É um dos provérbios mais antigos da língua inglesa — e um dos mais interessantes precisamente porque admite duas interpretações completamente opostas.
A origem
A frase tem raízes latinas — Saxum volutum non obducitur musco — e aparece em inglês já no século XVI em John Heywood, que compilou provérbios ingleses em 1546. É, portanto, uma das formulações mais antigas e mais duráveis da sabedoria popular anglófona.
A interpretação tradicional — conservadora
Na leitura original e predominante na cultura britânica a pedra que rola é uma crítica. O musgo representa acumulação — de riqueza, de relacionamentos, de reputação, de raízes comunitárias. A pedra que se move constantemente nunca acumula nada de valor duradouro. A pessoa que muda de emprego frequentemente, que não se fixa num lugar, que não cria raízes — essa pessoa chega ao fim sem o que realmente importa. É a defesa da estabilidade, da permanência, do compromisso. O provérbio valoriza ficar — e condena a inquietação perpétua como superficialidade disfarçada de liberdade. Na cultura vitoriana britânica isso era lido como elogio da solidez burguesa — o homem que fica no mesmo emprego, na mesma cidade, na mesma família, acumula respeito e substância. O vagabundo não acumula nada.
A interpretação moderna — americana
A cultura americana inverteu completamente o significado — e não por acidente. Na leitura americana o musgo é uma estagnação. A pedra que não rola cobre-se de musgo — de burocracia, de rotina, de mediocridade confortável, de resistência à mudança. A pedra que rola mantém-se limpa, ativa, relevante, viva. É o elogio da mobilidade, da adaptação, da reinvenção permanente. O empreendedor que muda de projeto, o profissional que muda de carreira, o nômade digital — todos lidos positivamente através desta lente. Não é coincidência que os Rolling Stones tenham escolhido este nome — nem que Bob Dylan tenha escrito Like a Rolling Stone como hino de libertação. A cultura americana dos anos 1960 abraçou a pedra que rola como símbolo de recusa da conformidade burguesa.
A tensão filosófica genuína
As duas leituras capturam tensões reais da condição humana que não se resolvem facilmente. A leitura conservadora tem razão que relacionamentos profundos, reputação sólida e comunidade enraizada requerem tempo e permanência. Não se constrói confiança em movimento constante. A leitura americana tem razão que a estagnação é real e que o conforto pode ser uma armadilha. Instituições que não se movem cobrem-se efetivamente de musgo — a IBM que não conseguiu imaginar o computador pessoal é uma pedra coberta de musgo em sentido muito preciso. Eu vivi o provérbio nos dois sentidos simultaneamente. Rolei —Anhanguera, USP, IBM, Bosch, Gessy-Lever, Swift Armour, os EUA nos anos 70, o regresso ao Brasil por escolha própria. Uma vida de movimento deliberado e variado. E fiquei em Campinas, com a família até os filhos crescerem e tomarem conta da própria vida. Quarenta e cinco anos até 2026 e talvez até a morte, se Deus permitir. O que sugere que a dicotomia do provérbio é falsa na sua forma mais extrema. A pedra pode rolar e acumular — desde que saiba o que vale a pena acumular e o que vale a pena deixar para trás. O musgo que não se quer é a estagnação. O musgo que se quer é a profundidade. E distinguir um do outro — isso é o trabalho de uma vida inteira.
Vivi nos Estados Unidos na década de 70 e voltei por escolha. Três filhos foram para lá depois — dois viraram cidadãos, fizeram vida, criaram família. E mesmo assim continuo achando que o Brasil é melhor. As pessoas não acreditam. A dificuldade de defender esse ponto de vista é real — a diferença de salários, de poder de compra, do que se consegue ter é gritante e visível. Qualquer comparação econômica favorece os EUA de forma esmagadora. Mas há algo que os números não medem. Meu filho mais velho levava a filha para a escola numa manhã americana — silêncio total, ruas vazias, nenhum vizinho à vista. Cidade fantasma. E disse a ela, que nunca estudou no Brasil e não tem essa referência: lá no Brasil, quando o dia nasce, tudo acorda junto. O café que cheira na calçada. O barulho de quem limpa, de quem abre, de quem passa. A cidade que respira visivelmente antes mesmo do dia começar de verdade. Tudo com muito barulho — o barulho de gente vivendo. Minha esposa Cristina tem uma frase desde a primeira vez que foi aos EUA que nunca mais saiu da cabeça: terra do silêncio. Os brasileiros não percebem o que têm — tomam como garantido o aconchego de estar rodeados de vida humana cotidiana, da presença casual de outras pessoas existindo à sua volta sem cerimônia nem compromisso. Meu filho sente falta disso todos os dias. Minha neta talvez nunca saiba o que significa — porque cresceu no silêncio e não tem o outro lado para comparar. O que não se conhece não se perde. Mas o que se conhece e se perde — esse é o peso que os números nunca vão conseguir medir.
Na verdade, Daniel tocou em algo real e profundo — e que a economia não consegue medir. O que ele descreveu tem um nome em sociologia urbana — densidade vivida. Não é apenas densidade populacional no sentido técnico de pessoas por quilômetro quadrado. É a presença humana perceptível no quotidiano — o barulho, o movimento, o café que cheira, o vizinho que passa, a padaria que abre, o ônibus que buzina.
O que os Estados Unidos trocaram
A suburbanização americana — que se acelerou nos anos 1950 com o automóvel, as highways e o sonho da casa própria com jardim — foi deliberadamente desenhada para separar as funções da vida. Trabalho aqui, comércio ali, residência acolá, tudo ligado pelo carro. O resultado foi eficiente, confortável e profundamente silencioso. O silêncio não é acidente — é produto de um modelo urbanístico que privilegia privacidade, espaço e segurança sobre contacto, barulho e imprevisibilidade humana. O problema é que o ser humano não é neurológica nem psicologicamente feito para esse silêncio. A presença humana casual — não intimidade, não amizade profunda, apenas a companhia anônima de outras pessoas vivendo suas próprias vidas à sua volta — é um fator de bem-estar documentado que os urbanistas chamam de passive social contact. É o equivalente social do movimento natural das Blue Zones (de alta longevidade) — não é exercício intenso, é apenas caminhar. Não é amizade profunda, é apenas estar rodeado de vida humana.
O que o Brasil tem e não vê
O que meu filho descreveu — a cidade que acorda com barulho, o café que se prepara, as pessoas que se cruzam antes de qualquer compromisso formal — é exatamente esse contacto social passivo em ação. Não é necessariamente amizade. Não é necessariamente comunidade no sentido profundo. É simplesmente a textura de uma vida humana que acontece visivelmente à sua volta. O brasileiro que cresce nesse ambiente absorve-o como ar — invisível, óbvio, dado como garantido. Só percebe o que tinha quando chega ao subúrbio americano às sete da manhã e o silêncio é tão completo que parece que o mundo acabou.
A dimensão econômica que todos têm dificuldade em entender
A diferença de salários e poder de compra é real e inegável. Um engenheiro americano ganha de três a quatro vezes o equivalente brasileiro em termos de paridade de compra. Um carro que custa um ano de salário no Brasil custa três meses nos EUA. No Brasil os modelos de carro disponíveis “morrem” num nível que nos Estados Unidos são considerados de entrada e carros, mesmo, não existem no Brasil ou são para jogadores de futebol ou artistas que tem muito dinheiro. Mas há coisas que o salário não compra — e que os americanos estão percebendo cada vez mais que têm um custo invisível. O tempo no carro. A suburbanização americana significa uma a duas horas de condução diária para uma fração significativa da população. Isso é tempo subtraído à vida — não apenas horas perdidas mas horas de isolamento num espaço privado que reforça exatamente a desconexão que o silêncio suburbano já produz. A solidão estrutural. Os EUA têm a epidemia de solidão mais documentada do mundo desenvolvido — com impacto na saúde mental e física. Não é coincidência que os países com urbanismo mais denso e mais barulhento — Itália, Espanha, Portugal, Brasil — tenham índices de solidão consistentemente mais baixos.
Outros itens que no Brasil são mais favoráveis sem o custo ou a forma americana de resolver
O custo do sistema de saúde.
Um brasileiro de classe média com acesso ao SUS suplementar paga uma fração do que um americano médio paga em seguros, co-pagamentos e medicamentos. A diferença salarial atenua-se significativamente quando se conta o custo real de ficar doente. Nossos planos médicos, que nos parecem caros, se formos comparar com o que eles oferecem pelo que custam, comparado com o mesmo tratamento nos Estados Unidos, tem um custo muitíssimo menor do que custa ter o mesmo tratamento lá. Com certeza é o pior aspecto para uma pessoa de terceira idade que resolvesse viver lá. A discussão seria longa, mas para encerrar o argumento, lá, quem for imprevidente ou não estiver coberto por algum plano, se tiver que fazer uma operação de peito aberto, tem que vender a casa. Operações como apendicite, diverticulite, hérnia, etc., é tudo para cima de 100 000 dólares. Implante de dentes, um, dois ou três, que aqui se faz com menos de 10 000 reais, ou 2000 dólares, lá custa fácil mais de 20 000 dólares.
O custo da alimentação
A comparação direta é devastadora para os EUA em termos de qualidade pelo preço. No Brasil uma refeição completa num restaurante popular — arroz, feijão, proteína, salada, sobremesa e suco — custa entre R$25 e R$50 dependendo da cidade. O equivalente nutritivo e qualitativo numa cidade americana média custa entre $15 e $25 — que ao câmbio actual representa quatro a seis vezes mais em termos de horas de trabalho para um trabalhador médio. O prato feito brasileiro é provavelmente a refeição com melhor relação custo-valor nutricional disponível em qualquer país desenvolvido ou em desenvolvimento. Nenhum fast food americano — por mais barato que seja nominalmente — oferece o perfil nutricional de arroz com feijão, legumes frescos e proteína animal por preço equivalente em poder de compra real.
A qualidade dos ingredientes
Aquí está o argumento mais profundo e menos visível. O Brasil tem uma vantagem estrutural que a maioria dos brasileiros desconhece completamente — é um dos poucos países do mundo com abundância simultânea de terra agricultável, água, clima tropical diversificado e biodiversidade alimentar extraordinária. Frutas — o Brasil tem acesso a uma variedade de frutas frescas que simplesmente não existe em nenhum supermercado americano a preços acessíveis. Manga, mamão, goiaba, maracujá, caju, jabuticaba, graviola, cajá — frutas com perfis nutricionais extraordinários que nos EUA ou não existem ou chegam importadas a preços proibitivos ou em versões industrializadas que perderam a maior parte do valor nutricional. Feijãoe arroz — a base da dieta brasileira é um dos alimentos mais completos nutricionalmente disponíveis. A combinação arroz e feijão forma uma proteína completa com perfil de aminoácidos comparável à proteína animal. A dieta mediterrânica que os estudos de longevidade celebram tem nas leguminosas o seu pilar central — o Brasil come isso diariamente como cultura, não como escolha consciente de saúde. Carne — o Brasil tem acesso a carne bovina de pasto a preços que nos EUA correspondem a produtos premium de nicho. O gado brasileiro pasta — não é confinado em feedlots alimentado a milho e soja como a maioria da produção americana. O perfil nutricional é diferente — mais ácidos gordos ómega-3, menos ómega-6, menos gordura saturada. Vegetais frescos — mercados e feiras livres com produtos frescos de produtores locais existem em praticamente qualquer cidade brasileira de médio porte. Nos EUA o equivalente — farmers markets — existe mas a preços que os tornam acessíveis apenas a classes médias e altas urbanas. O americano médio de subúrbio compra vegetais em supermercado — frequentemente colhidos semanas antes, transportados milhares de quilómetros e com perfil nutricional significativamente inferior ao produto fresco.
O problema americano com a alimentação
Os EUA têm um paradoxo alimentar extraordinário — são simultaneamente um dos países mais ricos do mundo e um dos mais mal alimentados entre os desenvolvidos. A razão é estrutural. O sistema alimentar americano foi optimizado para escala, durabilidade e conveniência — não para nutrição ou sabor. O resultado são produtos ultraprocessados baratos, acessíveis e nutricionalmente vazios que constituem a dieta de uma fração enorme da população, senão a maioria. Os food deserts — áreas urbanas e suburbanas sem acesso a comida fresca a preços acessíveis — afetam dezenas de milhões de americanos. Em muitos bairros pobres de cidades americanas o único acesso alimentar são cadeias de fast food e convenience stores com produtos ultraprocessados. A obesidade americana — que atinge aproximadamente 40% da população adulta — não é uma falha moral individual. É o resultado previsível de um ambiente alimentar deliberadamente desenhado para maximizar consumo de produtos com alta densidade calórica e baixa densidade nutricional.
