eu precisava construir não havia sido desenhado pela universidade.

Eu sabia razoavelmente bem qual era o edifício. Sabia também de vários tijolos de que precisaria. O que eu não sabia era como produzi-los dentro de uma universidade, respeitando ao mesmo tempo sua lógica acadêmica.

E havia uma razão para isso.

O problema que tínhamos pela frente não havia nascido na universidade. Havia nascido de um projeto industrial: nacionalizar 50% dos mainframes para que pudessem ser fabricados no Brasil.

Mesmo contratando engenheiros oriundos das melhores escolas do país, descobrimos uma coisa inevitável: parte do conhecimento de que precisávamos simplesmente não havia sido ensinada a eles. Não por deficiência das universidades. Seria praticamente impossível. A tecnologia dos computadores estava explodindo e a fronteira industrial avançava mais depressa do que qualquer currículo universitário conseguiria acompanhar.

Portanto, não podíamos simplesmente perguntar à universidade: “Que cursos vocês têm?”

A pergunta tinha de ser invertida: “Este é o problema que precisamos resolver. Que conhecimentos e competências precisamos reunir para resolvê-lo — e como transformá-los num programa acadêmico legítimo?”

Eu sabia qual era o edifício que queria construir. Sabia aproximadamente de que tijolos precisaria. O que não sabia era como produzi-los — e, antes disso, precisava descobrir quem, no mundo, estava produzindo os melhores.

Era óbvio que todo o conhecimento necessário não existia na Unicamp. Nem seria razoável esperar que existisse. Estávamos lidando com problemas decorrentes de uma tecnologia em transformação extremamente rápida e de uma maneira de pensar sobre Qualidade que também estava mudando.

A primeira providência, portanto, foi identificar centros de reconhecida competência e ir ver o que eles estavam fazendo.

Esta identificação redundou numa viagem inicial que está descrita em detalhes em: Treinamento Inicial

No MIT participamos de um simpósio que tratava justamente do problema que nos interessava, inclusive examinando o que o Japão estava fazendo. Em Detroit fizemos o curso de Taguchi Methods, do American Supplier Institute. Fomos ao centro de excelência de Marquette, à ASQC, a Rutgers e ao Center for Quality and Productivity Improvement da University of Wisconsin–Madison, onde tivemos contato com o ambiente intelectual de George Box. Passamos também pelo IBM Education Center, em Thornwood.

Isso teve um efeito que nenhum relatório teria produzido: o pessoal sentiu na pele do que se tratava.

Deixamos de discutir abstratamente como deveria ser um programa de pós-graduação em Qualidade. Passamos a conhecer diretamente quem estava trabalhando na fronteira, o que estava ensinando, que métodos utilizava e, principalmente, o que daquilo servia para o problema que nós tínhamos no Brasil.

Um dos participantes acabou efetivamente fazendo seu pós-doutorado em Harvard; outro, algum tempo depois, seguiu caminho semelhante em outro centro.

Uma digressão filosófica

Vamos aproveitar este duplo momento, o atual, onde estou “arrumando minhas coisas” e o do post, quando elas estavam acontecendo e.fazer uma pausa temporária no assunto principal para refletir sobre questões mais profundas, conceituais sobre o que está jogo.

Paulo Silveira, que eu contei em detalhe como ele entrou no nosso projeto em O PBQP e o Mestrado de Qualidade, tinha outras idéias além das que nos impulsionaram inicialmente. O objetivo dele era que aquilo que estávamos fazendo na Unicamp pudesse gerar experiências semelhantes em outros lugares do país. E foi, em boa medida, o que aconteceu.

O programa da Unicamp acabaria gerando centenas de dissertações de mestrado. UFRJ e UFSC desenvolveriam iniciativas na mesma direção, ainda que em escalas diferentes. CNPq, FAPESP e outras instituições tradicionais de fomento começaram também a incorporar uma lógica que permitia justificar bolsas para esse tipo de formação. Foram tantas que perdi a conta.

Mais tarde, fui chamado diversas vezes para avaliar e validar programas semelhantes em diferentes partes do Brasil.

Ou seja, aquilo que havia começado como a necessidade muito concreta de encontrar alguns “tijolos” para resolver nossos próprios problemas começou a produzir outras fábricas de tijolos.

O que eu só fui entender melhor depois

Naquela época eu estava fazendo. Só mais tarde fui estudar teoricamente o que havia por trás daquilo que eu fazia.

Depois dessa experiência, e já envolvido com outros problemas do ensino superior, comecei como aluno especial um doutorado na Faculdade de Educação da própria Unicamp e escolhi justamente disciplinas relacionadas com currículo e com as diferentes concepções de universidade.

Descobri que aquilo que eu havia vivido na prática fazia parte de uma discussão muito mais antiga.

Não existe propriamente um modelo de universidade, embora eu tenha dissertado sobre o tema em algumas aulas como aluno especial que frequentei num curso para doutorado e que pode ser visto em: Modêlos de Universidade

Havia a tradição inglesa, associada à formação intelectual e liberal; a tradição francesa, que teve enorme influência na formação das antigas escolas profissionais brasileiras; a tradição alemã de Humboldt e Jaspers, baseada na pesquisa e na união entre pesquisa e ensino; e a concepção americana, que encontrei particularmente bem expressa por Whitehead, aproximando ensino, pesquisa, criatividade, aplicação e progresso da sociedade.

Whitehead dizia, em essência, uma coisa que eu havia aprendido de outra maneira na IBM: conhecimento que não é posto em movimento corre o risco de virar conhecimento inerte. No trabalho que fiz na época, encontrei justamente a ideia de que uma descoberta de laboratório pode transformar-se em invenção técnica e esta, por sua vez, em inovação industrial; para isso precisam existir contatos e canais entre todos os que participam da execução.

E a educação universitária deveria ensinar não apenas princípios gerais, mas a capacidade de aplicá-los a diferentes situações concretas.

Comecei então a distinguir três coisas que muitas vezes misturamos: Education, Skill e Know-how.

Educação forma a capacidade intelectual. Skill é a capacidade individual de fazer alguma coisa. Know-how é algo maior: uma capacidade organizada e coletiva de realizar.

Uma pessoa sabe determinadas coisas. Mas dizemos que a IBM sabe fazer computadores, ou que uma empresa aeronáutica sabe fazer aviões. Esse “saber fazer” não está inteiro na cabeça de ninguém. Está distribuído entre pessoas, métodos, laboratórios, equipamentos, experiência e organização.

Talvez seja exatamente isso que uma boa Escola de Engenharia deva ajudar uma sociedade a construir.

Da IBM ao aluno que não havia jantado

Tive a sorte de enxergar esse problema de posições quase opostas.

Em Endicott, trabalhando no desenvolvimento dos diagnósticos do IBM 4341, encontrei talvez um dos ambientes mais sofisticados que seria possível imaginar. A IBM podia selecionar gente excepcional, reunir conhecimento de altíssimo nível e colocar à disposição os recursos necessários para resolver problemas extremamente difíceis. Como costumávamos dizer: money is no objection.

Depois conheci por dentro a pós-graduação da Unicamp.

Mais tarde, na EESC-USP em São Carlos, dei aula fechando um curso de Engenharia de Produção para alunos altamente selecionados e procurei utilizar a pedagogia mais avançada que conhecia para fazê-los usar, em problemas reais, aquilo que haviam aprendido durante o curso.

E depois fui trabalhar como assessor numa grande rede privada de ensino superior. A realidade era outra.

Havia alunos que trabalhavam o dia inteiro e iam estudar à noite. Lembro-me de algumas vezes comprar um sanduíche para um aluno que claramente havia vindo direto do trabalho e não tivera sequer tempo ou dinheiro para jantar. Como ensinar esse aluno?

Certamente não fingindo que ele era o mesmo jovem que eu havia encontrado nos ambientes privilegiados das melhores universidades ou dos laboratórios da IBM.

Foi então que comecei a perceber um paradoxo: Talvez estivéssemos fazendo a pergunta errada

É natural que uma universidade brasileira queira ser comparada ao MIT, Harvard ou às melhores universidades europeias. O problema começa quando concluímos que todas as instituições de ensino superior devem procurar se transformar numa versão delas.

Curiosamente, nem os próprios Estados Unidos fizeram isso.

Quando estudei o sistema americano, encontrei uma enorme diversidade: Research Universities, Doctoral Universities, Masters Colleges, universidades estaduais, instituições profissionais, colleges residenciais, universidades urbanas e muitas outras. Cada uma procura fazer alguma coisa.

Isso me levou a uma conclusão que, se eu tivesse terminado aquele doutorado, provavelmente teria sido minha tese:

Não existe um modelo ideal único de universidade. Uma instituição de ensino superior deve ser julgada pela coerência entre aquilo que pretende fazer, os alunos que efetivamente recebe, as necessidades da sociedade em que está inserida e aquilo que consegue acrescentar a ambos.

