Tenho compartilhado fragmentos da minha trajetória existencial de forma assistemática, muitas vezes sem o foco ou a estrutura devida. Decidi, agora, apresentar-me de maneira mais objetiva, examinando os fatores que determinaram minha formação profissional. Quero registrar como essa jornada me permitiu não apenas garantir o pão de cada dia, mas, acima de tudo, honrar o compromisso de cuidar da minha família na ordem signiticativa que nós, eu e minha esposa, Cristina, estabelecemos como desejável e bom.
Antes de mais nada, ha que se considerar minha origem, começando pelos meus pais: Ana e Weimar.
Tenho dificuldade em acrescentar como era efetivamente ter crescido na moldura descrita no pointer acima porque embora eu tenha sido de certa forma “sacrificado” pela falta crônica de meios que caracterizou este período da vida de meus pais, acho que fizeram o melhor que puderam. Eles sempre estavam ali, compondo uma familia estável, um porto seguro, e um lugar e contexto que para sempre vai deixar em mim saudades e aquela sensação de querer retornar que caracteriza quando os pais agem da maneira correta.
Acredito que tudo na vida não é o que fizeram com você, mas o que você fez com o que fizeram com você. Uma verdade que vale para meus pais, para mim, para meus filhos e netos — e para todo ser humano que já teve de reconstruir algo a partir de cacos que não escolheu.
Tanto meu pai quanto minha mãe vieram de lares desfeitos, cada um à sua maneira.
Meu pai cresceu assistindo e sofrendo os descontroles e violências de um pai que, sem dúvida, carregava perturbações mentais sérias. A separação dos seus pais, quando ele ainda entrava na adolescência, foi um ato de coragem e proteção — tão grave a situação que contou com o consentimento, a aprovação e o amparo do tio bispo de minha avó, D. Francisco de Campos Barreto, homem de fé e de palavra, cuja intervenção diz muito sobre o peso daquele momento.
Minha mãe perdeu o pai de outra forma — não pela violência, mas pela crueldade silenciosa do acaso. Meu avô Paulo morreu de infecção hospitalar aos cinquenta anos, vítima da falta de acesso a antibióticos que já existiam. Uma morte evitável, que deixou minha avó Julia viúva e minha mãe órfã de pai numa época em que não havia rede de proteção para mulheres sozinhas com filhos.
A visão de mundo que construíram, portanto, nasceu diretamente do que haviam vivido. Não tinham mapas herdados para guiar uma família — tinham cicatrizes, e foi com elas que tentaram traçar o caminho dos filhos.
Meu pai seguiu o modelo da mãe, que era professora primária. Cursou a mesma escola que ela, absorveu a mesma vocação, e assim se fez professor — não por vocação descoberta, mas por trilha conhecida. Era o que se via em casa, o que parecia seguro, o que tinha nome e forma.
Minha mãe seguiu o modelo que a cultura da época oferecia às mulheres: o lar. Não como resignação, mas como missão. Cuidou dos filhos, da casa, da comida, da roupa, da educação — de tudo que sustenta uma família por dentro, invisível e indispensável. Era o que se esperava, e ela cumpriu com a dedicação de quem não conheceu outra forma de amor que não fosse o trabalho silencioso.
Ambos eram profundamente cautelosos — não por falta de inteligência, mas por excesso de memória. Quem cresceu vendo o chão ceder não arrisca passos largos. A continuidade e a previsibilidade eram, para eles, não virtudes menores, mas conquistas duramente conseguidas e que deviam ser protegidas.
O problema é que essa prudência, tão compreensível nas suas origens, chegou até mim no momento errado. Quando eu deveria estar me orientando para o ensino superior, dois obstáculos se somaram silenciosamente.
Meu pai carregava o sonho antigo de ser advogado. Um sonho que, ao contrário de tantos, ele realizou — com determinação e constância, vencendo obstáculos que teriam desanimado qualquer um. Como Campinas sequer tinha uma faculdade de direito, ele fez um curso à distância em Niterói, o que significava viagens ao Rio de Janeiro de avião, hospedagem em hotel, provas presenciais. Os custos do curso em si nunca me foram revelados, mas tenho certeza de que contaram com a ajuda de minha avó Zuleika. Ele cumpriu tudo isso, e viria a se revelar um excelente advogado.
O outro obstáculo era eu. Mostrava um perfil que resistia ao modelo escolar convencional — dificuldade em estudar dentro dos trilhos, em cumprir o roteiro que levava à universidade pelo caminho esperado. O desfecho veio aos catorze anos, quando fui reprovado em História por um décimo de ponto: tirei 3,5 quando precisava de 3,6. Foi a gota final que levou minha mãe a me chamar e sentenciar, com a objetividade de quem não tem margem para hesitar: você vai trabalhar de dia, estudar à noite, e contribuir com 20% do salário para as despesas da casa.
Para quebrar o impacto dessa frase em quem estiver lendo — o que sobrava de um mês de salário dos empregos totalmente absurdos que tive nessa época dava para comprar um Long Play. Que foi o que eu fiz. E assim, sem querer, iniciei minha coleção de Ray Conniff.
Saí do Culto à Ciência — apesar de tudo, ou talvez por causa de tudo. Era um colégio extremamente exigente, e é a ele que devo coisas fundamentais na minha formação. O inglês que aprendi lá me acompanharia a vida inteira. O português — nosso vernáculo, que prezo e pelo qual sinto ter algum talento natural para a redação. E todas as demais matérias, que para serem superadas exigiam um exercício constante de vontade sobre si mesmo, uma disciplina de cumprir o que professores ambiciosos estabeleciam num currículo que não fazia concessões.
Só mais tarde eu viria a entender uma parte importante do meu problema escolar: motivação. O que não me interessa, simplesmente não me interessa — e não há força de vontade que substitua o interesse genuíno. História, da forma como aquele professor a ensinava, era exatamente esse caso. Matéria morta, transmitida sem vida, sem conexão com nada que me alcançasse.
Ele percebeu minha ausência — não de corpo, mas de espírito. E a interpretou, com a arrogância e a presunção que lhe eram características, não como um problema de método, mas como falta de respeito à sua disciplina. E puniu com o único instrumento que tinha nas mãos: aquele décimo de ponto que me custou um ano e mudou o rumo da minha vida.
Eu teria sido um dropout do ensino médio, não fosse o alistamento militar. Sem estar quite com o serviço militar, não havia carteira de trabalho — e sem carteira de trabalho, não havia nada. Fiquei completamente à toa, esperando que aquele nó se desfizesse. Foi minha mãe quem o desfez, com a habilidade discreta de quem sabe onde bater: uma amiga sua, casada com um vereador, conseguiu minha dispensa por um caminho que nunca soube exatamente qual foi, mas que me poupou uma perda de tempo considerável.
