Estreia nesta semana no Teatro Oficina, em São Paulo, uma montagem de O “Ovo e a Galinha” no Teatro Oficina, espetáculo dirigido por Joana Medeiros onde atriz Ana Hartmann interpreta a própria Clarice no momento em que lê o conto, e o espetáculo abre com imagens dela no Congresso Mundial de Bruxaria de Bogotá, em 1975. Foi a notícia que me levou de volta a esse texto, e a reconhecer nele algo que vivi.
O ovo, a galinha e o “Pacote Jaguar”
Clarice Lispector publicou, em 1964, no livro A Legião Estrangeira, um conto que ela mesma dizia não entender: “O ovo e a galinha”. O enredo cabe numa linha. Uma mulher, de manhã, preparando o café na cozinha, vê um ovo sobre a mesa. Não acontece mais nada. E, no entanto, poucos textos da nossa língua dizem tanto sobre o que é pensar.
A mulher olha o ovo e percebe que não consegue vê-lo. No instante em que olha, ele já virou lembrança de outros ovos, palavra, ideia. O ovo verdadeiro, o que está ali, escapa sempre. Ela tenta descrevê-lo e só consegue por aproximações e paradoxos: uma coisa suspensa, sem lado, que existe antes e depois de tudo e se basta. E vai mais longe: o ovo é invisível a olho nu e, passando de ovo em ovo, chega-se a Deus, que também é invisível.
Daí vem a grande inversão. A galinha acha que é dona do ovo, mas é o ovo que se serve dela para atravessar o tempo. A galinha vive assustada, distraída, cuidando da própria vida, e é justamente por não saber o que carrega que o ovo pode existir. Se soubesse, o perderia. A narradora descobre que está na mesma posição: pertence a uma espécie de organização secreta de agentes que servem ao ovo sem saber a quê, e que recebem em troca pequenos prazeres e uma vida comum, para não perceberem a tarefa. O serviço só funciona porque eles não entendem. No fim, ela quebra o ovo na frigideira e segue o dia. O mistério continua intacto, e ninguém o notou.
Não sei se Clarice chegou a isso por percepção ou por inspiração. Mas o que ela mostra é o mesmo processo que Agostinho, Tomás de Aquino e, muito mais tarde, Daniel Kahneman procuraram abarcar, cada um com sua linguagem: como as nossas ideias se formam e como viajam pelo nosso sensorial, até nos parecerem ser aquilo que pensamos. Agostinho ensinava que as palavras são sinais, que apontam para as coisas mas não as entregam. Aquino dizia que tudo o que recebemos é recebido segundo a nossa medida, e que de Deus sabemos mais o que Ele não é do que o que Ele é; perto de morrer, depois de uma experiência que nunca explicou, achou que tudo o que tinha escrito era palha. Kahneman mostrou, com experimentos, que a mente toma o que tem diante de si como se fosse tudo o que existe, e que as nossas ideias carregam vieses que nem percebemos.
Não vejo necessidade de comparar esses sistemas, nem os de Freud e de Jung. Todos são reflexos do mesmo processo que Clarice, genialmente, expôs pela literatura, e eu diria que com um pouco de poesia. E todos esbarram no mesmo limite, que não é de inteligência, mas do meio que usam: o texto. Quem tenta explicar com palavras como as palavras se formam já começa com o ovo fora do alcance. Clarice não explica; mostra. Não oferece uma explicação, oferece uma revelação. Por isso consegue ir mais longe
Gostaria de ver esta apresentação, pois quem montou usou muito mais que o texto e deve ter compensado, ou minimizado este problema..
Onze anos depois de escrever o conto, em janeiro de 1975, ela recebeu uma carta de Simón González, empresário e místico colombiano, convidando-a para o Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá. O convite não caiu do céu: Clarice frequentava cartomantes e jogava búzios, um lado dela que a crítica ignorou por muito tempo. Ela aceitou. Preparou duas introduções para a leitura, que acabaram dispensadas, e simplesmente leu o conto diante de bruxos e ocultistas. Não falou de magia, não explicou nada. Leu o ovo.
Eu leio esse convite como aquilo que Jung chamou de sincronicidade: uma coincidência carregada de sentido, sem causa que a explique. E leio a resposta dela como uma lição. Ninguém, num congresso de bruxaria, precisava de mais um ritual. Clarice levou para lá o que tinha de mais misterioso: uma coisa comum sobre a mesa da cozinha.
Foi pensando nisso que reconheci no conto o que vivi no que chamo de pacote Jaguar.
Destaco minha versão visual, sem as limitações que os textos impõem.
Nada ali foi decisão minha. O Jaguar foi comprado à minha revelia; eu nunca teria concordado. A viagem saiu de supetão, no meio da quimioterapia, com a permissão da oncologista. As passagens se ajeitaram, os obstáculos foram caindo um a um, escapei de um golpe às vésperas da partida, e a estadia me devolveu o apetite, o peso e o bom humor que eu tinha perdido. Eu era a galinha: distraído, ocupado em sobreviver, sem saber o que carregava. E, como no conto, só por não estar no controle a coisa pôde acontecer.
O sentido só apareceu depois. No meio da viagem, sentado no banco de trás, encontrei nas costas do banco uma pasta esquecida pelo antigo dono. Eu sabia que o carro tinha sido de um médico apaixonado por Jaguares. Não sabia que ele era oncologista. O mistério estava ali, numa pasta, no lugar mais banal possível, como o ovo de Clarice estava sobre a mesa da cozinha.
Comigo, que sempre gostei mais de coisas visuais do que de textos, a revelação não veio por palavras. Veio pelos olhos: um carro que eu não escolhi e uma pasta esquecida nas costas de um banco.
Quando listei esses episódios, não consegui misturá-los ao relato da viagem. Separei-os, como se pertencessem a outra ordem de coisas. Hoje entendo por quê: como os agentes do conto, eu sentia que aquilo não podia ser tratado como mais um fato entre outros. Chamei de mão de Deus, ou de forças maiores, e a hesitação no nome é proposital, porque, como ensina Clarice, quando damos nome ao ovo, ele nos escapa.
Percebo também que, quando conto isso, a reação costuma ser de espanto, às vezes de ataque. As pessoas querem que eu prove, que explique, que traduza a experiência em palavras que a expliquem. Mas eu não estou propondo uma explicação. Estou apenas dizendo, como a mulher na cozinha, que havia um ovo sobre a mesa, e que eu o vi, ou quase o vi, antes de ele virar palavra.