Isso não significa aceitar mediocridade. Muito pelo contrário.

Significa que a excelência não deveria ser medida apenas pela fotografia da saída, mas também pela transformação produzida entre a entrada e a saída.

Uma universidade que recebe alunos excepcionalmente preparados e entrega profissionais excepcionalmente preparados pode ser uma excelente universidade.

Mas uma faculdade que recebe um rapaz que estudou numa escola deficiente, trabalha oito horas por dia, chega à aula à noite sem jantar e, quatro ou cinco anos depois, o transforma num profissional ainda que com competencia interior, também pode ter realizado um trabalho educacional extraordinário.

São missões diferentes.

O Brasil precisa de instituições capazes de produzir ciência na fronteira mundial. Precisa de lugares nos quais seja possível concentrar os melhores cérebros e equipamentos para resolver problemas extremamente difíceis. Precisa de Escolas de Engenharia capazes de levar uma ideia científica até uma coisa que efetivamente funcione.

Mas precisa também educar milhões de brasileiros que não tiveram o ponto de partida de um aluno do MIT.

Adequar-se ao Brasil não significa conformar-se com o Brasil que existe. Significa começar nele para chegar ao Brasil que queremos construir.

Afinal, o que significava “trabalhar” naquele mestrado?

Agora posso finalmente responder à pergunta com que comecei este post.

Não era simplesmente dar aulas. Não era administrar um curso. Não era fazer pesquisa no sentido convencional.

Era começar com um problema que existia fora dos muros da universidade, descobrir quais conhecimentos seriam necessários para enfrentá-lo, procurar onde esses conhecimentos estavam, trazer pessoas, ideias e métodos, submetê-los à disciplina acadêmica e finalmente devolvê-los ao mundo na forma de pessoas capazes de fazer alguma coisa que antes não sabíamos fazer.

Talvez por isso eu tenha chegado à imagem da fábrica de tijolos.

A universidade pode produzir tijolos extraordinários: ciência, teorias, professores, pesquisadores, artigos, teses, laboratórios e patentes. Tudo isso é indispensável. Mas o tijolo não é o edifício.

E talvez a pergunta mais importante para uma universidade — e particularmente para uma Escola de Engenharia — continue sendo aquela que, sem saber formular dessa maneira, nós fizemos quando começamos aquele mestrado:

Que edifício precisamos construir?

Somente depois disso faz sentido perguntar: De que tijolos precisamos?

E, se eles ainda não existirem no Brasil, talvez seja exatamente aí que comece o verdadeiro trabalho de uma universidade.


Rensselaer Polytechnic Institute (RPI) e a Rede Ferroviária do Japão

Localizada em Troy, NY, que, recentemente em 2023, fui visitar em Troy, no estado de Nova York, a escola de Engenharia onde meu neto Tiago se formou, no Rensselaer Polytechnic Institute. E lá encontrei uma história do século XIX que me fez lembrar de tudo isso…

Na segunda metade do século XIX, o Japão recém-aberto ao Ocidente enviou jovens a Troy, no estado de Nova York, para estudar Engenharia no Rensselaer. Alguns daqueles engenheiros voltaram ao Japão e participaram diretamente da construção e organização de seu nascente sistema ferroviário; dois deles, Souichiro Matsumoto e Seijiro Hirai, chegariam à direção das ferrovias imperiais japonesas.

Mas nem sempre os tijolos viram edifícios…

A história das ferrovias brasileiras é um bom contraponto à ideia dos “tijolos” que usei para descrever a criação do nosso mestrado.

Um país pode ter conhecimento, engenheiros, universidades e até projetos. Pode, portanto, possuir muitos dos tijolos. Mas isso não significa que o edifício será construído.

No começo do século XX, o Brasil possuía uma rede ferroviária bastante significativa para o estágio de desenvolvimento do país. No início dos anos 1950, as 18 ferrovias que mais tarde seriam reunidas na RFFSA somavam cerca de 37 mil quilômetros de linhas.

Não era, porém, uma verdadeira malha nacional integrada. Grande parte das ferrovias havia sido construída no século XIX obedecendo essencialmente a uma lógica: Fazenda ou mina → porto e não: cidade → cidade → região → país.

Eram companhias diferentes, com bitolas distintas e sistemas pouco integrados, construídos principalmente para transportar café, minério e outros produtos de exportação.

Depois da Segunda Guerra Mundial, o Brasil tomou uma decisão que mudaria definitivamente essa história.

Em vez de desenvolver rodovias e ferrovias como sistemas complementares, passou a fazê-las competir entre si. A partir da segunda metade dos anos 1940, chegaram a ser construídas estradas paralelas às ferrovias já existentes.

Com Juscelino Kubitschek, essa opção ganhou enorme velocidade.

É simplista dizer que “JK acabou com as ferrovias porque preferia automóveis”. O automóvel era muito mais do que um meio de transporte. Fazia parte de um projeto de industrialização.

A implantação no Brasil de empresas como Volkswagen, Mercedes-Benz, Ford, GM e Willys impulsionava a siderurgia, a borracha, o vidro, o petróleo, as autopeças, as oficinas, a construção pesada e a criação de milhares de empregos. O Plano de Metas, a construção de Brasília e a indústria automobilística faziam parte de uma mesma visão de desenvolvimento.

Além disso, a estrada tinha uma vantagem extraordinária para um país continental que precisava crescer depressa.

Uma estrada pode começar a ser utilizada à medida que avança. Uma ferrovia exige trilhos, material rodante, sinalização, terminais e uma operação coordenada para funcionar como um sistema.

Naquele momento, portanto, a escolha pela rodovia fazia sentido. O problema veio depois.

Quanto mais estradas eram construídas, mais atraente se tornava o transporte por caminhão. Quanto mais carga migrava para as estradas, menos receita sobrava para as ferrovias. Com menos receita, diminuíram os investimentos e a manutenção. A ferrovia piorava e, justamente por piorar, perdia ainda mais carga para o caminhão.

Criou-se aquilo que hoje chamamos de um loop de feedback positivo.

O Brasil ainda tentou reagir. Em 1957, no próprio governo JK, criou a RFFSA, reunindo 18 ferrovias federais para tentar administrá-las, reequipá-las e modernizá-las.

Mas a direção fundamental já estava estabelecida: a rodovia havia se tornado o eixo do sistema de transportes brasileiro.

Nas décadas seguintes, o investimento ferroviário continuou insuficiente. A deterioração tornou-se particularmente grave nos anos 1980. Em 1989, segundo o DNIT, os investimentos da RFFSA haviam caído para apenas 19% do que eram no início da década.

Nos anos 1990 veio outra tentativa de solução: as concessões à iniciativa privada.

Elas recuperaram partes importantes e economicamente viáveis do sistema, mas consolidaram uma ferrovia especialmente eficiente naquilo em que ela é mais rentável: transportar enormes quantidades de minério e produtos agrícolas por determinados corredores até os portos.

O que não fizemos foi transformar as ferrovias numa verdadeira malha nacional. E aí aparece o paradoxo.

Poucos países têm características tão favoráveis ao transporte ferroviário de cargas quanto o Brasil. Temos dimensões continentais, enormes volumes de minério e grãos e distâncias de centenas ou milhares de quilômetros entre as regiões produtoras e seus destinos.

O caminhão é uma invenção extraordinária. Sua grande vantagem é justamente chegar a qualquer lugar, sendo facil de carregar e descarregar e ja indo direto ao destino com a carga.

Mas não é necessário que aquilo que chega a qualquer lugar faça também sozinho todo o percurso.

A lógica poderia ser: fazenda → caminhão → ferrovia → caminhão → destino ou: fazenda → caminhão → ferrovia → porto → navio.

O caminhão seria o sistema capilar. A ferrovia, as grandes artérias.

O mais interessante, entretanto, não é concluir retrospectivamente que aqueles que escolheram as rodovias estavam simplesmente errados. Provavelmente não estavam.

Para o Brasil dos anos 1950 — industrialização urgente, construção de Brasília, necessidade de ocupar o interior e recursos limitados — a opção rodoviária tinha argumentos poderosos a seu favor. O erro foi outro.

Transformamos uma solução adequada a determinado momento histórico numa solução permanente.

Construímos indústrias, cidades, cadeias logísticas, profissões e interesses econômicos em torno da estrada. Cada nova decisão reforçou a anterior, até que aquilo que havia sido uma escolha passou a parecer uma inevitabilidade.

E é aí que volto aos meus tijolos.

Um país não se desenvolve simplesmente porque possui boas Escolas de Engenharia ou porque forma bons engenheiros. É preciso haver um edifício que se decidiu construir.

