Festa de Babette

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Babettes gæstebud ( A Festa de Babette ) é um filme dinamarquês de 1987, dirigido por Gabriel Axel, e com roteiro baseado em um conto de Karen Blixen. A Festa de Babette foi o primeiro filme dinamarquês baseado numa história de Blixen. Foi também o primeiro filme dinamarquês a ganhar um Oscar para o Melhor Filme Estrangeiro. O filme estreou no Festival de Cannes de 1987.

Este filme, pelo detalhe apresentado na preparação e na escolha dos ingredientes, acabou virando um “food movie” e talvez seja o maior ícone de comida como arte, bem ao estilo francês. Os aspectos que inserem a comida no comportamento religioso dos participantes parece ser simplesmente um caso de equívoco e não compreensão de pessoas muito endurecidas, que são levadas a uma nova compreensão sobre a Graça de Deus. Como todo mundo, eu também comprei esta ideia que correu e corre o mundo que pode ser sintetizada da seguinte forma:

Baseado no conto de 1958 de Isak Dinesen, “A Festa de Babette” é a história arquetípica da culinária como arte. A protagonista, Babette, foge da violência na França para trabalhar para duas freiras piedosas na Dinamarca do século XIX, cuja dieta insípida de sopa de pão as mantém apenas suficientemente alimentadas, sem jamais cair na gula. Isso até que Babette insiste em preparar um “verdadeiro jantar francês” com pratos como sopa de tartaruga, codorna com foie gras e trufas, e bolo de rum. Em silêncio (para evitar elogiar o que certamente seria um pecado sensual), a cidade come e passa a compreender o poder divino do prazer que a comida pode proporcionar.

Baseado nesta percepção, eu fiz dois posts, um, discutindo de maneira mais sofisticada e intelecualizada como o filme é compreendido e outro discutindo apenas o famoso Clos-Veugeot que Babette serviu no jantar.

Mas tem algo que não está escondido, mas que requer olhos de ver, que recentemente tive a oportunidade de perceber e que vai ser o tema deste post, que é o climax e fechamento do filme, o brinde e o discurso que o General Löwenhielm faz, mencionando o Salmo 85:11:

“A misericórdia e a verdade se encontraram.
A justiça e a paz se beijaram.
— Tudo é possível para Deus.”

Salmo 85:11:

Amor e Verdade se encontram,
Justiça e Paz se abraçam;
da terra germinará a Verdade,
e a Justiça se inclinará do céu.

O que tive o privilégio de recentemente perceber, graças à minha esposa, que chamou a atenção para o seguinte, que ela descobriu em suas leituras:

MIDRASH – A LEITURA CLÁSSICA SOBRE GÊNESIS 1:26

“Façamos o homem à nossa imagem…”

A tradição midráshica se pergunta: Por que Deus fala no plural? E com quem Ele está falando?

A resposta simbólica é que, antes da criação do homem, os próprios atributos divinos conversam entre si, num tipo de assembleia celestial:

  • Verdade (Emet) diz: “Não o crie! O homem será falso, enganoso, incoerente.”
  • Paz (Shalom) diz: “Não o crie! Ele será conflituoso, hostil, destrutivo.”
  • Justiça (Tzedek) diz: “Crie-o! Ele fará obras de retidão, defenderá o fraco, corrigirá o que está errado.”
  • Misericórdia/Amor (Chesed) diz: “Crie-o! Pois ele será capaz de compaixão, cuidado e redenção.”

O Midrash então imagina que Deus responde não com um argumento, mas com um ato:

Ele cria o homem mesmo assim, sabendo do conflito inevitável entre os atributos.

O que está por trás do discurso do General Löwenhielm

1. O contexto: Midrash e os atributos divinos

Midrash é o nome dado à literatura rabínica de interpretação criativa da Torá.
A palavra vem de darash = “buscar, investigar, interpretar”.

O Midrash não explica apenas o que o texto diz, mas o que ele pode estar dizendo por trás, nas entrelinhas — através de diálogo, metáfora, imaginação teológica e psicologia profunda.