Resolvido o militar, restava o colégio. No Culto à Ciência, a presença era condição sine qua non para a promoção — não havia negociação possível. E eu, totalmente insatisfeito e esgotado pelos empregos idiotas e mal pagos que conseguia, simplesmente parei de aparecer. Só por isso, já estava reprovado — independentemente de qualquer nota.
Quando decidi encerrar aquele ciclo de vez, abandonando tudo, ainda havia o segundo semestre pela frente. Alertado por colegas, que tinham o mesmo problema e descobriram uma forma de resolver, matriculei-me no Colégio Diocesano — uma instituição que fazia vista grossa para a presença e operava pela mesma lógica que regia todas as instituições do seu tipo, inclusive o Culto à Ciência: pelas regras da época, atingindo nota máxima nas provas finais, você aprovava, independentemente do que tivesse acontecido antes. Zero acumulado ao longo do semestre? Não importava. Um dez nas provas e o caminho estava aberto. Coisa obviamente impossível no Culto à Ciência, onde a reprovação por faltas já havia ocorrido. No Colégio Diocesano, porém, a porta ainda estava aberta — e dava para tentar.
Foi exatamente o que fiz.
Para minha própria surpresa, o que havia absorvido no Culto à Ciência — sem perceber, e com grata surpresa — transformou-me num aluno excepcional quando submetido às provas do Diocesano. Tirei nota máxima em todas as matérias. Saí com o diploma do colegial na mão — que, para todos os efeitos práticos, valia exatamente o mesmo que o diploma do Culto à Ciência.
Comecei a desconfiar da minha suposta incapacidade de aprender — e de tudo que havia aceitado sobre mim mesmo até então.
Tenho que mencionar, neste quesito de aprender, que eu sempre tive enorme atração por aparelhos de som, alta fidelidade. Ainda adolescente, juntei-me com um amigo meu que tambem tinha a mesma atração e ele tinha facilidade para detalhes, como montagens de componentes, valvulas, resistencias, capacitores e eu para caixas acústicas, empacotamento. Ele fizera um curso por correspondencia do Instituto Universal Brasileiro, que eu acabei tomando conhecimento e não somente conseguimos montar aparelhos de som semelhantes aos que chegavam ao Brasil naquela época, importados, como aprender o básico sobre eletricidade, eletrônica, circuitos, válvulas,etc.
Vamos dar um intervalo e entender o que estava acontecendo no Brasil.
O Brasil dos anos 50 que gerou os anos 60 não pode ser entendido sem Vargas e Juscelino. Vargas construiu o Estado brasileiro moderno — a CLT, a Petrobras, a industrialização de base. Sua estratégia era clara: o Estado constrói a base — aço, energia, combustível — para que a iniciativa privada construa os produtos. Infraestrutura e indústria pesada como plataforma; bens de consumo e tecnologia como consequência natural. Uma visão que, duas décadas depois, as multinacionais dos anos 60 viriam a confirmar na prática.
Juscelino chegou com energia e visão: Brasília, rodovias, indústria automobilística, o slogan dos “50 anos em 5”. Funcionou — mas trouxe inflação e desequilíbrio fiscal que seus sucessores herdariam sem ter como pagar.
Jânio Quadros renunciou em 1961 num gesto político que nunca foi completamente explicado. Goulart assumiu num país dividido, com inflação beirando 80% ao ano e um contexto internacional de Guerra Fria em que Cuba havia virado socialista dois anos antes. Equivocou-se ao tentar seguir o mesmo caminho — e foi impedido pelos militares em 1964.
O que veio depois foi, do ponto de vista econômico, notável: entre 1968 e 1973 o Brasil cresceu a taxas de 10% ao ano. O capital estrangeiro entrou em volume extraordinário — o país oferecia estabilidade, infraestrutura em expansão e um ambiente previsível para investimento de longo prazo. Foi um dos maiores ciclos de investimento externo que uma economia emergente já atraiu.
As multinacionais que chegaram enfrentaram um problema imediato: o Brasil não tinha mão de obra especializada na escala que precisavam — nem técnica nem gerencial.
A solução foi pragmática: contratar quem tinha o curso médio e treinar dentro de casa. O conhecimento vinha das matrizes. Alemanha, Estados Unidos e Reino Unido mandavam filmes, manuais, processos, engenheiros e supervisores expatriados que transplantaram para o Brasil décadas de experiência industrial acumulada lá fora.
Jovens sem diploma universitário aprenderam a operar e eventualmente a gerir linhas de fabricação, de montagem, de produção em massa — tudo aquilo que essas empresas estavam trazendo para um país que mal conhecia o consumo industrial de produção de massa.
Uma geração inteira de profissionais brasileiros se formou dentro das fábricas, não nas faculdades.
Foi o meu caso.
Desde que comecei a trabalhar, assisti de perto o que acontecia quando uma multinacional séria decidia se instalar no Brasil. Vi a Lever transformar o mercado brasileiro introduzindo maionese e o detergente Omo — produtos que simplesmente não existiam antes dela. Vi a Clark montando empilhadeiras, caixas de câmbio, diferenciais e pás-carregadeiras — as famosas “Michigan”. E vi a Bosch explodindo de crescimento acompanhando a estratégia da Volkswagen de fabricar mil carros por dia.
Acabei entrando na Bosch, que me permitiu casar e estabelecer familia. E foi minha melhor escola. A empresa trouxera da Alemanha o Dr.-Ing. Heinz Ilg — o título equivalente ao PhD em Engenharia por algumas das Technische Universitäten alemãs, consideradas das mais rigorosos do mundo. Sua tese era sobre linhas de montagem. Ele falava pouco português, eu não falava alemão. Nos entendemos assim mesmo, e eu era um aluno atencioso.
O grupo em que eu trabalhava desconhecia na prática como montar linhas de montagem modernas. Ilg sabia. Com ele aprendi que engenharia de verdade às vezes cabe numa ideia simples que ninguém havia tentado. Montei toda a linha de prensas para os mil carros por dia da VW — equipamentos básicos mas perigosos, com alimentação problemática e acidentes frequentes. Tive a ideia de colocar tudo a 45 graus. Resolvi dois problemas de uma vez: segurança e alimentação com longos vergalhões, com menor uso de espaço. Ajudei ainda a montar a linha do aquecedor Junkers e do Rádio Blaupunkt — que no Brasil entrou com o nome Bosch.