O Japão do século XIX decidiu que precisava de ferrovias e decidiu mandar jovens ao exterior para aprender a construí-las.

Anos depois, em 1995, quando fui à Escola de Engenharia de São Carlos para assumir minha bolsa de pesquisador em Melhoria da Qualidade de Ensino na Engenharia e me encontrei com seu diretor, o professor Rosalvo Tiago Ruffino, que se transformou num dos melhores amigos que já tive, uma das primeiras coisas que ele quis saber foi: “O Dino Ferraresi ainda está lá? O que aconteceu com as ideias dele?”

Vim a saber muito tempo depois que Dino Ferraresi havia sido orientador de sua tese de doutorado.

No Brasil também tivemos engenheiros que perceberam a importância de desenvolver competências. Dino Ferraresi, na época da implantação da Engenharia Mecânica da Unicamp, chegou a imaginar uma capacidade específica de pesquisa e desenvolvimento em Engenharia Ferroviária.

O laboratório que imaginava não chegou a se materializar daquela forma.

A competência ferroviária, porém, não desapareceu. Ela continuou sendo desenvolvida na Unicamp e veio a se institucionalizar no Laboratório Ferroviário — LaFer — que até hoje forma mestres e doutores e desenvolve pesquisas diretamente ligadas aos problemas reais do transporte ferroviário brasileiro.

Nunca esqueci a pergunta que Rosalvo me fez. Talvez porque ela resume muito mais do que a história de um laboratório que não foi construído.

Toda a estratégia por trás do desenvolvimento do Brasil seguia a mesma lógica quando se tratava de adquirir o know-how para fazer algo que se privilegiasse, por qualquer razão que fosse.

O logo da Unicamp, se analisado, depende exatamente disto:

A figura do logotipo da Unicamp é um desenho esquemático do plano diretor urbanístico do próprio campus de Barão Geraldo, em Campinas. Idealizado pelo reitor Zeferino Vaz e criado na década de 1970 pelo artista plástico Max Schiefer e pelo arquiteto João Carlos Bross, o símbolo representa a irradiação do conhecimento de forma abstrata e sem contornos definidos.

Cada elemento geométrico possui um significado específico:

  • Círculo central branco: Representa o Ciclo Básico do campus, projetado como a grande praça central de integração e o ponto de encontro de pessoas.
  • Três círculos vermelhos: Simbolizam as três grandes áreas do conhecimento humano que se conectam no campus — Superior: Ciências Biológicas; Inferior: Ciências Exatas; Médio à direita: Humanidades.
  • Linhas radiais: Mostram o conhecimento se espalhando e sendo irradiado para a sociedade.
  • 13 polígonos pretos: Formam o contorno do desenho e fazem alusão direta às 13 listras da bandeira do Estado de São Paulo, destacando o caráter público e estadual da instituição.

Ora, dentro dos círculos vermelhos podem ser criadas fábricas de tijolos dentro do conceito que descrevi, do que você quiser!

Claro que Zeferino Vaz não devia imaginar isto como “fábrica de tijolos”, mas com certeza sua ideia seguia essa lógica e eu soube, depois de ter vivido lá, que ele não apenas pensava na teoria, mas também na prática, projetando um laboratório para cada uma dessas “fábricas de tijolos”, como eu chamo, que na prática são os Institutos, com seus laboratórios para juntar a teoria com a prática.

No caso do Dino Ferraresi, que o Rosalvo me perguntou, o Centro de Tecnologia que ele ajudou a criar desenvolveu posteriormente um Programa de Engenharia Ferroviária em cooperação com a Alemanha, além de testes ferroviários ligados ao projeto Carajás.

E isso acabou deixando descendência institucional: a Unicamp mantém hoje o LAFER — Laboratório Ferroviário, trabalhando com dinâmica de composições, frenagem, interação veículo-via etc.

Creio que este exemplo sumariza o que aconteceu com a Unicamp.

______________________________________________________________________________________________________

Teoria e prática

Como eu explico a formação de minha persona profissional, pertenço a um grupo que substituiu a falta de profissionais devidamente formados nas escolas e fomos treinados pelas empresas que se instalaram no Brasil naquele período de intensíssimo progresso.

Os poucos engenheiros que estavam disponíveis automaticamente entravam em posição de gerência ou chefia por razões óbvias, mas a formação deles refletia um tempo em que o Brasil como produtor de bens modernos como automóveis, eletrodomésticos, máquinas operatrizes, etc., incluindo bens de consumo como detergente, shampoos, sabonetes, etc. simplesmente engatinhava. Pela população que tinha na época, era claramente um mercado de consumo pronto para explodir e isto que atraía os investimentos das multinacionais. Nós, que fizemos esta revolução, não percebíamos que na prática, estávamos desempenhando o papel de engenheiros e profissionais equivalentes na parte prática, orientados pelos verdadeiros engenheiros treinados e capacitados que nos ensinavam como fazer e não a parafernália teórica que lá na terra deles havia gerado o perfil profissional deles.

Na prática, isto gerava uma porção de problemas, pois os chefes/gerentes não entendiam o que fazíamos e normalmente supervisionavam sem se meter, salvando a cara da melhor forma possível. Quando os temperamentos e idiosincrasias combinavam, não dava problema, a coisa rodava, mas se houvesse alguma antipatia, ou o cara fosse excessivamente incompetente e daí ele sentisse medo de que a alta chefia percebesse e pegasse algum de nós sem diploma e o substituísse, acontecia o que a gente chamava de estratégia de Herodes, que ficou famoso como personagem da Bíblia que mandou matar todos os bebês na esperança de matar Jesus, que iria nascer e ser o rei dos reis.

Passei por uma destas na Clark. Eu tinha um desempenho excelente. Montei a linha das empilhadeiras Michigan e detectei que as máquinas que vinham dos Estados Unidos como “investimento” não tinham capacidade de usinar as engrenagens e outras peças dos câmbios que fabricávamos, pois, na verdade, eram scraps do tempo da guerra, quando os fabricantes tinham que produzir quantidade e qualidade, para algo que vai ser destruído em alguma batalha; qualquer coisa servia. As máquinas vinham com uma placa que explicava, em inglês, claramente: “esta máquina não representa os padrões de qualidade de nossa empresa pela instrução XYZ do board de guerra”. Como isto implicava que não conseguíamos atingir os padrões dos câmbios atuais, eu cometi a besteira de levar o problema ao gerente-geral da engenharia, um japonês que ficou totalmente constrangido e não teve explicação para isso. Eles já sabiam disto, e eu ainda vi a chegada de algumas máquinas modernas suíças, que eram impressionantes. Um dos problemas que dava na linha das Michigans era que, quando prontas, eram supostas a levantar do chão — não me lembro de quantos quilos — até a posição vertical e não conseguiam, pois a usinagem dos êmbolos dos cilindros dos braços que levantavam o peso não atingia a especificação do projeto e parava no meio do caminho, ou melhor, a 3/4 da altura suposta.

Fui despedido sem explicação, o que foi ótimo, pois entrei na Bosch e lá o “approach” era oposto e me dei muito bem, como conto em Swift, Gessy Lever, Bosch

Apesar de todas estas experiências, eu achava natural que as pessoas com diploma, mesmo incompetentes, ocupassem posições de mando, desde que não enchessem o saco, pois eu não tinha atração alguma por mandar, eu gostava de fazer.

Com esta mentalidade eu fui apresentar o projeto de mestrado em qualidade para uma plateia de PhD’s na Unicamp, morto de medo, mas não inseguro, coisa que nunca fui, mas com a impressão que eu estava diante do suprassumo da sabedoria e competência, que deveria ser respeitada e reverenciada.

Levei um problema para eles que tinha chegado ao meu departamento, não sei exatamente porque, mas era o seguinte:

A IBM, fábrica Sumaré, tinha uma população trabalhando lá e morando em Campinas, de aproximadamente 1000 pessoas.

Nosso horário de entrada, para bater o ponto, era chegar no estacionamento em torno de 7:45 para andar até nosso lugar de trabalho.

A viagem, a partir de um ponto central de Campinas, naquele tempo de estrada pista única, demorava 40 minutos.

Foram estabelecidos um certo número de pontos de embarque, não me lembro quantos, em que quem quisesse vir de ônibus deveria estar e o ônibus deveria passar pelo último ponto em torno de 7:00 para chegar na IBM até 7:45.

Como cada ônibus carregava 40 passageiros, teoricamente, se todos viajassem cheios, bastariam 25 ônibus.

Na prática, por mais que a Caprioli, do Tonhão se esforçasse, usavam mais de 50 ônibus e havia uma reclamação constante, porque algumas linhas a viagem era menor que 40 minutos, outras maior, tinha gente que andava demais, enfim, só reclamação, sem nem pensar no custo.