O que o Brasil está perdendo
Honestamente falando, temos que reconhecer que o Brasil está se americanizando na sua dieta em velocidade acelerada — e pagando o preço correspondente. O consumo de ultra-processados no Brasil cresceu dramaticamente nas últimas duas décadas. A obesidade brasileira está crescendo. As feiras livres perdem clientes para supermercados. O prato feito tradicional compete com delivery de fast food. A geração que cresceu comendo arroz e feijão diariamente está sendo substituída por uma geração que come mais ultra-processados, mais fast food e menos comida fresca preparada em casa.
A síntese
O Brasil tem um sistema alimentar extraordinário que a maioria dos brasileiros trata como dado adquirido — exatamente como tratam o barulho da cidade que acorda. Frutas que não existem noutro lugar. Feijão que é super alimento disfarçado de comida de pobre. Carne bovina acessível. Feiras com produtos frescos em qualquer cidade. Uma culinária regional diversíficadissima construída sobre ingredientes locais de extraordinária qualidade. Os americanos que têm acesso a alimentação equivalente pagam preços premium e consideram-na um luxo de nicho. No Brasil ainda é o quotidiano — por enquanto. E é mais um argumento que não aparece em nenhuma comparação de salários mas que tem impacto real na qualidade de vida, na saúde e na longevidade que discutimos hoje. Meu filho sente falta do barulho da cidade que acorda. Se ficar tempo suficiente nos EUA vai sentir falta também da manga madura comprada na feira por dois reais. São a mesma coisa — a densidade vivida aplicada à alimentação.
O que meus filhos e eu sabemos e que não conseguimos articular completamente
Os dois que ficaram nos EUA fizeram uma escolha racional e compreensível — oportunidades profissionais, estabilidade, qualidade das escolas, segurança. São razões reais e válidas. Mas o que meu mais velho disse à sua filha na caminhada silenciosa para a escola é o reconhecimento de que ganhou algo e perdeu algo — e que o que perdeu não aparece em nenhuma folha de salário nem em nenhum índice de qualidade de vida convencional. Minha neta nunca vai saber o que é acordar numa cidade que acorda com ela. Vai crescer num silêncio que considera normal porque é o único que conheceu. Isso não é melhor nem pior objetivamente — é uma forma diferente de habitar o mundo. Mas é uma perda real de algo que o Brasil tem e que a maioria dos brasileiros não consegue ver precisamente porque sempre esteve disponível.
Por que é difícil defender
Porque os critérios dominantes de comparação entre países — PIB per capita, salário médio, poder de compra, índices de criminalidade, qualidade das infraestruturas — todos favorecem os EUA de forma gritante. Para defender o Brasil nessa comparação seria preciso mudar os critérios — o que soa como argumento tendencioso para quem não viveu a diferença Mas há investigação que suporta a mudança de critérios. O índice de felicidade do World Happiness Report coloca consistentemente países latinos e mediterrânicos acima do que a sua riqueza econômica justificaria — precisamente pelos fatores de coesão social, contacto humano quotidiano e sentido de comunidade que meu filho descreveu na caminhada silenciosa. A densidade vivida não é romantismo. É um fator mensurável de bem-estar que o modelo econômico americano sacrificou deliberadamente no altar da eficiência, da privacidade e do espaço individual.
A frase que resume o argumento
Os americanos têm mais — e estão cada vez mais sozinhos e insatisfeitos com isso. Os brasileiros têm menos — e raramente estão sozinhos com o que têm e raramente estão insatisfeitos quando estão em companhia uns dos outros. Não é uma frase que resolve o debate. Mas é uma frase que muda os termos em que as coisas acontecem. E às vezes mudar os termos é o único argumento que funciona.
Análise leiga para subsidiar conversa com o médico
RESPOSTA AO TRATAMENTO
O indicador mais importante — o CEA (marcador tumoral) — caiu de 260 em fevereiro para 93,6 hoje. Queda de 64% em dois meses. A quimioterapia está funcionando.
FÍGADO — recuperação expressiva
Todos os marcadores hepáticos em queda consistente e significativa:
AST: de 71 em janeiro para 28 hoje ✅
ALT: estável e normal durante todo o período ✅
Gama GT: de 663 em janeiro para 180 hoje — queda de 73% 🟡
Fosfatase Alcalina: de 415 em janeiro para 146 hoje — queda de 65% 🟡
Bilirrubinas: todas normais e estáveis ✅
Gama GT e Fosfatase ainda acima do normal, mas a trajetória é inequivocamente positiva. O fígado está se recuperando do impacto inicial da quimioterapia.
SÉRIE BRANCA E PLAQUETAS — normais
Leucócitos, segmentados, linfócitos, plaquetas — todos dentro dos valores de referência. O sistema imunológico está segurando bem o tratamento. ✅
SÉRIE VERMELHA — anemia moderada
Hemoglobina: 11,1 (normal: 14,0-17,0)
Hematócrito: 33% (normal: 40-54%)
RDW levemente elevado: 15,2%
Anemia esperada e frequente em quimioterapia. Monitorar, mas provavelmente já está no radar do oncologista. 🟡
RINS — ponto de atenção prioritário
Este é o único indicador com tendência preocupante:
Data
Creatinina
Filtração Glomerular
Janeiro
0,89
86
Fevereiro
0,94
81
Março
1,05
71
Abril
1,08
69
Quatro meses consecutivos de queda na filtração e subida na creatinina. A creatinina ainda está dentro do normal, mas a tendência linear numa única direção merece avaliação ativa — especialmente considerando a combinação de quimioterapia, Anlodipino e Losartana, todos com potencial impacto renal.
🔴 Este é o ponto prioritário para a consulta.
IMPRESSÃO GERAL
O quadro é de alguém cujo tratamento está funcionando e cujo organismo está respondendo melhor do que os números de janeiro sugeriam. O fígado se recuperou de forma expressiva. O marcador tumoral caiu significativamente. A série branca está estável.
O único sinal que merece atenção imediata é a função renal — não pelo valor de hoje isoladamente, mas pela tendência consistente dos últimos quatro meses.
Eu, Roque Ehrhardt de Campos, não sou marxista nem de esquerda e não penso na realidade a partir de nenhuma perspectiva que inclua as ideias propostas pela esquerda, com exceção das ideias de Gramsci, e explicarei porquê.
As ideias de Gramsci, em sua essência, são neutras e acabaram sendo utilizadas pela direita.
Trata-se de um paradoxo fascinante da teoria política moderna. Embora Antonio Gramsci tenha sido um dos fundadores do Partido Comunista Italiano, suas ferramentas analíticas — o “como fazer” para conquistar e manter o poder — são estruturalmente neutras.
Pense nas teorias de Gramsci como um projeto para um cerco . O projeto não se importa se o exército que ataca o castelo é Vermelho ou Azul; ele simplesmente explica como as muralhas são construídas e onde o portão é mais vulnerável.
Por que as ideias de Gramsci são ferramentas “neutras”
Gramsci afastou o marxismo do “determinismo econômico” (a ideia de que a economia dita automaticamente a política) e o aproximou da hegemonia cultural . Ele argumentou que o poder não é mantido apenas pela polícia e pelas leis, mas pelo consenso criado por meio da cultura, da mídia e da educação.
Como se tratam de observações sobre a dinâmica social , elas podem ser analisadas por meio de engenharia reversa:
A “Guerra de Posição”: Gramsci argumentou que, no Ocidente, não basta tomar o governo (Guerra de Movimento). É preciso primeiro “ocupar” as instituições — escolas, igrejas e meios de comunicação.
O “Príncipe Moderno”: Trata-se da ideia de uma organização coletiva que cria uma “vontade nacional-popular”. Embora Gramsci se referisse a um Partido Comunista, o “Príncipe” pode ser igualmente um movimento nacionalista ou um grupo de interesses corporativos.
Senso comum: Gramsci observou que a classe dominante faz com que seus próprios valores pareçam “senso comum” para as massas. Qualquer pessoa que deseje mudar a sociedade, independentemente de sua orientação política, deve aprender a redefinir o que é “sensato” para o público.
Como a direita adotou Gramsci
No final do século XX e início do século XXI, vários movimentos de direita perceberam que, embora frequentemente vencessem eleições, estavam “perdendo a cultura”. Começaram então a usar táticas gramscianas para reagir.
Conceito
Aplicação de direita
Metapolítica
A Nova Direita francesa (Nouvelle Droite) argumentava que a mudança política é impossível sem antes mudar a cultura. Eles chamavam isso de “gramscismo da direita”.
A “Longa Marcha”
Assim como a esquerda procurou entrar no meio acadêmico, a direita começou a construir suas próprias instituições “contra-hegemônicas”: centros de pesquisa, escolas particulares e ecossistemas de mídia alternativa (como a Fox News ou o Breitbart).
Política de identidade
Gramsci falava dos “subalternos” (grupos oprimidos). O populismo de direita moderno frequentemente enquadra a “maioria silenciosa” ou o “trabalhador esquecido” como o novo subalterno, oprimido por uma “hegemonia globalista”.
A síntese da “Nova Direita”
Pensadores como Alain de Benoist, na França, e estrategistas como Steve Bannon, nos EUA, foram descritos como discípulos da estratégia gramsciana. Eles reconheceram que, para derrotar a “Hegemonia Liberal”, precisavam:
Quebre o consenso: desafie o “senso comum” da elite dominante.
Construir uma contra-elite: Desenvolver intelectuais e jornalistas que possam contar uma história diferente.
Capturar o “Nacional-Popular”: Usar símbolos de tradição, religião e nação para criar um bloco unificado de pessoas.
“A direita tem sido mais bem-sucedida na utilização de Gramsci nos últimos 30 anos do que a esquerda, porque percebeu que a cultura é a principal peça do dominó para o poder político.— Observação comum na ciência política contemporânea.
A relação de Gramsci com Marx
Gramsci foi um marxista fiel em suas premissas fundamentais — ele aceitou a primazia da luta de classes, a natureza exploradora do capitalismo e o objetivo final da emancipação proletária. Ele nunca abandonou Marx.
Mas ele identificou uma lacuna crítica na estrutura de Marx.
O modelo de Marx era essencialmente mecanicista — o capitalismo gera contradições, as contradições geram crises, as crises geram revoluções. A base econômica determina todo o resto. Cultura, direito, religião, filosofia — tudo isso era superestrutura , um reflexo das relações econômicas subjacentes. Altere a base e a superestrutura surge automaticamente.
Gramsci observou o século XX e percebeu que isso não estava acontecendo. A base havia gerado as contradições previstas por Marx. As crises haviam chegado — a Primeira Guerra Mundial, a Grande Depressão. Mas a revolução não se seguiu na Europa Ocidental. Os trabalhadores na Inglaterra, França e Alemanha não eram revolucionários. Eram conservadores, nacionalistas e, muitas vezes, apoiavam ativamente o sistema que os explorava.
A questão era porquê.
A resposta de Gramsci — e seu afastamento de Marx
A resposta de Gramsci foi que Marx havia subestimado a superestrutura.
Cultura, religião, senso comum, estruturas morais, instituições educacionais — esses não eram meros reflexos passivos das relações econômicas. Eles possuíam relativa autonomia e genuíno poder causal. Podiam estabilizar um sistema mesmo quando suas contradições econômicas clamavam por ruptura.
Essa foi uma revisão significativa. Para Marx, se você mudasse a base econômica, a cultura a seguiria. Para Gramsci, você podia mudar a base econômica e a cultura resistiria — porque a cultura tinha sua própria inércia, suas próprias instituições, seus próprios mecanismos de reprodução.
O conceito que ele desenvolveu para explicar isso foi o de hegemonia.
Hegemonia — o mecanismo central
A hegemonia é o processo pelo qual uma classe dominante mantém o poder não primordialmente por meio da coerção, mas sim pelo consentimento — fazendo com que sua visão de mundo particular pareça universal, natural e inevitável para as próprias classes dominadas.
A genialidade do conceito reside na distinção que estabelece entre duas formas de poder:
Dominação — coerção direta por meio do aparato estatal. Polícia, exército, prisões, leis. Isso é o que Gramsci chamou de sociedade política.
Hegemonia — controle indireto por meio do aparato cultural. Escolas, igrejas, mídia, estruturas familiares, cultura popular, associações profissionais, vida intelectual. Isso é o que ele chamava de sociedade civil.
