São Jerônimo, o “meio é a mensagem” de McLuhan e o grande corpus

Na missa de hoje, o sermão foi sobre São Jerônimo e seu trabalho monumental na Vulgata. Fiquei com aquilo na cabeça o dia inteiro. Anos atrás, quando me debrucei sobre McLuhan, cheguei a Jerônimo pelas mãos dele e me espantei com o calibre e a importância desse homem. Hoje, conversando e pesquisando, as peças se juntaram de um jeito que acho que vale a pena registrar.

Traduzir é escolher

Em 382, o papa Dâmaso pediu a Jerônimo que pusesse ordem nas traduções latinas da Bíblia que circulavam, cheias de erros e divergências. O resultado, a Vulgata, a “versão comum”, foi a Bíblia do Ocidente por mais de mil anos.

Mas traduzir não é transportar palavras de uma língua para outra. É escolher. E as escolhas de Jerônimo moldaram a visão de mundo de gerações inteiras. O exemplo mais famoso: o grego metanoeite, que significa algo como “mudai de mente”, ele verteu como paenitentiam agite, “fazei penitência”. Uma palavra deslocou a ênfase da conversão interior para a prática penitencial. Mais de mil anos depois, Erasmo e Lutero ainda discutiam essa escolha.

A oração mais rezada do cristianismo mostra bem o tamanho da aposta. No Pai-Nosso, o pão que pedimos é qualificado, no grego, pela palavra epiousios, que não aparece em nenhum outro texto grego conhecido. Ninguém sabe ao certo o que significa: pão “de cada dia”, pão “do dia seguinte”, pão “necessário à existência”? Jerônimo precisava decidir, e decidiu de dois modos. Em Mateus, forçou o sentido com supersubstantialem, “supersubstancial”, palavra que praticamente inventou e que aponta para um pão espiritual, eucarístico. Em Lucas, manteve quotidianum, “cotidiano”. E aqui está o detalhe revelador: a Igreja, ao rezar, não seguiu o Mateus de Jerônimo. A oração da missa conservou o cotidianum da tradição antiga, que o povo já sabia de cor. O “de cada dia” que dizemos até hoje é, no fundo, a voz da assembleia vencendo o tradutor. Em inglês, a mesma oração ganha outras nuances, a começar pelo nome. Nós a chamamos pelas primeiras palavras, Pai Nosso, isto é, por Aquele a quem nos dirigimos. Os ingleses a chamam The Lord’s Prayer, a oração do Senhor, por Aquele que a ensinou. E no texto rezam “give us this day our daily bread”, juntando o “hoje” de Mateus ao “cotidiano” de Lucas numa mesma frase, e pedem perdão por trespasses, “transgressões”, palavra de Tyndale, onde o grego de Mateus diz “dívidas”. Cada língua extraiu do mesmo texto uma oração um pouco diferente.

Lutero, aliás, fez o mesmo que Jerônimo. Sua tradução para o alemão é genial: voltou às fontes hebraicas e gregas e escreveu na língua viva do povo, a ponto de ajudar a fixar o próprio alemão moderno, como Dante fizera com o italiano. Mas em Romanos 3:28 ele acrescentou a palavra “allein”, “somente”: justificados somente pela fé. A palavra não está no grego. Ele a defendeu dizendo que o alemão a pedia. Pode ser; mas ela carregava também toda a sua teologia.

Os dois maiores tradutores da Bíblia no Ocidente extraíram do mesmo texto coisas diferentes, cada um marcado por aquilo que trazia dentro de si.

As palavras que ninguém sabe o que significam

Nosso vigãrio, D.Mauro, mencionou que há mais de cem palavras nesses textos cujo sentido ninguém sabe dizer. São os chamados hapax legomena: palavras que aparecem uma única vez em toda a Bíblia, sem outro uso que permita deduzir o que querem dizer. A Bíblia hebraica tem centenas delas: nomes de plantas, animais, pedras, instrumentos, termos de rituais. O epiousios do Pai-Nosso é o caso mais conhecido do Novo Testamento. Jerônimo precisava traduzir todas elas assim mesmo, e muitas vezes deduziu o sentido pelo contexto, por traduções anteriores ou pelo que lhe ensinavam os rabinos que consultava.

