Os Tempos e os Momentos

Tempo e Momento

Tempo é uma das poucas coisas sobre as quais todo mundo tem uma opinião — e ninguém sabe ao certo o que é.
A física quântica e a filosofia concordam, cada uma à sua maneira, num ponto desconcertante: passado e futuro não existem como realidades independentes. São construções da mente — o passado é feito de memória, o futuro é feito de expectativa. O que existe de fato é apenas o presente.
Mas o presente não é um instante. É um momento — e momentos têm tamanhos diferentes.
Há momentos que duram um segundo e ficam para sempre. E há momentos que se estendem por meses, às vezes anos, e que só reconhecemos como tal quando já passaram — quando olhamos para trás e percebemos que havia uma unidade naquilo tudo, um capítulo que estava se escrevendo enquanto vivíamos dentro dele sem saber o título.
Por isto é que existe Tempo e tempos… e nos referimos a coisas bem diferentes quando usamos a mesma palavra e dizemos: “naquele tempo….” ou “os tempos eram outros…”
Meu filho mais velho está vivendo um desses momentos agora. Com um dos filhos já formado e o outro em vias de, está entrando no momento que o ninho fica vazio.  Eu e Cristina já vivemos isso. Nossos pais viveram isso.  E os pais dos nossos pais, também e assim para trás até onde a memória familiar alcança — e depois ainda mais infinitamente.
E costumamos dizer, com toda razão, quando pensamos nisto: Agora os tempos são outros… Mais quais outros?
Penso no momento que ele e sua esposa estão vivendo e como foi para nós, nossos pais e avós.
Este momento dele e da Kenia é o momento em que o ninho fica vazio. Em que o dever cumprido e a saudade chegam juntos, misturados de um jeito que não tem nome preciso. Em que você olha para aquele ser que partiu e pensa simultaneamente “conseguimos” e “o que será que vai acontecer com nosso filho?”
A educação abre uma porta. Mas é  nosso filho, na pessoa que ele está se tornando — que tem que dar os passos e andar no caminho.

Como nós, nossos pais e avós o fizeram.
E aí entram três coisas que fazem toda a diferença.
O momento oportuno — porque há épocas melhores e piores para determinadas travessias, e quem parte com o vento a favor tem uma jornada diferente de quem parte contra ele.
O talento alinhado com o que o momento pede — porque quando o que você é encontra o que o mundo precisa, algo se encaixa de um jeito que nenhum esforço isolado consegue fabricar.
E o mapa interno — que é o mais importante de todos. Não o mapa que os outros desenharam para você. O mapa que você construiu na sua própria cabeça, com seu próprio norte. Esse mapa é o que vai determinar não onde você chega, mas o quanto você está disposto a caminhar para continuar procurando.
Em outros termos — e mais direto: quanto você está disposto a dar de si para perseguir o que sonha?
Essa é a pergunta que cada geração herda da anterior. E que cada um, no final, responde sozinho.

Embora tenha sido este o momento que me motivou a fazer este post, vou usar também outro momento, que dá origem a ele, que foi quando nos decidimos a casar e formar uma família.
Estes momentos nossos, ainda estão vividos na nossa imaginação e vou apresentá-los e, depois, vou apresentar como imagino que foram para nossos pais e avós.

Cristina e Roque

O Começo de Tudo

Cristina tinha acabado de receber o diploma de professora e estava prestes a iniciar sua carreira no Imaculada. Eu, por minha vez, havia completado o curso secundário de forma tortuosa — primeiro no Culto à Ciência, depois no Colégio Diocesano, onde me matriculei, pois tinha abandonado o ultimo ano do secundário no Culto à Ciência, por falta do que fazer enquanto aguardava a resolução da minha convocação pelo Exército. Não era exatamente um plano de vida.

Dispensado do serviço militar, fui procurar emprego. O primeiro foi em São Paulo, no frigorífico Swift Armour, onde aprendi os fundamentos de tempos e métodos — cronometragem, análise de processos, a linguagem do chão de fábrica. A experiência era boa. O trajeto, não: ônibus às cinco da manhã para chegar às sete. Durou pouco. Como eu estudava à noite, ia lá para dormir e acabou que abandonei o curso.

A saída veio pela Lever, que havia comprado a Gessy e queria expandir sua operação no Brasil introduzindo dois produtos que simplesmente não existiam no mercado brasileiro até então — maionese e detergente. Abriram muitas vagas. Peguei uma.

Enquanto Cristina construía sua carreira de professora com a disciplina e a determinação que sempre a caracterizaram, eu andava atrás de carros velhos. Não era bem a imagem de solidez que uma moça sensata procura num pretendente.

Desde o primeiro momento em que nos vimos, eu sabia que ia me casar com ela. Ela, observando que eu não aterrissava, ficava razoavelmente na dúvida.
Cristina ainda não era a Teté — mas já sabia que, daquele jeito, nunca seria.
Colocou ordem na casa com a objetividade que viria a definir sua vida inteira e sentenciou, com uma clareza que não deixava espaço para interpretação:

Este vídeo é “more like it”, isto é como foi. Não foi exatamente assim. Mas não dá para publicar como foi.
Fizemos as contas — quanto custaria casar e montar uma casa. O número era por volta de 800 unidades monetárias da época, seja lá o que isso representasse em moeda estável, o que no Brasil dos anos 60 era uma questão filosófica em aberto.
Parei com aquela babaquice de atacar moinhos de vento à lá Dom Quixote e entrei na Bosch, ganhando 1.200 da mesma moeda imaginária — mais que suficiente para inaugurarmos nosso projeto de vida.
A Bosch foi uma escola de verdade. Aprendi tempos e métodos de forma completa, instalando linhas de produção para atender a demanda da Volkswagen, que explodia naquele momento em que o Brasil descobria o automóvel como destino inevitável.
Foi lá que conheci o Schmitt. Trabalhamos juntos, perdemos o contato, ele saíra da Bosch, e um dia ele reapareceu com uma pergunta simples:
“Por que você não vem trabalhar na IBM?”
Que foi o que fiz.
E o resto vocês já sabem.

Nosso ninho nunca ficou vazio

Daniel estudou na Unicamp, que era vizinho de casa e ficou em casa até casar, numa transição muito tranquila. Como somos vizinhos dos pais da Kenia, que, como filha, visita os pais, nunca passou-se muito tempo, mesmo eles vivendo nos Estados Unidos, que não nos visitassem.

Pedro foi para Santa Rita e todo fim de semana voltava. Casou-se e morou aqui na mesma cidade até recentemente ter se mudado para os Estados Unidos, de onde voltou recentemente depois de ter ficado lá um ano.

Paulo foi estudar hotelaria no Hawai no inicio dos anos 90, ficou um pouco nos Estados Unidos, voltou para o Brasil uns anos depois. Ficou aqui e depois foi em definitivo para os EUA, creio que em 2008 e virou cidadão americano. Sempre que pode nos visitou.

Para mim, a seguinte imagem me remete a ninho vazio:

Breaking Home Ties” Normam Rockwell

Vou tentar imaginar e repetir estes momentos, do casamento e do ninho vazio, para os casais nossos pais e avós, que nos precederam e tiveram momentos como este que acabo de descrever. Tenho poucas informações sobre alguns, alguma informação sobre outros e quase nenhuma, por exemplo, dos pais da mãe de Cristina. A solução que dei para isto foi criar uma narrativa baseado no que se pode imaginar sobre a época e as informações disponíveis, claro que com ajuda de Inteligência Artificial.

Estas narrativas são encontradas pressionando nos títulos das fotos deles:

Ana e Weimar

Rute e Lindolpho

Pedro e Clara

Paulo e Julia

Nenê e João

Alberto e Zuleika

Ana e Weimar

Ana nasceu em 1916 e Weimar em 1918. Consta que ele a via quando ia para a Escola Normal olhando o movimento da rua onde ela ficava na janela. Não sei os endereços, mas a atração acabou os aproximando e começaram a namorar.

Eu conheço a letra deles e os bilhetes estão invertidos. Creio que neste momento, eles sabiam que iam se casar.

Eles iniciaram um namoro firme e, enquanto ela trabalhava numa Fábrica de Seda, que ficava perto da casa dela, ele trabalhava como repórter, não sei exatamente em qual dos dois jornais que existiam na época. Acho que foi no Correio Popular, pois não encontro rastro dele nesta profissão pela Internet, mas encontro o João D’Oliveira Toledo e ele pertencia ao Correio, o que me leva a crer que meu pai também militava lá. Não me lembro de nenhum relato dele trabalhando efetivamente como repórter. Acho que ele escrevia alguma coluna, pois ele sempre teve mania de fazer isto, pela vida toda. Ele conservou o hábito de se considerar como tendo sido repórter e na minha infância, lembro-me de frequentar a Associação Campineira de Imprensa, principalmente nas festas juninas, quando toda a velha guarda de jornalistas lá se reunia.