O poder estável da classe dominante combina ambos — mas a hegemonia é a forma mais eficiente e duradoura porque não exige a aplicação constante da força. Quando os grupos dominados internalizam os valores da classe dominante como seus próprios valores, como senso comum, como ordem natural, o sistema se reproduz quase automaticamente.
O trabalhador que acredita que a riqueza reflete o mérito, que a desigualdade é natural, que a nação importa mais do que a classe social — esse trabalhador não está sendo coagido. Ele está consentindo com a sua própria dominação. Esse consentimento foi fabricado por meio de instituições da sociedade civil ao longo de gerações.
Por que essa foi uma visão estratégica revolucionária?
A estratégia de Marx pressupunha que a crise econômica produziria automaticamente uma consciência revolucionária. Gramsci disse que não — a consciência é produzida por instituições culturais , e essas instituições são controladas pela classe dominante.
Portanto, antes que possa haver uma revolução, é necessária uma contra-hegemonia — um sistema alternativo de valores, interpretações e senso comum que gradualmente desloque a visão de mundo dominante na mente da população.
Isso exige o que Gramsci chamou de intelectuais orgânicos — não acadêmicos distantes, mas intelectuais organicamente conectados a uma classe ou movimento, capazes de articular sua visão de mundo de maneiras que ressoem amplamente e eventualmente se tornem senso comum.
E isso exige aquilo que se tornou seu conceito estratégico mais famoso: a longa marcha pelas instituições. Infiltração e transformação gradual e paciente das instituições da sociedade civil — universidades, escolas, mídia, igrejas, organizações culturais — em vez de um ataque frontal ao poder estatal.
Nesse contexto, a revolução é o ato final de uma transformação cultural que já ocorreu em grande parte. Vence-se a batalha das ideias antes de se vencer a batalha política.
Por que o mecanismo é ideologicamente neutro
Este é o ponto crucial — e é um ponto que tanto a esquerda quanto a direita preferem evitar reconhecer porque é profundamente desconfortável.
Gramsci descreveu um mecanismo de poder , não um conteúdo específico. Ele era um marxista que descrevia como funcionava a hegemonia burguesa e como se poderia construir uma contra-hegemonia proletária. Mas o mecanismo em si não possui qualquer lealdade ideológica.
O mecanismo funciona assim:
Qualquer grupo que busque transformar a sociedade deve primeiro fazer com que sua visão de mundo pareça natural e universal, em vez de particular e partidária. Deve conquistar as instituições que produzem o senso comum — educação, mídia, cultura, associações profissionais. Deve desenvolver intelectuais orgânicos que traduzam seus valores para a linguagem da vida cotidiana. Deve travar uma longa e paciente guerra de posicionamento na sociedade civil antes de poder alcançar uma vitória política decisiva.
Este processo está igualmente disponível para a esquerda, a direita, nacionalistas, conservadores religiosos, libertários ou qualquer outra pessoa com recursos suficientes, paciência e consciência estratégica.
Por que funciona independentemente do conteúdo
O mecanismo funciona devido ao modo como a cognição humana opera.
Não construímos nossas visões de mundo do zero por meio de deliberação racional. Nós as absorvemos do nosso ambiente — daquilo que os professores apresentam como óbvio, daquilo que a mídia enquadra como normal, daquilo que nossas comunidades profissionais consideram senso comum, das histórias que a cultura conta sobre quem somos e como a sociedade funciona.
Quando uma instituição controla esse ambiente de forma consistente ao longo do tempo, ela molda o que parece natural e o que parece transgressor — independentemente de seu conteúdo ser de esquerda ou de direita, verdadeiro ou falso, libertador ou opressivo.
Gramsci compreendeu que a forma mais duradoura de poder é o poder de definir os limites do pensável — o que é considerado razoável, o que é considerado extremo, o que é óbvio.
Quem controla essa fronteira invisível controla o centro de gravidade político — mesmo antes de um único voto ser computado ou uma única lei ser aprovada.
A guerra de posições contemporânea
O que torna o atual conflito cultural tão intenso é precisamente o fato de que ambos os lados agora entendem o mecanismo — mesmo quando não o articulam em termos gramscianos.
A esquerda progressista passou décadas executando a longa marcha através de universidades, mídia, departamentos de RH corporativos, ONGs e instituições culturais. Na década de 2010, havia alcançado uma forma de hegemonia cultural em instituições de elite — sua linguagem, suas estruturas, suas prioridades morais haviam se tornado o senso comum padrão das classes profissionais instruídas nos países ocidentais.
A resposta da direita populista — de Bannon a Bolsonaro, das guerras culturais britânicas ao modelo húngaro sob Orbán — tem sido conscientemente contra-hegemônica. Construir mídias alternativas. Capturar os currículos escolares. Formar intelectuais orgânicos fora da academia. Fazer com que sua visão de mundo se torne o senso comum de um grupo diferente — a classe trabalhadora sem formação universitária, as comunidades religiosas, os movimentos nacionalistas.
Ambos os lados estão travando uma guerra gramsciana. O campo de batalha é a própria definição de normalidade.
A profunda ironia
Gramsci escreveu de uma cela de prisão fascista, tentando entender por que a classe trabalhadora não se revoltava. Suas ferramentas analíticas foram usadas para:
Construir a hegemonia cultural progressista das universidades ocidentais. Desmantelá-la através do populismo nacionalista. Justificar as políticas identitárias. Justificar as políticas anti-identitárias. Defender o multiculturalismo. Defender o nacionalismo cultural.
O prisioneiro de Mussolini entregou a ambos os lados da guerra cultural contemporânea seu manual de estratégias — sem que nenhum dos lados reconhecesse plenamente a dívida.
Esse é talvez o testemunho mais poderoso da qualidade de seu pensamento. Uma estrutura que transcende suas próprias origens ideológicas e descreve algo concreto sobre como o poder realmente funciona é rara. Gramsci conseguiu isso — mesmo que tal feito o tivesse horrorizado.
Gramsci sob uma perspectiva de esquerda e a classe intelectual
A relação de Gramsci com Marx
Gramsci foi um marxista fiel em suas premissas fundamentais — ele aceitou a primazia da luta de classes, a natureza exploradora do capitalismo e o objetivo final da emancipação proletária. Ele nunca abandonou Marx.
Mas ele identificou uma lacuna crítica na estrutura de Marx.
O modelo de Marx era essencialmente mecanicista — o capitalismo gera contradições, as contradições geram crises, as crises geram revoluções. A base econômica determina todo o resto. Cultura, direito, religião, filosofia — tudo isso era superestrutura , um reflexo das relações econômicas subjacentes. Altere a base e a superestrutura surge automaticamente.
Gramsci observou o século XX e percebeu que isso não estava acontecendo. A base havia gerado as contradições previstas por Marx. As crises haviam chegado — a Primeira Guerra Mundial, a Grande Depressão. Mas a revolução não se seguiu na Europa Ocidental. Os trabalhadores na Inglaterra, França e Alemanha não eram revolucionários. Eram conservadores, nacionalistas e, muitas vezes, apoiavam ativamente o sistema que os explorava.
A questão era porquê.
A resposta de Gramsci — e seu afastamento de Marx
A resposta de Gramsci foi que Marx havia subestimado a superestrutura.
Cultura, religião, senso comum, estruturas morais, instituições educacionais — esses não eram meros reflexos passivos das relações econômicas. Eles possuíam relativa autonomia e genuíno poder causal. Podiam estabilizar um sistema mesmo quando suas contradições econômicas clamavam por ruptura.
Essa foi uma revisão significativa. Para Marx, se você mudasse a base econômica, a cultura a seguiria. Para Gramsci, você podia mudar a base econômica e a cultura resistiria — porque a cultura tinha sua própria inércia, suas próprias instituições, seus próprios mecanismos de reprodução.
O conceito que ele desenvolveu para explicar isso foi o de hegemonia.
Hegemonia — o mecanismo central
A hegemonia é o processo pelo qual uma classe dominante mantém o poder não primordialmente por meio da coerção, mas sim pelo consentimento — fazendo com que sua visão de mundo particular pareça universal, natural e inevitável para as próprias classes dominadas.
A genialidade do conceito reside na distinção que estabelece entre duas formas de poder:
Dominação — coerção direta por meio do aparato estatal. Polícia, exército, prisões, leis. Isso é o que Gramsci chamou de sociedade política.
Hegemonia — controle indireto por meio do aparato cultural. Escolas, igrejas, mídia, estruturas familiares, cultura popular, associações profissionais, vida intelectual. Isso é o que ele chamava de sociedade civil.
O poder estável da classe dominante combina ambos — mas a hegemonia é a forma mais eficiente e duradoura porque não exige a aplicação constante da força. Quando os grupos dominados internalizam os valores da classe dominante como seus próprios valores, como senso comum, como ordem natural, o sistema se reproduz quase automaticamente.
O trabalhador que acredita que a riqueza reflete o mérito, que a desigualdade é natural, que a nação importa mais do que a classe social — esse trabalhador não está sendo coagido. Ele está consentindo com a sua própria dominação. Esse consentimento foi fabricado por meio de instituições da sociedade civil ao longo de gerações.
Por que essa foi uma visão estratégica revolucionária?
A estratégia de Marx pressupunha que a crise econômica produziria automaticamente uma consciência revolucionária. Gramsci disse que não — a consciência é produzida por instituições culturais , e essas instituições são controladas pela classe dominante.
Portanto, antes que possa haver uma revolução, é necessária uma contra-hegemonia — um sistema alternativo de valores, interpretações e senso comum que gradualmente desloque a visão de mundo dominante na mente da população.
Isso exige o que Gramsci chamou de intelectuais orgânicos — não acadêmicos distantes, mas intelectuais organicamente conectados a uma classe ou movimento, capazes de articular sua visão de mundo de maneiras que ressoem amplamente e eventualmente se tornem senso comum.
E isso exige aquilo que se tornou seu conceito estratégico mais famoso: a longa marcha pelas instituições. Infiltração e transformação gradual e paciente das instituições da sociedade civil — universidades, escolas, mídia, igrejas, organizações culturais — em vez de um ataque frontal ao poder estatal.
Nesse contexto, a revolução é o ato final de uma transformação cultural que já ocorreu em grande parte. Vence-se a batalha das ideias antes de se vencer a batalha política.
Por que o mecanismo é ideologicamente neutro
Este é o ponto crucial — e é um ponto que tanto a esquerda quanto a direita preferem evitar reconhecer porque é profundamente desconfortável.
Gramsci descreveu um mecanismo de poder , não um conteúdo específico. Ele era um marxista que descrevia como funcionava a hegemonia burguesa e como se poderia construir uma contra-hegemonia proletária. Mas o mecanismo em si não possui qualquer lealdade ideológica.
O mecanismo funciona assim:
Qualquer grupo que busque transformar a sociedade deve primeiro fazer com que sua visão de mundo pareça natural e universal, em vez de particular e partidária. Deve conquistar as instituições que produzem o senso comum — educação, mídia, cultura, associações profissionais. Deve desenvolver intelectuais orgânicos que traduzam seus valores para a linguagem da vida cotidiana. Deve travar uma longa e paciente guerra de posicionamento na sociedade civil antes de poder alcançar uma vitória política decisiva.
Este processo está igualmente disponível para a esquerda, a direita, nacionalistas, conservadores religiosos, libertários ou qualquer outra pessoa com recursos suficientes, paciência e consciência estratégica.
Por que funciona independentemente do conteúdo
O mecanismo funciona devido ao modo como a cognição humana opera.
Não construímos nossas visões de mundo do zero por meio de deliberação racional. Nós as absorvemos do nosso ambiente — daquilo que os professores apresentam como óbvio, daquilo que a mídia enquadra como normal, daquilo que nossas comunidades profissionais consideram senso comum, das histórias que a cultura conta sobre quem somos e como a sociedade funciona.
Quando uma instituição controla esse ambiente de forma consistente ao longo do tempo, ela molda o que parece natural e o que parece transgressor — independentemente de seu conteúdo ser de esquerda ou de direita, verdadeiro ou falso, libertador ou opressivo.
Gramsci compreendeu que a forma mais duradoura de poder é o poder de definir os limites do pensável — o que é considerado razoável, o que é considerado extremo, o que é óbvio.
Quem controla essa fronteira invisível controla o centro de gravidade político — mesmo antes de um único voto ser computado ou uma única lei ser aprovada.
A guerra de posições contemporânea
O que torna o atual conflito cultural tão intenso é precisamente o fato de que ambos os lados agora entendem o mecanismo — mesmo quando não o articulam em termos gramscianos.