Precisávamos de uma solução que otimizasse tudo isto e eliminasse as queixas.

Fui percebendo, pois o projeto implicava em saber coisas que eu achava que para eles era tabuada do 2, que eles não demonstravam saber, e concluí que não era nem o que eu pensava, nem o que parecia, pois se tem uma coisa que, no Brasil, quem tem Dr. no nome sabe fazer, é o papel…

Devo esclarecer que isto não se aplica a todos que vivem ou saíram da Unicamp, USP, etc. Encontrei gente muito competente e boa, que se tornaram amigos meus, mas todo cuidado é pouco quando, por exemplo, você for fazer uma consulta médica e o médico está vestido com um jaleco que deveria ser usado na Unicamp que mostra bordado que ele é catedrático, ou coisa que o valha, toma cuidado…

Infelizmente, os bons pagam pelos maus e isto é uma nódoa que não precisava existir.

Um problema que não dizia qual matéria usar

Em certo momento, levei ao grupo da Unicamp, que ouviu o projeto do Mestrado em Qualidade, um problema absolutamente real. A IBM tinha cerca de mil funcionários que utilizavam ônibus fretados. Como cada ônibus comportava aproximadamente 40 passageiros, teoricamente 25 ônibus poderiam transportar todo mundo. Na prática, a Caprioli precisava de mais de 50.

Nosso horário de entrada exigia chegar ao estacionamento por volta das 7:45. De um ponto central de Campinas até a fábrica, naquele tempo, ainda por estrada de pista única, eram aproximadamente 40 minutos. Havíamos estabelecido diversos pontos de embarque pela cidade, mas o resultado era ruim: algumas linhas demoravam demais, outras faziam percursos pouco razoáveis, havia funcionários que precisavam andar muito até o ponto, ônibus circulavam com lugares vazios e as reclamações eram constantes.

Coloquei o problema na mesa e desafiei aquele grupo de PhDs a resolvê-lo.

Vieram várias explicações sobre por que o problema era difícil, as muitas variáveis envolvidas, as limitações etc., mas, para minha surpresa, ninguém parecia ter uma ideia muito clara de como chegar a uma solução. No fim, devolveram o desafio para mim.

Parti para a luta.

A IBM mantinha uma biblioteca mundial de programas desenvolvidos em diferentes países e disponíveis para quem, dentro da companhia, precisasse deles. Procurando ali, descobri na Alemanha um programa destinado a rotear caminhões frigoríficos.

Esses caminhões tinham apenas uma porta de carga, na traseira. Era necessário combinar a rota com a disposição dos produtos de tal maneira que, na primeira parada, a mercadoria daquela entrega estivesse acessível; depois a da segunda, e assim sucessivamente até esvaziar o caminhão.

Percebi que o nosso problema, abstraído suficientemente, era parecido. Caminhões podiam virar ônibus, produtos podiam virar pessoas e locais de entrega podiam virar pontos de embarque.

Pedi o programa à Alemanha. Isto era 1974. A IBM já possuía uma rede internacional de comunicações e o programa foi transmitido por satélite para São Paulo, onde foi gravado em fita magnética. Pedi a fita, consegui emprestado um dos sistemas que ficavam disponíveis montados, carreguei o programa e o rodei.

A máquina “sentou”.

Ficou aproximadamente três horas processando até produzir uma primeira solução. Não era ainda aquilo que queríamos. Fomos modificando condições e restrições, rodando novamente e ajustando os resultados até chegar a uma solução que funcionasse.

Reduzimos os ônibus para 35/40 dependendo da mobilidade que o grupo apresentava por mudanças, etc. e as viagens ficaram mais parecidas e as reclamações desapareceram.

O mais curioso é que eu nunca soube — e continuo não sabendo — exatamente qual matemática os alemães haviam colocado dentro daquele programa. E talvez essa seja parte da história.

Quando fiz o curso básico de Engenharia, Cálculo foi um sofrimento. Lembro até hoje de ter passado na disciplina e, voltando à noite da cidade onde estudava, Itatiba, para Campinas, parar o carro na estrada, sob uma lua extraordinariamente brilhante, e rezar agradecendo a Deus por ter conseguido passar. Sempre fui péssimo quando me apresentavam Cálculo, derivadas e integrais “a seco”.

Paradoxalmente, sempre fui muito bom em resolver problemas que exigiam cálculo quando havia um computador à disposição.

Mais tarde, quando dei aulas aos alunos do quinto ano de Engenharia, na EESC – USP S.Carlos, procurei fazer justamente o contrário do que haviam feito comigo. Começava pelo problema, geralmente por meio de um estudo de caso, e caminhava de trás para frente. Quando aparecia a necessidade de uma derivada, de uma integral, da Estatística ou de qualquer outra ferramenta matemática, ficava muito mais fácil perceber por que aquilo existia e para que servia. E, já nos anos 1990, os PCs tinham potência suficiente para fazer os cálculos.

Veja esta experiência em detalhes

Não estou dizendo que engenheiros não devam aprender Cálculo. Estou dizendo que talvez tenhamos confundido durante muito tempo saber fazer cálculos com saber usar a Matemática.

O problema dos ônibus não dizia no cabeçalho “aplique Pesquisa Operacional”. Dizia apenas: “Temos mais de 50 ônibus, teoricamente 25 deveriam bastar, todo mundo reclama. Resolva.”

Nenhum ser humano iria experimentar na mão as combinações necessárias para resolver aquilo. O computador levou umas três horas. Minha tarefa não foi competir com ele. Foi descobrir o que mandar o computador fazer.

Que deveria ser uma matéria introdutória de Cálculo nos cursos de exatas e é perfeita em Estudos de Caso, que, no fundo, foi o que postei aqui.

O CASAMENTO COMO UMA RELAÇÃO PSICOLÓGICA

Resumo

Jung começa restringindo o escopo: marca casamento como estrutura complexa de fatores objetivos e subjetivos, mas descarta o lado legal e social pra tratar só do psicológico. A premissa central: não existe relação psicológica entre duas pessoas em estado de inconsciência — sem diferenciação entre eu e outro, o que existe é identidade primitiva indiferenciada, não relação de fato. Ele descreve a consciência como algo que emerge do fundo psíquico “como ilhas separadas que aos poucos se unem formando um continente” — e o jovem que vai se casar tem consciência de ego, mas ainda com grandes áreas na sombra, então acha que entende a situação plenamente quando está só no primeiro degrau de uma subida longa. Quanto maior essa área inconsciente, menos o casamento é escolha livre — vira compulsão, sentida com força na paixão aguda, ou de forma mais sutil quando a paixão não aparece.

A escolha do parceiro é fortemente determinada pelos pais — o vínculo do filho com a mãe, da filha com o pai —, e Jung traz um mecanismo interessante: os pais projetam nos filhos o potencial que não realizaram em si mesmos, como compensação. Pai moralista demais gera filho “imoral”; pai perdulário gera filho patologicamente ambicioso. O caso mais nocivo é o da mãe que reprime artificialmente a própria consciência pra manter aparência de satisfação conjugal, e sem perceber prende o filho como substituto de marido — o que empurra a escolha dele pra longe da inclinação natural: ou casa com mulher claramente inferior à mãe (pra não ter competição), ou busca mulher dominadora capaz de cortar o laço materno de vez. Os dois casos plantam obstáculo que só aparece depois.

Ele separa escolha por instinto (que serve à preservação da espécie, mas costuma gerar infelicidade psicológica) de escolha por diferenciação individual. A harmonia inicial do casal, “um coração e uma alma só”, é regressão à unidade inconsciente, quase retorno ao ventre materno — Jung chama isso de “experiência genuína e inconteste do Divino”, mas deixa claro que é entrada em propósito biológico, não relação psicológica propriamente dita: os dois viram instrumento da espécie, “a mulher se transforma em mãe, o homem em pai”, perdendo liberdade individual.

A virada radical acontece na meia-idade. A paixão vira obrigação, “eu quero” vira “eu devo” de forma inexorável — Jung usa a imagem do vinho que fermenta, clarifica, assenta. Só que essa autoconsciência crítica costuma chegar “através dos choques mais severos”. E essa transição quase nunca acontece nos dois parceiros ao mesmo tempo — geralmente um se adapta antes que o outro, e curiosamente quem tem vínculo inconsciente mais profundo com os pais demora mais pra se ajustar, mas quando ajusta, o ajuste tende a ser mais duradouro.

