Tenho 83 anos, e nos últimos tempos tenho visto circular pela internet uma ideia que me irrita cada vez mais. Influencers, gurus de bem-estar e vendedores de juventude repetem que as limitações da idade são “coisa da cabeça”. Que envelhecer é uma decisão. Que, se aos 80 você quiser ser modelo, atleta ou começar uma carreira, basta querer, porque idade é só um número.
Acho isso uma cretinice. E quero explicar por quê, antes de responder à pergunta do título, que merece resposta séria.
O corpo não lê livros de autoajuda
Quem passou dos 80 sabe do que estou falando. A idade não pede licença. Os músculos perdem força, a vista e o ouvido pioram, o sono fica mais curto e mais leve, qualquer gripe leva o dobro do tempo para passar, e as pequenas doenças vão se acumulando como correspondência atrasada. Isso não é mentalidade negativa. É biologia, e nenhuma atitude positiva revoga a biologia.
Dizer a um homem de 85 anos que o cansaço dele é “psicológico” não é incentivo; é desconhecimento, ou má-fé.
No dia em que você sair na rua e vir os automóveis da sua infância e juventude rodando ao lado dos carros novos, na mesma proporção, pode começar a acreditar que o tempo perdoa alguma coisa.
A crueldade escondida no otimismo
O que mais me incomoda nesse discurso nem é a falsidade. É o que ele faz com quem está envelhecendo. Se a idade é só uma decisão, então quem sente o corpo falhar passa a ser culpado. Tem a “cabeça errada”, não se esforçou o suficiente, não acreditou o bastante. Uma perda real vira fracasso pessoal.
É crueldade vestida de encorajamento. E quase sempre, no fim do vídeo, aparece um produto, um curso ou um suplemento.
O grão de verdade que eles distorcem
Seria desonesto, porém, dizer que não há nada de verdade ali. Há, e ela é interessante.
Com a idade, as pessoas ficam muito mais diferentes entre si. Aos 20 anos, quase todos têm corpos parecidos. Aos 80, há quem suba escadas com folga e quem mal saia da cadeira. Parte dessa diferença é sorte e genética, mas parte depende de hábitos: exercício, sobretudo de força, convívio social, ocupação da mente. Uma pesquisa conduzida em Yale chegou a sugerir que pessoas que encaram a velhice de forma menos negativa vivem, em média, alguns anos a mais.
Mas é preciso ler direito. Isso é margem dentro de um declínio, não a abolição dele. Dá para envelhecer melhor ou pior. Não dá para não envelhecer.
Nem tudo se perde no mesmo ritmo
Há um fato que os dois lados costumam ignorar: a idade não leva tudo de uma vez nem na mesma velocidade.
A rapidez de raciocínio e a memória imediata começam a cair cedo. O nome do ator do filme de ontem some. Mas o vocabulário, o julgamento, a capacidade de enxergar o conjunto e de reconhecer um padrão que já se viu cem vezes resistem muito mais tempo. Às vezes até melhoram. A velhice tira velocidade e costuma deixar perspectiva.
Então: é possível deixar sua marca depois dos 80?
É. Mas não fingindo que a idade não existe. Deixa-se a marca com aquilo que a idade não tira.
A história tem exemplos. Verdi estreou Falstaff, uma de suas óperas mais admiradas, aos 79 anos. Goethe terminou o Fausto aos 82. Oscar Niemeyer projetou o Museu de Arte Contemporânea de Niterói perto dos 90 e continuou trabalhando depois dos 100. Cora Coralina, que só conseguiu publicar o primeiro livro aos 75, foi descoberta pelo Brasil aos 90, quando Drummond escreveu sobre ela.
Nenhum deles virou atleta ou modelo. Nenhum negou a própria idade. Todos fizeram o que só se faz depois de uma vida inteira: juntar experiência, ofício e perspectiva numa obra que um jovem não poderia ter feito.
E a marca não precisa ser uma ópera. Pode ser escrever o que se viveu antes que se perca. Pode ser uma conversa honesta com um amigo antigo, sabendo a hora de discordar e a hora de parar. Pode ser organizar, com calma e clareza, o que se deixa para os que ficam, para poupar a eles trabalho e conflito. Pode ser simplesmente ensinar alguém a ver o que você aprendeu a ver.
A posição honesta
Não acredito em “idade é só um número”. Também não acredito que a idade leve tudo. Ela leva muito, e leva de forma desigual. O que nos cabe é cuidar do que ainda responde a cuidado e usar bem o que ela deixa.
A marca que se deixa depois dos 80 não vem de negar o tempo. Vem de saber o que ele nos deu.