Tempo e Momento
Tempo é uma das poucas coisas sobre as quais todo mundo tem uma opinião — e ninguém sabe ao certo o que é.
A física quântica e a filosofia concordam, cada uma à sua maneira, num ponto desconcertante: passado e futuro não existem como realidades independentes. São construções da mente — o passado é feito de memória, o futuro é feito de expectativa. O que existe, de fato, é apenas o presente.
Mas o presente não é um instante. É um momento — e momentos têm tamanhos diferentes.
Há momentos que duram um segundo e ficam para sempre. E há momentos que se estendem por meses, às vezes anos, e que só reconhecemos como tal quando já passaram — quando olhamos para trás e percebemos que havia uma unidade naquilo tudo, um capítulo que estava se escrevendo enquanto vivíamos dentro dele sem saber o título.
Por isto é que existe Tempo e tempos… e nos referimos a coisas bem diferentes quando usamos a mesma palavra e dizemos: “naquele tempo…” ou “os tempos eram outros…”
Meu filho mais velho está vivendo um desses momentos agora. Com um dos filhos já formado e o outro em vias de se formar, está entrando no momento em que o ninho fica vazio. Eu e Cristina já vivemos isso. Nossos pais viveram isso. E os pais dos nossos pais, também é assim para trás até onde a memória familiar alcança — e depois ainda mais infinitamente.
E costumamos dizer, com toda razão, quando pensamos nisto: “Agora os tempos são outros…” Mas quais outros?
Penso no momento que ele e sua esposa estão vivendo e como foi para nós, nossos pais e avós.
Este momento dele e da Kenia é o momento em que o ninho fica vazio. Em que o dever cumprido e a saudade chegam juntos, misturados de um jeito que não tem nome preciso. Em que você olha para aquele ser que partiu e pensa, simultaneamente, “conseguimos” e “o que será que vai acontecer com nosso filho?”
A educação abre uma porta. Mas é nosso filho, na pessoa que ele está se tornando — que tem que dar os passos e andar no caminho.
Como nós, nossos pais e avós o fizeram.
E aí entram três coisas que fazem toda a diferença.
O momento oportuno — porque há épocas melhores e piores para determinadas travessias, e quem parte com o vento a favor tem uma jornada diferente de quem parte contra ele.
Ou seja, o momento em que o casal decide formar família e as condições do contexto, que podem estar a favor ou contra.
O talento alinhado ao que o momento pede — porque quando o que você é encontra o que o mundo precisa, algo se encaixa de um jeito que nenhum esforço isolado consegue fabricar.
E o mapa interno — que é o mais importante de todos. Não é o mapa que os outros desenharam para você. O mapa que você construiu na sua própria cabeça, com seu próprio norte. Esse mapa é o que vai determinar não onde você chega, mas o quanto você está disposto a caminhar para continuar procurando.
Em outros termos — e mais direto: quanto você está disposto a dar de si para perseguir o que sonha?
Essa é a pergunta que cada geração herda da anterior. É que cada um, no final, responde sozinho.
Embora tenha sido este o momento para todos os casais que compuseram nossa família que me motivaram a fazer este post, vou usar como exemplo, já que sei bem como foi, nosso momento, o que deu origem a ele, que foi quando nos decidimos a casar e formar uma família.
Estes momentos nossos, ainda estão vividos na nossa imaginação e vou apresentá-los e, depois, vou apresentar como imagino que foram para nossos pais e avós.
Cristina e Roque


O Começo de Tudo
Cristina tinha acabado de receber o diploma de professora e estava prestes a iniciar sua carreira no Imaculada. Eu, por minha vez, havia completado o curso secundário de forma tortuosa — primeiro no Culto à Ciência, depois no Colégio Diocesano, onde me matriculei, pois tinha abandonado o último ano do secundário no Culto à Ciência, por falta do que fazer enquanto aguardava a resolução da minha convocação pelo Exército. Não era exatamente um plano de vida.
Dispensado do serviço militar, procurei emprego. O primeiro foi em São Paulo, no frigorífico Swift Armour, onde aprendi os fundamentos de tempos e métodos — cronometragem, análise de processos, a linguagem do chão de fábrica. A experiência era boa. O trajeto, não: ônibus às cinco da manhã para chegar às sete. Durou pouco. Como eu estudava à noite, ia dormir e acabei abandonando o curso.
A saída veio pela Lever, que havia comprado a Gessy e queria expandir sua operação no Brasil introduzindo dois produtos que simplesmente não existiam no mercado brasileiro até então — maionese e detergente. Abriram muitas vagas. Peguei uma.
Enquanto Cristina construía sua carreira de professora com a disciplina e a determinação que sempre a caracterizaram, eu andava atrás de carros velhos. Não era bem a imagem de solidez que uma moça sensata procura num pretendente.


Desde o primeiro momento em que nos vimos, eu sabia que ia me casar com ela. Ela, observando que eu não aterrissava, ficava razoavelmente na dúvida.
Cristina ainda não era a Teté — mas já sabia que, daquele jeito, nunca seria.
Colocou ordem na casa com a objetividade que viria a definir sua vida inteira e sentenciou, com uma clareza que não deixava espaço para interpretação: Você tem que se definir no que eu sou para você e o que vai fazer com isso!
Não foi exatamente assim. Mas não dá para publicar como foi.
Fizemos as contas — quanto custaria casar e montar uma casa. O número era por volta de 800 unidades monetárias da época, seja lá o que isso representasse em moeda estável, o que no Brasil dos anos 60 era uma questão filosófica em aberto.
Parei com aquela babaquice de atacar moinhos de vento à la Dom Quixote e entrei na Bosch, ganhando 1.200 da mesma moeda imaginária — mais que suficiente para inaugurarmos nosso projeto de vida.
A Bosch foi uma escola de verdade. Aprendi tempos e métodos de forma completa, instalando linhas de produção para atender a demanda da Volkswagen, que explodia naquele momento em que o Brasil descobria o automóvel como destino inevitável.
Foi lá que conheci o Schmitt. Trabalhamos juntos, perdemos o contato, ele saíra da Bosch, e um dia ele reapareceu com uma pergunta simples:
“Por que você não vem trabalhar na IBM?”
Que foi o que fiz.
E o resto pode ser visto em: Desenvolvimento e persona profissional de Roque Ehrhardt de Campos
Nosso ninho nunca ficou vazio
Daniel estudou na Unicamp, que era vizinha de casa, e ficou em casa até casar, numa transição muito tranquila. Como somos vizinhos dos pais da Kenia, que, como filha, visita os pais, nunca se passou muito tempo, mesmo eles vivendo nos Estados Unidos, sem que nos visitassem.
Pedro foi para Santa Rita e todo fim de semana voltava. Casou-se e morou aqui na mesma cidade até recentemente ter se mudado para os Estados Unidos, de onde voltou depois de ter ficado lá um ano.
Paulo foi estudar hotelaria no Havaí no início dos anos 90, ficou um pouco nos Estados Unidos, voltou para o Brasil uns anos depois. Ficou aqui e depois foi em definitivo para os EUA, creio que em 2008, e virou cidadão americano. Sempre que pode, nos visitou.
Para mim, a seguinte imagem me remete a ninho vazio:


Vou tentar imaginar e repetir estes momentos, do casamento e do ninho vazio, para os casais que foram nossos pais e avós, que nos precederam e tiveram momentos como este que acabo de descrever. Tenho poucas informações sobre alguns, alguma informação sobre outros e quase nenhuma, por exemplo, dos pais da mãe de Cristina. A solução que dei para isto foi criar uma narrativa baseada no que se pode imaginar sobre a época e as informações disponíveis, claro que com ajuda de Inteligência Artificial.
Estas narrativas são encontradas pressionando nos títulos das fotos deles:
Ana e Weimar

Rute e Lindolpho


Pedro e Clara



Paulo e Julia


Nenê e João


Alberto e Zuleika


Ana e Weimar
Ana nasceu em 1916 e Weimar em 1918. Consta que ele a via quando ia para a Escola Normal olhando o movimento da rua onde ela ficava na janela. Não sei os endereços, mas a atração acabou por os aproximar e começaram a namorar.


Eu conheço a letra deles e os bilhetes estão invertidos. Creio que neste momento, eles sabiam que iam se casar.
Eles iniciaram um namoro firme e, enquanto ela trabalhava numa fábrica de seda, que ficava perto da casa dela, ele trabalhava como repórter, não sei exatamente em qual dos dois jornais que existiam na época. Acho que foi no Correio Popular, pois não encontro rastro dele nesta profissão pela Internet, mas encontro o João D’Oliveira Toledo, companheiro de viagem eterno, e ele pertencia ao Correio, o que me leva a crer que meu pai também militava lá. Não me lembro de nenhum relato de que ele tenha trabalhado efetivamente como repórter. Acho que ele escrevia alguma coluna, pois sempre teve mania de fazer isso, pela vida toda. Ele conservou o hábito de se considerar repórter e, na minha infância, lembro-me de frequentar a Associação Campineira de Imprensa, principalmente nas festas juninas, quando toda a velha guarda de jornalistas de Campinas lá se reunia.



O prédio foi tombado e hoje abriga a Escola D. Barreto.


O prédio original onde o Correio Popular nasceu era uma casa na Rua Regente Feijó, que não encontrei nenhuma imagem e, este prédio, que foi construído em 1940, talvez ele tenha trabalhado lá. Na foto ao lado, os dois estão passeando na Rua Barão de Jaguara.

