New York, a Cidade que Existe Porque a Lembramos

Paris, a Cidade que Existe Porque a Imaginamos

Este relato abre com nossa visita a Paris, em comemoração às nossas Bodas de Prata. Escrevo em março de 2026 e ele reflete, inevitavelmente, a percepção dos meus 82 anos. xe em outra, a trabalho, destinada a Genebra, na Suíça, sede da ISO (International Organization for Standardization). Assim, o roteiro comemorativo acabou unindo Nova York, Paris e Genebra.

Na verdade, se for ver bem, ainda tem Chartres, que tiramos um dia em Paris para ir ver.

Mas a crônica aqui precisa tomar outro rumo. Parafraseando o título do post anterior: “New York, a Cidade que Existe Porque a Lembramos.”


Tudo que fazemos, no fundo, é hábito.

Pode variar de tamanho, profundidade, força sobre nosso imaginário — mas continua sendo hábito. Vou particularizar hábitos que acabamos tendo para a vida inteira, dada a experiência que lhes deu origem.

Estou pegando um texto de quando eu tinha 65 anos, “temperando” com o acréscimo dos 82 que tenho hoje e, com licença poética, fazendo o ponto sobre New York como ela entrou no nosso imaginário.

Temos três momentos aqui: a viagem de comemoração das Bodas de Prata, em 1993; o momento da crônica original, em 2008, quando cogitei pela primeira vez o porquê de Nova York ter impregnado como hábito na memória; e hoje, 2026.


2008

Quando a IBM acabou, foi duríssimo. Não poder ir rotineiramente para o local de trabalho, sentar na mesma mesa, no mesmo cantinho, ir ao refeitório, tomar aquele café cheio de aroma, circular no ambiente que se tornara uma segunda natureza. Devo ter tendências de gato — senti mais falta do lugar que das pessoas.

Saí da IBM em 1993. Mas o que ficou na minha persona me levaria, sempre que pudesse, a dar uma passada pelos Estados Unidos — sempre chegando por Nova York e, quando possível, seguindo até Endicott, que fica a umas três horas da cidade, onde tivemos nossa experiência americana na década de 70.

A perda da persona de funcionário de multinacional não doeu tanto pela perda das comodidades práticas — os hotéis, os restaurantes, os aviões, o respeito automático nos departamentos de imigração de tantos países. Doeu por outra razão, mais funda: é como se você deixasse de existir. Não que eu tivesse sede de poder, ou dependesse disso para existir. Simplesmente não percebia que aquilo fazia parte do meu ser. Era uma segunda natureza que todos viam, menos eu — e foi uma constatação dolorosa e surpreendente verificar que as pessoas externas à empresa com quem eu interagia enxergavam muito mais o crachá do que a pessoa que estava por trás dele. Aliás, se tirarmos isso dos funcionários das multinacionais, o que fica? No meu caso, sobrou o hábito de revisitar.

Eu arriscaria dizer que cultura, persona, nossa essência — tudo é hábito. Mesmo quando enfrentamos situações novas, usamos processos recorrentes. O que, no fundo, também é um tipo de hábito.

Do ponto de vista dos 65 anos que tinha então, sentia o oposto do que se costuma pregar sobre liberdade e hábitos: sofri — e ainda sofria — com a perda da rotina e a impossibilidade de exercer hábitos que eram arraigados em mim.


Nova York como hábito

Tive experiências de morar nos Estados Unidos em Raleigh, NC, e em Rochester, MN. Mas morei mais em Endicott, no Estado de Nova York, do que em qualquer outro lugar durante minha estadia americana. Nova York não entrou no meu imaginário apenas como porto de entrada e saída.

Eu tinha o hábito de ler o New York Times — geralmente assinava ou comprava o jornal — acrescido do ritual de levar as crianças para tomar breakfast no McDonald’s, em Endicott, numa praça que ao fundo tinha o Great American, supermercado que já não existe mais. O NY Times é um fazedor de memórias — as que você vai ter, porque o jornal cobre os pontos vivos da cidade que, na minha situação, eu visitaria sempre que as circunstâncias ajudassem: Broadway, MoMA, eventos, Central Park, Radio City Music Hall, os Cloisters, a Public Library. E por aí vai.


Paris e Nova York — uma distinção honesta

Paris é linda — e o artigo anterior tentou capturar por que ela exerce tanto fascínio sobre o imaginário coletivo. Mas não consigo ter com Paris nenhuma relação semelhante à que tenho com Nova York.