Quando pedi demissão para entrar na IBM, fui chamado à sala de Przewalla — que todos chamávamos de Chevalla — segunda linha de comando da Bosch, do tipo que nunca olhava para os lados. Dizia-se que fora comandante de submarino na Segunda Guerra. Tremi. Foi de uma simpatia absurda. Quis saber tudo sobre mim e fechou a conversa batendo amigavelmente no meu joelho:
“Sr. Ehrhardt, não vá embora. Estou lhe concedendo um aumento de 20% sobre o que o senhor vai ganhar na IBM — sem prejuízo de carreira.”
Era generoso e sincero. Mas eu sabia que sem falar alemão não chegaria longe na Bosch. Na entrevista da IBM senti algo diferente — a barreira da língua desaparecia, o universo técnico me atraía de cara. Fui assim mesmo.
Cristina, quando soube, aprontou um pampeiro para que eu ficasse na Bosch. Foi nossa primeira grande briga.
Fui assim mesmo.
Por Que Dei Certo
A resposta curta é que aprendi o estado da arte nas multinacionais antes de chegar à IBM — e aplicar aquilo na montagem de computadores foi mais fácil do que parecia.
Linha de montagem é uma equação com duas variáveis: ou o produto fica parado e você anda em volta dele — como acontece com locomotivas ou mainframes — ou a linha anda e os postos são fixos, o sistema que Ford inventou. Conhecer essa equação antes de entrar na fábrica da IBM em Sumaré já me colocava à frente de boa parte dos engenheiros recém-chegados das melhores universidades do país, que sabiam muito de teoria e pouco de chão de fábrica.
O sistema de layout vinha da Bosch, que Heinz Ilg trouxe da Alemanha: analógico e elegante. Você desenhava em escala o equipamento, recortava e colava com fita dupla face numa planta de Mylar — plástico especial, importado e completamente ignorado por quem de direito no Brasil. O layout resultante orientava todas as necessidades de instalação: fundações, hidráulica, elétrica, pneumática, fluxo de produção.
Tive a sorte de trabalhar com dois profissionais excepcionais. O Carlão, desenhista jovem, traduzia manuais de máquinas para o papel com uma precisão que dispensava conferência. O Pinho, engenheiro eletricista, dimensionava fiação e carga elétrica como quem lê jornal — e nunca precisou refazer nada.
Quando o americano que foi solicitado à IBM USA para resolver a questão de como seria o lay out da Fabrica Sumaré, chegou — mal-humorado, convicto de que começaria do zero — e viu o que eu já havia coordenado, reconheceu imediatamente o padrão dos Estados Unidos. Nos entendemos na hora.
E foi um ano de total realização para o prédio que ganhara um prêmio nacional de arquitetura, mas ninguém sabia o que e nem como iria colocar lá, coisa que nosso pequeno grupo, eu, Carlão e Pinho, determinamos a partir do que deveria ser trazido do Rio de Janeiro, que não fosse ligado a cartões perfurados e deixar espaço já preparado para que se imaginava o governo iria aprovar para ser feito no Brasil.
Ganhei um prêmio do americano, dentro de uma tradição da IBM amercana que ninguém tinha ouvido falar.

O Sistema de Som e o Vaso de Cristal
Com a fábrica instalada, o americano me indicou para o primeiro informal award que a IBM concedeu no Brasil. Fiquei no spotlight. E fiz inimigos.
O protocolo americano exigia um sistema de som que atingisse 10 dB acima do ruído numa fábrica de 28.000 m². A Gradiente apresentou um orçamento equivalente a um milhão de dólares de hoje. Informei ao gerente Rudolph Hohn que dava para fazer por uma fração — e que eu era capaz.
O ciúme azedou completamente. Meu chefe e o chefe do meu chefe foram a Rudolph e provaram, sem saber do que falavam, que eu jogaria dinheiro e tempo fora. Rudolph, muito político, submeteu meu projeto a uma comissão de engenheiros do ITA, da USP e da Unicamp. Eles me desprezaram instantaneamente.
O que não sabiam é que, além de minha experiência prévia montando equipamentos de Hi Fi eu havia encontrado na Bosch um manual da Philips que explicava passo a passo como instalar sistemas de Public Addressing. Sopa no mel — eu tinha fascinação por som desde sempre, havia montado uma pequena linha de aparelhos e sabia ler aquele manual de ponta a ponta.
Calculei potência, watts, tipo de alto-falante, impedância de linha, amplificadores. Apresentei à comissão. Ninguém sabia nada sobre o assunto. Comi todos com farofa — e na minha arrogância de então ainda gozei com a cara deles. A briga foi colossal.
Rudolph interrompeu com a autoridade de quem assina cheques de milhões:
“Roque, faz do jeito que você está pensando. Está liberado. Se não funcionar, você vai ver o que te espera.”
Encomendei os módulos da Willkason, criei um modelo de caixa acústica que o Luiz — marceneiro da época da fabriqueta — construiu e instalou com os filhos, aproveitando a estrutura do telhado modulada em quadrados de 4×4 pés. Uma chupeta.
No Natal de 1972, o sistema foi ligado pela primeira vez no almoço de confraternização. Otimizei para HiFi, não para PA. Passei o decibelímetro. Cravou os 10 dB. Rudolph mandou me dar um vaso de cristal da Bohemia, que tenho até hoje.
O Teste do Jean e a Ida para Endicott
O chefe do meu chefe na Engenharia Industrial montou um esquema para me colocar na rua, pois ele foi simplesmente isolado quando o americano nos ajudou a montar a fábrica. Era pessoa extremamente dificil, pretencioso, mas não entendia do que precisava ser feito e eu sim. Rudolph me entregou ao Márcio Pavageau, chefe da Engenharia do Produto — onde eu ficaria mais quinze anos, completando os vinte e dois que passei na IBM.
No início, fui colocado junto com um grupo que iria colocar máquinas ATM, desconhecidas no Brasil, que são o que conhecemos hoje como estes terminais que você pega dinheiro e que evoluíram para fazer quase tudo. Foi isto que motivou minha primeira viagem aos Estados Unidos, para Raleigh, NC, onde a IBM concentrava as atividades de desenvolvimento deste produto. O Itaú e o Bradesco entraram em cena, pegaram para eles a introdução destas máquinas e a IBM passou a expectativa para o Sistema 32, computador pequeno, com arquitetura própria fora da 360 e centralizado em Rochester, MN, para onde eu fui. Como novamente o Itaú e o Bradesco achavam que conseguiriam fazer máquinas desse porte, o programa foi abortado.
A IBM então decidiu chutar o balde e fazer mainframes, escolhendo o 3145 e fui para o grupo encarregado de trazer isto para o Brasil.
O gerente da Engenharia do Produto para a qual fui transferido, Jean Lazaridis tinha um método de seleção simples e cruel: pegava um 3145 montado, introduzia um defeito e esperava. Quem resolvesse, tinha aprovação de ir para os Estados Unidos, no meu caso, foi o teste de que eu poderia ajudar no desenvolvimento do 4341 — produto novo que as regras negociadas com o governo exigiam ter 50% de nacionalização.