Tia Linda, Emilia, como a conhecíamos, era a filha mais velha, irmã de minha mãe e que absorveu a responsabilidade do pai que morrera em 1940 e junto com minha avó materna, Julia, enfrentaram a perda e bravamente sobreviveram. Observe o no.80, na mesma rua, Uruguaiana, duas esquinas para baixo, meus pais vieram do interior para morar no 225.
O namoro de meu pai com minha mãe não tinha a aprovação de minha avó Zuleika, mãe de meu pai, porém, quando morreu o pai dela, meu avô Paulo, em 1940, mudou tudo. Meu pai já estava formado e em condições de escolher umas cadeira de professor primário. D. Francisco de Campos Barreto, bispo de Campinas e tio de minha avó Zuleika interviu obrigando-a a aceitar minha mãe, e fez o casamento.
Minha avó Zuleika, por sua vez, estava separada desde 1927 e, com exceção de Wanda, a filha caçula, de meu pai e seu irmão mais velho, Wladimir, os outros três filhos (Wolney, Wolmar e Walton) praticamente tinham tomado rumo da vida que levariam. Na análise do casamento delas, Zuileika e Julia, entro em maiores detalhes.

Meu pai ficou no interior até 1950, quando conseguiu uma cadeira próximo de Campinas, na Holambra, colônia de holandeses, onde foi instalada uma escola, já como Diretor Escolar. Inicialmente, fomos morar na Uruguaiana 225 até 1958, quando meu pai comprou a casa na Luzitana 280, onde fiquei até me casar.






Como era viver nestas casas onde cresci
É difícil transmitir uma ideia correta disso se olharmos com os olhos de hoje. Vai parecer miséria bruta. E não era. Era o que tinha e não era nem ruim nem bom. Era o que era. Daniel me passa a impressão de que eu, de alguma forma, teria me revoltado e procurado conforto, beleza, espaço, funcionalidade nas casas que eu proporcionei à minha família, mas não sinto isso.





Como as imagens foram geradas por AI, fica bonitinho, mas era coisa muito simples
Na verdade, se moraram em casa de pau a pique e chão de terra, e apertados na primeira casa de Campinas, a chegada na Luzitana, 280 foi um grande progresso!Como eu acabei fazendo a casa em que moro, que é uma verdadeira Disneylandia, ela tem uma história interessante.
No primeiro fim de semana em que passei no meu primeiro assignment nos Estados Unidos, em Raleigh, NC, fomos convidados para um jantar na casa do Richard, como o chamávamos, apesar de ele ser PhD.
Ele era eng. Agrônomo, com doutorado realizado em sanduíche na Universidade Federal de Viçosa, MG, que, juntamente com a Escola Luís de Queiroz, é referência absoluta em Ciências Agrárias (Agronomia / Engenharia Agronômica), não a ser confundida com Engenharia Agrícola, na qual a Unicamp se destaca mais.Ele se orgulhava de falar português e, nestes jantares, exercitava-se na nossa língua.Ficamos impressionados com a casa dele.Muitos anos depois, já morando em Endicott, NY, eu estava lendo o suplemento do NY Times e dei de cara com a planta da casa dele, apresentada como uma excelente solução para terrenos menores que requerem sobrado. Porém, como a casa era um falso sobrado, ela apresentava as vantagens do pouco uso do espaço e uma solução para minimizar as escadas inevitáveis em sobrados.Pedo a planta, que aliás tenho até hoje:
Para quem tiver tempo e interesse, veja como era viver em Campinas nos anos 50
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Rute e Lindolpho


Lindolpho

Lindolpho foi selecionado para trabalhar como propagandista, junto aos médicos dos produtos da Squibb. Nunca me ocorreu antes,, mas na verdade, ele pegou uma circunstância parecida com a minha, isto é, chegou no lugar certo,&nb sp;sendo a pessoa certa. Lindolpho apesar de não ter estudo, era extremamente educado e jeitoso,so, por causa excelente e tinha um trato impecável, que claramente fez com que fosse selecionado para a seguinte situação que foi a chegada da Squibb no Brasil:
A trajetória da Squibb é marcada pela transposição de um laboratório fundado em ideais de&nbs p; pureza absoluta em uma potência farmacêutica que moldou a medicina moderna no Brasil. Fundada em 1858&nbs p;pelo Dr. Edward Squibb, a empresa nasceu da rejeição ao lucro sobre a vida: o médico recusou-se a patentear seus métodos de&nbs p;purificação de éter,&nbs p;priorizando a segurança cirúrgica global. O “Padrão Squibb” de qualidade tornou-se o DNA da companhia.
Ao entrar no Brasil em 1944, em meio à Segunda Guerra Mundial, a Squibb trouxe essa autoridade científica para um cenário que carecia de antibióticos e anestésicos confiáveis. Para atingir a classe médica, a empresa não utilizou uma força de vendas comum, mas sim uma estratégia de Propaganda Ética, baseada em quatro pilares:
- O Propagandista Científico: Em vez de vendedores, a Squibb utilizava visitadores treinados para discutir farmacologia e estudos clínicos, posicionando-se como consultores técnicos para os médicos.
- Educação como Marketing: Em uma época de difícil acesso à informação, a empresa distribuía monografias e boletins científicos traduzidos, tornando-se a principal fonte de atualização sobre novas drogas (como a penicilina) para os profissionais brasileiros.
- Presença no Consultório: Por meio de amostras grátis de alta qualidade e brindes de mesa sóbrios (pesos de papel, calendários), a marca garantia que o “selo de garantia Squibb” estivesse sempre visível no momento da prescrição.
- Fidelização Hospitalar: Ao focar nos grandes hospitais universitários e nas Santas Casas, a Squibb garantia que os novos médicos aprendessem sua profissão utilizando seus produtos, criando uma lealdade que perdurava por décadas.
- O Propagandista Científico: Em vez de vendedores, a Squibb utilizava visitadores treinados para discutir farmacologia e estudos clínicos, posicionando-se como consultores técnicos para os médicos.
- Educação como Marketing: Em uma época de difícil acesso à informação, a empresa distribuía monografias e boletins científicos traduzidos, tornando-se a principal fonte de atualização sobre novas drogas (como a penicilina) para os profissionais brasileiros.
- Presença no Consultório: Por meio de amostras grátis de alta qualidade e brindes de mesa sóbrios (pesos de papel, calendários), a marca garantia que o “selo de garantia Squibb” estivesse sempre visível no momento da prescrição.
- Fidelização Hospitalar: Ao focar nos grandes hospitais universitários e Santas Casas, a Squibb garantia que os novos médicos aprendessem sua profissão utilizando seus produtos, criando uma lealdade que durava décadas.
Produtos que Lindolpho ajudou a introduzir, inclusive a penicilina que poderia ter salvo a vida de Paulo, pai de minha mãe:








Este era o perfil que Lindolpho preencheu com sucesso e que possibilitou seu casamento com Rute.
Uma curiosidade: Lindolpho ganhou um Jeep Willys e veio escrito no para brisa “E R Squibb & Sons, Inc” e nos remédios aos remédios acima, importados. O nome da empresa presa nos Estados Unidos não tinha o “Inc.” Pesquisei e descobri que o nome com o Inc no fim era apenas para filiais dela instaladas em outros&nbs p;países, que&nb sp;servia&nbs p;para distinguir r da americana para fins administrativos e legais.
Uma curiosidade ou fatalidade: Paulo, pai de minha mãe, morreu de infecção hospitalar por falta de antibióticos que já existiam, mas que ainda seriam introduzidos&nbs p;pela Squibb um pouco depois de sua morte, em 1940, e a Squibb entrou aqui em 1944.
Prova que Lindolpho tinha um emprego diferenciado e foi bem-sucedido é que chegou a ter um Chevrolet 38 e, apenas para registro, o pai dele tinha um Chevrolet 49, que às vezes emprestava para eles irem a SP visitar alguém da família:




Rute não gostava do Chevrolet 38 e o sonho dela era um Morris, que nunca teve. Enquanto Rute subiu profissionalmente, passando concurso para Educadora Sanitária, de nível universitário, Lindolpho foi atropelado pelo progresso, saiu da Squibb, teve dificuldade para encontrar trabalho e acabou meio encostado no escritório da firma de materiais de construção do seu pai, que era controlada pelo seu irmão Antônio. Lindolpho desenvolveu uma doença autoimune que o mataria antes dos 60 anos, quando Pedro nasceu, em 1976, que o limitava muito e que a família e Antônio percebiam como falta de vontade, o que não era verdade. Prefiro não entrar em detalhes, mas ele não foi o que, de certa forma, este período final da vida dele sugeriu equivocadamente. Lutou um excelente combate e teve muito sucesso, não apenas gerando a vida que gerou, mas também desempenhando perfeitamente o papel de pai que entrou no imaginário de suas filhas, como um verdadeiro chefe de família que foi.

Rute
Rute formou-se professora primária na Escola Normal e consta que foi excelente aluna, o que talvez explique como ela conseguiu uma cadeira de professora primária aqui em Campinas, que era o que fazia quando ela e Lindolpho se casaram. Ela era muito inteligente e aplicada e prestou e passou num concurso para virar funcionária do Instituto Agronômico, onde, aliás, trabalhava seu irmão Wady, Wladimir Fera, que era desenhista da Secção de Entomologia Aplicada do Instituto Agronômico de Campinas, e um exemplo do tipo de ilustração que ele fazia pode ser visto na seguinte publicação:
Rute e Lindolpho foram, logo depois de casados, morar junto com a mãe de Rute, Clara Etelvina Bond Collmann, no pavimento superior onde existiu a Padaria Hamburguesa, na rua José Paulino, logo após o Externato São João, que fica ao lado da loja de móveis. Clara era esposa de Pedro Fera e tiveram os seguintes filhos: Amélia, Wesley, Felicia, Rute, Odete e Wady. Ainda moravam com ela Wesley e Wady, com quem foram morar juntos Rute e Lindolpho. Entro em detalhes quando circunstanciar Clara ra e Pedro Fera.
Antes de casar-se, Rute fez o curso de Educadora Sanitária na USP em S. Paulo e, posteriormente, entrou num concurso e foi aprovada, bastante tempo depois, quando ela abandonou o emprego do Instituto Agronômico e entrou na Saúde Pública.





