Genebra — ou: o mundo tentando se organizar

Antes de falar de Genebra, preciso falar da Suíça. Porque chegar lá sem rever as próprias ideias seria desperdiçar a viagem.

Minha impressão prévia era a de muita gente: um lugar pequeno, com montanhas cobertas de neve, fábricas de chocolate e de relógio. Cartão postal animado, sem mais.

A realidade é outra. A Suíça lembra muito o Canadá — não é pequena no sentido que importa, que é o sentido vivido. É um país de Cantões, cada um com sua origem, sua identidade, sua cultura. E aqui vem o primeiro espanto: os Cantões podem ser de cultura francesa, alemã ou italiana — e os suíços saltam de uma língua para outra no meio de uma reunião de trabalho como se fosse absolutamente natural. Porque para eles é. Cresceram assim. Suas escolas devem ser as melhores do mundo — e não é exagero, é observação.

São profundamente educados — tecnicamente e de maneiras. As duas coisas juntas, o que é mais raro do que parece.


Jung em Zurique

Embora minha base fosse sempre Genebra, fiz questão de ir até Zurique atrás de Jung — cujo sistema de psicanálise usei para mim mesmo ao longo dos anos. Conheci a casa dele e o instituto que leva seu nome. É o tipo de visita que não cabe em roteiro turístico mas que você não esquece — porque não é turismo, é um encontro pessoal com alguém que já habitava sua cabeça há muito tempo. Fui visitar a Torre de Bollingen


A razão do trabalho — e os americanos ex-IBMistas

Fui à Suíça para entender e ver o que o Brasil precisava fazer para se alinhar pela ISO — International Organization for Standardization, sediada em Genebra. A infraestrutura técnica deles, com ampla literatura que comprei toda e trouxe para o Brasil e usei para gerar nossas ordenações, na área de normalização, foi extremamente útil para enfrentar um problema concreto: o Mercado Comum Europeu tinha uma agenda clara de dificultar a entrada de produtos alimentares americanos na Europa — e acabamos sendo envolvidos da mesma forma com nossos próprios produtos que queríamos vender por lá.

Acabou dando certo. Me juntei aos americanos que trabalhavam o mesmo problema — e não foi coincidência que a parceria funcionou bem: eram ex-IBMistas. E quem passou pela IBM sabe que a empresa embute uma cultura, uma forma de pensar e de resolver problemas, que reconhece outra pessoa com a mesma formação de longe. É como um sotaque que não some. Somos, ou éramos uma família onde quer que estivéssemos e quem quer que fôssemos…


Cristina e o presépio

Enquanto eu resolvia normalização e geopolítica alimentar, Cristina descobria a Suíça com outros olhos.

Ela achou as casinhas um presépio. E não é metáfora vaga — é descrição precisa. O cuidado que os suíços têm com a natureza e com a aparência de tudo ao redor é de uma consistência impressionante. A transparência do Lago Léman — o Lago de Genebra — é algo que precisa ser visto para ser acreditado. E num canto da cidade, um escultor dando forma a um busto num tronco de árvore — uma dessas cenas que aparecem sem aviso e ficam para sempre.


O dinheiro, os relógios e a comida

Os suíços têm uma relação com dinheiro que impressiona pela frieza elegante. Naquela época, cobravam para guardar na mão deles até um milhão de dólares. Só a partir daí é que começavam a oferecer algum rendimento. É o tipo de detalhe que diz tudo sobre um país.

As vitrines de relojoaria e joias são um espetáculo à parte — não apenas pelo que exibem, mas pela forma como exibem. Tudo calculado, tudo preciso, tudo dizendo silenciosamente que o que está ali dentro vale mais do que você imagina.

Mas a comida — ah, a comida…

Para quem está acostumado com a generosidade do Brasil e a fartura americana, Genebra é um exercício de resignação gastronômica. Um jantar de sete etapas não enche a barriga. Um festival de lagosta parece piada — de bom gosto, mas piada. O vinho vem servido em taça marcada com a quantidade exata em mililitros. Foi lá que conheci as latinhas de 125ml que depois viraram padrão em outros lugares — e achei um absurdo então, acho um absurdo agora. Abaixo de 350ml, que é o padrão americano adotado no Brasil, não é porção, é amostra.

Paradoxalmente, eles tem escolas de formação de Padeiros e Chefs Gourmet e tivemos oportunidade de ver duas exposições sobre escolas que se especializam em Padaria e comida Gourmet.


Lugar bonito. Frio. Ordenado. Difícil.

Genebra é tudo isso ao mesmo tempo.

Bonita de um jeito que não precisa se esforçar. Fria — no clima e, às vezes, nas pessoas, embora de forma diferente de Paris — sem o julgamento, mas com uma distância que é simplesmente o jeito deles. Extremamente ordenada, o que depois de Nova York e Paris tem um efeito quase descansante.

Mas para viver deve ser muito difícil — mesmo que você tenha muito dinheiro, o que parece ser o caso de todo mundo que vive lá. Há lugares que são extraordinários para visitar e severos para habitar. Genebra é um deles.

Nova York te absorve. Paris te testa. Genebra te organiza — e depois te manda embora pontualmente.

O Lago de Genebra

Jardins e escultura

Festival de Lagosta

Festival de Padaria e Comida Gourmet

O Caso Girassol (L’Affaire Tournesol) Hotel Cornavin

O Hotel que ficamos está no imaginário dos leitores de Tin Tin, no caso do Girassol

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