Descobri rapidamente que não precisava entender para consertar. Bastava seguir os MAPs — Manuais de Procedimento de Serviço, roteiros técnicos rigorosamente lógicos que permitiam reparos complexos sem dominar a teoria. Só precisava entender inglês bem e ter uma noção mínima do que consertava.
Jean mal voltava para a cadeira e eu já aparecia na porta: tinha consertado. .
Um dia Márcio me convidou para dar uma volta no seu Escort conversível — na velocidade máxima, que para ele nunca era suficiente. Parou na frente do Timóteo Barreiro, esquina da Senador Saraiva com a 13 de Maio, aqui em Campinas. Pediu para eu descer e sentenciou:
“Vai já atrás do passaporte. Para toda a sua família. Quero vocês em Endicott amanhã fazendo a visit trip.”
Jean já tinha feito a cabeça dele e “Fui”.
Saí do carro sem saber direito o que tinha acontecido. Mal sabia o sufoco que me esperava — minha missão seria criar os MAPs para consertar o 4341. Os mesmos que eu havia usado sem saber como as máquinas funcionavam. Para uma máquina ainda em desenvolvimento, cujos defeitos ainda não existiam, e para os quais eu teria que antecipar diagnósticos.
Como consegui fazer isso conto no post “On the street where you live“.
Nossa memória é seletiva e trai um pouco a gente. O evento da saída da Engenharia Industrial e ida para a Engenharia do Produto ocorreu em fins de 1973. Antes de ir para ajudar o desenvolvimento do 4341, eu tive dois assignments nos Estados Unidos, um no primeiro semestre de 1974, em Raleigh NC e outro em Rochester Minnesota no primeiro semestre de 75. Declinei um assignment para o Japão no primeiro semestre de 76, pois meu filho caçula acabara de nascer. A descrição anterior foi para o terceiro assignment, já em Endicott, para participar do desenvolvimento do 4341, entre 77 e 79/. Tivemos ainda um quarto assignment em Endicott, para terminar o desenvolvimento do 4341, entre 81/83, quando decidimos encerrar estas andanças e ficar no Brasil, que solicitei à IBM, que me atendeu.
Por que os assignments de Raleigh e Rochester falharam
A IBM, os Bancos e o Mainframe Nacional
Antes de a IBM conseguir fabricar mainframes no Brasil, duas tentativas fracassaram — e por razões parecidas.
A primeira foi produzir caixas eletrônicos aqui. Caiu porque o Itaú já tinha seu próprio plano de automação — que executou muito bem — e criar conflito com um cliente desse porte não fazia sentido. A segunda foi o Sistema/32, computador de pequeno porte fora da arquitetura 360. Também abortou: o Bradesco montava sua própria estratégia com o Digilab e não abria espaço.
Os dois maiores bancos do país achavam que conseguiriam fazer tecnologia sozinhos. E tentaram.
Bradesco e Itaú como banco e fábrica
O Bradesco apostou em terminais e PCs, comprou a Scopus, virou referência em internet banking — mas acabou abandonando a fabricação e em 2014 vendeu a parte de serviços da Scopus para a própria IBM, voltando a focar só em banco.
O Itaú criou a Itautec em 1979, verticalizou forte — terminais, PCs, TVs, DVDs via fusão com a Philco — mas não aguentou a competição global. Em 2013 saiu de PCs e servidores e vendeu automação bancária e TI para a japonesa OKI.
Ambos descobriram, cada um a seu tempo, que banco e fábrica de tecnologia são negócios diferentes.
A entrada da IBM com o 4341
Como mainframe estava fora do alcance dos grupos locais, o governo finalmente autorizou a IBM a fabricar aqui — com a condição de nacionalizar mais de 50% do produto, sem especificar 50% de quê. Essa abertura nos permitiu definir um critério de nacionalização que resolveu na prática o desafio industrial que os outros não haviam conseguido enfrentar.
O modelo escolhido foi o 4341, que era evolução do 3145, a máquina mais vendida da IBM no mundo inteiro na época. A IBM começara com o 3145 e agora atacava o salto seguinte, o 4341, cujo hardware era LSI – Large Scale Integration, ou Integração em larga escala.
Para o IBM 4341 (lançado em 1979), o LSI (Large Scale Integration) foi o salto tecnológico que permitiu comprimir o poder de um mainframe que antes ocupava uma sala inteira para o tamanho de um armario de menos de um metro cubico (o frame da série 4300).
Fora o aspecto da grande redução no preço, pois um 3145 custava uns 5 milhões de dólares e um 4341, um milhão. Vendeu que nem água e a IBM cresceu ainda mais se tornando uma das maiores empresas do mundo e com tal sucesso que o governo americano, e a indústria, ficaram com medo dela e queriam que ela se dividisse, acusada de monopólio. Mal sabia a IBM que este fenômeno da disponibilidade de potência a custo mais baixo pela evolução tecnológica quase acabaria com ela e a reduziu a uma empresa que não tem nada a ver com a que eu trabalhei.
O LSI permitiu que o 4341 fosse uma máquina altamente microprogramada. Grande parte da lógica que antes era “hardwired” (física) passou a ser controlada por microcódigo armazenado em memórias de controle (WCS – Writable Control Store) e gerou carga de trabalho da qual eu fui designado a ajudar a desenvolver.
Como eu me envolvi
Quando entrei na IBM, fui contratado inicialmente como técnico — não sou engenheiro de formação — para trabalhar na Engenharia Industrial e ajudar no layout do prédio em Sumaré onde a IBM instalaria suas linhas de produção. A empresa havia contratado uma plêiade vinda do ITA, da USP, da Unicamp e das federais para suas funções de fabricação de Main Frames e seus I/O’s. Eu entrei por outro caminho, com o que havia aprendido na Bosch, como já expliquei.
Transferido para a Engenharia de Produto, passei pelos dois assignments que não vingaram, foram — ATMs e Sistema/32 — e voltei com o conhecimento que me levou ao 4341.
Como era trabalhar na Engenharia do Produto nos quinze anos que fiquei la suportando maiframes
Para quem não é da área, este assunto de computador é chato, ou “boring”. Para amenizar, vou contar um historia cheia de lances, que marca bem a era.
A Máquina Desmontada no Chão — e o Presidente do Banco que Foi Dormir
Nosso trabalho principal era suportar a linha de montagem, garantindo que cada máquina produzida estava de acordo com a documentação. O pessoal da linha aprendeu rapidamente a usar os MAPs e raramente precisava nos acionar. No fim do ano, quando apertava o fechamento contábil, trabalhávamos ombro a ombro com a montagem para colocar as máquinas de pé antes da virada — porque todo mundo queria ir para casa no Natal.