É fácil deduzir que se casaram por amor e não tinham meios para ter uma casa separada para criar sua própria família e se sujeitaram a morar com Vovó Clara e suportar a convivência de Wady, que ainda estava com ela e demoraria um pouco para se casar. Não há fotos do casamento deles, do vestido de noiva, da festa, etc. Deviam estar profunddamente apaixonados para ignorar totalmentente a realidade e, simplesmente somente viam um ao outro. Porém, na sequência, também dá para deduzir que os dois foram à luta e lutaram um bom combate, pois, alguns anos depois, desfrutavam de um padrão de vida excelente para a época.
Rute, como funcionária do Instituto Agronômico, conseguiu um empréstimo no Instituto de Previdência do Estado de São Paulo (IPESP) para construir casa própria, na mesma época em que meu pai, em 1954/1955. Ela construiu a casa onde Cristina iria morar até se casar comigo em 68, e meu pai comprou a casa da Rua Luzitana, 280. Uma curiosidade: Alguns anos depois, Vovó Nenê e Vovô João, apesar de ele ter jurado que nunca mais iria ter imóveis após a perda da fazenda que herdara dos pais e ela também, compraram uma casa com empréstimo do mesmo IPESP, pois Nenê era professora primária de carreira. Conto com mais detalhes sobre as circunstâncias deles.

Esta casa era perto do Externato Imaculada e Rute conseguiu com as freiras que suas três filhas lá estudassem, o que as educou, melhor, moldou, num padrão non plus ultra, como se fossem do calibre que na época era o melhor tipo de educação que se podia conseguir.




Pedro e Clara
Pedro morreu em 1949, quando Cristina tinha 4 anos, por isso as memórias e informações sobre ele são poucas e um tanto confusas.
Ele foi funcionário da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e não sei qual era o nome da sua função, mas não era maquinista, Ele atuava dentro dos vagões, provavelmente coletando as passagens e com certeza ligado ao restaurante, talvez como cozinheiro, de onde ele trazia comida que sobrava, frutas que não foram consumidas, de volta do trabaldo trabalho e era uma festa para as filhas e filhos dele.
A propósito, tanto ele quanto Clara eram excelentes cozinheiros, sendo que ele tinha fama de ser melhor, pois, quando decidia cozinhar, ia ao Mercadão de Campinas e cuidadosamente selecionava o que cozinharia, os temperos e preparava memoráveis refeições que são lembradas até hoje.
Clara, por sua vez, extremamente econômica, conseguia preparar refeições sem comprar nada, com coisas que ela colhia de sua horta, conseguia preparar refeições e, provavelmente de um galinheiro. Ela plantava salsinha e chás, erva-doce, hortelã, losna, cebolinha, espinafre, serralha, abóbora, alface, tomates, chicória, que Cristina adora, e temos alguns destes itens aqui no nosso quintal. Cristina aprendeu a cozinhar com ela.
Vovó Clara tinha alguns pratos que só ela fazia, que são memoráveis e deliciosos pastelões de carne moída com salsinha e ovos cozidos cortados bem miudinhos que Cristina alega que nunca mais provou, mas que sente o gosto até hoje!
O casamento deles não terminou bem e a história é muito triste.
Clara foi adotada por uma família por ter sido impossível aos seus pais criá-la, porém, no início do século XX e até meados dele, as famílias agregavam crianças cuja situação dos pais não permitia que sobrevivessem juntas, e estas crianças acabavam ajudando de alguma forma as famílias que as adotavam. Ela era de origem alemã e algo mais europeu. Ele com certeza se originava do leste europeu, creio que da Sérvia.
Ela era muito habilidosa e excelente costureira e conseguia sobreviver com isso, pois Pedro Fera acabou se amasiando com a dona da pensão onde ele ficava em Itirapina e abandonou toda a família daqui de Campinas. Por isso, a imagem dele ficou ofuscada, ou melhor, suja, e há uma tendência a desprezá-lo, inclusive profissionalmente. Ledo engano! Ele navegou um mar muito mais sofisticado e complicado do que este preço que ele pagou. Fui procurar e descobrir isto e o que consegui foi o seguinte:
A Jornada de Pedro Fera: O Banquete sobre Trilhos
- A Partida (Campinas): Pedro iniciava o dia cedo na Estação de Campinas. Antes dos passageiros embarcarem, ele já estava no Carro-Restaurante, conferindo o gelo das geladeiras e os suprimentos frescos (carnes, vinhos e o hortifrúti da região). Com seu dólmã branco impecável, ele acendia o pesado fogão de ferro fundido.
- O Trabalho em Movimento: Assim que o trem “Rápido” ganhava velocidade rumo ao interior, a cozinha virava um caldeirão. Pedro equilibrava panelas em grades de segurança enquanto o trem atingia 100 km/h. Ele preparava pratos da alta gastronomia (como o filé Chateaubriand), servidos em prataria e cristais, para a elite paulista que viajava em carros de aço.
- O “Nó” de Itirapina: Após cerca de 2 horas de trabalho intenso sob o calor das chapas e o balanço dos trilhos, o trem chegava a Itirapina. Ali, a composição era manobrada e dividida. O turno de Pedro terminava com a cozinha limpa e o estoque conferido para a viagem de volta.
- O Refúgio na Pensão: Exausto pela jornada e pelo calor, Pedro evitava os barulhentos alojamentos coletivos da ferrovia. Ele seguia para uma pensão de confiança na cidade. Lá, ele encontrava o silêncio necessário para descansar, um banho de verdade e alguém que cuidasse da lavagem de seus uniformes brancos, que precisavam estar alvos para o dia seguinte.
- A Identidade: Como um legítimo “Fera” (sobrenome de provável origem no Leste Europeu ou latina), ele carregava o prestígio de pertencer à aristocracia operária da ferrovia mais rica do Brasil. Pedro não era apenas um funcionário; era o mestre que garantia o luxo e o sabor na “Inglesa”, como a Companhia Paulista era respeitosamente chamada.
- A Partida (Campinas): Pedro iniciava o dia cedo na Estação de Campinas. Antes dos passageiros embarcarem, ele já estava no Carro-Restaurante, conferindo o gelo das geladeiras e os suprimentos frescos (carnes, vinhos e o hortifrúti da região). Com seu dólmã branco impecável, ele acendia o pesado fogão de ferro fundido.
- O Trabalho em Movimento: Assim que o trem “Rápido” ganhava velocidade rumo ao interior, a cozinha virava um caldeirão. Pedro equilibrava panelas em grades de segurança enquanto o trem atingia 100 km/h. Ele preparava pratos da alta gastronomia (como filé Chateaubriand) servidos em prataria e cristais para a elite paulista que viajava nos carros de aço.
- O “Nó” de Itirapina: Após cerca de 2 horas de trabalho intenso sob o calor das chapas e o balanço dos trilhos, o trem chegava a Itirapina. Ali, a composição era manobrada e dividida. O turno de Pedro terminava com a cozinha limpa e o estoque conferido para a viagem de volta.
- O Refúgio na Pensão: Exausto pela jornada e pelo calor, Pedro evitava os barulhentos alojamentos coletivos da ferrovia. Ele seguia para uma pensão de confiança na cidade. Lá, ele encontrava o silêncio necessário para descansar, um banho de verdade e alguém que cuidasse da lavagem de seus uniformes brancos, que precisavam estar alvos para o dia seguinte.
- A Identidade: Como um legítimo “Fera” (sobrenome de provável origem no Leste Europeu ou latina), ele carregava o prestígio de pertencer à aristocracia operária da ferrovia mais rica do Brasil. Pedro não era apenas um funcionário; era o mestre que garantia o luxo e o sabor na “Inglesa”, como a Companhia Paulista era respeitosamente chamada.
Pedro Fera faleceu em 1949, no auge dessa era dourada, deixando para trás o rastro do apito da locomotiva e o aroma dos banquetes que preparou cruzando o interior.








Paulo e Julia



Julia
Ela era extremamente silenciosa. Lembro dela ficar incomodada comigo e com a movimentação que eu devia fazer quando criança, indo visitá-la, ao que ela retrucava: “Menino cabuloso!…” (que não para de incomodar); Constava que ela nunca havia visto o mar e praticamente viveu a vida toda na vizinhança da casa da Uruguaiana 80, que fora comprada em 1918/20;
O irmão dela, José, que foi terminar a vida dele na casa dela, também era extremamente silencioso e diante de minhas estrepolias, abria uns olhos de espanto, mas não dizia nada. Lembro dele duas coisas: as pernas com a pele semitransparente, cheia de rugas fininhas e com uma textura seca que lembrava papel antigo. Outra coisa, ele era extremamente limpo e usava umas camisas que tinham apenas a banda do colarinho, sem a gola, como os padres, porém com tecidos coloridos. Hoje, aos 82 anos, observo que minha pele está ficando do mesmo jeito…
A irmã dela, Quindú, taciturna, ensimesmada, muito quieta, pelo que eu ouvia, devia ter algum tipo de trauma que se supunha que foi pela perda por aborto de um filho, que ela não tinha nenhum. Ela era casada com Batista, bonachão, que parecia italiano, de cabeça branquíssima, que ajudara a construir o túnel que liga a Vila Industrial à estação de trens e era de uma simpatia incrível, super agradável como pessoa. Eles tinham uma casinha na Rua Regente Feijó, com um pouco mais de 5 m de frente, a duas quadras da casa de minha avó Julia, num terreno que era mais estreito do que o da casa dos meus pais, na Luzitana 280, que não era muito longe dali. Ele tinha um carinho excepcional com ela, que ela recebia muito quieta, sem falar nada. Não me lembro da morte deles.
Um detalhe curioso: Maria, ou Mary, como ela gostava de ser chamada, a terceira mulher da família, depois de Emília e Ana, nunca teve uma ocupação regular, como minha mãe, que foi trabalhar na Fábrica de Seda, ou Emília, que se formou na Escola Normal e se tornou professora primária. Era totalmente doméstica, sendo famosa pelo esmero e cuidado em tudo o que fazia, especialmente em certos doces e bolos que demandavam um ritual complicadíssimo. Ela devia ter alguma renda, provavelmente herdada de Paulo, seu pai. Mais ou menos em 1954, compramos nosso primeiro eletrodoméstico, um liquidificador Walita do 4º Centenário, de São Paulo. Ela foi para casa, toda competente em nos ensinar como usar. Encheu o copo de farinha e leite para fazer um bolo e, ligou sem colocar a tampa: Baita sujeira! Tenho um liquidificador destes na minha oficina, que a Cristina insiste para eu jogar fora, sem saber deste detalhe…Ela era minha madrinha de batismo e eu a chamava de Madrinha. Para minha surpresa, quando em 1974 eu comprei minha primeira casa, na vilinha, como chamávamos, e a entrada estava muitíssimo acima de minha capacidade e, quem praticamente providenciou o empréstimo, para dar a entrada, foi ela, que tinha um dinheiro proveniente da venda da casinha de Batista e Quindú que ela herdara. Ela foi a que morreu mais cedo, com uns 55 anos, de AVC. Estávamos nos Estados Unidos e não vimos o enterro.