Textos feitos para o ouvido

Há algo que nós, leitores modernos, esquecemos: esses textos não nasceram para ser lidos em silêncio. Salmos eram cantados, profecias eram proclamadas, os evangelhos foram contados antes de serem escritos. Mesmo escritos, eram lidos em voz alta, para uma assembleia. Santo Agostinho registra nas Confissões o espanto de ver Santo Ambrósio lendo em silêncio, só com os olhos, coisa estranha na época.

O hebraico que Jerônimo tinha nas mãos nem sequer trazia vogais, só consoantes. A pronúncia, e muitas vezes o sentido, vivia na recitação da comunidade. Por isso Jerônimo foi aprender hebraico com mestres judeus: precisava daquela tradição falada. As vogais só foram fixadas por escrito séculos depois, pelos massoretas, que registraram também as marcas de como cantar cada versículo. Essas marcas funcionam, ao mesmo tempo, como pontuação: a melodia fazia parte da gramática.

Isso ajuda a entender os hapax. Muitas palavras não perderam o sentido porque o texto se corrompeu, mas porque morreu a prática viva que as sustentava. O texto sobreviveu; a plateia que sabia ouvi-lo, não.

A galinha

Aqui entra McLuhan. Ele relata a experiência do professor John Wilson, que exibiu na África um filme educativo sobre como eliminar água parada para combater mosquitos. Perguntada sobre o que tinha visto, a plateia respondeu unânime: “uma galinha”. Os autores do filme nem sabiam que havia uma galinha nele. Revendo quadro a quadro, encontraram-na: um segundo, num canto da tela.

O público não era incapaz de ver. Via de outro modo: de dentro da cena, pelo detalhe, participando, e não de um ponto de observação externo, como o espectador alfabetizado, treinado a abarcar o conjunto.

Nós fazemos o inverso com a Escritura. Lemos de fora, procuramos a estrutura, extraímos proposições, e deixamos escapar o que para a assembleia original era essencial. Cada tradução, de Jerônimo a Lutero, foi também uma passagem de meio: de uma cultura do ouvido e do corpo para uma cultura do olho. E, como ensinou McLuhan, o meio muda a mensagem, mesmo quando as palavras parecem as mesmas.

A Septuaginta, a abóbora e a hera

Jerônimo traduziu o Antigo Testamento direto do hebraico, mas no Novo fez apenas uma revisão cautelosa dos Evangelhos. Por quê?

A resposta passa por outra tradução, mais antiga e talvez a mais influente de todas: a Septuaginta. Entre os séculos III e I antes de Cristo, judeus de Alexandria, que já não liam hebraico, verteram suas Escrituras para o grego. Segundo a lenda, setenta e dois sábios traduziram separadamente e chegaram a textos idênticos, sinal de inspiração divina. Foi a Bíblia dos primeiros cristãos: os autores do Novo Testamento a citam o tempo todo, e ela continua sendo, até hoje, o Antigo Testamento das Igrejas ortodoxas. Também ela escolheu. Em Isaías 7:14, onde o hebraico diz almah, “moça”, a Septuaginta pôs parthenos, “virgem”, e é assim que Mateus cita a profecia sobre o nascimento de Jesus.

O Antigo Testamento latino que Jerônimo recebeu vinha da Septuaginta: era tradução de tradução. Por isso ele quis voltar à hebraica veritas, a verdade do hebraico. E pagou o preço. Santo Agostinho, que considerava a Septuaginta inspirada, criticou-o por deixar de lado a Bíblia que os próprios apóstolos haviam usado.

O povo também resistiu. Agostinho conta a Jerônimo, numa carta, que na cidade de Oea, a atual Trípoli, a congregação quase se amotinou quando o bispo leu o livro de Jonas na nova tradução. A planta que dá sombra ao profeta, em hebraico qiqayon, uma daquelas palavras de sentido incerto, sempre fora “abóbora”. Jerônimo pusera “hera”. O povo, que ouvia e não lia, reconheceu a diferença pelo som e protestou. O bispo teve de voltar ao texto antigo.