O conceito mais original do ensaio é a dupla “contido” e “continente”. O contido se entrega inteiro dentro do casamento, sem obrigação essencial fora dele — vantagem: uma economia genuína de não se dividir; desvantagem: dependência angustiante de um parceiro que nunca se revela por completo. O continente, por natureza mais dissociado (múltiplas facetas, “como pedra preciosa com muitas faces” contra “um cubo simples”), precisa de amor unificador e encontra frustração repetida: busca sutileza equivalente à própria complexidade e esbarra na simplicidade do outro — e “a simplicidade sempre leva vantagem sobre a complexidade”, então o continente acaba tendo que abandonar reações sofisticadas. Espacialmente: a natureza simples oferece quartos pequenos; a complicada, muitos cômodos — deixando o contido permanentemente desorientado dentro da própria relação. É sempre o complexo que contém o simples, nunca o inverso. E é o continente, paradoxalmente, quem se sente fora da relação e carrega o papel mais problemático — até que na meia-idade desperta nele um desejo insistente de unidade que nunca teve, e ele “passa a espiar pela janela, sem dúvida de forma inconsciente no início”.

A crise estoura quando o continente toma consciência desse desejo de completude que a relação nunca deu. Pro contido, isso confirma a insegurança que ele mais temia — “descobre que nos cômodos que aparentemente eram só dele moram outros hóspedes indesejados”. Se o contido tenta forçar capitulação, extrair confissão de que o desejo de unidade do outro “não passava de fantasia infantil mórbida”, o desfecho é decisivo: se a tentativa falha, isso paradoxalmente ajuda — o contido é forçado a reconhecer que a segurança que buscava fora tem que ser encontrada dentro de si, e “encontra em sua própria natureza simples todas as complexidades que seu continente buscava em vão”. Já o continente, pra não trair a própria fé no desejo de unidade sem cometer “infidelidade”, precisa suportar a própria divisão interna até a desintegração completa — não é separação que cura a dissociação, é desintegração mais funda, e daí ele “finalmente encontra seu prêmio no próprio eu indivisível”. Essa é a metamorfose que Jung chama de “transformação da natureza em cultura, do instinto em espírito” — mas ele avisa: intervenção moral violenta (reprimir ou amputar instinto à força) falsifica esse processo; nem sensualidade grosseira nem sensualidade clandestina resolvem, e a maioria das pessoas empaca nos estágios iniciais dessa travessia.

Por baixo dessa harmonia inicial, Jung situa a projeção arquetípica: todo homem carrega uma imagem feminina eterna herdada, não desta ou daquela mulher, mas um depósito de toda impressão que a mulher já causou ao longo da história — a “anima”, de caráter erótico-emocional. A mulher carrega o equivalente masculino, o “animus”, de caráter racional — e por isso, segundo Jung, o que o homem fala sobre a vida emocional feminina vem distorcido pela própria anima, e o que a mulher pensa sobre os homens vem do animus, gerando “um suprimento inesgotável de argumentos ilógicos e explicações falsas” (a frase é dele, não minha opinião sobre as mulheres). No casal, o contido projeta a imagem arquetípica inteira no parceiro; o continente só projeta parcialmente, porque a simplicidade do outro não dá conta de sustentar a projeção inteira — sobra uma “imagem fascinante suspensa no ar, esperando ser preenchida por uma pessoa viva”. Ele descreve o tipo de mulher que atrai projeção de anima como “tipo esfinge” — ambígua, fugidia, nem velha nem jovem, nem mãe nem filha, com o silêncio que fala da Mona Lisa. E o tipo de homem que atrai projeção de animus nunca é o intelectualmente forte — precisa ser “incompreendido”, mal ajustado ao ambiente, um herói questionável, homem de possibilidades, porque animus exige mestre de palavras que parecem cheias de sentido mas deixam muito subentendido.

Fecha alertando que essas projeções, por serem inconscientes e coletivas (não vínculo com a pessoa individual), podem tanto revelar valor real ainda não reconhecido no parceiro — ajudando-o a realizar o próprio destino — quanto criar ilusão destrutiva, uma “femme inspiratrice” imaginária que desmorona por falta de sustentação real. E termina com uma nota quase elitista: cada estágio psicológico tem validade própria, “poucos alcançam certos estágios”, determinado por raça, família, educação, talento e paixão — “a natureza é aristocrática” — e o limite psicológico da maioria dos casamentos é só cumprir o propósito biológico sem dano à saúde espiritual, o que ele trata como legítimo, não como fracasso.

Texto original

Collected Works, Vol. 17

De:”The Development of Personality” Vol 17,pages 324-345

(Inicialmente publicado como “Die Ehe als psychologische Beziehung” em “Das Ehebuch” (Celle, 1925), editado pelo Conde Hermann Keyserling, traduzido por Theresa Duerr na versão Inglesa, “O Livro do Casamento” (New York, 1926). O original foi re-publicado na “Seelenprobleme der Gegenwart”, (Zurich, 1931). O ensaio foi novamente traduzido para o Ingles por H.G. e Cary F.Baynes na “Contributions to Analytícal Psychology” (Londres e N.York, 1928)), e esta versão foi usada para esta tradução, extraída do “The Portable Jung”, editado por Joseph Campbell, Copyright “The Viking; Press, New York, 1971”

Visto como uma relação psicológica, o casamento é uma estrutura altamente complexa, feita de uma serie completa de fatores objetivos e subjetivos, a maioria de natureza bastante heterogênea.

Como desejo confinar-me aos aos problemas puramente psicológicos do casamento, eu preciso desprezar do objetivo principal fatores de natureza social e legal, contudo estes fatores não falham em ter uma influencia pronunciada na relação psicológica entre os parceiros no casamento

Sempre que falamos de uma relação psicológica, nos presupomos que ela é CONSCIENTE, porque não  existe tal coisa como uma relacão psicológica entre duas pessoas que estão em estado de inconsciência. Do ponto de vista psicológico eles não  teriam relação alguma. De qualquer outro ponto de vista, do fisiologico, por exemplo, eles poderíam ser vistos como relacionados, mas não se poderia chamar este relacionamento de psicológico.É preciso admitir que embora tal total inconsciência como eu assumi nunca ocorra, existe contudo um grau parcial de inconsciência consideravel, e a relação psicológica é limitada ao grau para o qual esta inconsciência existe.

Na criança, a consciência emerge das profundezas da vida psiquica, no inicio como ilhas separadas, as quais gradualmente se unem formando um “continente”, uma massa de terra continua de consciência. Desenvolvimento mental progressivo siginifca, na. verdade, extensão da consciência. Somente com o emergir da consciência,e nunca antes, uma relação psicológica se torna possivel. Tanto quanto sabemos, a consciência é uma ego-consciência. Afim de ser consciente de mim mesmo, eu preciso ser capaz de me distinguir dos outros. Relacionamento somente pode correr quando esta distinção existe. Mas embora a distinção possa ser feita de forma genérica, normalmente ela é incompleta, porque grandes áreas da vida psiquica ainda permanecem inconscientes. Como não é possivel fazer diferenciação no que tange ao conteúdo do inconsciente, neste terreno nenhum relacionamento pode ser estabelecidos; ali ainda reina a condição de inconsciência original da identidade primitiva do ego com os outros, em outras palavras, uma completa ausencia de relacionamento.

A pessoa jovem em idade de casar possui, claro, uma ego-consciência (as garotas mais do que os homens, como regra), mas como uma vez que ela recentemente emergiu das brumas da inconsciência original, ela tem com certeza grandes areas que ainda permanecem na sombra e que tornam impossivel, como consequencia, ate este limite a formação da relação psicológica. Isto significa, na pratica, que o jovem (ou a jovem) pode somente ter um entendimento incompleto de si mesmo e dos outros e, por isto mesmo, esta assim imperfeitamente informado(a) quanto aos seus. Via de regra os motivos que a levam (ou o levam ) são largamente inconscientes. Subjetivamente, claro,ela(e) pensa que esta muito consciente e conhecedora da situação, porque nos frequentemente super-estimamos o conteúdo da consciência e é uma grande e surpreendente surpresa descobrir que o que consideravamos o cume final não é nada senão o primeiro passo de uma subida uito longa. Quanto maior a area de inconsconsciência, quanto menor o casamento é materia de livre escolha, como é mostrado subjetivamente na.compulsão fatal que uma pessoa sente quando esta agudamente apaixonada. A compulsão pode existir mesmo que a pessoa não  esteja apaixonada, embora de forma menos agradavel.