Havia outro tipo de chamado que nos causava um frio na espinha: quando um CE — Customer Engineer, a face pública da IBM nos bancos e empresas — não conseguia resolver um problema e precisava nos chamar. Para eles, recorrer à Manufatura era um golpe no amor próprio. A IBM tinha um compromisso público: se não consertasse em 48 horas, trocava a máquina. Um 4341 custava em torno de um milhão de dólares da época, uns 10 de hoje, fora a complicação de transporte, instalação e ajuste do software. Nunca chegamos a trocar nenhuma. Mas passamos perto. E aconteceu comigo.
Uma vez fui designado para ajudar um CE que não havia conseguido consertar um 4341 numa central de processamento de um banco estadual no norte do Brasil. Quando cheguei, o presidente do banco nos observava com semblante preocupado, invocando a garantia da IBM. Perguntei por que estava tão preocupado. Ele sorriu e explicou: se vazasse que o Big Blue estava fora do ar, a malandragem do mercado tomaria conta. Pessoas correriam para descontar cheques sem fundo, apostando que o banco não conseguiria verificá-los a tempo. Se recusasse, seria interpretado como sinal de que o banco havia quebrado.
O CE, ao me ver, sentiu-se aliviado — e desmontamos a máquina inteira sem consultar os MAPs. Quando o 4341 estava espalhado no chão como um quebra-cabeça, perguntei por que não haviamos usado os MAPs. Ele sorriu e disse: “Espere aí, — você não é o cara que conhece a máquina?” Respondi que eu achava que era ele, dada a confiança com que havia desmontado tudo. Rimos — e passamos um bom tempo remontando para poder consultar os MAPs novamente. Eu conhecia bem os cartões K e L, mas para qualquer outra parte precisava dos procedimentos.
Claro que não deixamos ninguém perceber. O efeito positivo foi que o presidente do banco, ao ver aquela confusão toda com a confiança que desmantelamos tudo, concluiu que entendíamos profundamente da máquina — e foi para casa dormir.
Da minha experiência em hi-fi, com a ajuda dos MAPs da power supply, concluí por similaridade lógica de qualquer equipamento eletrônico, que o problema estava na fonte de alimentação. O CE confirmou. Com a modularidade do 4341, bastaria substituir a fonte por uma de outra máquina ou pedir ao depósito. Estávamos em Belém do Pará — o mais rápido era pedir dos EUA, mas precisávamos ter certeza antes de alugar um avião e enfrentar alfândega e burocracia.
A única máquina semelhante na região era de um grande banco brasileiro. Era tarde da noite, não havia ninguém com autoridade para autorizar o empréstimo temporário — mas localizamos o gerente do CPD em plena festa, numa daquelas casas noturnas que você já imagina. O sujeito estava bêbado e muito amigável, sem fazer ideia da importância da máquina para o banco, e declarou alegremente: “Leve, e por favor traga de volta antes do amanhecer.”
Fizemos isso. Estávamos certos. Devolvemos a power supply antes do nascer do sol e encomendamos a fonte com a confiança de que chegaria de Miami antes do pôr do sol daquele mesmo dia e chegou.
Problema resolvido.
Atividades depois da Engenharia do Produto
Duas Paradas Antes do ILAT
Na engenharia do Produto, fiquei uns 10 anos indo e vindo para os Estados Unidos e aquilo chegou num ponto que nao dava mais, por inúmeras razões que não vou contar agora. Long storyi short, decidimos, eu e Cristina, não viajar mais e ficar só no Brasil. Para não viajar mais, precisava sair da Engenharia do Produto — onde viajar era inevitável. Antes de chegar ao ILAT, Instituto Latino Americano de Tecnologia, onde ficaria até sair da IBM, passei por duas áreas. Em torno de um ano e meio em cada.
Engenharia de Qualidade
Fiquei responsável por todos os sistemas de controle de qualidade da Fábrica da IBM Sumaré. O relatório existente era um calhamaço que ninguém lia — grande demais para ser útil. Transformei tudo em uma página única, com gráficos mostrando a performance de cada produto. Simples, legível, acionável.
Distribuição de Materiais
Na prática, era um almoxarifado com tudo que a Fábrica Sumaré precisava para existir e produzir.
Com Pedro Paulo Soares — pessoa excelente, afável e competente — criamos um sistema para converter a produção prevista em suas partes componentes, calcular o volume de estoque necessário e traduzi-lo em metros quadrados de armazenamento. O resultado foi um projeto completo: definição da área a ser construída, escolha dos equipamentos de estocagem e automação do próprio estoque.
O que motivava tudo isso era um dado que surpreende quem vê de fora: o maior custo de uma fábrica como Sumaré não era salário, imposto ou matéria-prima. Era o tempo que uma peça ficava parada esperando ser montada. Acrescente os prazos de importação, liberação de alfândega e processos burocráticos — e esse dinheiro imobilizado se torna, de longe, o item mais pesado da operação.
Com a IBM Sumaré faturando cerca de 300 milhões de dólares por ano, o giro de estoque estava longe dos parâmetros esperados. O projeto que eu e Pedro Paulo desenvolvemos nos colocaria dentro do aceitável — e o projeto de automação que também desenhamos daria o passo seguinte.
Saí antes de ver a implementação. Explico por quê a seguir.
Lei de incentivos fiscais 8248
O presidente Collor, através da Lei 8.248, acabou com a reserva de mercado e criou um sistema de incentivos para Pesquisa e Desenvolvimento baseado em renúncia fiscal — condicionado ao desenvolvimento de produtos com indice de nacionalização acima de 50% e equivalente a cerca de 10% da receita bruta das empresas participantes. No nosso caso, caíram no colo 30 milhões de dólares anuais. Dez foram para o ILAT.
Esses recursos foram destinados a duas frentes. A primeira era uma tentativa de desenvolver periféricos de mainframe para CPDs — Centros de Processamento de Dados. Não daria em nada, por razões que eram óbvias para quem conhecia o setor. A segunda era o ILAT.
O Instituto Latino Americano de Tecnologia
O Dinheiro e o que Fizemos com Ele
Esta Lei 8.248, acabou com a reserva de mercado e criou um sistema de incentivos para pesquisa e desenvolvimento baseado em renúncia fiscal — condicionado ao envolvimento com entidades educacionais e equivalente a cerca de 10% da receita bruta das empresas participantes.
No nosso caso, caíram no colo aproximadamente trinta milhões de dólares ao longo do programa. Desse total, estimo que uns dez milhões foram para o ILAT.