Paris me parece exigir um repertório específico para ser habitada de verdade. Lá viveram grandes artistas que, através de seus livros e obras, glorificaram a cidade — Hemingway, Henry Miller, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Gertrude Stein. Mas para quem não pinta como Edward Hopper nem escreve como qualquer um deles, Paris pode se esgotar numa visita. Porque viu uma vez, está visto — como é o caso da Mona Lisa no Louvre. Graças a Deus já vi.

Nova York não. Você vai lá cem vezes e cem vezes vê a mesma coisa de forma diferente — e sempre há um espaço, um lugar, uma atração que te fascina de novo. Vou lá há mais de 30 anos. E numa das últimas visitas, talvez a melhor de todas — estava em condição excepcional, sem o fantasma do custo pairando sobre cada decisão, com total sobra de tempo — descobri coisas incríveis que jamais vira: os Cloisters, a Biblioteca Pública Municipal, o Bryant Park que está logo atrás dela.


2026

Tudo no fundo é hábito. Visitar Nova York, visitar os Estados Unidos, rever os filhos e netos, revisitar pontos de interesse, comprar certas coisas, comer outras, ver shows na Broadway.

E talvez seja exatamente isso que distingue as cidades que habitamos das cidades que apenas visitamos. Paris existe porque a imaginamos. Nova York existe porque a lembramos — e porque ela sempre tem algo novo para nos dar quando voltamos.


Uma viagem ainda era uma viagem

Dentro dos hábitos que adquirimos por termos morado nos Estados Unidos, o de saborear vinhos merece uma menção, pois que não existe uma comemoração sem um bom vinho.

Em 1993, viajar de avião ainda era um evento. Não o deslocamento massificado e levemente punitivo de hoje, com assentos que encolheram e a quantidade de gente aumentou muito. Era um ato com alguma cerimônia — você se vestia para o voo, as aeromoças eram profissionais de carreira, todas seniores, com uma elegância e uma competência que vinham de anos de ofício. Não as equipes jovens de hoje, treinadas para a eficiência. Eram mulheres que sabiam exatamente o que estavam fazendo e faziam com prazer visível.

A classe executiva, de então, que viajávamos, parecia, guardadas as proporções, o que hoje seria primeira classe. E havia um ritual que não estava no bilhete mas que acontecia com uma naturalidade encantadora: as aeromoças costumavam trazer para a executiva os vinhos finíssimos da primeira — discretamente, sem alarde, como quem partilha algo bom com quem vai apreciá-lo.

O sistema de passagens ajudava a criar esse tipo de viagem. Chamava-se ponto a ponto — você comprava a origem e o destino principais, no nosso caso São Paulo e Genebra, e por um pequeno acréscimo quebrava o trajeto em pontos intermediários com datas ajustáveis. Foi assim que Nova York e Paris entraram no roteiro das Bodas de Prata. Não como desvio, mas como capítulos de uma mesma história.

E os vinhos da primeira classe viraram personagens dessa história. Chegávamos ao hotel, abríamos a garrafa que vinha na bagagem de mão com o cuidado de quem transporta algo precioso — porque era — e a refeição no quarto virava um evento. Não um jantar de hotel. Um evento íntimo, com a cidade lá fora e uma garrafa que não tínhamos comprado mas que sabíamos apreciar.

Claro que na França, país dos melhores vinhos do mundo, a experiência iria se repetir e tomamos bons vinhos na intimidade do quarto do hotel que ficamos, acompanhados pelas deliciosas opções das Boulangeries seguido das deliciosas Patisseries, tipicamente franceses. Foi tentando replicar esse ritual que aconteceu um episódio que Cristina não deixa esquecer, que foi que ela estava querendo uma bomba de chantilly e no meu francês macarrônico e lembrando que nos Estados Unidos se fala “whipped cream”, eu esqueci que no Brasil a gente também fala Chantilly e demorou um tempão quando eu tentava explicar em francês, pensando em “whipped cream”, que sai “crème fouettée”, que demorou um tempo para atendente dizer “ah, Chantilly!”

Cristina lembra disso com um sorriso. Eu também

Uma confissão final — e um viés tendencioso assumido

Devo admitir que tenho um viés contra Paris. E ele tem nome e endereço.