As motivações inconscientes são de natureza pessoal e geral. Primeiramente existem os motivos de influencia dos pais. O relacionamento entre o jovem e sua mãe, e a da jovem com o pai, é fator determinante neste aspecto. É a força da ligação aos pais que inconscientemente influencia a escolha do marido ou esposa, tanto positiva como negativamente. Amor consciente por qualquer dos pais favorece a escolha de um companheiro(a) semelhante enquanto que uma ligação inconsciente, (que não precisa por nenhuma razão ser expressada conscientemente como amor) faz a escolha dificil e impõe modificações características. Afim de entende-las, precisa-se conhecer primeiramete todas as causas da ligação inconsciente aos pais e em que caso ela forçosamente modifica, ou mesmo impede, a.escolha consciente. Duma maneira geral, toda a vida que os pais poderiam ter vivido, mas da qual eles se frustaram por não faze-lo por motivos artificiais, é passada para as crianças de forma. substitutiva. Isto quer dizer que as crianças são inconscientemente empurradas na direção intencionada para compensar por tudo que foi deixado vazio nas vidas de seus pais. Desta forma, pais excessivamente moralistas tem o que são chamados crianças “imorais” ou então um pai excessivamente perdulario tera um filho morbidamente ambicioso e assim por diante. Os piores resultados provem de pais que permaneceram artificialmente inconscientes. Tome por exemplo o caso da mãe que delíberadamente se torna inconsciente de tal maneira a não perturbar a imagem falsa de um casamento satisfatorio. Inconscientemente ela vai atar seu filho a ela, mais ou menos como um substituto pelo marido. O filho se não for forçado diretamente na homosexualidade é compelido a modificar sua escolha de maneira a contrariar sua verdadeira natureza. Ele pode, por exemplo, casar um. garota que é obviamente inferior a sua mãe e assim incapaz de competir com ela; ou ele se apaixonara por uma mulher de disposição tiranica ou dominadora, que talvez tenha exito em desligá-lo de sua mãe. A escolha do companheiro, se os instintos não  foram viciados, pode permanecer livre destas influencias, mas mais cedo ou mais tarde elas se farão sentir como obstaculos. Uma escolha mais ou menos instintiva pode ser considerada a melhor do ponto de vista de manter a especie, mas não é sempre feliz psicológicamente, porque existe frequentemente uma enorme difer.nça entre a personalidade puramente instintiva e aquela que é individualmente diferencial. E, embora em tais casos a raça possa ser revigorada por uma escolha puramente instintiva, a felicidade pessoal tende a sofrer.(A ideia de “instinto” é, claro, nada mais do que uma coleção de termos de todos fatores orç;anícos e psíquicos cuja natureza é na sua maior parte desconhecida).

Se o indivíduo for visto somente como um instrumento para manter a especie, então a escolha puramente instintiva do companheiro é de longe a melhor. Mas, uma vez que as fundações de tal escolha são inconscientes, somente um tipo de ligação impessoal pode ser construída. entre eles, tal como pode ser observada ao limite da perfeição entre os povos primitivos. Isto se pudermos falar aqui de algum relacionamento, pois, na melhor das hipóteses, isto é somente uma palida reflexãao do que queremos dizer, um estado muito distante de relacionamento com uma característica decididamente impessoal, totalmente regulada pelos costumes e preconceitos tradicionais, o prototipo de todo casamento convencional.

Portanto, se a razão, ou o calculo, ou o tão falado “amor materno/paterno” dos pais não arrange o casamento, e os sentimentos puros da criança não tenham sido viciados por falsa educação ou por influencias de complexos dos pais accumulados ou negligenciados, a escolha seguira normalmente as motivações insconscíentes do instinto. Inconsciência resulta em não diferenciação, ou identidade insconsciente. A consequencia pratica disto é que o indivíduo presupõe no outro uma estrutura psicológica similar à sua. Vida sexual normal, tanto como uma experiência compartilhada com fins aparentemente similares, tendem a reforçar o sentimento de unidade e identidade. Este estado é descrito como de completa harmonia e é glorificado como uma grande felicidade (“um só coração e uma só alma”) não sem boa razão, uma vez que o retorno a condição de unidade inconsciente é como o retorno a idade infantil. Dai os gestos infantis de todos os amantes. Ainda mais é um retorno ao utero da mãe, nas profundidades da concepção de uma criatividade não ainda consciente. É na verdade, uma genuína e incontestavel experiencia do Divino cuja força transcendental oblitera e consome tudo no indivíduo; uma comunhao real com a vida e o poder impessoal do destino. A vontade do indivíduo para auto-possessão é quebrada: a mulher se transforma em mãe, o homem em paí,e, desta maneira, ambos são roubados de sua liberdade e feitos instrumentos da sede da vida por ela mesma.

Aqui a relação permanece dentro dos limites dos objetivos biologicos, a preservacão da especie. Uma vez que este objetivo é de natureza coletiva, a ligação psicológica entre o marido e a mulher tambem sera essencialmente coletiva, e não pode ser olhada como um relacionamento individual no sentido psicologico. Nós somente poderemos falar disto quando a natureza das motivações inconscientes forem reconhecidas e a identidade original quebrada. Raramente o casamento se desenvolve para uma relação individual maciamente e sem crises. Não existe nascimento de consciência se. dor.

As maneiras que levam para a realização consciente são muitas mas seguem leis definidas. Duma maneira geral, a mudança começa na virada da segunda metade da vida. O período intermediario da vida é de enorme importancia psicológica.

Quando criança, a pessoa começa sua vida psicológica dentro de limites muito estreitos, dentro do circulo magíco da mãe e da familia. Com sua progressiva maturação, ela abre seu horizonte e sua esfera de influencia; suas esperanças e intenções são dirígidas com a finalidade extender o objetivo do seu poder pessoal e suas possessões; o desejo avanca para fora no mundo numa distancia cada vez maior. A vontade da pessoa se torna mais e mais identica com os objetivos naturais perseguidos pelas suas motivações inconscientes. desta maneira, a pessoa respira sua vida nas coisas, ate que finalmente elas começam a viver por si mesmas e se multiplicar; e imperceptivelmente ela é ultrapassado por elas. As mães são subjugadas pelos seus filhos, os homens pelas suas proprias criações, e o que foi originalmente trazido à existencia com apenas trabalho e o maior dos esforcos não pode mais ser mantido. Primeiro era paixão, depois se transformou em dever, e, finalmente em carga intoleravel, um vampiro que suga a vida do seu criador. A idade madura é o momento da grande abertura, quando a pessoa ainda se dá ao trabalho com toda sua energia e toda sua vontade.Mas neste momento, nasce o alvorecer, e a segunda metade da vida começa. A paixão transforma sua face e é agora chamada obrigação; “eu quero” se transforma inexoravelmente em “eu preciso”, e as,curvas da estrada que uma vez trouxeram surpresa e descobertas se tornam monótnas pelo uso. O vinho fermentou e começa a assentar e clarear. Tendencias conservadoras se desenvolvem se tudo for bem; em vez de olhar para frente a pessoa olha para tras, a maior parte do tepo involuntariamente, e a pessoa percebe com. sua vida se desenvolveu ate este ponto. As motivações reais são procuradas e verdadeiras descobertas são feitas. O reconhecimento critico de si mesmo e de seu destino permite à pessoa conhecer suas peculiaridades. Mas estas visoões intimas não vêm para ela facilmente, elas são obtidas atraves dos mais severos dos choques.

Uma vez que os objetivos da segunda metade da vida são diferentes dos da primeira metade, hesitar muito na atitude juvenil produz uma divisão da vontade. A consciência ainda pressiona para frente em obediência, como se fosse pela sua propria inercia, mas o inconsciente fica para tras, porque a força e a decisão intimos necessarios para sua posterior expansão foram enfraquecidas. Esta disputa consigo mesmo originam descontentamento e uma vez que o indivíduo não esta consciente do real estado das coisas ele projeta suas causas no parceiro. Uma atmosfera critica então desenvolve, o preludio necessario para realização do consciente. Normalmente este estado de coisas não começa simultaneamente para ambos os parceiros. Mesmo os melhores casamentos não conseguem expurgar as diferenças individuais tão completamente que o estado mental dos parceiros é absolutamente identico. Na maioria dos casos um deles se adaptará ao casamento mais rapidamente que o outro. Aquele que sta baseado numa relação positiva com os pais achara pouca ou nenhuma diculdade em ajustar-se com seu ou sua parceira, enquanto o outro pode ser impedido por um laço inconsciente profundo ligado aos pais. Ele desta maneira somente encontrara completa adaptação posteriormente e, porque a conseguiu com maior dificuldade, pode mesmo provar ser a mais duravel.

