Como foi minha experiência no Mestrado em Qualidade na UNICAMP

Uma experiência totalmente diferente da que eu teria posteriormente na EESC – USP.

Talvez porque eu quando entrei na UNICAMP para instalar o Mestrado em Qualidade eu ignorava totalmente com funciona e o que é o mundo acadêmico e quando eu entrei na EESC – USP, eu já tinha tido suficiente experiência para entender como era realmente.

Quando me aproximei da Unicamp, minha impressão foi a seguinte, que parece que era a mesma de George Orwell e que Jordan Paterson explicou claramente e que foi o que senti:

Neste vídeo, Jordan Peterson diz o seguinte diante da seguinte pergunta da entrevistadora:

Por que quase todas as ideias ruins vêm da universidade?

Bem, Orwell respondeu de uma maneira. Vou parafrasear. Ele disse algo como: é preciso ser intelectual para ter algumas das ideias mais estúpidas. Sim, e concordo plenamente. Mas por quê? Porque, em muitos casos, o acadêmico que literalmente vive na torre de marfim está completamente desconectado do mecanismo de autocorreção da realidade.

Certo?

Por exemplo, estou em uma escola de negócios. Na escola de negócios, há menos ideias parasitas, porque se você construir um modelo econômico para prever a economia com base no pós-modernismo, a realidade lhe dirá que você é péssimo.

As escolas de engenharia também têm menos ideias parasitas, porque se você construir uma ponte usando a física indígena pós-modernista em vez da física convencional, a ponte vai desabar.

Então, algumas disciplinas têm uma espécie de imunidade contra essas ideias parasitas, porque a realidade rapidamente te alcança. Mas em outras disciplinas, nas humanidades e em algumas ciências sociais, eu poderia sentar no meu púlpito e pontificar sobre absurdos.

Não existe um mecanismo de autocorreção. Isso se chama realidade. E é por isso que me torno um propagador de absurdos.

A Torre de Marfim e o Chão de Fábrica: quando a realidade bate à porta da academia

Há uma observação atribuída a George Orwell que Jordan Peterson — psicólogo, professor da Universidade de Toronto e uma das vozes intelectuais mais controversas e mais lidas da última década — costuma citar em suas aulas, parafraseando algo como: existem ideias tão absurdas que somente um intelectual seria capaz de acreditá-las. Peterson é um pensador que divide opiniões com uma eficiência notável, mas nesse ponto específico ele articula algo que qualquer pessoa que transitou entre o mundo real e a academia reconhece imediatamente como verdadeiro.

A explicação que ele oferece é precisa. Algumas disciplinas têm o que ele chama de mecanismo autocorretivo da realidade. Em engenharia, a ponte cai ou não cai. Em medicina, o paciente melhora ou não melhora. Em física, o experimento confirma ou refuta. A realidade entrega seu veredito sem cerimônia e sem possibilidade de recurso. Nesses campos, ideias parasitárias — aquelas que sobrevivem não por serem verdadeiras mas por serem convenientes para quem as sustenta — têm vida curta, porque o custo de sustentá-las aparece rápido e é alto.

Em outras disciplinas — certas humanidades, certas ciências sociais — esse mecanismo está desconectado. É possível construir uma carreira inteira sobre ideias que nunca precisam se provar no mundo real, porque o critério de validade não é funcionar, mas impressionar os pares certos dentro do sistema certo. E aí, como Peterson observa, o intelectual que vive genuinamente isolado da realidade pode se tornar promulgador de nonsense com todas as credenciais formais para fazê-lo com autoridade.

Quando entrei pela primeira vez na UNICAMP para apresentar um projeto de mestrado em qualidade, entendi visceralmente o que isso significa.

Eu vinha da IBM. Mais especificamente, da fábrica de Sumaré, onde era responsável por todos os sistemas de qualidade dos produtos que saíam daquela linha — e onde havia participado do desenvolvimento do 4341, o que me dava uma visão bastante precisa de onde as coisas pegavam. Não era teoria. Era o tipo de conhecimento que só se adquire quando se tem responsabilidade real sobre algo que tem que funcionar — porque quando não funciona, todo mundo sabe, e sabe rápido.

O projeto que eu levava estava bem fundamentado. Antes de apresentá-lo, havia consultado especialistas no exterior para conferir minhas premissas. A conclusão era clara: controle de qualidade, no fundo, é estatística aplicada. E nos grandes centros internacionais, programas desse tipo estavam instalados exatamente onde faziam sentido — dentro de departamentos de excelência em estatística. O IMECC da UNICAMP era um desses centros, e um bom — antes de se dividir e separar a parte de computação numa estrutura própria, que o fez melhor ainda.

A plateia era composta inteiramente de PhDs.