Os recursos foram destinados a duas frentes.
A primeira era uma tentativa de desenvolver periféricos de mainframe para CPDs — Centros de Processamento de Dados. Não daria em nada, por razões que eram óbvias para quem conhecia o setor. E não deu.
A segunda era o ILAT — o Instituto Latino Americano de Tecnologia, criado pela IBM Brasil com uma missão clara: auxiliar no treinamento e na criação de know-how para viabilizar o programa de nacionalização de mainframes, que precisavam atingir determinado nível de conteúdo nacional para fazer jus à lei. Havia um gap real de conhecimento e competência a cobrir.
Trabalhei nas duas frentes. Na primeira, como esperado, nenhum resultado. No ILAT, tive uma ideia que me parecia simples mas que mudou o rumo do projeto: converter os déficits de know-how num mestrado formal, para atrair e motivar os funcionários a enfrentarem o que precisava ser feito — do jeito que precisava ser feito.
O raciocínio era direto: não éramos uma escola, éramos uma fábrica com aspirações de desenvolvimento. A solução não estava dentro da IBM — estava em fazer isso através das grandes instituições de ensino do país. A Unicamp, considerada uma das melhores do Brasil e localizada na mesma região, era a parceira natural.
O programa foi implementado. Quem quiser examinar os resultados e o detalhamento do que foi construído encontrará tudo documentado no link abaixo.
Qualidade e o IMECC
O Mestrado de Qualidade chamou a atenção do Secretário de Ciência e Tecnologia, José Paulo Silveira
O Dinheiro por Trás de Tudo
Olhando com olhos de hoje — 83 anos e perspectiva — percebo que aquele momento da minha vida tinha muito mais por trás do que sempre imaginei. Sempre mantive o face value de como surfei tudo aquilo. Estava errado.
A Lei 8.248 foi sancionada em outubro de 1991, mas a IBM já sabia o que vinha bem antes — o ILAT publicou seu primeiro relatório em 1989, e eu entrei lá em 1988. A lei era direcionada ao setor de informática: incentivava pesquisa, desenvolvimento e inovação, previa convênios com instituições científicas e de ensino, estabelecia preferências em compras públicas e oferecia benefícios fiscais significativos.
Foi exatamente o que a IBM fez.
Criou um departamento na Fábrica de Sumaré encarregado de P&D&I. Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação. É um modelo estratégico contínuo que orienta a criação ou o aprimoramento de produtos, desde a concepção científica até a sua chegada rentável e prática no mercado. O produto que foi escolhido foi um 3270 inteligente, grupo para o qual eu inicialmente fui. Criou tambem o ILAT, Instituto Latino Americano de Tecnologia, que firmava convênios com universidades e instituições de ensino — mas com uma agenda muito clara: vender computadores. No caso da Unicamp, por exemplo, tratava-se de compra pública: a universidade entrava com o nome, o incentivo pagava a conta, e o valor era abatido do Imposto de Renda da IBM.
Fui para o ILAT.
Long story short: o projeto de mestrado que implementei gerou a venda de um IBM 3090 para a Unicamp que, com I/Os e periféricos, chegava a uns seis ou sete milhões de dólares. O próprio mestrado — viagens, bolsas, aperfeiçoamento de participantes em Harvard e no MIT — custou em torno de três milhões.
Não sei exatamente quanto o departamento que tentava desenvolver o 3270 inteligente gastou, mas suspeito que foi pelo menos o dobro. Consigo enxergar facilmente trinta milhões de dólares envolvidos no conjunto das operações — incluindo os cursos catalogados nos “programas de educação” que o Centro Científico do Rio oferecia.
Quanto a IBM usou em incentivos durante toda a vigência da lei e a existência do ILAT, não sei. Mas o ball park é claro: era um monte de dinheiro — e havia uma arquitetura inteligente por trás de cada real gasto.
A Lei 8.248 tinha vigência até 1997 na redação original. O ILAT foi extinto em 1992. Saí em 1993 — junto com a maior parte dos IBMistas que viveram aquela época áurea da IBM Brasil, que desapareceu para nunca mais voltar.
O que aconteceu foi simples e brutal: a IBM explodiu em 1993, anunciando o maior prejuízo da história do capitalismo até então — oito bilhões de dólares. Seu formato de negócio desmontou globalmente, levando junto a IBM Sumaré.
Não quero entrar em detalhes — meu objetivo aqui é minha trajetória pessoal. Antes de continuar, porém, vale entender o efeito daquele dinheiro todo e como ele me afetou nos anos em que estive no ILAT — até o instituto desaparecer. Centro Educacional Residencial da Gávea/Centro de Estudos Executivo
O ILAT estava sob o Centro Cientifico Rio e era quase que totalmente centrado na Fábrica Sumaré, usando as instalações do Centro Educacional Residencial da Gávea, da foto abaixo para ministrar seus cursos e palestras.
Na década de 70, a IBM Brasil inaugurou no local o Centro Educacional Residencial da Gávea, que posteriormente ficou conhecido como Centro de Estudos Executivos. Ela abandou o local em 2010 que foi transformado num centro residencial que se vê na foto

O ILAT estava dividido em quatro áreas de operação:

- I.P.S. Inicialmente Instituto de Pesquisa de Sistema e depois Instituto de Pesquisa de Sistema e Software
- I.E.S.Inicialmente Instituto de Engenharia de Software e depois Instituto de Sistemas e Tecnologia de Educação
- I.T.F.Inicialmente Instituto de Tecnologia de Fabricação e depois Programas Qualitgy Market Driven
- I.Q. Inicialmente Instituto de Qualidade e depois Instituto de Tecnologia de Hardware e Qualidade
O Instituto de Qualidade nasceu com Paulo Ferrucio e depois foi para o Pantano e trabalhei com os dois.
Com base em documentação interna de 1989/1992 e minha experiência direta, concluo que as atividades do Centro Científico Rio/IBM e do ILAT, eram, quase que em sua totalidade, ações de divulgação e prospecção comercial apresentadas como cursos; os treinamentos eram curtos e genéricos e serviam mais para relacionamento e pitch de vendas do que para pesquisa que pudesse trazer transferência tecnológica profunda.
Por exemplo, o módulo de Inteligência Artificial refletia uma visão acadêmica/promocional do estado da arte de 1989 (sistemas especialistas, PROLOG, lógica), sem vínculo com as direções práticas e os desenvolvimentos que a área viria a seguir.
O módulo sobre Engenharia de Software para o que chamava de “sistemas convencionais” apresentava‑se como formação para criar sistemas, mas era na prática um curso curto e superficial demais para o objetivo declarado e é orientado à seleção/adesão a métodos e produtos — sobretudo IBM — servindo mais a fins comerciais do que à capacitação técnica aprofundada.