O prédio foi tombado e hoje abriga a Escola D. Barreto.

O prédio original onde o Correio Popular era uma casa na Rua Regente Feijó, que não encontrei nenhuma imagem e, este prédio, que foi construído em 1940, talvez ele tenha trabalhado lá. Na foto ao lado, os dois passeando na Rua Barão de Jaguara.

Tia Linda, Emilia, como a conhecíamos, era a filha mais velha e que absorveu a responsabilidade do pai que morrera em 1940 e junto com minha avó materna, Julia, enfrentaram a perda e bravamente sobreviveram. Observe o no.80, na mesma rua, Uruguaiana, duas esquinas para baixo, meus pais vieram do interior para morar no 225.

O namoro de meu pai com minha mãe não tinha a aprovação de minha avó Zuleika, mãe de meu pai, porém, quando morreu o pai dela, meu avô Paulo, em 1940, mudou tudo. Meu pai já estava formado e em condições de escolher umas cadeira de professor primário. D. Francisco de Campos Barreto, bispo de Campinas e tio de minha avó Zuleika interviu obrigando-a a aceitar minha mãe, e fez o casamento.

Minha avó Zuleika, por sua vez, estava separada desde 1927 e, com exceção de Wanda, a filha caçula, de meu pai e seu irmão mais velho, Wladimir, os outros três filhos (Wolney, Wolmar e Walton) praticamente tinham tomado rumo da vida que levariam. Na análise do casamento delas, Zuileika e Julia, entro em maiores detalhes.

Meu pai ficou no interior até 1950, quando conseguiu uma cadeira próximo de Campinas, na Holambra, colônia de holandeses, onde foi instalada uma escola, já como Diretor Escolar. Inicialmente fomos morar na Uruguaiana 225 até 1958 quando meu pai comprou a casa na Luzitana 280, onde fiquei até casar.

Para quem tiver tempo e interesse, veja como era viver em Campinas nos anos 50

Rute e Lindolpho

Lindolpho

E.R.Squibb and Sons

Lindolpho foi selecionado para trabalhar como propagandista junto aos médicos dos produtos da Squibb. Nunca me ocorreu antes, mas na verdade, ele pegou uma circunstância parecida com a minha, isto é, chegou no lugar certo, sendo a pessoa certa. Lindolpho apesar de não ter prosseguido estudo, era extremamente educado e jeitoso, por causa do berço excelente e tinha um trato impecável, que claramente o selecionou para a seguinte situação que foi a chegada da Squibb no Brasil:

E.R. Squibb & Sons: Da Ética Científica à Conquista do Médico Brasileiro

A trajetória da Squibb é marcada pela transição de um laboratório fundado em ideais de pureza absoluta para uma potência farmacêutica que moldou a medicina moderna no Brasil. Fundada em 1858 pelo Dr. Edward Squibb, a empresa nasceu da rejeição ao lucro sobre a vida; o médico recusou-se a patentear seus métodos de purificação de éter, priorizando a segurança cirúrgica global. Esse “Padrão Squibb” de qualidade tornou-se o DNA da companhia.

Ao entrar no Brasil em 1944, em meio à Segunda Guerra Mundial, a Squibb trouxe essa autoridade científica para um cenário que carecia de antibióticos e anestésicos confiáveis. Para atingir a classe médica, a empresa não utilizou uma força de vendas comum, mas sim uma estratégia de Propaganda Ética, baseada em quatro pilares:

  1. O Propagandista Científico: Em vez de vendedores, a Squibb utilizava visitadores treinados para discutir farmacologia e estudos clínicos, posicionando-se como consultores técnicos para os médicos.
  2. Educação como Marketing: Em uma época de difícil acesso à informação, a empresa distribuía monografias e boletins científicos traduzidos, tornando-se a principal fonte de atualização sobre novas drogas (como a Penicilina) para os profissionais brasileiros.
  3. Presença no Consultório: Através de amostras grátis de alta qualidade e brindes de mesa sóbrios (pesos de papel, calendários), a marca garantia que o “selo de garantia Squibb” estivesse sempre visível no momento da prescrição.
  4. Fidelização Hospitalar: Ao focar nos grandes hospitais universitários e Santas Casas, a Squibb garantia que os novos médicos aprendessem sua profissão utilizando seus produtos, criando uma lealdade que durava décadas.

Produtos que Lilndolpho ajudou a introduzir, inclusive a penicilina que poderia ter salvo a vida de Paulo, pai de minha mãe:

Este era o perfil que Lindolpho preencheu com sucesso e que possibilitou seu casamento com Rute.

Uma curiosidade: Lindolpho ganhou um Jeep Wyllis e veio escrito no para brisa “E R Squibb & Sons, Inc” e nos remédios acima, importados, o nome da empresa nos Estados Unidos não tinha o “Inc.” Pesquisei e descobri que o nome com o Inc no fim era apenas para filiais dela instaladas em outros países, que servia para distinguir da americana para fins administrativos e legais.
Uma curiosidade, ou fatalidade: Paulo, pai de minha mãe, morreu de infecção hospitalar por falta de antibióticos que já existiam, mas que ainda seriam introduzidos pela Squibb um pouco depois de sua morte, que foi em 1940 e a Squibb entrou aqui em 1944

Prova que Lindolpho tinha um emprego diferenciado e foi bem sucedido é que chegou a ter um Chevrolet 38 e, apenas para registro, o pai dele tinha um Chevrolet 49, que às vezes emprestava para eles irem a SP visitar alguem da familia:

Rute não gostava do Chevrolet 38 e o sonho dela era um Morris, que nunca tiveram. Enquanto que Rute subiu profissionalmente, prestando concurso para Educadora Sanitária, que tinha nivel universitário, Lindolpho foi atropelado pelo progresso, saiu da Squibb, teve dificuldade para encontrar trabalho e acabou meio encostado no escritório da firma de materiais de construção do seu pai, que era controlada pelo seu irmão Antonio. Lindolpho desenvolveu uma doença autoimune que o mataria antes dos 60 anos, quando Pedro nasceu, em 1976, que o limitava muito e que era percebido pela família e por Antonio como falta de vontade, o que não era verdade. Prefiro não entrar em detalhes, mas ele não foi o que de certa forma este período final da vida dele sugeriu equivocadamente. Lutou um excelente combate e teve muito sucesso não apenas gerando a vida que gerou, mas desempenhando de forma perfeita o papel de pai que entrou no imaginário de suas filhas como um verdadeiro chefe de família que foi.

Rute

Rute formou-se professora primária na Escola Normal e consta que foi excelente aluna o que talvez explique como ela conseguiu uma cadeira de professora primária aqui em Campinas, que era o que fazia quando ela e Lindolpho se casaram. Ela era muito inteligente e aplicada e prestou e passou num concurso para virar funcionária do Instituto Agronômico, onde, aliás, trabalhava seu irmão Wady, Wladimir Fera, que era desenhista da Secção de Entomologia Aplicada do Instituto Agronômico de Campinas, e um exemplo do tipo de ilustração que ele fazia pode ser visto na seguinte publicação:

Rute e Lindolpho foram, logo depois de casados, morar junto com a mãe de Rute, Clara Ethelvina Bond Collmann, no pavimento superior onde existiu a Padaria Hamburguesa, que deu lugar à loja de Móveis Zanolini, na Rua José Paulino, logo em seguida do Externato São João. Clara era esposa de Pedro Fera e tiveram os seguintes filhos: Amelia, WesLey, Felicia, Rute, Odete e Wady. Ainda moravam com ela Ley e Wady, com quem se juntaram Rute e Lindolpho. Entro em detalhes quando for circunstanciar Clara e Pedro Fera.

Antes de casar-se, Rute fez o curso de Educadora Sanitária na USP em S. Paulo e, posteriormente, entrou num concurso e foi aprovada, bastante tempo depois, quando ela abandonou o emprego do Instituto Agronômico e entrou na Saúde Pública.

Rua Bernardino de Campos

É fácil deduzir que se casaram por amor e não tinham meios para ter uma casa separada para criar sua propria familia e se sujeitaram a morar com Vovó Clara e suportar a convivência de Wady, que ainda estava com ela e demoraria um pouco para se casar. Não há fotos do casamento deles, vestido de noiva, festa, etc. Deviam estar profundamente apaixonados para ignorar totalmente a realidade e, simplesmente viam um ao outro. Porém, na sequência, também dá para deduzir que os dois foram à luta e lutaram um bom combate, pois alguns anos depois desfrutavam de um padrão de vida excelente para época.