O problema não era falta de inteligência. Era o desacoplamento que Peterson descreve. Em termos práticos, o suporte computacional deles para estatística era o SAS rodando em mainframe — o que em si não seria problema, pois eu conhecia mainframe por dentro, tendo ajudado a desenvolver um. O problema era que na prática poucos realmente usavam o sistema com profundidade, e o que era usado demandava provavelmente a composição de um deck de cartões orientando o que o sistema tinha que fazer, coisa enrolada e complicada que desanima qualquer usuario. O que eles faziam creio que já chegava já mastigado, pré-processado, sem que os pesquisadores precisassem confrontar diretamente os dados brutos e os problemas reais que esses dados representavam. A distância entre a ferramenta e o problema era exatamente o tipo de isolamento que Peterson descreve.

De todas as áreas de aplicação que eu sabia na época serem cobertas pela estatística — medicina, economia, engenharia, controle industrial — a única em que aquele grupo claramente dominava a aplicação prática era o teste de reações farmacológicas. Um nicho respeitável, mas estreito.

Eu estava propondo que a estatística saísse do mainframe e fosse para onde os problemas de qualidade existiam de verdade. Que o conhecimento teórico encontrasse o mecanismo autocorretivo que a academia, no caso, dada à juventude da Unicamp, ainda não havia conquistado.

O que aconteceu depois não foi consequência intelectual do projeto. Foi consequência política — no melhor sentido da palavra, que é o sentido de quem tem poder real e sabe reconhecer competência quando a vê. O IMECC não tinha um programa de pós graduação adequado e no mesmo nivel dos outros institutos e a IBM tinha um monte de dinheiro que em parte iria ser usado para colocar um supercomputador lá e o Carlos Vogt, pai da ideia queria matar dois coelhos com uma cajadada só.

Numa das reuniões em que detalhávamos como faríamos uma primeira viagem de reconhecimento dos programas internacionais — inclusive o de George Box, que era uma das referências que eu havia identificado — havia um homem que chegou e ninguem viu e que ninguem conhecia. Ficou em silêncio durante toda a reunião, observando. Enquanto eu liderava a discussão e assumia que iria providenciar o que precisava ser providenciado — coisa normal na IBM, onde money was no objection — ele ficou quieto, vendo como as coisas se organizavam.

No fim da reunião, sem preâmbulo, ele me convidou para representar o Brasil numa reunião do CASCO e do TC 176 em Genebra e interfacear com o MERCOSUL.

Eu recusei. Não por descaso — havia uma razão concreta. Havia tomado a decisão de me estabelecer definitivamente no Brasil, viajar menos, a pedido de Cristina, e de olhar para aquele convite era óbvio que implicava exatamente o que eu havia prometido evitar: muitas viagens, ausências, a vida que eu havia concordado em deixar para trás.

Só depois fui saber quem era aquele homem. Paulo Silveira havia sido Secretário de Ciência e Tecnologia — uma secretaria que já havia sido ministério. Era egresso da Petrobras, onde havia feito coisas que ninguém havia feito antes no mundo: desenvolveu a extração de petróleo em águas profundas, tecnologia que a Petrobras ainda hoje explora como vantagem estratégica. Estava emprestado ao governo e havia concebido o PBQP — o Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade — com uma série de metas ambiciosas que ele ainda não sabia exatamente como executar, e que acabariam caindo nas minhas mãos.

Quando cheguei em casa e contei a Cristina o que havia acontecido e por que havia recusado, ela viu imediatamente o que eu não havia visto. Inteligente como é, percebeu que aquilo não era um problema — era uma oportunidade. Boa para minha carreira, boa para o sustento da família, e boa para mim, que andava meio perdido sem fazer as coisas que sei fazer bem e que até então só havia conseguido fazer nos Estados Unidos ou em contexto internacional. Aquele convite seria uma forma de agitar de dentro do Brasil um conjunto de competências que estavam, na prática, paradas ou não existiam e tinham que ser criadas.

Voltei. Aceitei.

E foi o que foi — Genebra, o CASCO, o TC 176, MERCOSUL, o documento de 320 páginas que se tornou norma oficial do INMETRO e base de trabalho da ABNT, ISO 9000 certificada no Brasil por brasileiros, acesso ao Mercado Comum Europeu, etc.

Peterson tem razão sobre a torre de marfim. Mas a história que acabo de contar tem uma nuance que ele não menciona: às vezes o mecanismo autocorretivo da realidade não aparece sob a forma de uma ponte que cai ou de um experimento que falha. Aparece sob a forma de um homem silencioso numa sala que sabe observar quem realmente sabe o que está fazendo — e que faz o convite certo, na hora certa, para a pessoa certa.

O resto é questão de ter a sabedoria de aceitar quando a oportunidade chega. E, se necessário, de ter uma esposa que te ajude a enxergar isso.

Deixe um comentário