Paulo
Ele morreu de infecção quando já existia penicilina, porém, não no Brasil. Como tinha 50 anos, talvez um pouco mais, devia ter nascido em 1885, pois devia ter se casado em 1915, já que Emília, filha mais velha, era de 1916. Comprou a casa da Uruguaiana 80 em 1918/20, do bisavô do Secarelli, com quem trabalhei na IBM e andávamos de jeep em 85/89. Paulo era originário de S.Paulo e não tinha nenhum parente em Campinas. Tinha um irmão, Germano, que atingiu um alto cargo na Guarda Civil de São Paulo, e me lembro de tê-lo visto fardado visitando minha avó. Minha mãe se referia aos parentes do meu avô Paulo como “Os Wellendorf”. Não sei por que nunca fomos a S.Paulo visitá-los. No início dos anos 80, alguém deles foi nos visitar na Lusitana 280 e era uma senhora com uma menina que era igualzinha ao Pitó!
Paulo devia ter uma situação diferenciada, pois, para conseguir comprar praticamente de cara a casa que abrigaria sua família, sugere-se isto. Ele era dono de uma cátedra de marcenaria na Escola Bento Quirino, instalada perto do Culto à Ciência, na rua do mesmo nome, na primeira quadra.
Hoje, naquele local, funciona o Colégio Técnico de Campinas (COTUCA), no mesmo prédio que, inicialmente, foi chamado de Escola Profissional Bento Quirino dos Santos (1837-1914), que visava à formação profissional masculina gratuita e foi construído com o apoio e financiamento dele. Foi inaugurado em 2 de abril de 1918, tendo a construção se iniciado em 1917. Surgiu no contexto da expansão das atividades industriais da Cidade de Campina nas décadas iniciais do século XX, que requeria a necessidade de mão de obra qualificada dos trabalhadores.
A narrativa que consigo construir sobre Paulo, diante do fato de que ele era um dos professores qualificados que deram origem a esta escola e, pensando que ele casou em 1914/15 e comprou uma casa em 1920, é a seguinte: Consta sobre ele que era exímio marceneiro e que dava manutenção na Catedral, que é toda de madeira, e veio aqui por causa disto. A catedral é quase toda de jacarandá da Bahia e cedro, madeiras nobres, escuras e extremamente resistentes.
Em 1915, a catedral já estava aberta, mas ainda sofria intervenções artísticas e no mobiliário.
Um marceneiro daquela época teria trabalhado em peças fundamentais, como os bancos, a nave, cujo detalhamento impressionante exigiu reformas e novas adaptações para acomodar o crescimento da cidade.
Além disso, o seu talento poderia ser aplicado aos confessionários, aos balcões, às peças de marcenaria funcional, que demandavam encaixes perfeitos, muitas vezes realizados sem o uso de pregos, apenas com cavilhas de madeira.
Outra forma de trabalho constante seria a manutenção do couro, a estrutura que sustentava o grande órgão francês, instalado em 1883, e que, devido ao peso intenso do instrumento e à ação de cupins, da umidade e do tempo, exigia cuidados frequentes em seus madeiramentos e nas escadas de acesso.
Campinas era muito rica por concentrar ricos fazendeiros e plantadores de café e atraía profissionais para executar não apenas obras como a Catedral, mas também casas, como, por exemplo, as da Avenida Júlio de Mesquita, equivalente à Avenida Paulista de São Paulo.
É possível que Batista tenha sido uma dessas pessoas, como Paulo, que veio atraído pelo trabalho.
Paulo não era católico, mas, trabalhando na Catedral, pode ter conhecido Batista, que seria seu cunhado posteriormente.
Batista trabalhou na construção do túnel da Paulista, que liga a Estação Avenida Industrial, por volta de 1918.
Como um dos operários da obra de engenharia mais desafiadora da época.
O túnel, que oficialmente se chamava Túnel Joá Penteado, embora o original seja para pedestres e carroças, ao lado, foi feito para ligar o centro à Avenida Industrial, passando por debaixo da vasta malha ferroviária da Companhia Paulista de Estradas e Ferro, na estação que ela tinha em Campinas.
É muito provável que eles se encontrassem na própria catedral.Era o ponto de encontro comum.
O marceneiro que ajudou a manter a catedral e o operário do túnel que atravessava a cidade.
Batista já estava comprometido com o Quindu, irmã de Júlia e, provavelmente, de alguma forma, ficou amigo de Paulo e o introduziu à esposa.
Que talvez tenha sido assim que o Paulo conheceu Júlia. Possivelmente se apaixonou, decidiu ficar em Campinas e casar com ela.
E, para isso, tinha que se estabelecer profissionalmente.
Para ele ter sido admitido na Escola Profissional Bento Quirino, tinha que ter formação sólida e creio que deveria ter se formado mestre marceneiro no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e veio a Campinas para atender aos problemas da Catedral. Ao se apaixonar por Júlia, decidiu ficar e empregou-se na Escola Profissional Bento Quirino como professor e daí a explicação para ter podido comprar a casa.



O padrão construtivo do prédio fala por si só, mas para compararmos em paridade com a profissão de professor nos dias de hoje, temos que levar em conta que o ensino, no Brasil, no início do século XX.

Ninho vazio no caso de Paulo e Julia
Como a proposta é examinar dois momentos dos casais envolvidos, sendo um a decisão de se casarem e formarem família e o outro quando o(s) filho(s) sai(am) para a vida, fica claro que, duas gerações atrás, a quantidade de filhos não contemplava nada semelhante. Uma geração atrás, já ocorreu algo semelhante e, apenas agora, se pode observar esta transição com impacto emocional, como foi o caso dos meus pais, Weimar e Ana.
No caso de Paulo e Júlia, mesmo levando em conta que ele morreu aos 50 anos de uma infecção, houve uma pressão que acelerou a saída deles: a morte de Paulo.
Minnhs mãe, assim que pode, veio morar perto da mãe dela, na mesma rua Uruguaiana, a mãe no no.80 e nós no 225. A casa que meus pais comprariam e onde viveram a maior parte da vida deles, a Luzitana, 280, ficava a uma distância que podia ser percorrida a pé.
Mary e Emília ficaram com a mãe e não se casaram.
Geraldo, para se casar, construiu um quarto no fundo da Rua Uruguaiana, 80, e só saiu quando virou professor primário e escolheu uma escola, por sinal, na Holambra, onde meu pai era diretor, e foi morar com a família lá.
José, que era meu padrinho de batismo junto com Mary, morava com sua família a uma distância que podia percorrer a pé, e tinha o hábito de passar na casa da mãe todos os dias antes de ir para o trabalho, na Companhia Paulista de Estradas de Ferro e depois no Senai, onde se aposentou como professor de desenho.
Quando a casa da Uruguaiana 80 desapareceu, José, já aposentado e viúvo, adotou o hábito de visitar a casa dos meus pais, tão arraigado era esse hábito. Sempre havia uma garrafa de Campari esperando por ele em minha casa. Meu pai o apreciava muito.
Nenê e João