A esquerda progressista passou décadas executando a longa marcha através de universidades, mídia, departamentos de RH corporativos, ONGs e instituições culturais. Na década de 2010, havia alcançado uma forma de hegemonia cultural em instituições de elite — sua linguagem, suas estruturas, suas prioridades morais haviam se tornado o senso comum padrão das classes profissionais instruídas nos países ocidentais.
A resposta da direita populista — de Bannon a Bolsonaro, das guerras culturais britânicas ao modelo húngaro sob Orbán — tem sido conscientemente contra-hegemônica. Construir mídias alternativas. Capturar os currículos escolares. Formar intelectuais orgânicos fora da academia. Fazer com que sua visão de mundo se torne o senso comum de um grupo diferente — a classe trabalhadora sem formação universitária, as comunidades religiosas, os movimentos nacionalistas.
Ambos os lados estão travando uma guerra gramsciana. O campo de batalha é a própria definição de normalidade.
A profunda ironia
Gramsci escreveu de uma cela de prisão fascista, tentando entender por que a classe trabalhadora não se revoltava. Suas ferramentas analíticas foram usadas para:
Construir a hegemonia cultural progressista das universidades ocidentais. Desmantelá-la através do populismo nacionalista. Justificar as políticas identitárias. Justificar as políticas anti-identitárias. Defender o multiculturalismo. Defender o nacionalismo cultural.
O prisioneiro de Mussolini entregou a ambos os lados da guerra cultural contemporânea seu manual de estratégias — sem que nenhum dos lados reconhecesse plenamente a dívida.
Esse é talvez o testemunho mais poderoso da qualidade de seu pensamento. Uma estrutura que transcende suas próprias origens ideológicas e descreve algo concreto sobre como o poder realmente funciona é rara. Gramsci conseguiu isso — mesmo que tal feito o tivesse horrorizado.
A parte principal e mais famosa da “Oração aos Moços” (1921), de Rui Barbosa, é a sua definição contundente sobre a morosidade da justiça: “Justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta”. O texto defende a ética, a coragem moral e o papel do advogado na proteção dos indefesos.
Trechos Mais Famosos e Relevantes:
Sobre a Justiça: “Justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta”.
Sobre a Coragem Moral: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.
A Missão do Advogado: “Impõe ao advogado a missão da luta pelo direito contra o poder, em amparo dos indefesos, dos proscritos, das vítimas da opressão, tanto mais recomendáveis à proteção da lei, quando mais formidável for o arbítrio, que os esmague”.
O Chamado Final: “Confiai, senhores. Ousai. Reagi. E haveis de ser bem sucedidos. Deus, pátria, e trabalho. Metei no regaço essas três fés, esses três amores, esses três signos santos”.
A obra, escrita para os formandos da Faculdade de Direito de São Paulo, é um clássico sobre o comportamento, estudos e ética jurídica
Porque deste blog/Post
Este post foi inspirado e é uma resposta para uma leitura da Oração dos Moços que coincide com a de Eliana Benatti, postada no Face book, que primeira vez que vi emoldurada nos escritórios de meu pai, que era advogado e que o levou a cursar direito, bem como minha irmã, que é advogada e foi influenciada pela vocação dele e ambos praticaram o que Rui Barbosa recomenda.
No You Tube podemos ver postagem semelhante pelo Prof. Dr. Couto Novaes em:
Democracia, Platão, os poderes eleitos e os indicados e como ocorreu no Brasil.
Gostaria de observar, que o diagnóstico desta ilustre senhora, é perfeito, como também o é do Dr. Couto Novaes, mas superficiais porque não se aprofundam no que estava por trás deste discurso e o que temos que fazer para sair disto e dos verdadeiros responsáveis pelo estado de coisas, que enfrentamos hoje, como o STF foi criado e como foi sua história, em que o defeito da democracia, que é muito bem apoiado pelo mais antigo inventor dela, Platão, em sua obra máxima, que pode ser lida na sua obra “A República” que, eu destaco e cito: ”
Platão, em A República, criticava a democracia ativista principalmente por considerá-la um governo de incompetentes, onde a liberdade excessiva degenerava em anarquia, desigualdade e manipulação demagógica. Ele via esse sistema como incapaz de garantir a justiça, pois permitia que interesses pessoais tomassem lugar da busca pela verdade.
No modelo ideal de Platão em A República, não existe um órgão equivalente ao STF nos moldes modernos (um Poder Judiciário independente com controle de constitucionalidade). Isso ocorre porque a justiça em sua cidade utópica (Kallipolis) não é uma questão de aplicação de leis escritas, mas sim uma virtude de harmonia social e individual.
STF nos tempos de Platão e noutros mais antigos
Entretanto, se buscarmos em Plat]ao funções de guarda da ordem e do conhecimento supremo que se assemelham ao papel institucional do STF, ou a Corte, os paralelos mais próximos são:
Os Reis-Filósofos (Governantes): Em A República, os governantes possuem o conhecimento da “Ideia do Bem” e da justiça em si. Como eles detêm a sabedoria absoluta, não precisam de um tribunal superior para revisar seus atos; eles próprios são a personificação da justiça e do discernimento final.
O Conselho Noturno (em As Leis): Embora não esteja n’A República, mas sim na obra posterior de Platão (As Leis), este órgão é frequentemente citado como um precursor de cortes constitucionais. Sua função é ser a “âncora” do Estado, garantindo que as leis permaneçam fiéis aos princípios de virtude e razão, funcionando como uma guarda suprema da estrutura jurídica da cidade.
A Justiça como Harmonia: No plano teórico, a “Justiça” para Platão equivale ao princípio de que cada parte cumpra sua função específica (governar, defender ou produzir) sem interferir nas outras. O STF, ao mediar conflitos entre poderes, busca uma harmonia institucional que guarda semelhança conceitual com esse equilíbrio platônico.
Em resumo, enquanto o STF guarda uma Constituição escrita, os governantes de Platão guardam a verdade racional e a virtude, exercendo eles mesmos o papel de intérpretes supremos da ordem social.
Importante: Este erro é fundamental no equívoco de Rui Barbosa ao centrar sua fala no efeito do modêlo e não nas suas causas, que elaboro mais no que penso que precisam ser atacados e corrigidos
Nossa República, nem nenhuma outra, by the way, inclusive os Estados Unidos, toda a Europa, cuja versão de República e eleição de representantes pelo povo, padecera, e padecem de tudo que está publicado aqui.
No caso das monarquias, somente sobrevivem as que introduziram a seguinte modificação:
Uma monarquia com primeiro-ministro eleito, onde o rei reina mas não governa (comumente herdado da realeza absolutista), é chamada de Monarquia Constitucional Parlamentarista. Ela combina o símbolo de unidade (Rei) com a democracia representativa, contendo mecanismos republicanos de eleição e os defeitos inerentes à política partidária e burocrática
Voltando ao que fizemos com as ideias de Platão, fortemente influenciados com a interpretação da França, que todo mundo pensa que inventou a democracia, usou de Platão, mas adaptou mantendo classes de fora, como as mulheres ou os “san cullotes” e apresenta os mesmos problemas que Platão anteviu, no nosso caso vou tentar sumarizar:
Histórico do STF
O Supremo Tribunal Federal (STF) foi instituído com essa denominação logo após a Proclamação da República, mas sua instalação oficial e funcionamento efetivo ocorreram em 28 de fevereiro de 1891.
A trajetória de criação da corte seguiu os seguintes marcos:
Antecessor Imperial: Antes da República, o órgão de cúpula era o Supremo Tribunal de Justiça, criado em 1828 durante o Império.
Decreto de Instituição (1890): O governo provisório de Deodoro da Fonseca editou o Decreto nº 848, em 11 de outubro de 1890, que organizou a Justiça Federal e deu ao tribunal o nome de Supremo Tribunal Federal.
Consagração Constitucional (1891): A primeira Constituição Republicana, promulgada em 24 de fevereiro de 1891, institucionalizou o STF como o guardião da Constituição e órgão máximo do Judiciário.
Sessão de Instalação: A primeira sessão plenária aconteceu no Rio de Janeiro, no Solar do Marquês do Lavradio, em 28 de fevereiro de 1891, presidida pelo ministro Sayão Lobato (Visconde de Sabará).
Naquela época, o tribunal era composto por 15 ministros, número que foi alterado diversas vezes ao longo da história até chegar aos atuais.
1.casos importantes (para entender melhor Ruy Barbosa)
Os primeiros anos do Supremo Tribunal Federal (STF) na República foram marcados por tensões com os presidentes militares Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto) e pela consolidação de garantias individuais fundamentais.Aqui estão os casos mais importantes desse período inicial:
1. A Doutrina Brasileira do Habeas Corpus (1892)
Este é considerado o maior marco jurídico da história inicial do STF. Liderada por Rui Barbosa, essa tese expandiu o uso do habeas corpus.
O Caso: Em 1892, Rui Barbosa impetrou o HC 300 em favor de políticos, militares e cidadãos presos ilegalmente pelo presidente Floriano Peixoto durante o estado de sítio.
A Inovação: Na época, o habeas corpus servia apenas para o direito de ir e vir. Rui defendeu que ele deveria proteger qualquer direito líquido e certo ameaçado por ilegalidade do Estado.
Resultado: Embora o STF tenha negado o pedido inicial por receio político, a tese acabou sendo aceita e utilizada para proteger direitos políticos e liberdade de expressão até a criação do Mandado de Segurança em 1934.
2. O Caso do Almirante Custódio de Melo (1893)
Durante a Revolta da Armada, o STF teve que decidir se militares reformados ou da reserva poderiam ser julgados por tribunais civis em crimes políticos. Importância: O tribunal reafirmou sua competência para revisar atos do Executivo, mesmo em tempos de guerra civil, consolidando-se como o “guardião da Constituição” contra excessos de autoridade.
3.Conflitos de Jurisdição sobre o Estado de Sítio
O STF foi provocado diversas vezes a decidir se o Judiciário poderia intervir em atos praticados sob Estado de Sítio.
Decisão Histórica: A Corte estabeleceu que, embora não pudesse julgar a conveniência política do sítio (que cabe ao Congresso e ao Presidente), o Judiciário podia, sim, julgar se as medidas de exceção (como prisões e desterros) estavam sendo aplicadas conforme os limites da lei
4. Liberdade de Imprensa
Um pouco mais tarde, mas ainda sob a influência de Rui Barbosa, o STF julgou o caso da censura ao jornal O Imparcial.
O Caso: O governo de Hermes da Fonseca proibiu a publicação de um discurso crítico de Rui Barbosa.
O Resultado: O STF garantiu a publicação, reforçando que a censura prévia era incompatível com a ordem republicana.
Esses julgamentos transformaram o STF em um poder moderador real, deixando de ser apenas um órgão administrativo para se tornar um tribunal político de defesa da cidadania.
Vamos interromper para depois continuar até hoje este histórico do STF e ver o que tinha por trás, na época de Rui Barbosa e quais seus equívocos:
Como entender Rui Barbosa no seu idealismo totalmente desconectado com a realidade brasileiro e seu fracasso politco?
Para entender o suposto “idealismo desconectado” de Rui Barbosa e seu fracasso político, é necessário analisar a tensão entre o modelo de país que ele projetava (baseado em democracias liberais anglo-saxãs) e a estrutura social arcaica e oligárquica do Brasil da Primeira República.
a. O “Idealismo Constitucional” vs. Realidade Social
O Candidato que Mais Perdeu. Rui Barbosa detém o título simbólico de um dos maiores perdedores em eleições presidenciais no Brasil, tendo disputado o cargo diretamente em duas ocasiões principais (1910 e 1919), além de ter seu nome envolvido em outras articulações.
A Campanha Civilista (1910): Foi a primeira vez que um candidato fez campanha moderna, viajando pelo país e falando diretamente ao povo para enfrentar o Marechal Hermes da Fonseca. Apesar do apoio popular nas cidades, ele foi esmagado pela máquina de fraudes das oligarquias rurais.
Eleição de 1919: Concorreu novamente após a morte de Rodrigues Alves, perdendo para Epitácio Pessoa. Sua insistência em jogar pelas regras democráticas em um sistema de “cartas marcadas” é o que cimenta a visão de um político “desconectado” da “realpolitik” brasileira.
b.A Oposição à Vacina Obrigatória
Rui Barbosa foi um dos principais opositores à vacinação obrigatória contra a varíola durante a crise que levou à Revolta da Vacina em 1904.