Entre os mais famosos está o Midrash sobre Gênesis 1:26: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.”

Por que Deus fala no plural? Com quem Ele conversaria?

O Midrash responde: Deus estava consultando Seus próprios atributos, personificados como seres que representam princípios universais. E estes atributos são exatamente os que aparecem em Salmo 85:11:

  • Chesed (חסד) – Amor, Graça, Misericórdia
  • Emet (אמת) – Verdade
  • Tzedek (צדק) – Justiça
  • Shalom (שלום) – Paz

Esses quatro atributos são vistos como forças divinas que “conversam”, “debate-se” e até “lutam” quando Deus decide criar o ser humano.

Veja uma explicação mais detalhada sobre o Midrash e outros atributos que também contemplaram a criação do homem.


🟩 2. O Midrash clássico – (metafóricamente) as forças divinas discutem a criação do homem

O Midrash (Bereshit Rabbah 8:5) diz:

Chesed (Misericórdia) disse:
“Cria o homem, pois ele fará bondade.”

Tzedek (Justiça) disse:
“Cria o homem, pois ele praticará justiça.”

Shalom (Paz) disse:
“Não o cries, pois ele será cheio de conflitos.”

Emet (Verdade) disse:
“Não o cries, pois ele estará cheio de falsidade.”

E então o Midrash conclui: Deus pegou a Verdade e a lançou ao chão, para que pudesse brotar novamente conforme Salmo 85:11: “A verdade brotará da terra.”

Por que Deus fez isso? Porque se a verdade absoluta falasse sozinha — a humanidade não seria criada.

A criação do homem só é possível quando:

  • a Verdade é temperada pela Misericórdia,
  • a Justiça se inclina do céu,
  • e a Paz se torna possível apesar dos conflitos.

🟧 3. Emet, Shalom, Tzedek e Chesed são metáforas para os atributos divinos “dentro” de nós

O Judaísmo afirma que Tzelem Elohim (“imagem de Deus”) não é aparência física, mas participação nos atributos divinos.

✔ Esses quatro atributos são, sim, expressões do que Deus colocou no ser humano:

🟦 Emet — VERDADE

A capacidade humana de buscar o real, o autêntico, mesmo quando falhamos nele.
A verdade divina, no entanto, é “explodente demais” — por isso Deus a “joga ao chão” para que brote em porções humanas.

🟧 Chesed — MISERICÓRDIA

Nossa capacidade de compaixão, cuidado, vínculo, fidelidade.
Sem ela, existiríamos como máquinas de julgamento.

🟩 Tzedek — JUSTIÇA

O impulso moral, a busca por equilíbrio entre direitos e deveres — tanto pessoal quanto social.

🟫 Shalom — PAZ

Não apenas ausência de guerra, mas a harmonia das partes, integridade, reconciliação.
É o atributo mais raro, porque depende dos outros três funcionando.


🟣 4. A leitura teológica mais profunda

Quando Deus decide criar o ser humano, Ele está decidindo criar um ser capaz de amor e falsidade, paz e conflito, justiça e injustiça.

Ou seja: Somos uma síntese viva dos atributos divinos — mas quebrados, incompletos, tensos.

E o papel do ser humano na terra é: restaurar esses atributos no mundo, como co-criadores.

O Salmo 85:11 descreve exatamente isso:

“Amor (Chesed) e Verdade (Emet) se encontram.”
“Justiça (Tzedek) e Paz (Shalom) se abraçam.”
“Da terra brotará a Verdade.”
“E do céu se inclinará a Justiça.”

Isso é uma imagem do que Deus colocou dentro de nós — e do que Ele espera que façamos com isso.


🟡 5. Conclusão

Na tradição judaica, esses quatro atributos são metáforas diretas dos elementos do “DNA espiritual” do ser humano, colocados em nós porque fomos criados “à imagem e semelhança”.

E o Midrash sugere: Cada ser humano vive uma batalha interior entre os quatro atributos divinos.

Criar o homem significou aceitar essa tensão — e confiar que da terra, aos poucos, brotará a verdade.

Que é o que o climax desta história e o que ela revela.

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