Nenê — néé Benedita Morais Teixeira e depois adicionou de Souza
A narrativa que vou construir para determinar aquele momento em que João decidiu casar com Benedita vai ser feita a partir de um relato que Cristina fez recentemente, sobre a morte de Da. Nenê:
“Ninguém esperava que minha avó morresse. Ela morreu de um AVC hemorrágico e não me lembro de tê-la visto acamada ou queixando-se de qualquer coisa em relação à saúde. Ela era o elo que ligava todos ao redor.”Ninguém esperava que minha avó morresse. Ela morreu de um AVC hemorrágico e não me lembro de tê-la visto acamada ou queixando-se de qualquer coisa em relação à saúde.
De repente, uma manhã em que estava se preparando para ir à missa, ela disse algo ao meu avô e ele olhou para ela e percebeu que estava morta.
A casa virou um caos. Ao sair para a missa, ela disse algo ao meu avô e ele olhou para ela e percebeu que estava morta.
Eu procurei meu avô no meio da confusão, sem o encontrar.
Ele estava sentado numa cadeira de vime, encostada à parede do terraço da casa, com vista para o jardim, e, quando me viu, fez um sinal para que eu me sentasse à sua frente.
Fiquei desconcertada e sem poder me esquivar, fui ao seu encontro.
Ele me disse: “Fui pedir sua avó em casamento ao pai, sem sequer ter falado com ela. Só nos olhávamos. Muitos dias depois, recebi com surpresa a notícia de que ela viria me visitar e fiquei abalado.”
Nesse ponto, meu avô chorava, o que fez sua neta e suas filhas se desnortearem ainda mais, chorando alto, descontroladas.
Olhando bem nos meus olhos, disse:”Ela veio ao meu encontro chorando de alegria! Você consegue pensar no quanto ela me fez feliz?
Uma declaração de amor a ela, que o deixou naquele momento, foi comigo que ele compartilhou a lembrança mais encantadora de sua vida!
A partir daí, chorei e choro até hoje por ter sido a depositária de um bem tão valioso!”
O anel
Cristina: “Tenho um canto na minha sala de visitas com fotos dos vários casais que formaram as três últimas gerações, algumas foram colorizadas e colocadas neste post.
Numa destas fotos, vovó Nenê, recém-casada, aparece enlaçando meu avô sentado. Ela está atrás dele, com os braços ao redor do pescoço e as mãos se encontrando à frente, onde aparece o anel de formatura de Magistério que ela queria exibir. Fiquei sabendo pelas minhas tias, suas filhas, que isto lhe valeu uma repreensão e o repúdio de sua mãe, que ficou sem falar com ela por um tempo, pela ousadia!
Neste evento, está a mais clara demonstração de seu temperamento determinado!
Sempre foi determinada e nunca fez isto por demonstração de altivez ou prepotência.
Ela era super macia e atuava na família de forma discreta, mas precisa.
Na cadeira de professora que assumiu numa fazenda nos arredores de Campinas, ela fazia questão de dar aulas de alfabetização para os filhos dos colonos.
Sua decisão de ir trabalhar acabou lhe rendendo um empréstimo pelo IPESP para comprar a casa na Rua Barbosa da Cunha, onde iriam morar até morrer.”


Ela tinha aberto uma conta na Floricultura e, semanalmente, eles enviavam um ramo fresco e perfumado que ela colocava aos pés de São José, que é a guarda da Sagrada Família e patrono da igreja.
Vovô João nunca superou a amargura de ter perdido a Fazenda Santa Carolina e jurou que nunca mais compraria um imóvel. Porém, ela, com o financiamento que lhe era de direito pelo IPESP, por ser professora, comprou uma casa excelente na Barbosa da Cunha, perto do Bosque dos Alemães, onde eles iriam morar até o fim dos seus dias.
Nesta casa, ela organizou um grupo de senhoras para coletar alimentos e outros itens necessários para dezenas de famílias carentes. Ela chamou o grupo de São Francisco de Assis.
Ela comandava o grupo, pedindo às suas amigas, participantes, colaborações mensais com as quais ela comprava os alimentos.
Uma das pessoas que ela ajudou foi a Ana, que trabalhou na nossa casa da vilinha, a irmã dela, a Ia, eterna empregada da tia Amélia e babá da Ângela.
Cristina tem este traço e está sempre envolvida em ações desta natureza. Foi observando sua avó, Nenê, que isto aconteceu.
Uma curiosidade: Vovó Nenê nasceu no dia 29 de fevereiro, em ano bissexto, casou-se em ano bissexto e morreu em ano bissexto.
Outra curiosidade: “Vovô João teve um mal-estar quando moravam numa casa na esquina da Júlio de Mesquita com a Moraes Salles e, diante do susto, as filhas falando em enfarte, correndo atrás de médico, ela calmamente sentenciou: “Calma, Lygia (segunda filha), tem tempo, eu vou morrer antes de seu pai”. E morreu mesmo.
Novamente vou relatar o que a Cristina escreveu, em 9 de janeiro de 2022, às 19:30:
Cristina: “Quarta feira de sol, com brilho em todo o verde e de repente, sinto vontade de começar a relatar o que você, Dani, pediu que eu fizesse, dizendo: Hoje gostaria de saber de minha mãe, sobre os fatos e pessoas que fizeram parte de sua vida, e de quem nunca me falou como, por exemplo, o pai de meu pai “. Cristina: “Das figuras que conheci, a que mais se parece com você, Daniel, não fisicamente, mas em toda a maneira de ser, na linguagem corporal e talvez em sua dimensão humana, acho que é meu avô, João, pai de meu pai. Se eu pudesse qualificá-lo, diria que foi austero.
Magro, não muito alto, mas elegante em sua maneira de se vestir e de se expressar, nos modos e na fala.
Ah! O chapéu!… sua marca registrada! A maneira como o punha e o tirava da cabeça e dependurava no cabide da entrada da casa!… E o roupão, quando ficava em casa, não era roupão, era ‘robe de chambre’ de tecido adamascado em tom de vinho, com camisa que aparecia no decote em V. Se eu pudesse qualificá-lo, eu diria que foi austero.
Sua herança, que vinha dos imensos cafezais de sua fazenda Santa Carolina, desapareceu quando houve a crise do café em 1929, com a quebra da bolsa de Nova York. Sem um único tostão, veio para Campinas e entrou na casa de uma irmã casada (tia Moça) onde foi acolhido com sua mulher, vovó Nenê, e seus doze filhos. Doze filhos!… Dos filhos e filhas todos, a única que conseguiu um emprego para ganhar um pequeno salário, foi a mais velha, tia Yeyé, (Maria José). Inúmeras vezes eu o ouvi dizer, relelatando esse episódio, que viveu viveu numa agonia agonia, pensando que ele é que desesperadamente gostaria de estar no lugar dessa filha, naquele evento, ganhando qualquer coisa…
Essa firma que ele passou a trabalhar, se transformou em suas mãos, pois graças à sua gestão, passaram a representar a Cimento Itaú em Campinas, recebendo vagões de cimento que redistribuiam às outras firmas. Ele acabou como único dono, já que o cunhado se desligou, pois tinha outros negócios para cuidar, além de uma grande família como a dele, como era costume na época.
Há que ser dito, que seu meio, sua família, vinham de uma linhagem de fazendeiros, que fizeram seus filhos estudarem e tornarem-se médicos, engenheiros e homens de negócios, com empreendimentos variados que os colocavam no topo da sociedade campineira da época.
Quando meu avô perdeu seus bens na crise de 29, minha avó, filha única e herdeira de grande fortuna, também perdeu sua herança, que incluía filas de casas e imóveis, por exemplo, na rua José Paulino, que fiquei sabendo, não me lembro bem como. Vale ressaltar que herança.
Vale ressaltar que digo, não para falar sobre poder ou riqueza, mas para ressaltar o aspe poder ou riqueza, mas para ressaltar o aspecto de que nossa família, da parte de meu pai, além de educação e modos, primorosos, colocavam o nome, a honra, a delicadeza no trato, o respeito e a estima de uns pelos outros e a educação acima de tudo.
Lembro-me de um episódio curioso que é um bom exemplo para entender isso.
Raras vezes, meu avô falava sobre aspectos domésticos e de domesticidades. Um, eu estava na pia da cozinha, querendo demonstrar que já podia ajudar, lavando a louça do café, quando ele me interrompeu e me disse: ‘Não se deve lavar a faca de pão, que somente deve ser usada para cortar o pão. Apenas limpe-a e guarde.’
Achei aquilo curioso e levo isso para toda a vida. Sempre observei e observo as pessoas que enfiam a faca de pão na manteiga, por exemplo, o que sempre me constrangeu e me parece um sinal de falta de trato e de boas maneiras.
Nunca tive uma aproximação com meu avô. Eu o observava, mas não tinha ou não sentia que tivesse liberdade para me aproximar. Eu o cumprimentava porque ele me oferecia a mão e eu a beijava, mas nunca minha aproximação foi maior, ou mais amorosa.
Houve, no entanto, uma ocasião em que consegui compreender que ele nutria um grande amor por mim. Foi quando minha avó morreu.
Uma viagem ao Rio de Janeiro

Cristina: “Houve também uma lembrança inesquecível vivida com meu avô. Acho que foi minha avó que o convenceu a me levar junto numa viagem ao Rio de Janeiro que ele programou para conhecer a Cidade Maravilhosa. Meu avô queria conhecer o Rio.
Fui com ele conhecer a Cidade Maravilhosa. Foram também tio Bizzy e sua esposa, tia Sofia, que era caçula e pouco mais velha que eu; eu tinha uns 10 anos e ela 20. Eu era cheinha de corpo, como se vê na foto, assim como a Juju atualmente.
Ele contratou um táxi que nos levou e que ficaria à disposição lá. Vovó Nenê não quis ir, e lá fomos nós, ficando hospedados no Hotel Novo Mundo, onde, assim que chegamos, pediu para que deixássemos as malas nos quartos e descêssemos, que ele estaria esperando. Tínhamos tomado uma refeição pelo caminho, mas estávamos com fome e imaginei que fôssemos jantar; porém, qual a minha surpresa quando ele chamou nosso motorista e disse a ele que desse uma volta pela cidade e mostrasse as principais praias.
Lá fomos nós, todos dentro do carro, ele entusiasmado, trocando informações com o motorista quando virou para nós e se deparou com os quatro dormindo profundamente!
A indignação dele foi alucinante: “Ele estava trazendo todo mundo para conhecer o Rio de Janeiro? Não!… Estava pagando para dormirem no Rio de Janeiro!.. Dormir???…
O motorista não sabia o que fazer, desolado, e eu, morta de fome com vontade de chorar…Finalmente, ele desistiu e disse que o passeio estava encerrado e que iríamos jantar e dormir. Todos desolados, com uma cara que nunca fiquei sabendo se era por causa da fome e do sono ou da bronca…
A parte mais hilária viria em seguida…Entramos num restaurante, tudo minuciosamente pré-programado. Tio Bizzy, obsequioso, não querendo contrariá-lo ainda mais, pegou a carta do menu para traduzir para ele o que ele escolheria para comer, e ele não demorou a escolher, o que não me lembro, pois eu sentia tanta fome que qualquer coisa que pusessem na minha frente eu comeria mesmo sem saber do que se tratava…
Veio o prato dele; ele estava mesmo sem saber do que se tratava…
Veio o prato dele, ele estendeu o guardanapo, quando o garçom trouxe o prato to do tio Bizzy.
Foi a conta! Ele bateu a mão espalmada sobre a mesa e vociferou: “De maneira que você, Bizzy, encomenda um um tipo de comida para mim e escolhe o melhor para você???”
Creio que tio Bizzy gostaria de poder chorar… mas balbuciou que fora vovô que escolhera o prato que veio para ele e vovô argumentou: “por insistência sua, Bizzy!”… foi a conta dele chamar o garçom, devolver o prato e dizer: “Quero o mesmo prato que to que meu filho escolheu, você entendeu?!” e o garçom, aturdido correu para atetendê-lo…
Eu estava a pava a ponto de chorar se não me deixassem comer meu bife com batatas fritas. Tia Dirce e a Sophia roxas para segurar a vontade de rir à gargalhadas…Passada a tormenta, ele iria se referir ao tio Bizzy como Bizizinho e nunca descobri se o tratamento era uma maneira de brincar com ele ou arrependimento e pedido de desculpas pelo vexame que o havia submetido diante do garçom…
Vovô João fazia às vezes o que Daniel tem mania de fazer, que é pegar a família inteira e ir para algum lugar, tanto aqui no Brasil como nos Estados Unidos. Vovô João gostava de praia e mar e iam para Santos e São Vicente:



Ninho Vazio no caso de Nenê e João
Quem eram estes doze filhos e o que aconteceu com eles vale uma rememoração e algumas histórias.
Cristina relata que, dos 14 filhos que tiveram, sobreviveram 12, que ela os conheceu todos, pois ela frequentava a casa dos avós Nenê e João. Eles tinham o costume de almoçar todos juntos aos domingos. Vinham com as mulheres e os filhos, os “primos”, e o que acontecia nestas reuniões era um verdadeiro folclore. À noite, jogavam truco, brigavam, se desentendiam e depois voltavam a conversar.
As filhas: Maria José (Yeyé), Hilda, Elza, Carolina (Caiu), Lygia, Sofia.
Os filhos: Lindolpho, Antonio, Lineu, José Geraldo (Bizzy), Mario Natividade e Ralfo, que morreu jovem, ainda solteiro.
YeYé era casada com José Torres, que trabalhava no Paraná a vida toda e só aparecia de tempos em tempos. São pais da Nina e do João, advogado bem-sucedido.
Hilda,casada com Geraldo Barros, alto funcionário do Banco do Estado, que morreu durante uma cirurgia. São pais do Gezinhho, do Marcos, da Maria Eunice e da Maria Beatriz (Bia), que nasceu no mesmo dia que nosso filho mais velho, Daniel. Hilda ainda teve mais um filho, José Antônio, que nasceu com um comprometimento sério, tanto mental quanto físico. Demandava um cuidado extremo, e Hilda e Geraldo chegaram a vender uma casa para tratar do menino, embora fosse apenas para mantê-lo vivo, sem sucesso pois ele morreu antes dos 5 anos.
Quando ficamos deitados por longos períodos, aparecem escaras no corpo, que são lesões causadas pela pressão do próprio peso. São como feridas na pele e nos tecidos inferiores, causadas pela pressão contínua prolongada, que reduz a circulação sanguínea em áreas específicas. Isto é comum em pessoas acamadas ou em cadeira de rodas e ocorre mais em áreas ósseas, como cóccix, calcanhares e quadris, podendo evoluir para infecções graves.
Pois bem, Hilda dispensava tão extremo cuidado ao José Antônio, que morreu depois de ficar 5 anos tão cuidadosamente atendido por ela, sem nunca apresentar nenhuma escara. Não sei por que isto ficou gravado na minha mente como a síntese do heroísmo dela e do marido e do amor que dedicaram a esse filho.
Elza casou-se com José de Tela, viúvo, alto funcionário da Sericicultura e com três filhas do primeiro casamento. Morreu prematuramente, num momento delicado, pois Elza estava grávida do último filho, Lindolphinho. O filho mais velho é José Tella, que tanto conhecemos pelo bom humor. Quando tinha uma agência de viagens, nos ajudava a localizar passagens para irmos aos Estados Unidos.
O segundo filho, Netinho (Bonifáccio de Tela Neto), depois Lygia Helena, Terezinha (Lelé), morta prematuramente, e Lindolphinho.
Carolina (Caiu) e Lygia não se casaram, sendo que Caiu ficou em casa cuidando dos pais e Lygia foi funcionária da repartição pública.
SSofia casa casou-u-see ccom Hild Hildebrabrando,do, queque trabalhava na Contabilitrabalhava na Contabilidadade da Clark quandda Clark quando eu trabalhei lá u trabalhei lá naa áráreaa de Tempde Temposs e Méte Métoddos. . tiveiveram dam dois filhos, João e Hildebrais filhos, João e Hildebrando.do.
Os filhos homens de Vovó Nenê e Vovô João
Lindolpho, filho mais velho, casou-se com Ruth e tiveram três filhas, Maria Cristina, Laiz e Doía (Maria Auxiliadora).
Antonio Benedito casou-se com Tereza e tiveram quatro filhas: Maria Tereza (Tushi), Maria José (Zezé), Maria Inês (Nena) e Maria Alice, e quatro filhos: Antonio, João e Tuca.
Lineu casou-se com Cecília e tiveram três filhos: Lineuzinho, Regina Sílvia e a caçula Ana Maria.
Bizzy (José Geraldo) foi casado com Dirce, irmã de Lillian, ambas filhas de D. Izabel, que eram muito amigas de minha tia Mary e moravam na mesma vizinhança. Bizzy e Dirce tiveram três filhos: Maria Izabe (Bebel), Maria Benedita (Benê) e Vicente de Paula.
Mário Natividade e Ralpho não tiveram filhos, mas Mário foi casado com Lucilia.
Alberto e Zuleika


Não consigo encontrar alguma imagem ou relato para separar o momento em que se decidiram casar e o momento em que os filhos ficaram adultos. Vou postar narrativas que fiz sobre eles e tentar fechar a partir daí.
Zuleika
Quando fiz 14 anos, dava para viajar sozinho e ir a São Paulo, o que fiz a convite de Vó Zuleika, inclusive para ajudá-la na pintura de algum cômodo da casa que ela tinha na Rua Mário Amaral.

Onde ela morava antes de comprar a da Rua Rio Grande 226.

Lembro-me de que ela, em retribuição, me deu minha primeira calça Jeans, comprada na Sears do Paraíso, que era perto da casa dela.
Nós nos dávamos muito bem e ela decidiu mostrar São Paulo para mim. Isto é ensinar-me a pegar o bonde, como andar lá e o que tinha para ver.
Lembro que era duro acompanhá-la, pois andava rápido e era incansável.
Era muito enérgica, porém bem-humorada e tinha paciência imensa para me explicar São Paulo, que para mim era um grande mistério.
Criei um blog sobre os anos 50, coisa de nostalgia, e inseri informações em que relato o que eu aprendi com ela e o que eu fazia em São Paulo naqueles distantes anos 50, a partir da casa dela.
Aperte o More abaixo: (ou não, se apertar, volte aqui)
Tenho dois relatos sobre vovó Zuleika: um que eu compus e outro de minha mãe, segundo ela, ditado por Vó Zuleika, ela mesma.
Meu relato: Avós Paternos — Zuleika e Alberto – Breve Histórico
Zuleika era filha de um dentista. Levando-se em conta que era no início do século XX, tinham uma situação de classe social diferenciada. Creio que a família viveu em Santos inicialmente. Mudaram-se para Campinas e ela cursou o magistério na Escola Normal. Como ela mesma relata para minha mãe na sequência, o Secretário da Educação, Dr. Altino Arantes, padrinho de formatura, lhe ofereceu a escolha de uma colocação no Estado de S.Paulo desde que não fosse na cidade de Campinas, porque era por demais procurada. Ela escolheu Amparo e foi assim que conheceu Alberto.
Não me lembro de quantos irmãos vovó Zuleika tinha. Acho que três: o mais velho, José, morto há muito tempo, Orestes e Romeu, o caçula. Lembro-me de Orestes, o segundo, que conheci nos anos 60, em Santos. Ele fez uma coisa absurda: construiu um prédio de uns 10 andares e em cada andar ficava um membro da família dele, ou seja, os filhos e filhas se casavam e iam morar no prédio.
Duas coisas me chamavam a atenção no prédio, que tive oportunidade de visitar: as maçanetas das portas eram de cristal e o apartamento, que creio que era dele, era de cobertura; se comunicavam um andar com o outro pela escada, no que seria hoje o que se chama duplex.
Não sei se é preconceito, tenho memória de ter a sensação de que ele desembaraçava muamba no porto e daí vinha tanto dinheiro.
Romeu, seu irmão caçula, quando eu o conheci, trabalhava na Varig e parecia um comandante, mas creio que tinha um cargo simples na empresa. Sugeria fortemente ter sido um bon vivant e de alguma forma lembrava Wolmar, e tudo que vale para ele, vale também para Romeu.
Zuleika tinha três irmãs, Julieta, Argentina e Carmem. Eu me lembro de Carmem e Argentina, que era mais velha. Morava em S. Paulo mais ou menos perto de minha avó, que morava na Rua Rio Grande 226, na mesma rua em que o Jânio Quadros morava, na Vila Mariana, relativamente perto do Ibirapuera.
Quando visitei a Argentina, ela tinha dezenas de cachorros e gatos soltos na casa e estava alterada do juízo. O marido a abandonara e era uma cena tétrica, pois ela era claramente uma pessoa fina, educada e de posses.
Carmem, mais nova. Era casada com Otílio e tinha uma enorme quantidade de filhos. Ela tinha olhos azuis e era loira e tinha um filho, Flávio, que era guarda rodoviário e tinha a capacidade de sentar-se na frente de um piano, sem tocar nada, enrolava de forma incrível; parecia que tocava mesmo.
Tinha Luiz, que também tinha um Buick 48 igual ao de Wolmar, tinha Otilia, casada com um cara do Banco do Brasil, tinha Terezinha casada com um cara extremamente devagar, tinha Agostinho, que era santo, contador, pobre, morreu cedo e deixou uma prole enorme com uma mulher totalmente devagar. Os filhos eram sujinhos e ranhentos.
Flávio e Terezinha viraram alcoólatras e não sei o que aconteceu com eles.
Quando Otílio foi desenganado, o médico mandou dar o que ele quisesse e ele pediu guaraná, que eu o vi bebendo com sofreguidão, na véspera do seu falecimento.
Ordália, “Pequenina”, nunca casou, foi educada em colégio de freiras francesas, dava aulas de francês e era difícil. Como falava francês, adquiriu o traço da raça, que despreza o mundo. Quando minha avó ficou sozinha, tentamos fazer as duas morarem juntas, que parecia lógico. Nem pensar. Ela morreu sozinha e demorou vários dias para que alguém percebesse que estava morta no apartamento. O prédio era aquele do filme “O ano em que meus pais saíram de férias”, rodado aqui em Campinas.
Alberto, marido de Zuleika, era filho único de fazendeiro, rico, com terras que iam desde Jaguariúna até Amparo. O pai tinha muitos imóveis em Amparo, que ele perdeu porque não pagou o IPTU e a Prefeitura os penhorou. Nunca jamais trabalhou. Ia cortar cabelo em S.Paulo e tinha pente, espelho, escova, tudo francês, que meu pai me deu como lembrança dele. Creio que ele não batia bem.
Relato de minha mãe, ditado por Zuleika
Relato de minha avó, Zuleika Magalhães de Campos, à minha mãe, Ana Ehrhardt de Campos,, em meados da década de 80, quando tinha quase 90 anos.
Roque Ehrhhardt de Campos (em 122/98)
Formatura em 1913
Escolheu o magistério por ser compatível com a condição de dona de casa. Sempre gostou de ser professora. Como presidente da Comissão de Festas e tendo como padrinho das formandas o distinto Secretário da Educação, Dr. Altino Arantes, que, em meio a tanto banquete, lhes ofereceu a escolha de uma colocação no Estado de S.Paulo desde que não fosse na cidade de Campinas, porque era por demais procurada.