Rute, como funcionaria do Instituto Agronômico, conseguiu um empréstimo no Instituto de Previdência do Estado de São Paulo (IPESP) para construir casa própria, na mesma época do meu pai, 1954/ 1955, sendo que ela construiu a casa onde Cristina iria morar até se casar comigo em 68 e meu pai comprou a casa da Rua Luzitana, 280. Uma curiosidade: Alguns anos depois, Vovó Nenê e Vovô João, apesar dele ter jurado nunca mais iria ter imóveis após a perda da Fazenda que herdara dos pais e ela também, compraram uma casa com empréstimo do mesmo IPESP, pois Nenê era professora primária de carreira. Conto mais detalhes quando discutir as circunstâncias deles.

Rua Álvaro Muller, 931

Esta casa era perto do Externato Imaculada e Rute conseguiu com as freiras que suas três filhas lá estudassem, o que as educou, melhor, moldou, num padrão non plus ultra, como se fossem do calibre que na época era o melhor tipo de educação que se podia conseguir.

Pedro e Clara

Pedro morreu em 1949, quando Cristina tinha 4 anos, por isso as memórias e informações sobre ele são poucas e um tanto confusas.
Ele foi funcionário da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e não sei qual era o nome da função, mas não era maquinista, ele atuava dentro dos vagões, provavelmente coletando as passagens e com certeza era ligado ao restaurante, talvez como cozinheiro, de onde ele trazia comida que sobrava, frutas que não foram consumidas, de volta do trabalho e era uma festa para as filhas e filhos dele.
A propósito, tanto ele como Clara eram excelentes cozinheiros, sendo que ele tinha fama de ser melhor, pois quando decidia cozinhar, ia no Mercadão de Campinas e cuidadosamente selecionava o que ia cozinhar, os temperos e preparava memoráveis refeições que são lembradas até hoje.
Clara, por sua vez, extremamente econômica, conseguia preparar refeições sem comprar nada, apenas com coisas que ela colhia de sua horta no quintal e provavelmente de um galinheiro. Ela plantava salsinha e chás, erva doce, hortelã, losna, cebolinha, espinafre, serralha, abóbora, alface, tomates, chicória, que Cristina adora e temos alguns destes itens aqui no nosso quintal. Cristina aprendeu a cozinhar com ela.
Vovó Clara tinha alguns pratos que só ela fazia que são memoráveis e deliciosos pastelões de carne moída com salsinha e ovos cozidos cortados bem miudinhos que Cristina alega que nunca mais provou, mas que sente o gosto até hoje!

O casamento deles não terminou bem e a história deles é bem triste.

Clara foi adotada por uma família por ter sido impossível aos seus pais a criarem, porém, no inicio do século XX, e até em meados dele, as famílias agregavam crianças em que a situação dos pais não permitia sobreviverem juntos e estas criança acabavam ajudando de alguma forma as famílias de adoção. Ela era de origem alemã e algo mais europeu. Ele com certeza a origem era do Leste Europeu, creio que da Servia.

Ela era muito habilidosa e excelente costureira e conseguia sobreviver com isto, pois Pedro Fera acabou se amasiando com a dona da pensão em que ele ficava em Itirapina e abandonou a família daqui de Campinas. Por isto a imagem dele ficou ofuscada, ou melhor suja e há uma tendência para desprezá-lo inclusive profissionalmente. Ledo engano! Ele navegou um mar muito mais sofisticado e complicado do que este preço que ele pagou na sua imagem sugere e fui procurar descobrir isto e consegui o seguinte:

 A Jornada de Pedro Fera: O Banquete sobre Trilhos

  • A Partida (Campinas): Pedro iniciava o dia cedo na Estação de Campinas. Antes de os passageiros embarcarem, ele já estava no Carro-Restaurante, conferindo o gelo das geladeiras e os suprimentos frescos (carnes, vinhos e o hortifrúti da região). Com seu dólmã branco impecável, ele acendia o pesado fogão de ferro fundido.
  • O Trabalho em Movimento: Assim que o trem “Rápido” ganhava velocidade rumo ao interior, a cozinha virava um caldeirão. Pedro equilibrava panelas em grades de segurança enquanto o trem atingia 100 km/h. Ele preparava pratos da alta gastronomia (como Filé Chateaubriand) servidos em prataria e cristais para a elite paulista que viajava nos carros de aço.
  • O “Nó” de Itirapina: Após cerca de 2 horas de trabalho intenso sob o calor das chapas e o balanço dos trilhos, o trem chegava a Itirapina. Ali, a composição era manobrada e dividida. O turno de Pedro terminava com a cozinha limpa e o estoque conferido para a viagem de volta.
  • O Refúgio na Pensão: Exausto pela jornada e pelo calor, Pedro evitava os barulhentos alojamentos coletivos da ferrovia. Ele seguia para uma pensão de confiança na cidade. Lá, ele encontrava o silêncio necessário para descansar, um banho de verdade e alguém que cuidasse da lavagem de seus uniformes brancos, que precisavam estar alvos para o dia seguinte.
  • A Identidade: Como um legítimo “Fera” (sobrenome de provável origem no Leste Europeu ou latina), ele carregava o prestígio de pertencer à aristocracia operária da ferrovia mais rica do Brasil. Pedro não era apenas um funcionário; era o mestre que garantia o luxo e o sabor na “Inglesa”, como a Companhia Paulista era respeitosamente chamada.

Pedro Fera faleceu em 1949, no auge dessa era dourada, deixando para trás o rastro do apito da locomotiva e o aroma dos banquetes que preparou cruzando o interior.

Paulo e Julia

Julia aos 75 anos, um pouco antes de morrer

Julia

Era extremamente quieta e silenciosa. Lembro dela ficar incomodada comigo e com a movimentação que eu devia fazer quando criança indo visitá-la, ao que ela, retrucava: “Menino cabuloso!” (que não para de incomodar). Constava que nunca havia visto o mar e praticamente viveu a vida toda na vizinhança da casa da Uruguaiana 80, que fora comprada em 1918/20.

O irmão dela, José, que foi terminar a vida na casa dela, também era extremamente silencioso e diante de minhas estrepolias, abria uns olhos de espanto, mas não dizia nada. Lembro dele duas coisas: as pernas com pele semitransparente, cheia de rugas fininhas e com uma textura seca que lembra um papel antigo. Outra coisa, ele era extremamente limpo e usava umas camisas  que tinham apenas a “banda” do colarinho, sem as pontas, como os padres, porem com tecidos coloridos. Hoje, com meus 82 anos, observo minha pele está ficando do mesmo jeito.

A Irmã dela, Quindú, taciturna, emsimesmada, muito quieta, pelo que eu ouvia, devia ter algum tipo de trauma que se supunha foi pela perda por aborto de filho, que ela não tinha nenhum. Ela era casada com Batista, bonachão, parecia italiano, cabeça branquíssima, que ajudara a construir o túnel que liga a Vila Industrial com a estação de trens e era de uma simpatia incrível, super agradável como pessoa. Eles tinham uma casinha na Rua Regente Feijó, a duas quadras da casa de minha avó, num terreno que era mais estreito que o da casa dos meus pais, na Luzitana, 280, que ja era bem estreito. Ele tinha um carinho e um cuidado com ela excepcional, que ela recebia muito quieta sem falar nada. Não me lembro da morte deles.

Um detalhe curioso: Maria, ou Mary, como ela gostava de ser chamada, a terceira mulher da familia, depois de Emilia e Ana, nunca teve uma ocupação regular, como minha mãe, que foi trabalhar na Fábrica de Seda, ou Emilia, que se formou na Escola Normal. Era totalmente doméstica, sendo famosa pelo esmero e cuidado em tudo que fazia, especialmente certos doces e bolos que demandavam um ritual complicadíssimo. Ela devia de ter alguma renda provavelmente herdada de Paulo, seu pai. Ela era minha madrinha de batismo e eu a chamava de Madrinha. Para minha surpresa, quando em 1974 eu comprei minha primeira casa, na vilinha, como chamávamos, e a entrada estava muitíssimo acima de minha capacidade e, quem praticamente deu tudo, foi ela, que tinha um dinheiro proveniente da venda da casinha de Batista e Quindú que ela herdara. Ela foi a que morreu mais cedo, com uns 55 anos, de AVC. Estávamos nos Estados Unidos e não vimos o enterro.