A incongruência maior vinha da equipe que dava estes “cursos”. Não quero criticar, pois eles ou estão mortos, ou não merecem ser estigmatizados. Não tinham a menor condição de saber do que realmente se tratava o que estavam falando dado ao seu perfil e histórico. Digo isso porque na verdade, eles seguiam um esquema desenhado para ser isto mesmo, isto é, o conteúdo em relação ao objetivo declarado, não interessava, o que realmente acontecia era que o cliente prospectivo ficava imerso numa instalação maravilhosa que havia sido criada por Burle Marx, maior paisagista que o Brasil já conheceu, com uma infraestrutura de hotel 5 estrelas projetado pelo arquiteto Jorge Machado Moreira, era o carimbo de que nada se compara com a IBM, pode comprar sem medo…

Como era trabalhar no ILAT
Ignorando totalmente o que estava acontecendo, na minha santa ingenuidade, ponderei com o Heber, Ferrucio, Pantano, que nós não éramos escola, não éramos clientes e tínhamos um problema enorme de educação pela frente que era o “gap” de know how da nossa equipe de trabalho que tinha uma missão impossível que era nacionalizar 50% do 4341. Por mais que o pessoal fosse egresso das melhores instituições possíveis, simplesmente não constava do currículo delas onde eles foram educados coisas que a IBM estava fazendo e que ainda não chegara nas escolas, nem nos Estados Unidos.
Minha proposta era preencher este gap com a lista de conhecimentos necessários para atingir os objetivos que assumíramos com o programa de fabricação do 4341, i.e., nacionalização de 50% e transformar num curso de Mestrado Profissional com aulas de 6a e sábado e atrair nosso corpo de engenheiros etc., que para se sacrificar teriam o atrativo adicional de obter um diploma de pós graduação.
Veja em detalhes como defini o conteudo do curso, o que foi selecionado e como funcionava em Mestrado em Qualidade da Unicamp – Agosto de 1991
Como isto aconteceu, está descrito em detalhe no post Qualidade e o IMECC
Voltando ao que já disse, o Mestrado de Qualidade chamou a atenção do Secretário de Ciência e Tecnologia, José Paulo Silveira. Não sei como ele ficou sabendo. Mas a primeira vez que ele se aproximou, foi indo visitar a Unicamp, mais precisamente, o IMECC – Instituto de Matemática Estatistica e Ciência da Computação, que havia sido escolhido de comum acordo entre IBM e Unicamp sediaria o Mestrado em Qualidade que eu imaginara.
Estávamos reunidos numa mesa grande que tinha no IMECC, discutindo exatamente como seria o currículo do mestrado em qualidade, quem ministraria as matérias escolhidas, como seria operacionalizado, etc. Nem notamos ele ouvindo. Os envolvidos tinham uma limitação de dinheiro óbvia para viajar, se a fonte do conhecimento desejado estivesse lá fora e o sistema que a academia usa é mandar o pessoal para fazer doutorado, que é lento e demorado para chegar a termo. Eu já havia trazido um consultor americano, Stanley Marash, que estava ligado a um dos melhores centros de estatística americana e mundial. Minha idéia era levar os que dariam aulas, orientariam teses etc para conhecer centros de excelência em qualidade nos Estados Unidos, como efetivamente iria acontecer.
José Paulo Silveira era extremamente afável, totalmente manso, falava baixo, low profile. É inacreditável o talento que ele tinha para juntar pessoas, catalisar e gerenciar projetos, com uma lista incrível de conquistas e cito da Internet, sumarizando:
José Paulo Silveira, engenheiro metalúrgico, foi gestor-chave na Petrobras dos anos 1980, liderando o CENPES e o programa Procap 1000 que viabilizou a extração em águas profundas (até 1.500 m), abrindo caminho para autossuficiência e tecnologias depois aplicadas mundialmente; participou da formulação do primeiro plano estratégico da Petrobras pós-monopólio e, após breve saída, atuou no governo (assessor de Antonio Maciel Neto) ajudando a implantar programas de competitividade e qualidade industrial (PBQP) e, mais tarde, coordenou a Secretaria de Investimentos Estratégicos e o programa Brasil em Ação no governo FHC. Conhecido por foco em gestão orientada a resultados e por mobilizar equipes, sua metodologia de gerência por programas influenciou a administração pública brasileira.
Diretoria do CB-25



Eu não sabia de nada disso quando após a reunião ele candidamente me convidou para ser Diretor do CB 25, da ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas, que incluia representar Brasil na ISO em Genebra para reuniões com o CASCO e o TC 176, que eu não tinha a menor ideia o que era. Iria também participar das reuniões concomitantes do Mercosul
Em princípio neguei, porque me parecia muita viagem, quando contei à Cristina, ela imediatamente replicou: Pega isso, seu bobo!

Ele queria tambem que eu o ajudasse na parte de Formação e Capacitação de Recursos Humanos do PBQP (Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade) que ele imginava com cursos semelhantes ao que estavamos fazendo junto com a Unicamp geograficamente distribuidos pelo Brasil, ao que prontamente me disponibilizei e que redundaria num projeto a nivel nacional, não pensado, mas interessante que acabou resultando na idéia da criação de uma ANPEQ (Associação Nacional dos Programas de Pós Graduação em Qualidade), da qual me elegeram Presidente, porém que nasceu morta.
A ABNT estava no Rio de Janeiro, Genebra era Suiça e Mercosul fora do Brasil. De imediato, pensando em ter que viajar, educamente não aceitei a oferta dele. Quando voltei para casa, Cristina ao saber disso, ficou indignada: Aceita seu bobo! que foi o que fiz e ele enviou uma carta ao Heber pedindo minha dispensa sempre que necessario e as despezas das viagens correriam todas pela conta dêle, não sei bem de que forma, acho que o CB 25 e o acesso ao Mercosul e á Suiça era patrocinado pela Petrobras.
Antes de sumarizar os resultados de minhas atuações nos projetos de José Paulo Silveira, entenda do que se trata o PBQP
Projetos do Paulo Silveira que me envolvi
- Ser Diretor do CB25 e responsavel pela tradução das ISO Guides
- Representar o Brasil na ISO/CASCO e ISO/TC176
- Descobrir o que era necessário para obter o selo “CE” para livre circulação dos bens do Mercosul e do Brasil na Comunidade Européia
- Compartilhar e auxiliar os membros do Mercosul a obterem isso
- Auxiliar o CNPq numa estratégia junto às Universidades para atingir as metas do PBQP
- Atuar como pesquisador bolsista do CNPq para melhoria da qualidade de ensino da engenharia na EESC-USP: Escola de Engenharia de São Carlos.