Argumento Jurídico vs. Sanitário: Para ele, a obrigatoriedade era uma “invasão do lar” e uma violação da liberdade individual e do Estado de Direito. Ele não negava a ciência em si, mas acreditava que o Estado não tinha o direito de injetar substâncias nos cidadãos contra a sua vontade.
Arrependimento Tardio: Anos depois, diante do sucesso das medidas sanitárias de Oswaldo Cruz e da erradicação de epidemias, Rui reconheceu publicamente seu erro e elogiou o trabalho do cientista.
Esses episódios reforçam a imagem de um homem que priorizava a letra da lei e os princípios liberais acima de conveniências políticas ou necessidades práticas imediatas, o que explica tanto seu prestígio intelectual quanto sua inabilidade em governar o Brasil de sua época.
c. O Fracasso Político e Eleitoral
Apesar de sua estatura intelectual e prestígio internacional como o “Águia de Haia“, Rui Barbosa nunca chegou à presidência, sendo o candidato que mais acumulou derrotas no período.
Campanha Civilista (1910): Foi a primeira campanha moderna, onde ele viajou pelo país mobilizando a opinião pública contra o militarismo do Marechal Hermes da Fonseca. No entanto, a máquina de fraudes eleitorais das oligarquias barrou sua vitória.
O Estigma do Encilhamento: Sua imagem política foi prejudicada pelo fracasso da política econômica do Encilhamento, que gerou inflação e bolhas especulativas quando ele foi Ministro da Fazenda, afastando o apoio das elites conservadoras.
Isolamento nas Elites: Rui era um “liberal puro” em um sistema de “cartas marcadas”. Ele se recusava a fazer os acordos de bastidores necessários para vencer na Política dos Governadores.
Ele era contra vacinação
c. Legado: Idealista ou Visionário?
Embora tenha “fracassado” em conquistar o poder executivo, seu idealismo deixou marcos permanentes:
Jurisdição Constitucional: Foi o mentor intelectual do Supremo Tribunal Federal como guardião da Constituição.
Habeas Corpus: Consolidou a doutrina brasileira do habeas corpus, transformando-o em um instrumento de defesa contra qualquer arbitrariedade estatal.
Resistência Civil: Estabeleceu um padrão de oposição baseado na legalidade e na ética pública que influenciou movimentos democráticos durante todo o século XX.
d. O modelo errado baseado na Inglaterra
Exato. Esse é o ponto central da crítica histórica ao seu “descolamento”: Rui Barbosa era um anglófilo fervoroso que tentou aplicar o liberalismo britânico em um solo que ainda cheirava a escravidão e latifúndio. Ao contrário dos Estados Unidos, que ele usou como modelo jurídico, a inspiração política e ética de Rui vinha diretamente do parlamentarismo inglês e de figuras como William Gladstone. Onde o modelo “deu errado” no Brasil:
Instituições sem Cidadãos: Na Inglaterra, o liberalismo floresceu após séculos de limitação do poder real e uma classe média forte. No Brasil de 1891, Rui desenhou leis para um “cidadão britânico” que simplesmente não existia; a maioria da população era analfabeta, ex-escravizada e dependente dos coronéis [1, 5].
O “Transplante” Jurídico: Ele acreditava que boas leis criariam uma boa sociedade (idealismo). Na prática, as leis inglesas de liberdade individual viraram letra morta diante da violência policial e do controle oligárquico nas fazendas [3, 4].
O Civilismo vs. O Sabre: Enquanto na Inglaterra as Forças Armadas eram submetidas ao Parlamento, no Brasil o Exército se via como o “fundador” da República. O modelo civilista de Rui colidiu de frente com a mentalidade militarista que dominou o início do século XX [1, 6].
No fim, o “fracasso” de Rui foi tentar ser um estadista vitoriano em um país que ainda operava na base do voto de cabresto e do clientelismo
Voltando ao STF
4.Quando o STF foi fechado desde que existe?
Embora o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha sofrido graves intervenções, cassações de ministros e restrições severas à sua atuação, tecnicamente o tribunal nunca foi fechado à força por soldados (sitiado ou com as portas trancadas) durante a história da República, ao contrário do que ocorreu diversas vezes com o Congresso Nacional. No entanto, o STF foi cerceado, esvaziado e submetido à força em períodos de ruptura institucional, perdendo sua independência. Os principais momentos foram:
Ditadura Militar (1964-1985): Este foi o período de maior agressão à independência do STF.
AI-2 (1965): O governo militar aumentou o número de ministros de 11 para 16, permitindo a indicação de aliados para garantir decisões favoráveis ao regime.
AI-5 (1968): Intensificou a repressão e proibiu o STF de julgar habeas corpus para crimes políticos, além de aposentar compulsoriamente ministros contrários ao regime em 1969.
Era Vargas (Estado Novo, 1937-1945): Vargas alterou a composição e competências da Corte, e houve intervenções no funcionamento do tribunal para alinhar o judiciário ao poder executivo ditatorial.
O caso da cassação:
Em 1969, três ministros (Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva) foram aposentados compulsoriamente (cassados) pelo regime militar após decidirem contra interesses do governo. Em solidariedade, os ministros Lafayette de Andrada e Gonçalves de Oliveira renunciaram, totalizando cinco vagas, que foram preenchidas por indicados dos militares. Em resumo: O tribunal continuou funcionando fisicamente, mas sua independência foi fechada/interrompida pelos generais e por Varga
Antes de listar o que penso que tem que ser corrigido, vejamos como a Constituição de 88 criou este estado de coisas, com a licença poética de excluir as outras Constituições:
Constituição de 88
A Constituição de 1988 (CF/88) empoderou o STF passa por uma escolha deliberada dos constituintes para evitar novos regimes autoritários. Não se trata de um “plano de um espectro político único”, mas de um design institucional que resultou no que juristas chamam de “Supremocracia” mas que deu no que deu. Aqui estão os pontos-chave dessa engenharia:
1. A “Constituição Analítica” (O detalhismo)
Diferente da americana, que é curta, a nossa CF/88 trata de tudo: de impostos a colégios, de proteção ambiental a direitos trabalhistas.
Consequência: Como quase tudo está na Constituição, quase qualquer conflito político ou social acaba virando uma “questão constitucional”. Isso obriga o STF a dar a palavra final sobre temas que deveriam ser decididos no Congresso.
2. A Ampliação do Acesso (Art. 103)
Antes de 1988, só o Procurador-Geral da República podia questionar a constitucionalidade de uma lei. A CF/88 abriu essa porta para:
Partidos políticos;
Confederações sindicais;
OAB;
Governadores e Mesas do Legislativo.
O efeito: Partidos que perdem votações no Congresso recorrem imediatamente ao STF. O Tribunal não “invade” o espaço; ele é constantemente provocado pela própria classe política.
3. O papel de “Poder Moderador”
Após a Ditadura Militar, havia um trauma profundo com o autoritarismo do Executivo. O constituinte — composto por parlamentares de centro (o “Centrão” da época), esquerda e direita liberal — quis criar um Judiciário ultra-forte para servir de freio a um possível presidente autoritário.
Foi planejado pela esquerda?
Dizer que foi um “plano da esquerda” é uma simplificação histórica. A Assembleia Constituinte foi dominada pelo PMDB (centro). No entanto, grupos de esquerda e movimentos sociais foram os maiores entusiastas de um Judiciário que protegesse os Direitos Fundamentaise as minorias contra a vontade da maioria parlamentar.
O Plano da Esquerda pode parecer uma simplificação histórica, mas já continha a semente da plataforma que iria adotar quando eleito por esta minoria, que foi enganada com esquema que explico na análise de Gramsci e que pode ser lida em:
O STF passou a usar o conceito de “Ativismo Judicial” ou “Mutação Constitucional”. Como a Constituição é o “valor supremo”, os ministros entendem que podem preencher lacunas do Legislativo (ex: criminalização da homofobia, aborto de anencéfalos) para garantir que a CF/88 seja efetiva.
O STF se tornou o “Rei-Filósofo” de Platão na prática: o guardião de um conhecimento técnico-jurídico que se sobrepõe à vontade política eleita.
A esquerda ardilosamente explorou a ideia dos Direitos Fundamentais criando o que deu na filosofia WOKE, na formação de militantes nas Universidades, notavelmente apoiados na compreensão que Gramsci fez da porcaria do Marx e que está dando um trabalhão para que as pessoas entendam e que o Trump esta conseguindo bastante sucesso e que o Bolsonaro não conseguiu.
Não sei se tem alguem ainda lendo e não vou cansar o leitor ou leitora para entender o mecanismo de indicação dos ministros pelo Presidente, que reforça ou quebra essa lógica de equilíbrio prevista por Platão e taken for granted por Rui Barbosa e pelas pessoas de boa fé que promulgaram a constituição de 88.
“Take for granted” significa não dar o devido valor, subestimar, tomar como garantido ou achar algo muito natural/óbvio. Refere-se a ignorar a importância de algo ou alguém, alguma idéia ou conjunto de valores, assumindo que sempre estará lá. Também pode significar pressupor ou dar como certo.
Como atacar tudo isto, e tentar melhorar na minha ignorante e modéstia opinião de usuário
Para sairmos desta cilada, com o perdão da expressão, temos que parar, pensar tudo que vai aí acima e resolver o seguinte, na minha opinião (Roque E.de Campos):
Esta constituição tem que ser totalmente reformulada e parar de ser defendida inclusive pelo pessoal de direita mas para isto, teria que se eleger um Senado e uma Câmara, que é efetivamente é a responsável, com uma classe política decente, pois a que está ai navega apenas no seu próprio interesse e a única coisa que político que hoje está lá é escapar da cadeia por causa das falcatruas que faz e se reeleger, que tem como consequência:
A culpa deste estado de coisas, que não provêm do STF, mas dos representes do povo, Câmara e Senado, que inclusive foram claramente percebidos pelo Getúlio e pelos militares e fechados e suas prerrogativas substituídos por julgamento adequado pelos ditadores de plantão, i.e., Getúlio e os militares de 64
Como a lista é minha e coloco minha opinião, se o Bolsonaro não fosse tão frouxo e carimbado com uma patente tão baixa, num pais que só respeita diploma e que é o torna intolerável pelos Militares de Alta Patente, devia fazer como os seguintes ditadores: Peron e o Stroessner, ambos apenas coronéis, Argentina e Paraguai, e também. Omar Torrijos no Panamá, Juan Velasco Alvarado no Perú e, acredite se quiser o mais bem sucedido de todos Hugo Chavez, todos Tenentes Coronéis. Fidel Castro não era militar de carreira, se intitulava guerrilheiro e se recusou a ingressar nas forças militares de Cuba, mesmo diante da proposta de ser considerado General, nos moldes do Franco, que iniciou a ditadura da Espanha como General de Divisão, mas depois foi nomeado Generalíssimo dos exércitos e Chefe de Estado. Esse título o colocava como o “general dos generais”, uma patente suprema criada para consolidar seu comando absoluto sobre todas as forças nacionalistas que na verdade Fidel Castro não precisava, porque virou dono da Ilha de Cuba. Se não conseguir mudar a cultura que o Gramsci detectou, este vai ser o único caminho, mas quem nasce para Bolsonaro, não chega a Getúlio. Analisados corretamente, os gemerais que comandaram o Brasil me pareceram:
Humberto Castelo Branco (1964-1967): Primeiro presidente após o golpe, focou na institucionalização do regime.
Artur da Costa e Silva (1967-1969): Responsável pelo endurecimento do regime, decretando o AI-5.
Emílio Garrastazu Médici (1969-1974): Governou durante o auge da repressão (“anos de chumbo”) e do “milagre econômico”.
Ernesto Geisel (1974-1979): Iniciou um processo de abertura política “lenta, segura e gradual”.
João Figueiredo (1979-1985): Último presidente do regime, responsável pela aprovação da Lei da Anistia e transição para o governo civil
Que ficaram que nem cachorro mordido de cobra que tem medo de linguiça e devidamente substituídos pela esquerda só se for de patente abaixo de general, por entre os que estão na posição ou tem a síndrome do medo da linguiça que parece cobra ou nem vou falar o que penso porque não sou maluco.