Caí na besteira de falar tudo em inglês. O resultado foi o tratamento que os parisienses reservam para quem chega achando que o mundo fala a sua língua — uma combinação refinada de indiferença, impaciência e aquele olhar que diz, sem palavras, “mon Dieu, outro americano.”

A virada aconteceu quando desenferrujei o francês dos tempos de colégio. Não era bonito — era funcional, cheio de hesitações e provavelmente com sotaque que faria um nativo sorrir. Mas funcionou. O gelo derreteu, os garçons encontraram subitamente uma simpatia que estava escondida, o concierge do hotel mudou (descobri depois que ele era argelino…) e Paris começou a se comportar como a cidade generosa que o artigo anterior descreve.

A lição que ficou: Paris não te recebe — ela te testa. Fale inglês e você é turista a ser tolerado. Fale francês — mesmo mal, mesmo com o colégio faz décadas de distância — e você vira uma pessoa.

Nova York não faz isso. Você chega como é, fala como pode, e a cidade te absorve sem julgamento. Talvez seja aí, no fundo, a diferença mais honesta entre as duas.

Para quem quiser percorrer os detalhes desse mapa mental que construí sobre New York ao longo de décadas, registrei essas memórias em profundidade neste espaço. Mas, naquela viagem de 1992, o relógio não parava. Após celebrarmos nossas Bodas em New York e Paris, era hora de retomar a rota original: o trabalho nos aguardava em Genebra

Vejamos antes as poucas fotos que tiramos naquela passagem de 1993 e as de 2008, que, com tempo, dá uma boa idéia do que estamos falando:

1993

Nós, posando em frente à Biblioteca Pública de Nova York, localizada na Quinta Avenida em Manhattan.

  • A biblioteca é famosa por seus dois leões de pedra calcária, “Patience” (Paciência) e “Fortitude” (Fortaleza), esculpidos por Edward Clark Potter.
  • O edifício, projetado pelos arquitetos Carrère e Hastings, foi inaugurado em 1911.
  • A área ao redor é o Bryant Park, um local histórico conhecido por seus jardins e eventos culturais.

Esta imagem mostra o saguão principal do Grand Central Terminal em Nova York. 

  • Localização: É um marco histórico mundialmente famoso situado na cidade de Nova York. 
  • Arquitetura: O terminal é conhecido por sua grandiosidade, incluindo imensas janelas arqueadas e um teto icônico. 
  • Funcionamento: É um dos centros de transporte mais movimentados do mundo, servindo como uma estação ferroviária importante. 
  • Importância Cultural: O local é frequentemente visitado por turistas e moradores locais, especialmente durante épocas festivas como o Natal. 

Esta imagem mostra a vitrine da “Harvey Motor Cars”, uma concessionária especializada em veículos clássicos e de luxo, destacando um Rolls-Royce Phantom V.

  • Modelo: Rolls-Royce Phantom V, um sedã de luxo produzido entre 1959 e 1968.
  • Destaque: Conhecido por seu uso por figuras reais e celebridades, destacando-se pelo conforto e presença imponente.
  • Contexto: A empresa Harvey Motor Cars era famosa por vender veículos de alto padrão e clássicos colecionáveis.

2008

Manhattan vista do apartamento do Daniel

O apartamento do Daniel ficava em Fort Lee, N.J., na cabeça da ponte George Washington e, atravessando-a com o ônibus que exista para isto, você caia numa estação de metrô e estava tudo resolvido para atingir qualquer ponto em Manhattan. Na volta, ao fim do dia, tinha um restaurante chinês que era delicioso para matar a fome e descansar.

Central Park

MOMA

A escultura “Horse Power II”, de George Frayne (Comandante Cody), foi exibida no Museu Americano de História Natural (AMNH)

Museu Americano de História Natural (AMNH)

Brayant Park

J.P.Morgan Library

A Morgan Library & Museum, na cidade de Nova York, possui três exemplares da Bíblia de Gutenberg, a maior coleção em uma única instituição. Possuem um exemplar em pergaminho (pele de animal) e dois em papel. Esses três exemplares foram adquiridos pelo financista J. Pierpont Morgan entre 1896 e 1911.

Fiz um post sobre esta biblioteca que pode ser visto em: Pierpont Morgan Library

The Cloisters

Fiz um post sobre o Cloisters que pode ser visto em: The Cloisters

N.Y.City Public Library

Passeando em New York

Genebra

Paris

Chartres

Deixe um comentário