Madrinha, ou tia Mary e Quindú

Paulo

Ele morreu de infecção quando já existia penicilina, porém, não no Brasil. Como tinha 50 anos, talvez um pouco mais, devia ter nascido em 1885, pois devia ter se casado em 1915, pois Emília, a filha mais velha, era de 1916. Comprou a casa da Uruguaiana 80 em 1918/20, do bisavô do Secarelli, que andava conosco de jipe em 85/89.
Ele era originário de S.Paulo e não tinha nenhum parente em Campinas. Tinha um irmão, Germano, que atingiu alto cargo na Guarda Civil de S.Paulo e me lembro de tê-lo visto fardado visitando minha avó. Minha mãe se referia aos parentes de meu avô Paulo como “Os Welendorf”, não sei porque e nunca fomos a São Paulo visitá-los. No início dos anos 80, não sei porque, alguém deles foi nos visitar na Luzitana 280 e era uma senhora com uma menina que era igualzinha ao Pitó…
Paulo tinha uma situação diferenciada para conseguir comprar praticamente de cara a casa que abrigaria sua família. Ele era dono de uma cátedra de marcenaria na Escola Bento Quirino, que foi instalada perto do Culto à Ciência, aliás na mesma rua com distância de uma quadra.

Hoje, naquele local funciona o Colégio Técnico de Campinas (COTUCA) no prédio do inicialmente chamado Escola Profissional Bento Quirino. Construído com o apoio financeiro de Bento Quirino dos Santos (1837-1914), que visava a formação de uma escola profissional masculina e gratuita, o Instituto Profissional Bento Quirino, que foi inaugurado em 2 de abril de 1918 à Rua Culto à Ciência, sendo sua construção iniciada em 1917. Surgiu no contexto da expansão das atividades industriais na cidade de Campinas nas décadas iniciais do século XX e da necessidade de formação qualificada dos trabalhadores.
A narrativa que consigo construir sobre Paulo, diante do fato de que ele era um dos professores qualificados que deu origem a esta escola e pensando que ele casou em 1915 e comprou a casa em 1920 é a seguinte: Consta sobre ele que era exímio marceneiro, o que aliás podia ser visto nos móveis da casa dele, que ele os construiu todos, e que ele teria vindo a Campinas para fazer alguma coisa na Catedral de Campinas, que é toda de madeira. A madeira é o coração da decoração da Catedral. Quase todo o interior visível é de jacarandá-da-baía e cedro, madeiras nobres, escuras e extremamente resistentes.
Em 1915, a Catedral já estava aberta, mas ainda recebia intervenções artísticas e mobiliário. Um marceneiro daquela época teria trabalhado em peças fundamentais, como os bancos da nave, cujo detalhamento impressionante exigiu reformas e novas confecções para acomodar o crescimento da cidade. Além disso, dedicaria seu talento aos confessionários e balcões, peças de marcenaria funcional que demandavam encaixes perfeitos, muitas vezes realizados sem o uso de pregos, apenas com cavilhas de madeira. Outra frente de trabalho constante seria a manutenção do coro, estrutura que sustenta o grande órgão francês instalado em 1883 e que, devido ao peso do instrumento e à ação de cupins, exigia cuidados frequentes em seu madeiramento e nas escadas de acesso.

Campinas era muito rica por concentrar os ricos fazendeiros plantadores de café e atraia profissionais para executar não somente obras como a catedral, como tambem as casas, por exemplo, da Av. Júlio de Mesquita, equivalente à Av. Paulista de S.Paulo e é possível que Batista tenha sido destas pessoas como Paulo que veio atraído pelo trabalho. Paulo não era católico, mas trabalhando na Catedral pode ter conhecido Batista, que seria seu cunhado posteriormente.
Batista trabalhou na construção do túnel por volta de 1918, como um dos operários de uma das obras de engenharia mais desafiadoras da época. O túnel (oficialmente Túnel Joá Penteado, embora o original seja o de pedestres e carroças ao lado) foi feito para ligar o Centro à Vila Industrial, passando por baixo da vasta malha ferroviária da Companhia Paulista de Estradas de Ferro.
É muito provável que eles se encontrassem na própria Catedral. Era o ponto de encontro comum: o marceneiro que ajudou a manter a Catedral e o operário do túnel que atravessava a cidade. Batista já estava comprometido com Quindu e provavelmente de alguma forma ficou amigo de Paulo e o introduziu à esposa e Paulo conheceu Júlia talvez assim.
Possivelmente se apaixonou, decidiu ficar e casar com Júlia e para isto tinha que se estabelecer profissionalmente.

Para ele ter sido admitido na Escola Profissional Bento Quirino, tinha que ter formação sólida e creio que deveria ter se formado mestre marceneiro no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e veio a Campinas para atender os problemas da Catedral. Ao se apaixonar por Julia, decidiu ficar e empregou-se na Escola Profissional Bento Quirino como Professor e daí a explicação para ter podido comprar a casa.

O padrão construtivo do prédio fala por si só, mas para compararmos com paridade com a profissão de professor nos dias de hoje, temos que levar em conta que o ensino, no Brasil, no inicio do século XX.

Catedral de Campinas

Nenê e João

Casal em 1961

Nenê – née Benedita Morais Teixeira e depois adicionou de Souza

A narrativa que vou construir para determinar aquele momento em que João decidiu casar com Benedita vai ser feita a partir de um relato que Cristina fez recentemente, sobre a morte de Da. Nenê:

“Ninguém esperava a possibilidade de que minha avó morresse. Ela morreu de um AVC hemorrágico e não me lembro de vê-la acamada ou se queixando de qualquer coisa em relação à saúde. Ela era o elo que ligava todos ao redor.
De repente, uma manhã em que estava se preparando para ir à missa, ela disse algo ao meu avô e ele olhou para ela e percebeu que estava morta.
A casa virou um caos. As netas e filhas se desnortearam, chorando alto descontroladas.
Eu procurei meu avô no meio da confusão, sem encontrá-lo.
Ele estava sentado numa cadeira de vime encostada na parede do terraço da casa com vista para o jardim e quando me viu fez um sinal para que eu me sentasse à sua frente.
Fiquei desconcertada e sem poder me esquivar, fui ao seu encontro.
Ele me disse: Fui pedir sua avó em casamento para o pai, sem que tivesse falado sequer uma palavra com ela. Só nos olhávamos. Muitos dias depois, recebi com surpresa a noticia que ela viria me visitar e fiquei abalado.’
Nesse ponto, meu avô chorava, o que fez com que jamais consiga apagar essa inolvidável lembrança.
Olhando bem em meus olhos, disse: ‘Ela veio ao meu encontro chorando de alegria! Você consegue pensar o quanto ela me fez feliz?’
Uma declaração de amor a ela que o tinha deixado naquele momento, foi comigo que ele repartiu a mais encantadora lembrança de sua vida!
A partir daí eu chorei e choro até hoje por ter sido a depositária de bem tão valioso!”

O anel

Cristina: “Tenho um canto na minha sala de visitas com fotos dos vários casais que formaram as três últimas gerações, algumas foram colorizadas e colocadas neste post.
Numa destas fotos, vovó Nenê, recém casada, aparece enlaçando meu avô sentado. Ela atrás dele com os braços ao redor de seu pescoço e as mãos se encontrando à frente, onde aparece seu anel de formatura de Magistério que ela queria exibir. Fiquei sabendo pelas minhas tias, suas filhas, que isto lhe valeu uma repreensão e o repúdio de sua mãe que ficou sem falar com ela por um tempo, pela ousadia!
Neste evento, está a mais clara demonstração de seu temperamento determinado!
Sempre foi determinada e nunca fez isto por demonstração de altivez ou prepotência.
Ela era super macia e atuava na família de forma discreta, mas precisa.
Na cadeira de professora que assumiu numa fazenda nos arredores de Campinas, ela fazia questão de dar aulas de alfabetização para os filhos dos colonos.
Sua decisão de ir trabalhar acabou lhe rendendo um empréstimo pelo IPESP para comprar a casa na Rua Barbosa da Cunha onde iriam morar até morrer.”

“Ela tinha em aberto uma conta na Floricultura e semanalmente eles enviavam um ramo fresco e perfumado que ela colocava aos pés de S. José, que é a guarda da Sagrada Família e Patrono da Igreja. Vovô João nunca superou a amargura de ter perdido a fazenda Santa Carolina e fez um juramento de nunca mais comprar imóvel, porém, ela, com o financiamento que lhe era de direito pelo IPESP, comprou uma casa excelente na Barbosa da Cunha, perto do Bosque dos Alemães, onde eles iriam morar até o fim dos seus dias. Pois bem, nesta casa ela arregimentou um grupo de senhoras para arrecadar gêneros alimentícios e outros necessários para dezenas de famílias carentes. Ela chamou o grupo de S. Francisco de Assis. Ela comandava o grupo pedindo às suas amigas participantes colaborações mensaisd com o que ela comprava os alimentos. Uma das pessoas que ela ajudou foi a Ana, que trabalhava em nossa casa na vilinha e era irmã da Ia, eterna empregada de tia Amélia e babá da Angela.”