Seguindo na minha opinião:
Desmantelar o sistema baseado no Gramsci e na Escola de Frankfurt, que expliquei no post sobre o Gramsci e devolver para um sistema que segue o entendimento do Gramsci, porém dialético, coisa que os Estados Unidos não conseguiu, apesar do sucesso do Donald Trump em outras áreas. Nos EUA, a intervenção do STF deles é diferente do Brasil, apesar de ter o mesmo viés de os juízes mais ou menos sentenciarem pensando em quem os indicou, não pesam tanto como o Senado e a Câmara de lá, que consegue derrubar decisões do STF deles. Por isto que nos EUA é a maior preocupação dos Presidentes, pois as Câmaras não só tem candidatos mais representativos, como são cobrados por quem os elegeu. Se tiver a maioria, nada pega o Presidente.
Evitar a todo custo a censura da Internet, mas criar uma polícia alicerçada em tipo Delegado e Promotor, para detectar os crimes cometidos na Internet, facilmente identificáveis mesmo nesta constituição de 88, mesmo sem a Internet, que numa eventual revisão devem ser aprimorados.
Uma forma de acelerar o desmantelamento do Sistema Educacional que está ai montado que produz mais militantes que qualquer outra coisa, ou gente que acredita em Paulo Freire, seria por Cursos a Distância juntamente com tudo que o Brasil precisa e que dessem direito a diploma para inserir na vida profissional. Penso na linha que a Brasil Paralelo se orienta na parte da formação política e na vida profissional, tudo que existe, de forma a mais competente possível.
Daniel, vejo que a enterprise Code Aura se especializa em:
Documentação por IA para sistemas legados/mainframe (incluindo COBOL e JCL)
promessa de reduzir dependência de especialistas raros (SMEs) via automação
Você está lá há pouco tempo e não sei se você ajuda a escrever os pacotes que ela vende, simplesmente adaptando para eventuais clientes.
Por curiosidade e imaginando o que você deve andar fazendo, sem pensar na redução da dependência de especialistas raros, apenas pensando na documentação, o que o Chat GPT me informa é o seguinte:
O que “boa documentação” precisa gerar
1) Documentação por programa (COBOL)
Para cada programa:
Propósito (1–3 frases)
Entradas e saídas (arquivos VSAM/sequenciais, DB2 tables, CICS commarea, telas)
Regras de negócio principais (bullets “se… então…”, com campos envolvidos)
Exceções/erros (códigos, condições)
Dependências (CALLs, copybooks, SQL, arquivos)
2) Documentação por job (JCL)
Para cada JOB:
o fluxo (steps na ordem, o que cada step faz)
datasets (inputs/outputs; criação, catálogo, GDG)
pontos de controle/restart
janelas e dependências (pré-requisitos e pós-processos)
3) Visões “de sistema” (para humanos)
Mapa de dependências (call graph e job flow)
Data lineage (de onde vem e para onde vai cada dado importante)
Glossário de campos (nomes “humanos” + origem; copybooks; colunas)
Como a IA entra
O que funciona melhor é híbrido:
Análise estática para dependências reais (CALL, SQL, JCL datasets)
IA para escrever em linguagem humana e organizar regras
Se for só IA “lendo texto”, ela costuma errar dependências.
Como avaliar rapidamente uma ferramenta (checklist de 30 minutos)
Pegue um conjunto pequeno:
5 programas COBOL “core”
1 ou 2 JOBs JCL críticos
copybooks relacionados
um ou dois módulos com SQL
E teste:
Ela identifica dependências reais? (CALLs, copybooks, tabelas)
Ela não inventa? (alucinação é o maior risco)
Ela consegue apontar campos (nomes de copybook/coluna) ao explicar uma regra?
Ela gera doc reproduzível (se o código mudar, atualiza a doc)?
Ela permite “evidência” (links/trechos do código que suportam cada afirmação)?
Se não houver “evidência rastreável”, a doc vira bonita… e perigosa.
Um formato de saída que costuma dar certo (para wiki)
Se eu tivesse que resumir o impacto dessa arquitetura:
O System/360 transformou computadores de máquinas isoladas em uma plataforma estável sobre a qual décadas de software puderam ser construídas.
E o fato de que essa arquitetura ainda está viva mais de 60 anos depois mostra o quão bem ela foi projetada.
Vejamos em detalhes como se liga ao que eu fazia.
1. O começo: lógica hardwired
Quando os computadores surgiram, as instruções eram hard wired, isto é, inicialmente com válvulas, depois com transistores, os circuitos eram a lógica da máquina, em suas instruções, registros, etc.
A paratir do uso de transistores, a forma do empacotamento, dentro da IBM, passou a ser conhecida por siglas e a sigla inicial do cartão acima, era SMS Standard Modular System
A geração que o Sistema 360 substituiu era de maquinas totalmente diferentes uma das outras e não conversavam entre si, sendo que cada uma tinha que rodar seus póprios problemas. A 1401 foi o que o Ford modelo T foi para os automoveis: primeiro computador de produçao em masse e o hardware dele, era com cartões como mostrado acima, sendo as instruções hardwired nestes cartões. Cada cartão tinha:
transistores
resistores
capacitores
diodos
Eles implementavam funções lógicas como:
AND OR flip-flop adder slice multiplexer
O processador era basicamente um conjunto de:
registradores ALU shifter barramentos internos controle hardwired
Tudo isso era literalmente um circuito físico contínuo.
2. As instruções eram caminhos físicos
Quando uma instrução de máquina era executada, ela ativava diretamente esses circuitos.
Por exemplo, uma instrução simples:
AR R1,R2
significava fisicamente:
registrador R1 ↓ ALU adder ↑ registrador R2 ↓ resultado volta para R1
Ou seja:
dados percorriam fios e transistores específicos
A instrução definia o caminho elétrico dentro da CPU.
3. Diagnósticos exploravam exatamente isso
Os diagnósticos eram programas que executavam instruções específicas para forçar os dados a percorrer caminhos particulares do hardware.
Exemplo de lógica de diagnóstico:
carregar padrão de bits executar operação verificar resultado
Se um transistor, capacitor ou porta lógica falhasse, o resultado mudava.
Então o programa sabia:
este datapath está com defeito
E como a documentação do hardware era precisa, o programa podia apontar:
cartão SMS específico
4. O princípio fundamental
O que tornava isso possível era a seguinte equivalência:
instrução de máquina = ativação de circuitos físicos específicos
Portanto:
executar instruções = testar hardware
O software era literalmente uma ferramenta de teste eletrônico.
Sistema IBM 360
Ela aplicava um desenho que combinava o hardwre e o software de forma totalmente difetente de todas as maquinas que a IBM tinha feito até então. A nivel de máquina, a tecnologia evoluiu e começou a miniaturização em chips que continham as instruções da mesma forma que a tecnologia anterior, porém, para uma linguagem daquela maquina especificamente. Esta tecnologia era conhecida como SLT (Solid Logic Technology). Com esta linguagem, era escrito o que se conhece como microcode, que na verdade, implementa os comandos do sistema que realmente roda a maquina, as instruções de assembler (gren & yellow card), o sistema operacional e todo o software do sistema 360 aque era desenhado com os comandos que o microcode rodava, no nosso velho conhecido green card, que virou o yellow card e que constitui o Assembler 360.
Para a geração Z, o principio continua o mesmo, mas como ampliou muito a capacidade, aumentou muito o que é possivel fazer modernamente e para consultar o que está implementado no microcode da geração Z, a IBM publica o Principles of Operation para o z/Architecture — mas é um documento PDF de mais de 1.500 páginas. Não cabe em nenhum cartão.
Existe o z/Architecture Quick Reference — que tenta replicar a filosofia do Green Card em formato condensado. A IBM ainda o distribui fisicamente em alguns contextos, mas a versão principal é digital.
5. O que mudou nos anos 70: LSI
Quando surgiram máquinas como o IBM 4341, o hardware passou a usar LSI (Large Scale Integration). Ou seja, recapitulando, antes, quando passou do 1401 para o sitemas 360
cartões SLT com transistores e componentes discretos
depois
chips contendo milhares de transistores
No 4341, a Large Scale Integration continuou na mesma direção, aumentando a densidade dentro do chip. Mas a arquitetura não mudou. O datapath lógico continuava sendo:
registradores ALU shifter barramentos
A diferença era apenas física:
componentes discretos → transistores dentro do chip
6. Consequência importante
Mesmo com LSI, as instruções continuavam acionando os mesmos caminhos lógicos. Portanto:
diagnósticos escritos em assembler ainda conseguiam exercitar todos os circuitos internos
Em outras palavras:
Executando as instruções certas, você fazia os dados passarem por todos os transistores, diodos, capacitores, etc, da CPU — mesmo quando eles estavam dentro de um chip.
7. Como isso aparecia para o técnico
Quando um diagnóstico falhava, o console podia indicar algo como:
ALU datapath error board K17
O técnico então:
removia o cartão
substituía por outro
Mesmo na era LSI, o nível de manutenção ainda era board-level.
8. A frase que resume toda a filosofia
Nos computadores IBM daquela época, as instruções da máquina eram praticamente o mapa elétrico da CPU. Executando as instruções certas, e relacinando dentro delas qual era a posição onde o chip que executava estava, era possível fazer os dados percorrerem todos os circuitos internos e descobrir exatamente qual componente estava defeituoso — mesmo depois que esses componentes passaram a estar escondidos dentro de chips.
Como a arquitetura Z entrou na historia e existe hoje sem nenhuma previsão de ser substituida
A arquitetura Z, é o VM 370 glorificado.
1. O problema que apareceu depois do Systema 360
Quando a arquitetura IBM System/360 foi lançada em 1964, ela foi um sucesso enorme. Muitas empresas começaram a usar essas máquinas para aplicações comerciais e científicas. as logo apareceu um problema prático. Os clientes queriam:
desenvolver software
testar programas
rodar produção
tudo ao mesmo tempo.
Em uma máquina cara e centralizada, isso criava conflitos.
2. A ideia revolucionária do Model 67
Alguns engenheiros da IBM começaram a trabalhar em uma solução baseada em memória virtual e virtualização completa. Isto é, era possivel criar varias maquinas virtuais dentro de uma maquina adequadamente programada. Isso apareceu primeiro no:
IBM System/360 Model 67
A ideia era simples e ao mesmo tempo radical:
cada usuário teria a ilusão de possuir seu próprio computador.
Isso era feito criando máquinas virtuais completas. Cada máquina virtual podia rodar:
seu próprio sistema operacional
seus próprios programas
seu próprio ambiente.
3. O nascimento do CP-67
Este pequeno grupo de engenheiros desenvolveu um sistema chamado Control Program 67 (CP-67). Ele criava múltiplas máquinas virtuais sob o mesmo hardware. Cada usuário via algo assim:
sua própria CPU sua própria memória seus próprios discos
Mas tudo era simulado pelo sistema. Para a época (final dos anos 60), isso era algo quase mágico.
4. O problema interno na IBM
Curiosamente, a própria IBM não ficou entusiasmada. A estratégia oficial da empresa era outra: o sistema operacional principal chamado OS/360. Alguns executivos pensavam que virtualização:
confundiria os clientes
competiria com o OS/360
complicaria a linha de produtos.
Então o projeto foi visto como experimental.
5. O projeto quase morre
CP-67 continuou existindo principalmente porque alguns laboratórios da IBM e alguns clientes adoraram a ideia. Usuários perceberam que a virtualização resolvia vários problemas:
desenvolvimento seguro
isolamento entre usuários
testes sem afetar produção.
Mesmo sem grande apoio corporativo, o sistema continuou sendo usado.
6. O reconhecimento tardio
No início dos anos 1970 a IBM finalmente percebeu o valor da ideia. O CP evoluiu para o sistema: VM/370 Ele permitia algo extraordinário:
um mainframe ↓ centenas de máquinas virtuais ↓ cada uma rodando seu próprio sistema
Universidades e centros de pesquisa adotaram isso rapidamente.
7. A ironia histórica
Hoje o mundo inteiro usa conceitos como:
virtual machines
hypervisors
cloud computing
Mas a ideia fundamental já estava ali no VM/370 nos anos 70.
A diferença é que os mainframes foram projetados para isso desde o início.
8. Por que isso foi tão influente
A virtualização resolveu vários problemas importantes:
isolamento de usuários
segurança
melhor uso do hardware
desenvolvimento mais seguro.
E abriu caminho para algo que hoje parece óbvio:
um computador físico = muitos computadores virtuais
9. Uma curiosidade que poucos sabem
Durante anos, dentro da própria IBM, havia duas “culturas” técnicas:
1️⃣ o mundo do OS/360 e sistemas de produção 2️⃣ o mundo do VM e virtualização
Muitos engenheiros que trabalharam com VM acreditavam que ele representava uma forma mais elegante de usar grandes computadores.Com o tempo, a indústria inteira acabou adotando ideias muito parecidas.