Um hapax que ninguém sabe traduzir e uma plateia que defende o som que conhece: está tudo ali. É a mesma força que conservou o “de cada dia” no Pai-Nosso, e ajuda a explicar por que Jerônimo quase não tocou nos Evangelhos, que o povo ouvia todo domingo e sabia de cor.

O inglês e a King James

Se o latim foi a língua comum do Ocidente por mil anos, o inglês é, de certo modo, o latim de hoje. Vale ver como ele resolveu a mesma questão.

No começo do século XVII, a Inglaterra tinha Bíblias demais. A mais popular era a de Genebra (1560), a Bíblia de Shakespeare e dos peregrinos do Mayflower, cheia de notas de margem calvinistas, algumas pouco simpáticas aos reis. A oficial das igrejas era a chamada Bíblia dos Bispos, pouco amada. Em 1604, o rei Jaime I encomendou uma nova tradução. Cerca de cinquenta eruditos, divididos em seis grupos em Westminster, Oxford e Cambridge, trabalharam sob regras precisas: partir da Bíblia dos Bispos, consultar as traduções anteriores, conservar os termos eclesiásticos tradicionais e não pôr notas de margem.

O resultado, de 1611, foi traduzido dos originais hebraico e grego, e boa parte do seu Novo Testamento repete a redação de William Tyndale, que fora queimado como herege décadas antes. Mas a Vulgata entrou pela porta dos fundos. O texto grego usado descendia da edição de Erasmo, que, por falta de manuscrito, retraduziu do latim de Jerônimo os últimos versículos do Apocalipse. E os tradutores consultaram a Bíblia católica de Reims, feita a partir da Vulgata.

Um detalhe que McLuhan apreciaria: a folha de rosto da King James anunciava que ela fora “designada para ser lida nas igrejas”. Foi feita para o ouvido, como os textos antigos, e é por isso que seu ritmo marcou a língua inglesa por três séculos.

E nós, que falamos português

Em português, a história também se divide entre protestantes e católicos. Do lado protestante, a grande tradução é a de João Ferreira de Almeida, um português convertido que, no século XVII, trabalhando nas Índias Orientais holandesas, traduziu a Bíblia dos originais. Seu Novo Testamento saiu em 1681; ele morreu antes de terminar o Antigo, completado por outros e publicado no século seguinte. Revista muitas vezes, a Almeida continua sendo a base das Bíblias protestantes no Brasil.

Do lado católico, a tradução clássica foi a do padre Antônio Pereira de Figueiredo, publicada entre 1778 e 1790, e feita justamente a partir da Vulgata. Por quase dois séculos, os católicos de língua portuguesa leram a Bíblia através de Jerônimo. No século XX vieram as traduções dos originais: a Ave Maria (1959), a mais popular entre os católicos brasileiros, feita a partir de uma versão francesa; a Bíblia de Jerusalém, dos dominicanos da Escola Bíblica de Jerusalém, com notas eruditas que mudaram o modo como os católicos leem a Escritura; e a tradução oficial da CNBB.

Cada uma delas, como todas as anteriores, é uma escolha. E todas, direta ou indiretamente, ainda carregam as marcas de Jerônimo.

O grande corpus

Fiquei pensando que a vida se parece com esses modelos de inteligência artificial treinados num corpus gigantesco. Cada um de nós extrai desse vasto corpus a sua visão de mundo, a sua Weltanschauung. Achamos que escolhemos livremente o que extraímos, mas chegamos cheios de marcas que não escolhemos. A Septuaginta, Jerônimo, Lutero, Tyndale e Almeida extraíram coisas diferentes do mesmo texto. A plateia africana e os ingleses viram coisas diferentes no mesmo filme.

Talvez a liberdade que nos cabe não seja escolher do nada, mas perceber as marcas que carregamos. A grandeza de Jerônimo não está em ter feito uma tradução neutra, o que ninguém consegue. Está em ter aceitado a tarefa impossível de passar o grande corpus adiante, tapando buracos que ninguém sabia preencher, para uma plateia que ouvia antes de ler. Dezesseis séculos depois, ainda rezamos com as palavras que ele escolheu, e, às vezes, com as que o povo não deixou que ele mudasse.

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