Cristina tem este traço, e sempre está envolvida com ações desta natureza e foi observando sua avó Nenê que isto aconteceu.
Uma curiosidade: Vovó Nenê era nascida no dia 29 de Fevereiro, em ano bissexto, casou-se em ano bissexto e morreu em ano bissexto.
Outra curiosidade: “Vovô João teve um mal estar quando moravam numa casa na esquina da Júlio de Mesquita com a Moraes Salles e diante do susto, as filhas falando em enfarte, correndo atrás de médico, ela calmamente sentenciou: ‘Calma, Lygia (segunda filha), tem tempo, eu vou morrer antes de seu pai’. E morreu mesmo.”

João Batista de Souza

Novamente vou relatar o que a Cristina escreveu, em 9 de Janeiro de 2022, às 19:30:

Cristina: “Quarta feira de sol, com brilho em todo o verde e de repente, sinto vontade de começar a relatar o que você, Dani, pediu que eu fizesse, contar fatos, falando de pessoas que você não conheceu e, você disse: ‘Hoje gostaria de saber de minha mãe, sobre os fatos e pessoas que fizeram parte de sua vida, e de quem ela nunca me falou’. O pai de meu pai, das figuras que conheci, a que mais se parece com você, Daniel, não fisicamente, mas em toda a maneira de ser, na linguagem corporal e talvez em sua dimensão humana, acho que é meu avô, pai de meu pai.
Se eu pudesse qualificá-lo, eu diria que foi austero.
Magro, não muito alto, mas elegante em sua maneira de se vestir e de se expressar nos modos e na fala.
Ah! o chapéu!… sua marca registrada! A maneira como o punha e o tirava da cabeça e dependurava no cabide da entrada da casa!…
E o roupão quando ficava em casa, não era roupão, era ‘robe de chambre’ de tecido adamascado em tom de vinho, com camisa que aparecia no decote em V.
Sua herança, que vinha dos imensos cafezais de sua fazenda Santa Carolina, desapareceu quando houve a crise do café em 1929 com a quebra da bolsa em Nova York.
Sem um único tostão, veio para Campinas e entrou na casa de um irmã casada (tia Moça) onde foi acolhido com sua mulher, vovó Nenê, e seus doze filhos. Doze filhos!…
Dos filhos e filhas todos, a única que conseguiu um emprego para ganhar um pequeno salário, foi a mais velha, tia Yeyé, (Maria José). Inúmeras vezes eu o ouvi dizer, relatando esse episódio, que viveu numa agonia pensando que ele é que desesperadamente gostaria de estar no lugar dessa filha, naquele evento, ganhando qualquer coisa…
Essa firma que ele passou a trabalhar, se transformou em sujas mãos, pois graças à sua gestão, passaram a representar a Cimento Itaú em Campinas, recebendo vagões de cimento que redistribuiam às outras firmas. Ele acabou como único dono, já que o cunhado se desligou, pois tinha outros negócios para cuidar, além de uma grande família como a dele, como era costume na época.
Há que ser dito, que seu meio, sua família, vinham de uma linhagem de fazendeiros, que fizeram seus filhos estudarem e tornarem-se médicos, engenheiros e homens de negócios, com empreendimentos variados que os colocava no topo da sociedade campineira da época.
Quando meu avô perdeu seus bens na crise de 29, minha avó, filha única e herdeira de grande fortuna, que incluía filas de casas e imóveis, por exemplo, na rua José Paulino, que fiquei sabendo não me lembro bem como, também perdeu sua herança.
Vale ressaltar que digo isso, não para falar sobre poder ou riqueza, mas para ressaltar o aspecto de que nossa família, da parte de meu pai, além de educação e modos primorosos, colocavam o nome, a honra, a delicadeza no trato, o respeito e a estima de uns pelos outros e a educação acima de tudo.
Lembro-me de um episódio curioso que é um bom exemplo para entender isso.
Raras vezes meu avô falava em relação a aspectos de domesticidades. Um dia, eu estava na pia da cozinha querendo demonstrar que eu já podia ajudar, lavando a louça do café, quando ele me interrompeu e me disse: ‘Não se deve lavar faca de pão, que somente deve ser usada para cortar o pão. Apenas limpe-a e guarde.’
Achei aquilo curioso e levo isso para toda a vida e sempre observei e observo as pessoas que enfiam a faca de pão na manteiga, por exemplo, que sempre me constrangeu e me parece sinal de falta de trato e de boas maneiras.
Nunca tive aproximação com meu avô. Eu o observava mas não tinha ou não sentia que tivesse liberdade para me aproximar. Eu o cumprimentava porque ele me oferecia a mão e eu a beijava, mas nunca minha aproximação foi maior, ou mais amorosa.
Houve, no entanto, uma ocasião em que consegui compreender que ele nutria um grande amor por mim. Foi quando minha avó morreu”.

Daí para a frente, Cristina relata o que foi a narrativa para explicar a decisão de João casar com Nenê.

Uma viagem ao Rio de Janeiro

Cristina: “Houve também uma lembrança inesquecível vivida com meu avô. Acho que foi minha avó que o convenceu a me levar junto numa viagem ao Rio de Janeiro que ele programou para conhecer a Cidade Maravilhosa.  Meu avô queria conhecer o Rio.
Junto com ele foram tio Bizzy e sua esposa Dirce, Sofia que era caçula e pouco mais velha que eu, eu tinha uns 10 anos e ela 20. Eu era cheinha de corpo, como se vê na foto, como a Juju atualmente.
Ele contratou um táxi que nos levou e ficaria à disposição lá. Vovó Nenê não quis ir e lá fomos nós, ficando hospedados no Hotel Novo Mundo, onde, assim que chegamos, pediu para que deixássemos as malas nos quartos e descêssemos que ele estaria esperando.
Tínhamos tomado uma refeição pelo caminho, mas estávamos com fome e imaginei que fôssemos jantar, porém, qual a minha surpresa quando ele chamou nosso motorista e disse a ele que desse uma volta pela cidade e mostrasse as principais praias.
Lá fomos nós, todos dentro do carro, ele entusiasmado trocando informações com o motorista quando virou para nós e se deparou com os quatro dormindo profundamente!
A indignação dele foi alucinante: “Ele estava trazendo todo mundo para conhecer o Rio de Janeiro? Não!… Estava pagando para dormirem no Rio de Janeiro!.. Dormir???…
O motorista não sabia o que fazer desolado e eu morta de fome com vontade de chorar…Finalmente ele desistiu e disse que o passeio estava encerrado e que iríamos jantar e dormir. Todos desolados com uma cara que nunca fiquei sabendo se era por causa da fome e do sono ou da bronca…
A parte mais hilária viria em seguida…
Entramos num restaurante, tudo minuciosamente programado. Tio Bizzy obsequioso, não querendo contrariá-lo ainda mais, pegou a carta do menu para traduzir para ele o que ele escolheria para comer e ele não demorou a escolher, o que não me lembro, pois eu sentia tanta fome que qualquer coisa que pusessem na minha frente eu comeria mesmo sem saber do que se tratava…
Veio o prato dele, ele estendeu o guardanapo sobre os joelhos, quando o garçom trouxe o prato do tio Bizzy.
Foi a conta! Ele bateu a mão espalmada sobre a mesa e vociferou: “De maneira que você, Bizzy, encomenda um tipo de comida para mim e escolhe o melhor para você???”
Creio que o tio Bizzy gostaria de poder chorar… mas balbuciou que fora vovô que escolhera o prato que veio para ele e vovô argumentou: “por insistência sua, Bizzy!”… foi a conta dele chamar o garçom, devolver o prato e dizer: “Quero o mesmo prato que meu filho escolheu, você entendeu?!” e o garçom, aturdido correu para atendê-lo…
Eu estava a ponto de chorar se não me deixassem comer meu bife com batatas fritas. Tia Dirce e a Sophia roxas para segurar a vontade de rir à gargalhadas…
Passada a tormenta, ele iria se referir ao tio Bizzy como Bizizinho e nunca descobri se o tratamento era uma maneira de brincar com ele ou arrependimento e pedido de desculpas pelo vexame que o havia submetido diante do garçom…”

Vovô João fazia às vezes o que Daniel tem mania de fazer, que é pegar a familia inteira e ir para algum lugar, tanto aqui no Brasil como nos Estados Unidos. Vovô João gostava de praia e mar e iam para Santos e São Vicente:

Lygia, Ralpho, Cail, Mario Natividade, Nenê e João

Ninho Vazio

Como a proposta é examinar dois momentos dos casais envolvidos, sendo um a decisão de se casarem e formar família e o outro quando o(s) filhos saem para a vida, fica clara que duas gerações para trás, a quantidade de filhos não contemplava nada semelhante. Uma geração para trás, ocorreu já algo semelhante e apenas agora que se pode observar esta transição com impacto emocional.
Em relação aos meujs pais, Weimar e Ana, No caso de Paulo e Júlia, mesmo levando em conta que ele morreu aos 50 anos de uma infecção, houve uma pressão que acelerou a saída deles, porém, assim que pode, minha mãe veio morar perto da mãe dela e a casa que comprou onde viveu a maior parte da vida estava a uma distância que poderia ser feita a pé. Minha avó Júlia morava na Rua Uruguaina e mes pais na Rua Lusitana.
Mary e Emília ficaram com a mãe e não se casaram.
Geraldo foi embora, mas para casar construiu um quarto no fundo da Rua Uruguaiana 80 e só saiu quando virou Professor Primário e escolheu uma Escola, por sinal na Holambra, onde meu pai era Diretor e ele foi com a família morar lá.
José, que era meu padrinho de batismo junto com Mary, morava com sua família a uma distância que podia percorrer a pé e ele tinha um sistema de passar na casa da mãe todos os dias antes de ir para o trabalho, na Companhia Paulista de Estradas de Ferro e depois no Senai onde se aposentou como professor de Desenho.
Quando a casa da Uruguaiana 80 desapareceu, José, já aposentado e viúvo, adotou o sistema de visitar a casa dos meus pais, tão arraigado era o hábito. Sempre tinha uma garrafa de Campari esperando por ele em minha casa, meu pai o apreciava muito.