Estas dilerenças de ritmo e o grau de desenvolvimento espiritual são as principais razões das dificuldades tipicas que fazem sua parição nos momentos críticos. Ao falar em “desenvolvimento espiritual”, da personalidade, eu não quero dizer que implica numa natureza especialmente rica ou magnanima. Não é de forma nenhuma este o caso. Eu quero dizer, ao inves disto, um. certa complexidade mental ou de natureza comparavel como uma pedra preciosa de muitas facetas, e outra pedra preciosa da forma de um simples cubo. Existem muita. naturezas multi-facetadas e um tanto problematicas carregadas com traços hereditarios que são muitas vezes dificeis de reconciliar. Adaptação a tais naturezas, ou sua adaptação a personalidades mais simples, é sempre um problema. Estas pessoas, tendo uma certa tendência à dissociação, geralmente tem a capacidade de separar os traços irreconcilíaveis por longos períodos, desta forma passando por pessoas muito mais simples do que são; ou pode ser que sua multifacetação, sua versatílidade, os leve para um “charme” particular. Seus parceiros podem facilmente se perder em tal natureza labirintea, encontrando nela tal abundancia de possíveis experiencias que seus interesses pessoais são completamente absorvidos, algumas vezes de maneira não muito agradavel, uma vez que sua ocupação exclusiva consiste em seguir o utro atraves das curvas e viradas do seu caracter. Existe sempre tanta experiencía disponível que a personalidade mais simples é envolvida, senão submersa pela outra, ela é engolida pelo seu parceiro mais complexo e não enxerga sua saida. É uma ocorrência regular para a mulher ser totalmente contida, espiritualmente no seu marido, e para seu marido ser totalmente contido emocionalmente e. sua mulher. Isto poderia ser descrito como o problema do “conteúdo” e “o-que-contem”.

[1]Aquela (pessoa) que é contida se sente como se vivesse inteiramente dentro do confinamento do casamento, sua atitude para parceiro do casamento é individida; fora do casamento não existem obrigações essenciais ou interesses pendentes. O aspecto desagradavel deste companheirismo é a inquietante dependência sobre a personalidade do outro que nunca pode ser vista inteiramente, e por isto não é acreditavel e confiavel. A grande vantagem deste relacionaento reside na sua indivisibilidade e este fator não pode ser subestimado na economia psiquica.

Aquela (pessoa) que contem, por sua vez, e que esta em concordancia com sua tendência para dissociação e tem uma necessidade especial de unificar-se num amor indivisível pela outra pessoa, sera deixado para tras neste esforco pela personalidade mais simples, o que é naturalmente muito dificil para ela. Enquanto que ela esta procurando na ultima todas as sutilezas e complexidades que a complementariam, e corresponderiam às suas proprias facetas, ela é perturbada pela simplícídade do outro. Uma vez que dentro de circunstancias normais a simplicidade sempre tem vantagem sobre a complexidade, la muito cedo sera obrigada a abandonar seus esforços para levantar sutis e intricadas reações na natureza mais simples. E muito cedo, seu parceiro, que em concordancia com sua natureza mais simples espera respostas simples dela, lhe dará bastante o que fazer constelando suas complexidades com sua perpetua insistência em respostas simples. Por compulsão, ela precisa retirar-se em si mesma diante da influencia da simplicidade. Qualquer esforço mental, como o processo da conscientização ele mesmo, é de tantõesforço para o homem comum que ele invariavelmente prefere ser simples, mesmo que isto não seja verdade. E quando isto representa meia verdade, então, para ele esta bom. A pessoa de natureza mais simples trabalha no metodo mais complicado, como um comodo que é muito pequeno, que não permite espaço suficiente para a outra. A natureza complicada, por outro lado,da para o mais simples muitos comodos com muito espaço, de tal maneira que ela nunca sabe aonde ela pertence. Desta maneira é natural que a pessoa mais complicada contenha a mais simples. O primeiro não pode ser absorvido no ultimo, mas o contem sem ser ele mesmo contido. Alem dísto, a pessoa mais complicada tem talvez uma necessidade maior de ser contida que a outra, ela se sente sempre fora do casamento e em conformancia com isto sempre desempenha o papel problematico. Quanto mais aquele que é contido tenta segurar, mais aquele que contem se sente fora da relação. O que é contido se empurra na relação por segurar e quanto mais ele puxa, menos aquele que contem tem capacidade de responder. Desta forma, o indivíduo tende a espiar fora da janela, sem duvida inconscientemente no início; mas no inicio da idade madura acorda nele um desejo mais insistente por esta unidade e indivisibilidade que é especialmente necessaria para ele por conta de sua natureza dissociada. Nesta conjuntura, as coisas estão aptas a ocorrer de tal maneira que o conflito vem a tona. Ele se torna consciente do fato que esta procurando completar-se, procurando o conteúdo e a indivisão que sempre lhe faltou. Para o contido isto é somente uma confirmação da insegurança que ele sempre sentiu tão dolorosamente; ele descobre que nos comodos que aparentemente lhe pertenciam vivem outros hospedes não desejados. A esperança de segurança desaparece e seu desapontamento o impele para si mesmo. ao menos que por esforço desesperado e violento ele possa conseguir forçar seu parceiro a capitular, extorquindo a confissão que seu desejo por unidade não era nada senão uma fantasia morbida infantil. Se estas taticas falharem, sua aceitação da derrota lhe fara bem verdadeíro, pois que o forçara a reconhecer que a segurança que ele tão desesperado estava procurando no outro tem que,ser encontrada em si mesmo. Desta maneira ele se encontra em si mesmo e descobre na sua propria natureza simples todas as complexidades que seu contenedor tinha procurado em vão.

Se o contenedor não quebra em face do que costumamos chamar “infidelidade”, mas continua acreditando na justifícação intima do seu desejo por unidade, ele tera que guardar para si sua auto-divisão para aquele momento. A dissociação não é curada pela separação, mas por uma desintegração mais completa. Todas as forças que angustia. por unidade, todo o desejo saudavel de individualidade resistira à desintegração e, desta maneira ele se tornara consciente da possibilidade de integração intima, o que antes ele sempre tinha procurado fora de si. Desta maneira ela encontrara finalmente seu premio no seu indivisível eu.

Isto é o que acontece muito frequentemente na idade madura, e nesta sabedoria nossa milagrosa natureza humana força sua transição da primeira metade da vida para a segunda. É uma metamorfose em que o individuo parte do estado de ser apenas uma ferramenta da natureza instintiva para outro estado em que ele não le mais uma ferramenta, mas. ele mesmo: uma transformação de natureza em cultura, de instinto em espirito.

É necessário tomar grande cuidado para não interromper este desenvolvimento necessário por atos de violência moral, pois quaisquer tentativas de criar uma atitude espiritual pela amputação ou supressão dos instintos é uma falsificação. Nada é mais repulsivo do que uma espiritualidade furtivamente luxuriosa; é tão desagradavel como sensualidade grosseira. Mas a transição toma grande tempo e a grande maioria das pessoas afunda nos primeiros estágios. Se nós pudéssemos, como os primitivos deixar o inconsciente tomar conta de todo este processo de desenvolvimento psicologico que o casamento proporciona, estas transformações poderiam proceder mais completamente e sem tanto atrito. Muito frequentemente entre os chamados “primitivos” cruzamos com personalidades espirituais que imediatamente os inspiram respeito, como se elas fossem os produtos maduros de um destino imperturbavel. Eu falo aqui de experiencia pessoal. Mas entre nós europeus atuais podemos encontrar alquem não foi deformado por atos de violencia moral? Nós ainda somos barbaros que ainda acreditamos em ascetiscismo e seu oposto. Mas a roda da historia não pode voltar; nós somente podemos lutar em direção a uma atitude que nos permitira viver nosso destino tão imperturbavelmente como o primitivo pagão em nós realmente deseja. Somente nesta condição nós podemos ter certeza de não estarmos pervertendo espiritualidade em sensualidade e vice-versa; porque ambas tem que viver, cada uma gerando vida para a outra.

A transformação que eu descrevi brevemente acima é a essencia final da relação psicológica no casamento. Muito poderia ser dito sobre as ilusões que serve. para os fins da natureza e que trazem as transformações que são características da idade madura. A harmonia peculiar que caracteriza o casamento durante a primeira metade da vida – quando o ajuste teve exito – é largamente baseada na projeção de certas imagens arquetipos, como a fase critica o faz claro.

Todo homem carrega dentro dele a imagem eterna da mulher, não  a imagem desta ou daquela mulher, mas uma ímagem feminina definida. Esta imagem é fundamentalmente inconsciente, um fator hereditario de origem nos primordios gravada no sistema vivo organico do homem, como uma impressão do “arquetipo” de toda. as experiencias ancestrais da femea, um deposito, como se fosse, de todas as impressões jamais feitas por mulher- em resumo, – um sistema herdado de adaptação psiquica. Mesmo que não existissem mulheres, seria ainda possivel, em dado momento, deduzir desta imagem inconsciente, exatamente como uma mulher deve ser constituída psiquicamente. O mesmo é verdade para a mulher: Ela tambem tem sua imagem inata do homem. Atualmente sabemos da experiencia que seria mais preciso descrever isto como uma imagem do homem enquanto que no caso do homem é antes a imagem da mulher. Uma vez que esta imagem é inconsciente, la é sempre inconcientemente projetada sobre a pessoa do amado e é uma das razões basicas por atração apaixonada ou por aversão. Eu chamo isto de “anima”, enquanto que a escolastica questão “Habet mulier animam?” (tem a mulher  “anima”) eu a acho especialmente interessante, uma vez que do meu ponto de vista é uma pergunta inteligente porque a duvida parece justificada. A mulher não tem “anima”, ou alma, mas ela tem “animus” A “anima” tem um carater. erotico, emocional, o “animus” um racional. Por isto que a maior parte do que os homens falam sobre erotismo feminimo e particularmente sobre a vida emocional feminíma, é derivado das proprias projeções des sua “anima” e, por isto mesmo, distorcidas. Por outro lado, as ideias e fantasias que as mulheres fazem sobre os homens vem da atividade do “animus”, que produz um inesgotavel suprimento de argumentos ilógicos e explicacões falsas.