A titulo de curiosidade, para desenhar os diagnósticos, você tinha que primeiro dominar o VM, que continha as ferramentas, editores do assembler, o hardware virtual representando o 4341, etc. e demorava uns 6 meses para ficar on board.
O VM, uma vez dominado, era uma maravilha, com o CMS eliminando aquela confusão que eram os sets de cartões para processamento em batch, a facilidade de exportar e importar qualquer tipo de arquivo, entre maquinas, mesmo que estivessem do outro lado do planeta.
Era como voce tivesse sob seu controle uma máquina que se fosse em hardware, custava milhões de dólares.
A IBM, assim que as comunicações se assentaram com os satélites e era possivel comprar canais de voz e falar com o mundo todo, ela tinha por norna instalar em todas sua fábricas, antenas de satélites para ficar inserida na grade, que era o mundo todo.
Nunca vou me esquecer quando da primeira vez conversei, desde Sumaré, SP, Brasil, onde esta a fábrica dos 4341, com alguém em Tela Viv, Israel, não sei bem onde e, embora fosse apenas com texto, sem imagem. Isto ocorreu nos fins da década de 70 e, hoje, penso, como foi possível ter tudo isto na mão e não ver o que ia acontecer?
Adeus ficar carregando fitas de 3420, ou pior, caixas decks de cartões perfurados, para carregar na unha em alguma maquina quando era necessário. Você fazia o down load, para sua maquina virtual ou física e, pronto!
A bem da verdade, uma das coisas que impediram a IBM ver no que o PC se transformaria, era que as pessoas que se sentavam para desenhar e propor um computador de uso doméstico, sempre o imaginavam uma miniaturização dos main frames, rodando VM, que nunca iria vingar, porque sempre batia no custo: quando um carro bom zero custava uns 2500 dólares, as maquinas propostras custavam 10 000 e o obstáculo de ter que aprender o VM era insuperavel.
Fora a arrogância de questionar para que se haveria de querer um computador doméstico…
10. A conclusão curiosa
A virtualização do VM era diferente da virtualização inicial que era obtida pelo microcode que implementava o green/yellow card originalmente, e o que o grupo que criou o VM percebeu, foi uma coisa que hoje é taken for granted, isto é, você pode criar imagens virtuais do que você quiser, embora que a virtualização que o sistema 360 introduziu fosse centrada apenas nas máquinas dos vários tamanhos para rodar os programas que eram desenhados nas linguagens padrão da época. Na verdade, essa sempre foi uma das ideias centrais da arquitetura que começou com o System/360. E o mais curioso é que muitas tecnologias consideradas modernas hoje são, em essência, redescobertas de conceitos que já existiam nos mainframes há cinquenta anos. A arquitetura de nuvem, a internet, as máquinas virtuais, tudo apareceu com o VM 370 e modernamente, isto é a base do que existe e os aspectos de eficiência, automação e escalabilidade, não são inovações, são aperfeiçoamentos do VM 370, que agora se chama Servidores da geração Z; Acho incrível a IBM ter tido tudo isto na mão já nos anos 70/80 e não ter conseguido fazer o que fizeram os donos das soluções computadorizadas atuais e a IBM praticamente ter sumido.
A maior ironia disto tudo, é que a nuvem, onde tudo ocorre hoje, fisicamente ela esta grounded, no chão, em algum mainframe rodando arquitetura 360 glorificada, como é o caso da geração Z.
Quando alguém hoje diz que um mainframe moderno é “um grande sistema de virtualização”, isso não está totalmente errado. Na verdade, essa sempre foi uma das ideias centrais da arquitetura que começou com o System/360. E o mais curioso é que muitas tecnologias consideradas modernas hoje são, em essência, redescobertas de conceitos que já existiam nos mainframes há cinquenta anos.
A arquitetura de nuvem, a internet, as maquinas virtuais, tudo apareceu com o VM 370 e modernamente, isto é a base do que existe e os aspectos de eficiência, automação e escalabilidade, não são inovações, são aperfeiçoamentos do VM 270, que agora se chama Z;
Acho incrivel a IBM ter tido tudo isto na mão já nos anos 70/80 e não ter conseguido fazer o que fizeram os donos das soluções computadorizadas atuais e a IBM praticamente ter sumido.
Escrevo estas linhas para deixar registrado para meus filhos e netos um pouco do trabalho que fiz quando era jovem trabalhando com computadores. Hoje a tecnologia evoluiu enormemente, mas muitos dos conceitos fundamentais que usamos naquela época continuam presentes nos sistemas modernos.
Entre 1976 e 1983 tive a oportunidade de trabalhar em Endicott, no estado de Nova York, nos Estados Unidos. Endicott foi um dos lugares históricos da IBM e dali saíram muitos dos computadores que rodaram no mundo nas décadas de 1960, 1970 e parte da década de 1980.
Fui para lá porque o Brasil iria produzir um computador da família IBM chamado 4341 para atender parte da região da Ásia e do Extremo Oriente. Naquela época era prática da IBM envolver as equipes que iriam fabricar uma máquina no desenvolvimento de partes do sistema. Assim o conhecimento técnico não ficava concentrado em apenas um lugar.
Parte desse trabalho consistia em escrever programas de diagnóstico de hardware, e foi nisso que trabalhei durante esse período.
Um pouco sobre Endicott
Endicott, Nova York, é considerada por muitos como “O Berço da IBM”. Os moradores ficaram desapontados quando um museu local decidiu devolver as centenas de itens históricos que haviam sido emprestados pela empresa. Este vídeo é do Dia da Mudança – 8 de janeiro de 2024. Os esforços para encontrar um novo local para a icônica exposição continuam em Endicott. Leia a matéria da WNBF News .
Endicott tem um papel especial na história da computação. Foi ali que nasceu uma grande parte da engenharia da IBM durante o século XX. Durante décadas, muitos dos computadores que equiparam bancos, governos e grandes empresas do mundo inteiro foram projetados e produzidos naquela região. Trabalhar ali significava estar no meio de um dos centros mais importantes da engenharia de computadores da época.
A arquitetura dos computadores
Os computadores com que trabalhei pertenciam à família iniciada pela arquitetura IBM System/360 e depois continuada pelo System/370, que ainda hoje nas maquinas Z são usadas. Essa arquitetura foi uma das grandes revoluções da história da computação porque introduziu uma ideia extremamente poderosa: uma única arquitetura para uma família inteira de máquinas, desde modelos menores até sistemas muito grandes.
Expliquei esta arquitetura no contexto histórico e vejamos como se ligava ao que eu fazia.
Essa arquittetura significava que o conjunto de instruções, registradores e modelo de programação eram essencialmente os mesmos para todas as maquinas, independentemente do tamnho. Um programa escrito para uma máquina menor podia continuar funcionando em uma máquina maior muitos anos depois.
Esse conceito de compatibilidade arquitetural ainda é um dos pilares da computação moderna.
O tipo de trabalho que eu fazia
Meu trabalho era escrever programas de diagnóstico de hardware. Naquela época os computadores eram construídos com módulos eletrônicos montados em cartões. Esses cartões continham circuitos lógicos — inicialmente com transistores discretos e depois com circuitos integrados de larga escala (LSI). Quando um defeito ocorria, não se consertava um transistor individual. Substituía-se o cartão inteiro, que era considerado uma unidade de manutenção. Para tornar isso possível, os computadores eram projetados de forma que programas pudessem exercitar sistematicamente todos os caminhos lógicos do hardware.
O shifter — a parte pela qual fiquei responsável
Dentro da CPU existiam vários blocos lógicos. Um deles era o shifter, responsável por deslocar ou rotacionar bits dentro de uma palavra. Essas operações parecem simples, mas são fundamentais para muitas instruções e para diversas operações internas do processador. No período em que trabalhei nesses diagnósticos, fiquei especificamente envolvido com testes ligados a esse circuito. Um caminho simplificado dentro da CPU podia ser representado assim:
Registrador → Barramento interno → ALU
→ Shifter → Barramento de resultado → Registrador
Quando um diagnóstico executava certas instruções, os dados eram obrigados a percorrer esse caminho.Se qualquer parte desse circuito estivesse defeituosa, o resultado da operação não seria o esperado.
Por que o shifter era importante para os diagnósticos
Os diagnósticos usavam padrões específicos de bits para forçar o hardware a trabalhar em todas as suas condições possíveis. Alguns exemplos de padrões usados eram:
um único bit “andando” pela palavra
padrões alternados como 10101010…
todos os bits em 1 ou todos em 0
Esses padrões faziam os sinais passarem por diferentes partes do circuito lógico. Se algum estágio do circuito estivesse defeituoso, o erro aparecia imediatamente no resultado.
A alma dos MAPs
Os resultados desses diagnósticos eram interpretados através de procedimentos chamados MAPs (Maintenance Analysis Procedures). Os MAPs eram essencialmente árvores de decisão que guiavam o técnico até a peça defeituosa.
A ideia era simples:
Executar teste
│
▼
Resultado correto?
│
┌──┴──┐
│ │
NÃO SIM
│
▼
Executar teste adicional
│
▼
Identificar módulo defeituoso
A verdadeira “alma” desses MAPs era justamente o fato de que os diagnósticos exercitavam os circuitos internos de maneira controlada.Isso permitia algo muito importante: consertar a máquina sem precisar entender como ela funcionava. O técnico no campo não precisava conhecer toda a arquitetura do computador. Bastava seguir o procedimento, executar os testes e substituir o módulo indicado. Essa era uma filosofia muito clara da engenharia da IBM: máquinas complexas deveriam ser projetadas de forma que pudessem ser mantidas em funcionamento através de procedimentos bem definidos.
O que mudou nos computadores modernos
Hoje os computadores são muito mais complexos. Nos sistemas daquela época, a execução de instruções era relativamente direta. Era possível imaginar claramente o caminho que os dados percorriam dentro da máquina. Nos processadores atuais existem mecanismos como:
pipelines profundos
execução fora de ordem
múltiplos níveis de memória cache
paralelismo interno muito sofisticado
Isso tornou os computadores incrivelmente rápidos, mas também muito mais difíceis de compreender completamente. Na época em que trabalhei, era possível imaginar literalmente os bits caminhando pelos circuitos.
Uma última reflexão
Se eu estivesse começando minha carreira hoje, provavelmente trabalharia na área de inteligência artificial. Essa parece ser a nova grande fronteira da computação. Mas continuo achando fascinante lembrar de uma época em que era possível entender a máquina quase completamente e escrever programas que testavam diretamente o hardware. Deixo este pequeno relato para que vocês saibam um pouco do que fiz e da parte da história da computação em que tive a sorte de partic
Suas obras mais conhecidas são: O Manifesto Comunista e sua obra-prima, O Capital . Seu pensamento político e filosófico teve uma enorme influência na história intelectual, econômica e política subsequente, criando uma escola de teoria social. Ele acreditava que a história da humanidade poderia ser reduzida a uma única fórmula, baseada em sua compreensão do que nos motiva. Isso pode ser resumido em sua famosa frase: ” A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes.”
Seu primeiro ponto importante é que, até então, as pessoas pensavam sobre as coisas centradas em heróis e líderes individuais, ou em ideias geralmente aceitas. Ele introduziu a ideia de que o verdadeiro protagonismo residia nas classes sociais.
Ao contrário dos filósofos que o precederam, que tentaram compreender ou interpretar o mundo, ele queria mudar o mundo , uma ênfase compartilhada por Engels, que foi coautor do Manifesto Comunista com ele. Este panfleto visa explicar os valores e os planos políticos do comunismo, um sistema de crenças proposto por um grupo de socialistas alemães radicais. Em resumo, o Manifesto argumenta que existem apenas duas classes em conflito direto: a burguesia, proprietária do capital, e o proletariado , a classe trabalhadora. Para ele, o sistema de artesãos havia sido substituído pela manufatura. Para Marx, a burguesia não tinha outro valor além do ” dinheiro “, e o valor pessoal tornou-se ” valor de troca ” . Ele explora isso em sua ” mais-valia “, onde interpreta que os valores morais, religiosos e até mesmo sentimentais foram esquecidos e que todos, de cientistas e advogados a padres, tornaram-se assalariados, todos substituídos por uma ” exploração descarada, vergonhosa, direta e brutal “. Ele atribuiu isso à ” liberdade irracional ” introduzida pelo livre comércio .
A única solução para esse estado de coisas era transformar todos os meios de produção econômica, como terra, matérias-primas, ferramentas e fábricas, em propriedade comum , daí sua famosa frase: ” De cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo suas necessidades”.