Ninho Vazio no caso de Nenê e João

Quem eram estes doze filhos e o que aconteceu com eles vale uma rememoração e algumas histórias.
Cristina relata que dos 14 filhos que tiveram, sobreviveram 12, que ela os conheceu todos, pois ela frequentava a casa dos avós Nenê e João e eles tinham o costume de almoçar aos domingos, todos juntos. Vinham com as mulheres e filhos, os “primos”, e o que acontecia nestas reuniões era um verdadeiro folclore. À noite jogavam truco, brigavam, se desentendiam e depois voltavam a conversar.

As filhas: Maria José (Yeyé), Hilda, Elza, Carolina (Caiu) , Lygia, Sofia.
Os filhos: Lindolpho, Antonio, Lineu, José Geraldo (Bizzy), Mario Natividade e Ralfo, morreu jovem, ainda solteiro.

YeYé era casada com José Torres, que trabalhava no Paraná a vida toda e aparecia de tempos em tempos. São pais da Nina e do João, que é advogado bem sucedido.

Hilda, casada com Geraldo Barros, alto funcionário do Antigo Banco do Estado, que morreu durante uma cirurgia. São pais do Gezinho, do Marcos, da Maria Eunice e da Maria Beatriz (Bia), que nasceu no mesmo dia que nosso filho mais velho Daniel. Hilda ainda teve mais um filho, José Antônio, que nasceu com um comprometimento sério, mental e físicog. Demandava um cuidado extremo e Hilda e Geraldo chegaram a vender uma casa para tratar do menino, apesar de que seria apenas mantê-lo vivo, porém sem sucesso e ele morreu antes dos 5 anos. Quando ficamos deitados permanentemente, aparecem escaras no corpo, que são lesões por pressão, feridas na pele e tecidos inferiores causadas pela pressão contínua e prolongada, que reduz a circulação sanguínea em áreas específicas. Comuns em pessoas acamadas ou em cadeira de rodas, ocorrem mais em áreas ósseas como cóccix, calcanhares e quadris, podendo evoluir para infecções graves. Pois bem, Hilda dispensava extremo cuidado ao José Antônio, que morreu depois de ficar 5 anos sendo cuidadosamente atendido por ela, sem escaras. Não sei porque, isto ficou gravado na minha mente como a síntese do heroísmo dela e do marido e do amor que dedicaram a esse filho.

Elza casou-se com José de Tela, viúvo, com três filhas do primeiro casamento, alto funcionário da Sericicultura e morreu prematuramente, num momento delicado, pois Elza estava grávida do último filho, Lindolphinho. O filho mais velho é José Tella, que tanto conhecemos com seu bom humor quando tinha agência de viagens nos ajudou a localizar passagens para irmos aos Estados Unidos. O segundo filho, Netinho (Bonifácio de Tela Neto), depois Lygia Helena, Terezinha (Lelé) morta prematuramente e Lindolphinho.

Carolina (Caiu) e Lygia não se casaram, sendo que Caiu ficou em casa cuidando dos pais e Lygia foi funcionária, de Repartição Pública.

Sofia casou-se com Hildebrando, que trabalhava na Contabilidade da Clark quando eu trabalhei lá na área de Tempos e Métodos. tiveram dois filhos, João e Hildebrando.

Os filhos homens de Vovó Nenê e Vovô João

Lindolpho, filho mais velho, casou-se com Ruth e tiveram três filhas, Maria Cristina, Laiz e Doía (Maria Auxiliadora).

Antonio Benedito casou-se com Tereza e tiveram quatro filhas, Maria Tereza (Tushi), Maria José (Zezé), Maria Inês (Nena), Maria Alice, Antonio, João e Tuca.

Lineu casou-se com Cecilia e tiveram três filhos: Lineuzinho, Regina Silvia e a caçula Ana Maria.

Bizzy (José Geraldo) foi casado com Dirce (Irmã de Lillian, ambas filhas de D. Izabel, que eram muito amigas de minha tia Mary e moravam na mesma vizinhança). Bizzy e Dirce tiveram três filhos: Maria Izabel (Bebel), Maria Benedita (Benê), e Vicente de Paula.

Mario Natividade e Ralpho não tiveram filhos, mas Mário foi casado com Lucilia

Alberto e Zuleika

Não consigo encontrar alguma imagem ou relato para separar o momento em que decidiram casar e o momento em que os filhos ficaram adultos. Vou postar narrativas que fiz sobre eles e tentar fechar a partir dai.

Zuleika

Quando fiz 14 anos, dava para viajar sozinho e ir a São Paulo, que o fiz a convite de Vó Zuleika, inclusive para ajudá-la na pintura de algum cômodo da casa que ela tinha na Rua Mario Amaral.


Onde ela morava antes de comprar a da Rua Rio Grande 226.

Laiz, Ana e Cristina 1996


Lembro-me que ela em retribuição, me deu minha primeira calça Jeans, comprada na Sears do Paraíso, que era perto da casa dela.
Nos dávamos muito bem e ela decidiu mostrar São Paulo para mim. Isto é ensinar-me a pegar o Bonde, como andar lá e o que tinha para ver.
Lembro que era duro acompanhá-la, pois andava rápido e era incansável.
Era muito enérgica, porém bem humorada e tinha paciência para me explicar São Paulo, que para mim era imensa.
Criei um blog sobre os anos 50, coisa de nostalgia e inseri informações onde relato o que eu aprendi com ela e o que eu fazia em São Paulo naqueles distantes anos 50, a partir da casa dela.  Aperte o More abaixo:

Tenho dois relatos sobre Zuleika, um que eu compus e outro de minha mãe, segundo ela, ditado por Vó Zuleika ela mesma.