Os três primeiros projetos listados acima, na verdade são sobre a mesma coisa e explico:
(Os outros dois últimos foram uma surpresa das mais agradáveis que tive nesta existência, poi me vi, subitamente, na Academia, no caso na melhor Escola de Engenharia de Produção do Brasil, numa cidade totalmente pacata, onde vivi a experiência do que poderia ter sido a minha vida se o mundo fosse perfeito, eu tivesse estudado e seguido a carreira acadêmia e conteo isto no post: Como foi minha experiência na EESC – USP São Carlos)
A participação nestes projetos se estendeu desde o início de 1992, Março, quando eu ainda estava na IBM, de onde me desliguei em Julho de 1993. Continuei atuando free lancer até iniciar as bolsas de pesquisa. A primeira entre Maio de 1994 até Dez de 1995 e a segunda, não localizei a data exata, mas foi até início de 1998. Iniciei na Anhanguera em fins de 1999, onde fiquei até Dezembro de 2003.
A sequência do desenvolvimento de minha persona profissional atuando no ILAT e nos projetos de Paulo Silveira podem ser vistos em: Mestrado em Qualidade da Unicamp – Agosto de 1991, que, ao final do post volta para aqui e passo a descrever como fui para a rede privada, a Anhanguera, trabalhar para Antonio Carbonari.
Antonio Carbonari – Rede Anhanguera
Conheço, ou melhor conheci, Carbonari, muito antes dele fundar a Anhanguera, porque foi casado com uma prima minha, filha de um irmão de minha mãe, antes deles se casarem.
Meu envolvimento profissional com ele se deu nos meados dos anos 90, até 2003, que aconteceu de forma bastante curiosa. Quando eu ainda era bolsista do CNPq, nos encontramos em Harvard, onde o MIT, que é vizinho de muro de Harvard compartilha a fama de “melhor do mundo”, num seminário sobre melhoria da qualidade de ensino, no caso sobre engenharia, voltado para “Estudos de Caso”.
Eu estava lá como pesquisador bolsista do CNPq, em minha segunda bolsa, sobre melhoria de Qualidade de Ensino na Engenharia, pela USP de São Carlos.
Carbonari estava lá porque metade de seus cursos tinham tomado nota “D” e E”, que, pelas regras vigentes, teriam que fechar. O seminário era sobre o uso de “Estudos de caso”, para os alunos entenderem como toda a teoria que eles aprendem é usada num caso prático.
Long story short: Minha terceira bolsa não se renovaria e Carbonari me telefonou perguntando se eu nao queria trabalhar com ele para evitar o fechamento dos curso. Aceitei.
Explico em detalhes como resolvi o problema
O Fim da Carreira Docente e o Mestrado que Não Defendi
Continuei dando aulas de Inglês numa faculdade de outro grupo, cujo coordenador havia conhecido na Anhanguera e com quem me entendia muito bem. Foi a diretora dessa instituição quem um dia me perguntou se eu tinha plano médico do Sinpro. Tinha o do Centro do Professorado Paulista, pela Cristina — e a troca reduziu o custo pela metade.
Quando parei com o Inglês, meus três filhos já estavam cuidando de si mesmos. Cansei de mandar currículo. Fui aprovado na Motorola, na TRIP — que depois foi vendida para a Azul — e em outros processos. Mas quando viam a idade, disfarçavam e não admitiam. Já que eles não me queriam, decidi que também não os queria. Em 2010, com 67 anos, parei definitivamente.
Passei a cuidar da casa — grande e trabalhosa — e a ajudar os filhos no que precisassem. O mais velho foi para os Estados Unidos e virou cidadão, assim como o do meio. Temos os visitado desde que nos aposentamos os dois, o que coincidiu com minha decisão de parar de trabalhar. Vamos uma ou duas vezes por ano — interrompido pela COVID, pela dengue quando eu tinha 80 anos, e agora pelo câncer, que com a quimioterapia e os efeitos colaterais traz um cansaço que dispensa descrição.
Entrei no Sinpro e estou até hoje excelentemente servido pelo plano médico — especialmente agora, com o câncer. Na prática, o benefício agregou um valor equivalente aos nossos salários de aposentados, que são iguais: quando saí da Anhanguera, a Cristina começou a trabalhar onde se aposentaria, somando ao período do início do casamento em que dera aulas no Imaculada.
O Mestrado que Não Defendi — e por quê
Uma das razões pela qual fui dispensado da Anhanguera era a falta de titulação formal. Sobre isso tenho uma história sui generis.
Instalei um mestrado na Unicamp e o frequentei cumprindo todos os créditos. Minha tese tornou-se documento oficial do governo brasileiro para resolver a questão da ISO 9000 — que estava impedindo a entrada de produtos brasileiros na Europa por falta de certificação. Fui emprestado ao governo para deslindar o problema, o que me levou à Suíça durante três anos. Minha bolsa de pesquisador pelo CNPq foi de nível PhD, com justificativa de notório saber.
Frequentei o mestrado da Unicamp com a promessa de que a questão da defesa da tese — que exigia curso superior — seria resolvida como havia sido na USP São Carlos, onde cerca de 5% dos professores da época não tinha graduação e eram admitidos por notório saber.
O que aconteceu foi o seguinte: meu orientador argentino pegou minha tese, levou para a Argentina e apresentou como sua. Depois me comunicou que, se eu não aceitasse a situação, providenciaria para que eu não defendesse — e tinha poder para isso.
Mandei-o enfiar o mestrado num lugar que prefiro omitir.
Curiosamente, eu tinha título de Professor de Inglês equivalente ao universitário — sustentado pela Proficiência pela Universidade de Cambridge e pela Universidade de Michigan — o que me permitiu entrar na outra Faculdade e no SINPRO, que era muito exigente por razões óbvias. Esse título poderia ter sido usado para atender a exigência legal na defesa da tese. Mas a lei não o ampara nesse contexto específico — e foi uma decepção enorme descobrir isso, por limitação da própria legislação. Saí desta limitação para cair nas mãos do Manolo. Tem coisas que não são para ser e não são, como tem coisas que são para ser e nada segura.
O mestrado não foi defendido. A tese virou política pública.
Quem levou mesmo a tese, foi o rapaz do INMETRO que foi comigo e abraçou a causa e com as informações que a tese continha, resolveu todos os problemas com normalização e levantou todas as barreiras que isto ocasionava.Acredite se quiser, ele acabou se transferindo para os Estados Unidos para trabalhar no INMETRO de lá, o NIST (National Institute of Standards and Technology) e, recentemente, ou seja 30 anos depois, ele foi eleito Presidente do CASCO e do TC 176 da ISO em Genebra!
A cada dia basta seu cuidado.