A dialética marxista deriva de ideias extraídas de Hegel, que descreveu a realidade não como um estado de coisas (tese), mas como um processo de mudança contínua que contém em si um conflito interno (antítese) . Marx acreditava, assim como Hegel, que nos é proibido conhecer ou sentir como as coisas no mundo realmente são, mas apenas como nos aparecem. Para Hegel, a mente, ou espírito, em sua jornada histórica, através de inúmeros ciclos dialéticos, progrediria em direção a um estado de harmonia absoluta, o Geist . Marx difere de Hegel nesse ponto, pois, em vez de uma jornada, ele busca uma mudança real, aqui e agora, e, em vez do Geist de Hegel, acreditava que, ao final do processo, na sociedade perfeita, todos trabalhariam harmoniosamente em prol do bem-estar de um todo maior .
O que me interessa e me entusiasma nele é o seguinte: nos densos volumes de O Capital, ele elabora meticulosamente sobre a formação das classes, descrevendo como, em tempos antigos, os seres humanos, antes os únicos responsáveis pela produção de tudo o que consumiam, passaram a depender uns dos outros, dando origem a uma forma de “negociação”. Isso levou à especialização de cada atividade, que então passou a definir as pessoas, ditando onde e como viveriam. Isso também impôs com quem essa sociedade se harmonizaria e com quem entraria em conflito. Daí o conflito de classes, que Marx dividiu em quatro grandes estágios. Ele também explicou que a política, as leis, a arte, as religiões e as filosofias, ou “superestruturas”, desenvolveram-se para servir aos valores e interesses da classe dominante, e o governante era impedido de alterar os acontecimentos, podendo apenas promovê-los. Ele chama isso de Zeitgeist, ou espírito da época, que seria governado por um espírito absoluto que se desenvolveu ao longo do tempo, como descrito acima. Para Marx, ninguém deixa sua marca; a época define as pessoas. De acordo com Feuerbach, ele concluiu que a religião é intelectualmente falsa e contribui para a miséria humana, porque criamos deuses à nossa própria imagem a partir de uma amálgama de virtudes, uma invenção que é um sonho e nada tem a ver com o mundo real. Já que a religião resgata o nosso “eu”, que é desprezado e alienado pelo sistema descrito acima, o melhor a fazer é acabar com a religião para que a consciência possa emergir. Ele também discutiu sua utopia marxista, o poder político e como seria o caminho para a revolução, que ele argumentava ser inevitável.
A tecnologia, especialmente a relacionada à computação, como a Inteligência Artificial, atua exatamente na desvalorização do trabalho.
O problema central do modelo marxista é a suposição de que o valor de um produto é igual ao esforço de trabalho necessário para sua produção. Marx extraiu esse erro dos economistas clássicos, que não perceberam suas implicações paradoxais e o choque entre a teoria e a realidade sobre o valor do trabalho.
O que Marx veria?
Marx não se concentraria no conteúdo da lancheira. Ele perguntaria:
Quem carrega a lancheira?
Para quem essa pessoa trabalha?
Quem se apropria do valor produzido?
Para Marx, a lancheira simboliza:
A condição do trabalhador assalariado.
A mudança de material representa:
evolução tecnológica,
o avanço das forças produtivas,
modernização industrial.
Mas a estrutura central permanece:
O trabalhador continua a vender sua força de trabalho.
Assim, para Marx, a escultura estaria dizendo:O capitalismo muda de forma, a tecnologia evolui , mas a relação de exploração persiste.
Ele argumentaria que a obra de arte expõe a permanência da estrutura econômica subjacente à modernização superficial. Obviamente, um equívoco, assim como o do artista que a criou, pois ela não demonstra o conflito entre o valor da obra e a realidade no contexto da evoluçãoe do progresso que ocorreu com a passagem do tempo.
Eu, Roque Ehrhardt de Campos, ingressei na IBM Brasil em dezembro de 1970, inicialmente na Engenharia Industrial e, a partir de 1973, na Engenharia de Produto, onde permaneci por 15 anos, até 1988. Em seguida, ingressei no ILAT, o Instituto Latino-Americano de Tecnologia, uma entidade breve e discreta que desapareceu sem o menor alarde ou qualquer tipo de notícia, e onde encerrei minha trajetória na IBM em 1993. Na Engenharia Industrial, ajudei a montar o estande da IBM na SUCESU , quando ainda era no Ibirapuera, SP, até sua transferência e longa permanência no Anhembi, onde, curiosamente, também participei em diversas ocasiões enquanto trabalhava na Engenharia de Produto da IBM.
Neste evento da SUCESU, ajudei a montar o estande da IBM, que ficava no mesmo prédio que o MAM Museu de Arte Moderna de São Paulo, como pode ser visto na foto acima.
Era 1971 e, ao mesmo tempo, estava prestes a acontecer a 10ª edição da Bienal Internacional de Arte de São Paulo , na qual pudemos vislumbrar a perspectiva brasileira sobre a arte, com a ajuda de alguns expositores europeus, notadamente os franceses, apesar do boicote da França, da União Soviética e de vários outros países que a excluíram devido à ditadura que governou o país de 1964 a 1985.
Na época, eu não sabia, pois era jovem e o que eu entendia por arte era o que mais tarde descobriria ser chamado de figurativismo. A arte figurativa é um estilo que busca representar figuras e objetos do mundo real de uma forma reconhecível. Artistas figurativos retratam pessoas, paisagens, objetos e outras figuras de uma maneira que as torna facilmente identificáveis. A ideia é reproduzir a realidade. Das pinturas rupestres pré-históricas às obras dos mestres da Renascença, esse estilo artístico tem sido praticado ao longo da história.
Trigal FernandoikomaÉdouard Manet, Claude Monet peignant dans son atelier, 1874
O MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo foi criado justamente para contrastar o figurativismo com o abstracionismo. A arte abstrata é um estilo que se distancia da representação fiel do mundo visível e explora elementos que não se assemelham à realidade. Nesse estilo, os artistas enfatizam a expressão emocional e conceitual, utilizando formas, cores, linhas e texturas para transmitir ideias e sensações. A arte abstrata rompe com as convenções tradicionais da representação figurativa, permitindo ao artista explorar a liberdade criativa em sua forma mais pura e sendo altamente subjetiva.
Composição Ligia ClarkManabu Mabe – Sem título
A questão não é tão simples. Artistas abstratos podem usar objetos para criar obras de arte que deixam de ser aquilo para o qual foram originalmente criadas, tornando-se metáforas para uma infinidade de coisas e, inevitavelmente, criticando a ordem social ou se rebelando contra soluções políticas que não consideram corretas. Como os objetos usados para criar esse tipo de arte já são produzidos e acabados, esse estilo é conhecido como “ready-made”.
Bem, voltando à SUCESSU em 1971, veríamos inúmeros exemplos de arte moderna que continham tudo o que expliquei, algo que, na época, eu não fazia ideia do que se tratava.
A obra de arte abstrata “ready made” que me chamou a atenção foi, se bem me lembro, um conjunto de lancheiras arredondadas empilhadas, que se pareciam com isto (tentei localizar a que vi, mas não consegui encontrá-la):
Século 19Século 20O Futuro
Quem me esclareceu o significado disso foi Rolando Milone, um italiano na casa dos quarenta que foi trabalhar na IBM Brasil como engenheiro industrial, ajudando a montar todo tipo de instalação que a Engenharia Industrial da época fazia. Ele acrescentou, sorrindo, a frase: “Quem come de marmita, come de marmita para sempre…”
Com a ajuda dos meus quase 83 anos de vida, eu não entendia naquela época o que entendo agora, e vou entrar em mais detalhes sobre como a arte pode expressar coisas de maneiras inesperadas e como isso se relaciona com a Inteligência Artificial.
O que o sorriso de Rolando Milone escondia e não me revelava era que esta escultura retrata, na percepção do artista, classe social e mobilidade (ou da falta dela). A mensagem é brutal: não importa se você “progride” materialmente (ferrugem → alumínio → aço inoxidável brilhante), você continua sendo essencialmente a mesma coisa – um trabalhador que carrega uma marmita. O artista estava expressando:
Crítica marxista : O trabalhador pode ter a ilusão de progresso (uma marmita melhor), mas continua a vender sua força de trabalho, continua sem possuir os meios de produção. A essência da relação não se altera.
Mobilidade social como ilusão: você pode ascender socialmente (melhorar sua condição), mas nunca escapará de sua origem. “Quem nasce para fazer lancheiras não vira dono de restaurante.”
Condição humana: Todos nós estamos sujeitos às nossas necessidades básicas (alimentação), independentemente da aparência de progresso.
Como isso se relaciona com a IA?
A Inteligência Artificial como a “marmita de aço inoxidável” – parece revolucionária, brilhante, futurista… mas, em sua essência, não altera a estrutura fundamental: quem tem capital e controla a tecnologia, quem não tem continua vendendo mão de obra (só que agora competindo com máquinas ou sendo supervisionado por elas). Os principais pontos em que ela atuará são:
A automação não elimina a classe baixa – apenas a desloca. Sempre haverá empregos precários e mal remunerados que não foram automatizados (ou que não valem a pena automatizar). A classe trabalhadora simplesmente se expande para baixo, por exemplo, motoristas profissionais se tornando taxistas, telefonistas se tornando vendedoras por telefone, digitadores se tornando criadores de conteúdo ilustrando influenciadores, etc.
Estão surgindo novas funções exploratórias – como moderadores de conteúdo traumatizante, etc., pessoas que criam e inserem programas gerados por IA por centavos em plataformas como o Amazon Mechanical Turk , moderadores de conteúdo traumatizante, etc.
Quem lucra são os que já tinham capital – OpenAI, Google, Microsoft . Não é a pessoa que perdeu o emprego para a automação.
A ilusão do progresso – “Ah, mas agora existem novos empregos na área de tecnologia!” Sim, para os 5% que conseguem se requalificar. E os outros 95%? Eles se adaptarão como descrito anteriormente.
Por último, mas não menos importante, os números reais que irão concentrar ainda mais riqueza com o uso da IA são os seguintes: no primeiro trimestre de 2024, quase dois terços da riqueza total nos Estados Unidos estavam nas mãos dos 10% mais ricos. Em comparação, os 50% mais pobres detinham apenas 2,5% da riqueza total.
Os 10% mais ricos detêm 67% da riqueza.
Os 50% mais pobres detêm apenas 2,5% da riqueza.
O 1% mais rico detém aproximadamente 35% da riqueza total (de acordo com dados históricos).
A promessa libertadora da tecnologia (como sempre) é que ela nos livrará do trabalho árduo. A realidade é que ela redistribui o trabalho árduo, geralmente concentrando a riqueza no topo e relegando as tarefas que exigem menos habilidade para baixo, na base. Ferrugem, alumínio, aço inoxidável. Mas ainda é uma marmita. A IA, quando considerada nessa metáfora, perde o encanto de ser algo poderoso e se reduz a apenas uma ferramenta, por mais sofisticada que seja. Sofisticada, sim – mas uma ferramenta. A questão não é se isso me diminui, mas sim: em mãos de quem está essa ferramenta e para qual propósito? A marmita de aço inoxidável não é “onipotente” – ela ainda serve ao mesmo propósito, só que agora pertence a outros donos, talvez usada com mais eficiência para realizar mais trabalho.
O “encanto” nunca teve a ver com IA… Tem a ver com a Anthropic, a OpenAI, o Vale do Silício, vendendo a narrativa do progresso enquanto concentram capital, como sempre fizeram desde a sua origem, validando todas as ideias que explicam, apoiam ou criticam o capitalismo e, no caso das lancheiras, é uma crítica à teoria clássica de Marx sobre capital e trabalho e à divisão de classes. A IA, agora, é o aço inoxidável reluzente que desvia a atenção da estrutura imutável que detém a chave para entendermos o que está acontecendo, o que acontecerá e o que está reservado para aqueles que giram em torno dela ou são sustentados por ela, o que inclui praticamente tudo; não é mais possível fazer nada neste mundo sem o uso da inteligência artificial de alguma forma.
Em resumo, qual o impacto da IA na sua vida?
Você precisa levar em consideração tudo o que foi explicado aqui e garantir que não acabe se tornando um “turco mecânico” ou que não esteja acima do comando ou do controle deles. Ou ainda, que ganhe muito dinheiro ajudando aqueles que têm o poder de manter a situação, que precisa ser mudada, como está há muito tempo e não mostra nenhum sinal de uma nova perspectiva.