Meu relato: Avós Paternos – Zuleika e Alberto – Breve Histórico

Zuleika era filha de um dentista. Levando-se em conta que era no início do século XX, tinham uma situação de classe social diferenciada. Creio que a família viveu em Santos inicialmente. Mudaram-se para Campinas e ela fez magistério na Escola Normal. Como ela mesmo relata para minha mãe na sequencia, o Secretário da Educação, Dr. Altino Arantes, padrinho de formatura, as ofereceu escolher uma colocação no Estado de S.Paulo desde que não fosse na cidade de Campinas, porque era por demais procurada. Ela aescolheu Amparo e foi assim que conheceu Alberto.
Não me lembro quantos irmãos vovó Zuleika tinha. Acho que três, o mais velho, José, morto há longo tempo, Orestes e Romeu, caçula. Lembro-me de Orestes, que era o segundo, que conheci nos anos 60, em Santos. Ele fez uma coisa absurda: Construiu um prédio de uns 10 andares e em cada andar ficava um membro da família dele, ou seja, os filhos e filhas se casavam e iam morar no prédio.  
Duas coisas me chamavam a atenção do prédio: as maçanetas das portas eram de cristal e o apartamento que creio que era dele e era cobertura, se comunicava um andar com o outro pela escada, no que seria hoje creio que se chama Duplex.
Não sei se é preconceito, tenho memória de ter a sensação que ele desembaraçava muamba no porto e daí vinha tanto dinheiro. Romeu, seu irmão caçula, quando eu o conheci trabalhava na Varig e parecia um comandante, mas creio que tinha algum emprego singelo na organização. Sugeria fortemente ter sido um bon vivant e de alguma forma lembrava Wolmar, e tudo que vale para ele, vale também para Romeu.
Zuleika tinha três irmãs, Julieta, Argentina e Carmem. Eu me lembro de Carmem e  Argentina, que era mais velha. Morava em S. Paulo mais ou menos perto de minha avó, que morava na Rua Rio Grande 226, na mesma rua que o Jânio Quadros morava, em Vila Mariana, relativamente perto do Ibirapuera.
Quando visitei Argentina, ela tinha dezenas de cachorros e gatos soltos na casa e tinha ficado alterada do juízo. O marido a abandonara e era uma cena tétrica, pois ela era claramente uma pessoa fina, educada e de posses.
Carmem, mais nova. Era casada com Otilio, tinha uma quantidade enorme de filhos. Ela tinha olhos azuis e era loira, e tinha um filho, Flávio, que era guarda rodoviário que tinha a capacidade de sentar-se na frente de um piano, sem tocar nada enrolava de forma incrível, parecia que tocava mesmo. Tinha Luiz, que também tinha um Buick 48 igual ao de Wolmar, tinha Otilia, casada com um cara do Banco do Brasil, tinha Terezinha casada com um cara extremamente devagar, tinha Agostinho, que era santo, contador, pobre, morreu cedo e deixou uma prole enorme com uma mulher totalmente devagar. Os filhos eram sujinhos e ranhentos.
Flavio e Terezinha viraram alcoólatras e não sei o que aconteceu com eles.
Quando Otílio foi desenganado, o médico mandou dar o que ele quisesse e ele pediu guaraná, que eu o vi bebendo com sofreguidão, na véspera do seu falecimento. Ordália, “Pequenina”, nunca casou, foi educada em colégio de freiras francesas, dava aulas de francês e era difícil. Como falava francês, adquiriu o traço da raça, que despreza o mundo. Quando minha avó ficou sozinha, tentamos fazer as duas morarem juntas, que parecia lógico. Nem pensar. Ela morreu sozinha e demorou vários dias para alguém perceber que estava morta no apartamento. O prédio era aquele do filme “O ano em que meus pais saíram de férias”, rodado aqui em Campinas.
Alberto, marido de Zuleika, era filho único de fazendeiro, rico, com terras que iam desde Jaguariúna até Amparo. O pai tinha muitos imóveis em Amparo, que ele perdeu porque não pagou IPTU e a Prefeitura penhorou. Nunca jamais trabalhou. Ia cortar cabelo em S.Paulo e tinha pente, espelho, escova, tudo francês, que meu pai me deu como lembrança dele. Creio que ele não batia bem.  

Relato de minha mãe, ditado por Zuleika

Relato de minha avó, Zuleika Magalhães de Campos, à minha mãe, Ana Ehrhardt de Campos, em meados da década de 80, quando tinha quase 90 anos.

Roque Ehrhardt de Campos (em 12/98)

Formatura em 1913

Escolheu o magistério por ser compatível com sua condição de dona de casa. Sempre gostou de ser professora. Como presidente da Comissão de Festas e tendo como padrinho das formandas o nosso distinto Secretário da Educação, Dr. Altino Arantes, que em meio a tanto banquete as ofereceu escolher uma colocação no Estado de S.Paulo desde que não fosse na cidade de Campinas, porque era por demais procurada.

Sempre que eu fui a Amparo, imaginei que estas casinhas, na Praça Matriz, foram de Alberto. Como ela foi para lá em 1914, esta foi a cidade que encontrou

Escolheu Amparo, por ter vaga. Regeu a classe em caráter de substituta, por três anos, para enfim ser efetivada. Já efetiva, no governo de Washington Luís, a lei se modificou, sendo matriculadas crianças apenas com 9 anos completos. Ela ficou então adida em disponibilidade, para qualquer vaga que se desse, na cidade ou na roça, por ter sido a última a ter sido nomeada Os fazendeiros combinaram entre si, não aceitando as professoras (para que não saíssem da cidade, favorecendo-as).
Passados uns três meses, foi indicada para uma fazenda, onde trabalhou 8 dias, teve que deixar porque as paredes da escola estavam ruindo. Nesta época levou meu pai
Weimar e seu irmão mais velho Wladimir (em 1918). Desse período recorda que as professoras, enquanto adidas, não estavam na folha de pagamento, não recebendo.
Os fazendeiros conseguiram a inclusão na folha de pagamento, além da permanência na cidade. Havia mais 4 ou 5 professoras na mesma condição.
Voltando para a cidade, houve uma permuta entre duas professoras e ela pediu ao Delegado de Ensino para ficar no lugar da que saiu, ao que ele concordou, entregando-lhe a
classe do G.E. Rangel Pestana, onde trabalhou (com todo carinho, segundo ela), até 1929, onze anos em Amparo, portanto.
Removeu-se para Campinas, para o G.E. Orozimbo Maia onde trabalhou 12 anos, até 1940.
No G.E. Orozimbo Maia introduziu com grande sucesso aulas de Educação Física, pois nas festas a exibição da ginástica era um sucesso.
O inspetor da época indicou para que ela ganhasse a mais por ensinar Educação Física, o que era muito bem vindo (já era separada, desde 1925, com 5 filhos e uma filha
para criar)  .

Foi para S.Paulo em 1940.  

O pai da minha mãe, Paulo Ehrhardt, morreu inesperadamente de infecção em 1940, por falta de antibióticos, aos 50 anos e isto precipitou o casamento dos meus pais e a alteração da situação familiar de Zuleika.
Ela colocou a filha, Wanda, interna no Colégio Sagrado Coração de Jesus, que era antigamente na Rua José Paulino em Campinas, com 11 anos. Wanda ficaria lá até os 18 anos, saindo formada e casando-se com Luiz, em 1952, com quem teve 2 filhas e um filho. O filho mais velho de Zuleika, Wladimir, ficou em Campinas, foi morar na pensão da Braulia e casou-se com a irmã dela, Catarina, em meados de 41, aos 25 anos, ficando sem filhos até a morte em 1984, quando morreu aos 68 anos. Catarina morrera alguns anos antes.
O terceiro filho de Zuleika, Wolney, foi estudar Educação Física, conheceu Zélia no curso, casou-se com ela em 1941, aos 19 anos. Morreu cedo, aos 53 anos, em 1972. Tiveram três filhas. O quarto, Wolmar, mudou-se para o Rio de Janeiro, aos 19 anos, em 1941, onde levou uma vida muito comentada na família, por ter trabalhado no Cassino da Urca. Quando acabou o jogo, em 1945, Wolmar, após um período ignorado, começou a trabalhar como viajante vendedor de peças de automóveis, nos anos 50, casando-se, em 1959, aos 39 anos, com Dora. Morreu em 1997, com 67 anos.
O quinto filho de Zuleika, e caçula, Walton, foi trabalhar no comércio em S.Paulo, e ficou morando com a mãe até 1952, conheceu Laíz, professora primária também, casou-se em 1953 aos 23 anos e mudou-se para Campinas onde viveu até morrer. Teve apenas um filho, Waltinho.
Voltando à história de Zuleika, ela ficou no G.E. do Bosque da Saúde por 4 anos, até 1954, quando fez concurso para Diretora. Foi classificada em terceiro lugar em S.Paulo e em sexto no Estado todo.  Ela era obviamente inteligente, trabalhadora, competente e obstinada. Porém, tinha o pior gênio que se tem notícia segundo o testemunho das noras, que apesar de suspeito, era verdadeiro.  
Enquanto aguardava a nomeação, substituiu o Diretor Carlos Chagas, em uma fazenda em Jundiaí, por 3 ou 4 meses. Enquanto comissionada em Jundiaí onde segundo ela a molecada era “desordeira e desaforada” e vivia desafiando as professoras,  conseguiu ordem e deu a “maior festa”, “debaixo do maior respeito”, sendo que o chefe
Político da época, Dr. Godinho, fazendeiro comentou que a festa foi de “arromba”. Em 1945 foi nomeada para o G.E. Sta. Lucia, em Araraquara, até 1948, quando permutou com meu pai, Weimar, que tinha prestado e passado no concurso de Diretor de Grupo.
Foi para Garça, onde meu pai estava, para o G.E. de Vila Couto, entrando de licença e transferindo-se para Araraquara, para o G.E. Vila Xavier, onde ficou somente 1 dia e se aposentou em 1949. Ficou quase 50 anos aposentada, pois morreu com quase 101 anos, em 96. 
Durante o tempo que lecionou foi homenageada por delegados, inspetores, colegas, que reconheceram seus trabalhos, pois disputavam vagas para seus filhos nas suas salas de aula. Suas promoções eram boas, sendo quase sempre em torno de 100%, apesar da energia notória (acho que ela batia, puxava orelhas, etc.), era grande amiga dos alunos. (acho que eles morriam de medo dela…)
Em várias circunstâncias foi designada dada sua autoridade e energia para tomar conta de meninos, pois os meninos “abusavam” das professoras.
O único aluno que a aborreceu, ela lembra que foi um primo de seu marido Alberto, nos anos 20.