Escolheu Amparo, por ter vaga. Regeu a classe em caráter de substituta. Por três anos, para, enfim, ser efetivada. Já efetivada no governo de Washington Luís, a lei foi modificada, passando a exigir que crianças fossem matriculadas apenas com 9 anos completos. Ela ficou então adida em disponibilidade, para qualquer vaga que se desse, na cidade ou na roça, por ter sido a última a ter sido nomeada. Os fazendeiros combinaram entre si, não aceitando que as professoras fossem embora e, para que não saíssem da cidade, favorecendo-as com qualquer vaga que se desse, na cidade ou na roça, por ter sido a última a ser nomeada.
Passados uns três meses, foi indicada para uma fazenda, onde trabalhou por 8 dias e teve que deixar porque as paredes da escola estavam ruindo. Desse período recorda que as professoras, enquanto adidas, não estavam na folha de pagamento, não recebendo.
Os fazendeiros conseguiram a inclusão na folha de pagamento, pois havia mais 4 ou 5 professoras na mesma condição.
Voltando para a cidade, houve uma permuta entre duas professoras e ela pediu ao Delegado de Ensino para ficar no lugar da que saiu, ao que ele concordou, entregando-lhe a classe do G.E. Rangel Pestana, onde trabalhou (com todo carinho, segundo ela), até 1929, onze anos em Amparo, portanto.
Removeu-se para Campinas, para o G.E. Orozimbo Maia, onde trabalhou por 12 anos, até 1940.
No G.E. Orozimbo Maia, introduziu com grande sucesso aulas de Educação Física, pois nas festas a exibição da ginástica era um sucesso.
O inspetor da época indicou para que ela ganhasse a mais por ensinar Educação Física, o que era muito bem-vindo (já era separada, desde 1925, com 5 filhos e uma filha para criar).
Foi para S.Paulo em 1940.
O pai da minha mãe, Paulo Ehrhardt, morreu inesperadamente de uma infecção em 1940, por falta de antibióticos, aos 50 anos, o que precipitou o casamento dos meus pais e a alteração da situação familiar de Zuleika.
Ela colocou a filha, Wanda, interna no Colégio Sagrado Coração de Jesus, que era antigamente na Rua José Paulino em Campinas, com 11 anos. Wanda ficaria lá até os 18 anos, saindo formada e casando-se com Luiz, em 1952, com quem teve duas filhas e um filho. O filho mais velho de Zuleika, Wladimir, ficou em Campinas, foi morar na pensão da Braulia e casou-se com a irmã dela, Catarina, em meados de 41, aos 25 anos, ficando sem filhos até a morte em 1984, quando morreu aos 68 anos. Catarina morrera alguns anos antes.
O segundo filho de Zuleika, foi meu pai, Weimar.
O terceiro filho de Zuleika, Wolney, foi estudar Educação Física, conheceu Zélia no curso, casou-se com ela em 1941, aos 19 anos. Morreu cedo, aos 53 anos, em 1972. Tiveram três filhas. O quarto, Wolmar, mudou-se para o Rio de Janeiro, aos 19 anos, em 1941, onde levou uma vida muito comentada na família, por ter trabalhado no Cassino da Urca. Quando acabou o jogo, em 1945, Wolmar, após um período ignorado, começou a trabalhar como viajante vendedor de peças de automóveis, nos anos 50, casando-se, em 1959, aos 39 anos, com Dora. Morreu em 1997, com 67 anos.
O quinto filho de Zuleika, e caçula, Walton, foi trabalhar no comércio em S.Paulo, e ficou morando com a mãe até 1952, conheceu Laíz, professora primária também, casou-se em 1953 aos 23 anos e mudou-se para Campinas, onde viveu até morrer. Teve apenas um filho, Waltinho.
Voltando à história de Zuleika, ela ficou no G.E. do Bosque da Saúde por 4 anos, até 1954, quando fez concurso para Diretora. Foi classificada em terceiro lugar em S.Paulo e em sexto no Estado todo. Ela era obviamente inteligente, trabalhadora, competente e obstinada. Porém, tinha o pior gênio que se tem notícia segundo o testemunho das noras, que, apesar de suspeito, era verdadeiro.
Enquanto aguardava a nomeação, substituiu o Diretor Carlos Chagas, em uma fazenda em Jundiaí, por 3 ou 4 meses. Enquanto comissionada em Jundiaí onde segundo ela a molecada era “desordeira e desaforada” e vivia desafiando as professoras, conseguiu ordem e deu a “maior festa”, “debaixo do maior respeito”, sendo que o chefe Político da época, Dr. Godinho, fazendeiro comentou que a festa foi de “arromba”.
Em 1945 foi nomeada para o G.E. Sta. Lucia, em Araraquara, até 1948, quando permutou com meu pai, Weimar, que tinha prestado e passado no concurso de Diretor de Grupo. Foi para Garça, onde meu pai estava, para o G.E. de Vila Couto, entrando de licença e transferindo-se para Araraquara, para o G.E. Vila Xavier, onde ficou somente 1 dia e se aposentou em 1949.
Ficou quase 50 anos aposentada, pois morreu com quase 101 anos, em 96.
Durante o tempo em que lecionou foi homenageada por delegados, inspetores, colegas, que reconheceram seus trabalhos, pois disputavam vagas para seus filhos nas suas salas de aula. Suas promoções eram boas, sendo quase sempre em torno de 100%, apesar da energia notória (acho que ela batia, puxava orelhas, etc.); era grande amiga dos alunos. (acho que eles morriam de medo dela…)
Em várias circunstâncias, foi designada, dada sua autoridade e energia, para tomar conta dos meninos, pois os meninos “abusavam” das professoras.
O único aluno que a aborreceu, ela lembra que foi um primo de seu marido Alberto, nos anos 20.
Como e por que se separou, conto na história de Vô Alberto.
Alberto
Eu vi Alberto apenas uma ou duas vezes e pela minha lembrança, meu irmão Francisco ficou igualzinho a ele fisicamente.
À luz do que eu consigo entender os usos e costumes como eles estão hoje, duas coisas sobressaem:
Antigamente não havia separação. Casavam-se e morriam juntos, ainda que separados.
Não houve traição no caso de Alberto e Zuleika. O problema deles, colocado de forma simples, era que ele não era inteiramente são mentalmente e, por falta de ter que lutar pela vida, pois nunca trabalhou, adquiriu comportamentos que inviabilizaram a relação. Já no início do casamento, e mesmo depois, ela nunca deixou de trabalhar, e ele se acostumou às providências que ela tomava para o sustento da família.
A aparência que rezava que tudo tinha que estar como os valores socialmente aceitos falava mais forte. Sempre foi mais forte que o instinto, crenças pessoais, quaisquer que fossem as ideias que as pessoas tivessem. Tinha-se que guardar as aparências.
Alberto era filho único de um fazendeiro muito rico, dedicado à plantação de café, o que possibilitou a compra de muitos imóveis e terras na região de Amparo.
Trabalhar para nossa tradição, (tá aí algo que não mudou) sempre foi “coisa de pobre” e nossa ideia de nobreza prescreve que trabalhar diminui o ser humano. Ou seja, rico não trabalha não porque não queira, mas porque entende que isso faz parte da condição natural dele. Isso incluía não estudar. Curiosamente, porém, adoravam as boas maneiras e a educação impecável. O máximo de estudo permitido era etiqueta, boas maneiras, saber servir e comer e ter bom gosto, principalmente para as mulheres.
Alberto tinha maneiras impecáveis, acompanhado de uma apresentação pessoal primorosa, terno de casimira inglesa, camisa de gravata, sapatos de cromo, barba feita e cabelo arrumado. Falava baixo e macio e parecia extremamente reservado. Lembrava um advogado bem-sucedido e parecia pertencer naturalmente a uma classe social alta.
Com a morte do pai, Alberto encontrou-se de posse de uma fortuna, que ele não sabia como tinha sido conquistada e, pior, como administrá-la e mantê-la. Além da incompetência, ele tinha um perfil psicológico que é difícil de diagnosticar, mas tudo indica que era um misto de “borderline” com um certo autismo, agravado pela arrogância de quem foi criado no “andar de cima”. Ele, contrariado, simplesmente ficava violento e, a verdade, era que diante da realidade que fugia das mãos dele e do desespero de Zuleika, que percebia tudo, ele a agredia. E também aos filhos. Meu pai tinha lembranças que não revelava direito, mas eram de medo, pois sofreu agressões além do normal da parte dele. Os outros também, menos Wladimir, que era, por que razão não sei, querido dele. Em suma, numa década as fazendas de café se esvaíram e sumiram com a crise de 29, quando o café perdeu totalmente o valor. Ficaram os imóveis de Amparo e uns célebres títulos que davam renda e que foram também sumindo. Os aluguéis, por falta de administração, não acompanharam a inflação, pois a Lei do Inquilinato sempre foi ruim para os proprietários e, quem tem imóvel para alugar sabe. O fato era de que não rendiam para pagar os impostos. Os imóveis entraram na dívida pública do município e foram a leilão. Zuleika, amparada por Tio Bispo, decidiu separar-se, tendo sido Wanda a última tentativa de entendimento e liberou Alberto de qualquer pensão ou responsabilidade pelos filhos, que, aliás foram assumidos por Tio Bispo. O processo da perda dos imóveis e da renda dos títulos demoraria ainda uns 30 anos para que ele ficasse totalmente na miséria, o que ocorreria no fim dos anos 60. Quando, acredite se quiser, ele pediu ajuda a Zuleika, que convocou os filhos para ajudar o pai, que estava na miséria.
Quanto a isso, lembro de vó Zuleika conversando com meu pai e se referindo encabulada na minha frente sobre Alberto, querendo fazer crer que de alguma forma mantinham o casamento, muito embora estivesse separada dele há mais de 50 anos! Como a comunicação ficou confusa, eu perguntei ao meu pai e ele me disse que ela não queria que ninguém soubesse que haviam se separado! Isso ocorreu nos anos 70 e ela separou-se no final dos anos 20!
Essa passagem de socorrer Alberto, eu lembro bem, pois meu pai ficou encarregado de conversar com os irmãos, verificar a situação em Amparo e resolver o problema.
Wladimir, o queridinho, negou-se a ajudar. Ney já estava morto. Wolmar também se negou, e meu pai e Walton, junto com Vovó Zuleika, se uniram para resolver o problema. Tanto quanto eu saiba, Wanda não foi comunicada do estado de coisas, possivelmente porque Vó Zuleika tinha vergonha do que Luís, marido de Wanda, poderia pensar. Meu pai foi com minha mãe visitá-lo e a história que ficou na minha cabeça dá muita pena de contar, mas se faz necessário.
Alberto era fino e educado e estava morando numa pensão com gente de extração muito simples e de atividades grosseiras, que implicava nas maneiras também simples e grosseiras completamente diferentes do que ele prezava e tinha.
Como era inevitável que ele fosse julgado irresponsável por ter abandonado a mulher e os filhos, além de agredir a todos, de alguma forma ele estaria “pagando”, pois ficou condenado ao pior tipo de miséria que se pode imaginar, que é pior que passar fome, é estar num meio hostil e que não é o seu, totalmente isolado e solitário, sem ter com quem sequer poder conversar. Como se estivesse vivendo numa cela solitária.
Me dói dizer isso, mas num gesto de tentar agradar, ele deu ao meu pai um jogo de escova de cabelo, com cabos de prata, espelho, tesourinha, etc, que ele levava consigo para cortar o cabelo, quando ainda era rico, pois não cortava cabelo em Amparo e pegava o trem e ia para São Paulo para fazê-lo!!!
Não acredito em castigo tipo lei do Talião, especialmente de Deus ou de qualquer força maior, pois ele não teve culpa nem de nascer rico, nem de não funcionar direito mentalmente, por isso não quero julgar, mas se ele faltou com alguma coisa, pagou tudo direitinho… E não ficou apenas nisso.
Ele era profundamente católico, talvez de missa e comunhão diárias, e por não sei por quais circunstâncias, ele com o auxílio da ajuda dada por Vovó Zuleika, Weimar e Walton, foi internado num sanatório espírita, que ele abominava e o apavorava.
Ele acabou finalmente morrendo e foi enterrado no jazigo do seu pai, que era muito pomposo, como ocorre até hoje com quem é católico, de posse e enterrado em cemitério antigo.
Eu presenciei tudo isso, não me lembro de velório, apenas do caixão baixando dentro do túmulo do pai dele, com todo mundo em profundo silêncio e minha avó a única a derramar lágrimas.
Creio que ela nunca deixou de amá-lo…
Relato da Wandy sobre vovó Zuleika
Wandy: Eu convivi bastante com a vovó — sem precisar chamá-la pelo nome, porque a outra avó só vim a conhecer com 14 anos, a mãe do meu pai, que aí sim fui apresentada como vovó Dulce, como todos a chamavam.
Conheci mais tio Weimar, onde conheci vocês em umas férias que já comentamos. Depois passei a ficar em Campinas, na casa da tia Laís. Com tio Wladimir e tia Catarina, eram visitas na casa deles e as vindas à casa da vovó — metódicos, faziam isso todos os anos, chegando de Santos depois de uma semana lá, ficando sempre no mesmo hotel, ou melhor, pensão.
Vejam uma foto dêles na praia, em Santos, numa destas viagens, coincidentemente com tio Wolney e as filhas, Neyse, Neli e Nise:

Da tia Catarina acho que peguei a admiração por unhas bem feitas. As dela eram vermelhas, grandes e sempre impecáveis.
Minha visão da vovó é bem diferente da de vocês, porque a conheci mais velha. Por sermos eu e o Celso os netos “temporões”, éramos os queridinhos — ela era a avó que deixava fazer tudo. Moramos vizinhos por três ou quatro anos, dos meus quatro aos oito anos, e foi para nós o paraíso. O quarto de empregada da casa dela era o nosso quarto de brinquedos: tinha lousa, tinha tudo, era o quartinho da farra e da bagunça. O quartinho da nossa casa era todo arrumadinho, lugar sério. Meu pai mandou fazer um buraco na parede entre os quintais para que pudéssemos ir à casa da vovó sem precisar passar pela rua a toda hora.
Quando adulta, depois de separada, ela às vezes me ajudava — mas era segredo, para não ter ciúmes. Uma vez bati meu Fiat Uno e deu perda total. Ela me ajudou a comprar outro, usado mas muito legal, um Fiat pequenininho mais novo. Sempre a considerei minha única avó de verdade, porque a outra morava na Bahia — mas essa é outra história.
Que me perdôe vovó Dulce, mas a Bahia era muito longe naqueles dias que carro era difícil e avião impossível…
Last, but not least

Fui levado, a redigir este blog/post, pelo que expressa a imagem acima:
O que é formalmente
É um ex-libris — como o nome do arquivo sugere. Selos pessoais usados tradicionalmente para marcar a posse de livros, com a inscrição “ex libris” seguida do nome do dono. Esta aqui é uma versão artística sofisticada, provavelmente desenhada à mão com técnica de pontilhismo e nanquim.
O que a imagem compõe
Dentro de um círculo com borda de corda — símbolo clássico de limite, fronteira, contenção — há uma tensão deliberada entre dois mundos opostos:
À direita: um olho humano vivo, detalhado, atento. Com cílios, profundidade, presença. É o olhar — a consciência, a percepção, a vida interior.
À esquerda: um crânio com asas. A morte, mas com movimento — as asas sugerem que ela não é estática, ela voa, ela chega.
No centro: uma figura em forma de cruz ou letra gótica — possivelmente uma inicial — que divide e ao mesmo tempo une os dois lados.
Abaixo: uma faixa em branco — o espaço tradicional do “ex libris [nome]” — ainda não preenchida, ou intencionalmente vazia.
O que simboliza
É uma meditação clássica sobre a dualidade humana — o memento mori medieval reinterpretado: de um lado a vida que observa e pensa, do outro a morte que espreita com asas. E no meio, a identidade pessoal como ponto de equilíbrio entre os dois.
O olho vivo — os que ainda estão aqui, que observam, que lembram, que escrevem.
O crânio com asas — os que partiram, mas que voam, que permanecem presentes de alguma forma na memória e no DNA de quem ficou.
A cruz no centro — que na Páscoa não é apenas símbolo cristão, mas o ponto exato onde vida e morte se encontram e se invertem. É o coração teológico da festa.
A faixa em branco embaixo — o espaço ainda por preencher. Os que virão. A continuidade.
E tudo dentro de um círculo — que em quase todas as tradições representa o eterno, o que não tem começo nem fim.