“Anima” e “animus” são ambos caracterizados por uma extraordinaria multifacetação. No casamento sempre é o contido que projeta esta imagem sobre o “contenedor” enquanto que este ultimo é somente parcialmente capaz de projetar sua imagem inconsciente sobre seu parceiro. Quanto mais unificado e simples seu parceiro, menos completa a projeção. Sendo que, neste caso, uma imagem altamente fascinante fica pendendo como se estivesse no ar, como se estivesse esperando ser preenchida por uma pessoa viva.

Existem certos tipos de mulheres que parecem ser feítas pela natureza para atrair projecões da “anima”. Verdadeiramente pode -se falar quase de um “tipo animal’. O tão repetido caracter tipo “esfinge” é parte indispensavel deste equipamento, tambem um ar equivoco, uma característica fugaz e intrigante – não indefinida – de forma a nada a oferecer, mas de uma indefinição cheia de promessas, como o silencio que fala da Mona Lisa. Uma mulher deste tipo é ao mesmo tempo velha e jovem, mãe e filha, de castidade mais do que duvidavel, infantil e ainda assim maliciosa e capaz de desarmar qualquer homem.[2] Nenhum homem de verdadeiro poder intelectual pode ser “animus”, porque o “animus” tem que ser um “.senhor”, não no sentido de apenas boas ideias, mas como tambem de palavras adequadas – palavras aparentemente cheias de sentido que pretendem deixar muito sem ser dito. Ele precisa tambem pertencer à classe “incomprendida”, ou de alguma maneira estar desajustado com seu ambiente, de tal maneira que a ideia de auto-sacrificio possa se insinuar ela mesma. Ele precisa ser um heroi. questionavel, um homem com possibilidades, o que não  é dizer que uma projeção de um “animus” não possa descobrir um heroi real muito antes dele se tornar perceptível à percepção lerda dos indivíduos de “inteligencia media”.[3]

Para o homem tanto quanto para a mulher, desde que eles sejam “contenedores”, o preenchimento desta ímagem é uma experiencia carregada de consequencias, porque ela possue a possibilidade da resposta de suas proprias complexidades respondida por uma diversidade correspondente. Grandes horizontes parecem se abrir nos quais o indivíduo se ve abraçado e contido. Eu disse “parecem” intencionalmente, porque a experiência pode ser de duas faces. Tanto pode a projeção do “animus” da mulher frequentemente pegar um homem de real valor e não reconhecido na massa e na realidade ajuda-lo a alcancar seu verdadeiro destino com seu suporte moral, como pode também o homem criar para si mesmo uma “femme ínspiratrice” pela projeção de sua “anima”. Mas muito frequentemente acaba sendo uma ilusão com consequencias destrutivas, um. derrota porque sua fé não foi suficientemente forte. Para os pessimistas, eu diria que estas imagens psíquicas primordiais tem um extraordinario valor positivo, mas para os otimistas eu preciso avisa-los contra fantasias e a semelhança das aberrações mais absurdas.

Na. se deve de maneira nenhuma considerar esta projecção como sendo uma relação consciente. Nos primeiros estágios, é longe disto, porque cria uma dependência compulsiva baseada em motivos inconscientes não biológicos. A obra “She” de Rider Haggard[4] dá alguma indicação do curioso mundo de ideias que existe sob a projeção da “Anima”.[5]

São em essencia de conteúdo espiritual, frequentemente disfarçados eroticamente, fragmentos óbvios de uma mentalidade primitiva mitologica que consiste de arquetipos e cuja totalidade constitue o inconsciente coletivo. Desta maneira, tal relação esta no fundo do coletivo e não do individuo. (Benoit, que criou “L’Atlantide”, uma figura de fantasia similar até em detalhes a “She”, nega que plagiou Rider Haggard)[6]

Se tal projeção se fixa em alquem dos parceiros dum casamento, uma relação espiritual coletiva conflita com o coletivo biológico e produz no “contenedor” a divisão ou desintegração que eu ja descrevi anteriormente. Se ele (a) for capaz de manter sua cabeça fora da água, ele (a) vai se encontrar atraves deste mesmo conflito. No caso da projeção, embora perigosa nela mesma, o (a) terá ajudado a passar de uma relação coletiva para uma individual. Esta quantidade de plena consciência de relacionamento que o casamento traz. Uma vez que o objetivo desta discussão é a psicologia do casamento, a psicologia da projeção não nos deve preocupar aqui. É suficiente mencioná-1a como um fato.

Não se pode manusear com a relação psicológica do casamento sem mencionar, mesmo com risco de incoinpreensão, a natureza das suas transições críticas. Como é muito bem sabido, não se entende nada de natureza psicológica se não se experimentou em si mesmo. Não que isto previna alquem de sentir-se convencido que seu proprio julgamento é o uníco verdadeiro e competente. Este fato desconcertante vem da necessaria supervalorização do conteúdo momentaneo da consciência, porque sem esta concentração de atenção ninguem poderia ser consciente. Desta forma, que cada período da vida tem sua verdade psicológica, o mesmo aplica-se a todos estágios de desenvolvimento psicológico. Existem alguns estágíos que somente uns poucos podem alcançar, sendo uma questão de raça, familia, educação, talento e paixão. A natureza é aristocratica. O homem normal é uma ficção, ainda que certas leis gerais validas existam. A vida psíquica é um desenvolvimento que pode ser facilmente preso nos níveis mais baixos. É como se cada indivíduo tivesse uma gravidade especifica, pela qual ele sobe, ou afunda, para o nível que ele encontra seu limite. Suas convicções e pontos de vista serão determinados proporcionalmente. Não é de se extranhar, portanto, que um numero muito maior de casamentos encontre seu limite psicológico superior no preenchimento da finalidade biológica, sem dano para a saude espiritual ou moral. Relativaente poucas pessoas caem em profunda desarmonia consigo mesmos. Aonde existe uma grande pressão de fora, o conflito não é capaz de desenvolver muita tensão dramatica por pura falta de energia. A insegurança psicológica, contudo, aumenta em proporção da segurança social, inconsciente no inicio, causando neuroses e então conscientemente, trazendo consigo separação, dircordia, divorcios e utras desordens conjugais. Em níveis mais altos, novas possibilidades de desenvolvimento psicologico são distinguídas, tocando na esfera da religião aonde o julgamento critico para.

O progresso pode ser permanentemente preso em quaisquer destes níveis, com completa inconsciência do que poderia ter se seguido no proximo estágio de desenvolvimento. Como regra, a graduação para o proximo estágio é barrada por preconceitos violentos e medos supersticiosos. Isto, contudo, serve a um fim muito util, uma vez que um homem que é jogado por acidente a viver num nível muito alto para ele se torna um tolo e uma ameaca.

A natureza não é somente aristocratica, ela tambem é esoterica.[7] Alem disto, nenhum homem de entendimento sera por isto induzido a fazer segredo do que ele sabe, porque ele percebe de maneira clara que o segredo do desenvolvimento psíquico não pode nunca ser traido, simplesmente porque o desenvolvimento é uma questão de capacidade individual.


[1] Nos paragrafos que se sequem a colocação masculina ou femini.a não expressa a condíção da mulher ou do homem, qualquer dos dois pode encarnar qualquer papel e vice-versa. Foi seguido o texto. (REC)

[2] A Ellis Regina canta uma música do Chico Buarque que descreve isto admiravelmente. O filme “Rebecca”discute isto. (REC)

[3] O ator James Dean, no filme “Juventude Transviada”, é um ótimo exemplo disto. (REC)

[4] Não consegui informações, quer sobre o autor, quer sobre a obra. Meus exemplos acima perfazem o ponto que Jung quer fazer.

[5] Extendendo um pouco os exemplos, Greta Garbo, Rodofo Valentino, Clark Gable, Marylin Monroe, etc., etc., incarnavam isto no imaginario das pessoas. (REC)

[6] Autor e obras desconhecidos. O ambiente literario do início do século era outro. (REC)

[7] Para iniciados (REC)