Alberto

Eu vi Alberto apenas uma ou duas vezes e pela minha lembrança, meu irmão Francisco ficou igualzinho a ele fisicamente.
À luz do que eu consigo entender os usos e costumes como eles estão hoje, duas coisas sobressaem:
Antigamente não havia separação. Casavam-se e morriam juntos, ainda que separados.
Não houve traição no caso de Alberto e Zuleika. O problema deles, colocados de forma simples era que ele não era inteiramente são mentalmente e por falta de ter que lutar pela vida, pois nunca trabalhou, adquiriu comportamentos que inviabilizaram a relação. Já no início do casamento, ela não deixou de trabalhar e ele acostumou-se com as providências que ela tomava no sustento da família.
A aparência que rezava que tudo tinha que estar como os valores socialmente aceitos, falava mais forte. Sempre foi mais forte que instinto, crenças pessoais, quaisquer que fossem as ideias que as pessoas tivessem. Tinha-se que guardar as aparências.
Alberto era filho único de um fazendeiro muito rico que se dedicava à plantação de café, possibilitando a compra de muitos imóveis e terras na região de Amparo.
Trabalhar para nossa tradição, (tá aí algo que não mudou), sempre foi “coisa de pobre” e nossa ideia de nobreza prescreve  que trabalhar diminui o ser humano. Ou seja, rico não trabalha  não porque não queira, mas porque entende que isso faz  parte da condição natural dele… Isso incluía não estudar… Curiosamente, porém, adoravam as boas maneiras e a educação impecável. O máximo de estudo que era permitido era etiqueta, boas maneiras, saber servir e comer, ter bom gosto, principalmente para as mulheres.
Alberto tinha maneiras impecáveis, acompanhado de uma apresentação pessoal primorosa, terno de casimira inglesa, camisa de gravata, sapatos de cromo, barba feita e cabelo arrumado. Falava baixo e macio e parecia extremamente reservado. Lembrava advogado bem sucedido e parecia naturalmente pertencer a uma classe social alta.
Com a morte do pai, Alberto encontrou-se de posse de uma fortuna, que ele não sabia como tinha sido conquistada e, pior, como administrá-la e mantê-la.  Além da incompetência, ele tinha um perfil psicológico que é difícil de diagnosticar, mas tudo indica que era um misto de “border line” com um certo autismo, agravado pela arrogância de quem foi criado no “andar de cima”. Ele, contrariado, simplesmente ficava violento e a verdade, era que diante da realidade que fugia das mãos dele e do desespero de Zuleika que percebia tudo, ele a agredia. E também aos filhos. Meu pai tinha lembranças que não revelava direito, mas eram de medo, pois sofreu agressões além do normal da parte dele. Os outros também, menos Wladimir, que era, por que razão não sei, querido dele.  Em suma, numa década as fazendas de café se esvaíram e sumiram com a crise de 29, quando o café perdeu totalmente o valor. Ficaram os imóveis de Amparo e uns célebres títulos que davam renda e que foram também sumindo. Os aluguéis por falta de administração não acompanharam a inflação, pois a lei do inquilinato é ruim hoje para o proprietário e, quem tem imóvel para alugar sabe, era muito pior e o fato que não rendiam para pagar os impostos. Os imóveis entraram na dívida pública do município e foram a leilão. Zuleika, amparada por Tio Bispo, decidiu separar-se, tendo sido Wanda a última tentativa de entendimento e liberou Alberto de qualquer pensão ou responsabilidade pelos filhos, que aliás foram assumidas por Tio Bispo. O processo da perda dos imóveis e da renda dos títulos demoraria ainda uns 30 anos para que ele ficasse totalmente na miséria, o que ocorreria no fim dos anos 60. Quando, acredite se quiser, ele pediu ajuda a Zuleika, que convocou os filhos a ajudar o pai, que estava na miséria.
Quanto a isso, lembro de vó Zuleika conversando com meu pai e se referindo encabulada na minha frente sobre Alberto, querendo fazer crer que de alguma forma mantinham o casamento, muito embora estivesse separada dele há mais de 50 anos! Como a comunicação ficou confusa, eu perguntei ao meu pai e ele me disse que ela não queria que ninguém soubesse que haviam se separado! Isso ocorreu nos anos 70 e ela separou-se no final dos anos 20!
Essa passagem de socorrer Alberto, eu lembro bem, pois meu pai ficou encarregado de conversar com os irmãos, verificar a situação em Amparo e resolver o problema.
Wladimir, o queridinho, negou-se a ajudar e Ney já estava morto. Wolmar negou-se também e meu pai e Walton, juntos com Vovó Zuleika, se juntaram para resolver o problema. Tanto quanto eu saiba, Wanda não foi comunicada do estado de coisas, possivelmente porque Vó Zuleika tinha vergonha do que Luís, marido de Wanda, poderia pensar. Meu pai foi com minha mãe visitá-lo e a história que ficou na minha cabeça dá muita pena de contar, mas se faz necessário.
Alberto era fino e educado e estava morando numa pensão com gente de extração muito simples e de atividades grosseiras, que implicava nas maneiras também simples e grosseiras completamente diferentes do que ele prezava e tinha.
Como era inevitável que ele fosse julgado irresponsável por ter abandonado a mulher e os filhos, além de agredir a todos, de alguma forma ele estaria “pagando”, pois ficou condenado ao pior tipo de miséria que se pode imaginar, que é pior que passar fome, é estar num meio hostil e que não é o seu, totalmente isolado e solitário, sem ter com quem sequer poder conversar. Como se estivesse vivendo numa cela solitária.
Me dói dizer isso, mas num gesto de tentar agradar, ele deu ao meu pai um jogo de escova de cabelo, com cabos de prata, espelho,  tesourinha, etc,. que ele levava consigo para cortar o cabelo, quando ainda era rico, pois não cortava cabelo em Amparo e pegava o trem e ia para São Paulo para fazê-lo!!!
Não acredito em castigo tipo lei do Talião, especialmente de Deus ou de qualquer força maior, pois ele não teve culpa nem de nascer rico, nem de não funcionar direito mentalmente, por isso não quero julgar, mas se ele faltou com alguma coisa, pagou tudo direitinho… E não ficou apenas nisso.
Ele era profundamente católico, talvez de missa e comunhão diários, e por não sei por quais circunstâncias, ele com o auxílio da ajuda dada por Vovó Zuleika, Weimar e Walton, foi internado num Sanatório Espírita, que ele abominava e o apavorava.
Ele acabou finalmente morrendo e foi enterrado no jazigo do seu pai, que era muito pomposo, como ocorre até hoje com quem é católico, de posse e enterrado em cemitério antigo.
Eu presenciei tudo isso, não me lembro de velório, apenas do caixão baixando dentro do túmulo do pai dele, com todo mundo em profundo silêncio e minha avó a única a derramar lágrimas.
Creio que ela nunca deixou de amá-lo…

Last, but not least

Fui levado, a redigir este blog/post, pelo que expressa a imagem acima:

O que é formalmente

É um ex-libris — como o nome do arquivo sugere. Selos pessoais usados tradicionalmente para marcar a posse de livros, com a inscrição “ex libris” seguida do nome do dono. Esta aqui é uma versão artística sofisticada, provavelmente desenhada à mão com técnica de pontilhismo e nanquim.


O que a imagem compõe

Dentro de um círculo com borda de corda — símbolo clássico de limite, fronteira, contenção — há uma tensão deliberada entre dois mundos opostos:

À direita: um olho humano vivo, detalhado, atento. Com cílios, profundidade, presença. É o olhar — a consciência, a percepção, a vida interior.

À esquerda: um crânio com asas. A morte, mas com movimento — as asas sugerem que ela não é estática, ela voa, ela chega.

No centro: uma figura em forma de cruz ou letra gótica — possivelmente uma inicial — que divide e ao mesmo tempo une os dois lados.

Abaixo: uma faixa em branco — o espaço tradicional do “ex libris [nome]” — ainda não preenchida, ou intencionalmente vazia.


O que simboliza

É uma meditação clássica sobre a dualidade humana — o memento mori medieval reinterpretado: de um lado a vida que observa e pensa, do outro a morte que espreita com asas. E no meio, a identidade pessoal como ponto de equilíbrio entre os dois.

O olho vivo — os que ainda estão aqui, que observam, que lembram, que escrevem.

O crânio com asas — os que partiram, mas que voam, que permanecem presentes de alguma forma na memória e no DNA de quem ficou.

A cruz no centro — que na Páscoa não é apenas símbolo cristão, mas o ponto exato onde vida e morte se encontram e se invertem. É o coração teológico da festa.

A faixa em branco embaixo — o espaço ainda por preencher. Os que virão. A continuidade.

E tudo dentro de um círculo — que em quase todas as tradições representa o eterno, o que não tem começo nem fim.

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