Psicoterapeutas ou Clérigos

Resumo de Psicoterapeutas ou Clérigos (1932):

O ponto de partida. A medicina do século XIX virou ciência natural e só admitia causas materiais; para ela, a psique não existia. Mas as neuroses mostraram que há doenças de causa psíquica, curáveis só por meios psíquicos. Uma palavra do médico, que é “apenas” vibração do ar, cura porque carrega sentido. E sentido é algo espiritual.

A crítica a Freud e Adler. Os dois chegaram mais perto da raiz das neuroses que a medicina anterior, mas são unilaterais: reduzem tudo ao impulso sexual ou ao desejo de poder. São “psicologias sem psique”, servem para quem acha que não tem necessidades espirituais e não dão sentido à vida. Jung compara Freud a uma tripulação que, com o navio afundando, se preocupa com a composição química da água que entra: a causa da neurose está no presente, na perda de sentido, não só no passado.

O que o paciente procura. Os quatro dons da graça: fé, esperança, amor e compreensão. Nenhum se ensina; vêm da experiência, à qual só se pode chegar perto. A neurose é o sofrimento de quem não descobriu o sentido da própria vida. Entre os pacientes de Jung com mais de 35 anos, nenhum problema deixava de ser, no fundo, religioso, e nenhum se curou sem recuperar uma visão religiosa da vida, independentemente de credo.

A pesquisa. Em crise espiritual, 57% dos protestantes procurariam o médico e 8% o clérigo; entre os católicos, 25% e 58%. O motivo para evitar o clérigo era a falta de conhecimento psicológico e o dogmatismo. Jung prevê que, em vinte anos, o que pensam os educados será o que pensa todo mundo.

A atitude do terapeuta. O centro do ensaio. O médico só ajuda se aceitar o paciente como ele é, inclusive o pior, e só consegue isso se já tiver aceitado o mesmo em si. Amar o inimigo vale também para o inimigo interior. A cura vem quando, do inconsciente, surgem imagens e temas que o paciente não produziu conscientemente: para ele, uma revelação. Jung chega a dizer que é preciso ajudar o paciente a viver até o próprio egoísmo, que pode se converter no oposto.

O fecho. Jung se coloca na “extrema esquerda” protestante, mas reconhece que muita gente está melhor dentro da Igreja Católica. O espírito vivo ultrapassa todas as formas que os homens lhe deram, que são só folhas e flores da árvore eterna.

Psicoterapeutas ou Clérigos (CW 11) Texto integral

C.G. Jung – 1932

É a urgência dos problemas psíquicos dos pacientes, muito mais do que as questões levantadas pelos pesquisadores científicos que tem dado ímpeto efetivo para as novas descobertas na psicologia médica e na psicoterapia. A ciência médica tem evitado todo contato possível com problemas estritamente psíquicos. Ela tem sustentado esta posição apesar das urgentes necessidades dos pacientes, mas baseada na posição parcialmente justificada que problemas psíquicos pertencem a outros campos de estudo. E, mesmo assim, ela tem sido forçada a abrir seus objetivos de tal maneira a incluir a psicologia experimental, da mesma maneira que tem sido levada novamente – tendo em vista a homogeneidade biológica do homem – a emprestar conceitos de tais ramos da ciência como a química, a física e a biologia.

Foi natural que uma nova direção devesse ser dada a estes novos ramos adotados da ciência. Nós podemos caracterizar esta mudança dizendo que ao invés de serem vistos como fins em si mesmos, eles foram considerados por causa da sua possível aplicação para seres humanos. A Psiquiatria, por exemplo, se ajudou dos tesouros encontrados pela psicologia experimental e tomou como base seus empréstimos deste corpo que lhe é incluso da psicopatologia – um nome geral dado par ao estudo de manifestações psíquicas complexas. A psicopatologia é construída de um lado sobre as descobertas da psiquiatria no sentido estrito do termo, e de outro lado sobre as descobertas da Neurologia, – um campo de estudo que originalmente abraçava as chamadas neuroses psicogenéticas, e ainda assim o faz dentro do jargão acadêmico. Na prática, contudo, foi aberto um golfo nas últimas décadas entre o neurologista especializado e o psicoterapeuta, sendo possível tracear esta cisão até as primeiras pesquisas do hipnotismo. Não havia meios como evitar esta divergência, pois que a neurologia é o estudo das doenças orgânicas nervosas em particular, enquanto que as neuroses psicogenéticas não são doenças orgânicas no sentido usual do termo. Nem estas neuroses caem no campo particular da psiquiatria, cujo campo específico de estudo são as psicoses ou doenças mentais – pois que as neuroses psicogenéticas não são doenças mentais como este termo é geralmente entendido. Ao invés disto, elas constituem um campo especial por si mesmas que não tem fronteiras claramente definidas, e mostram muitas formas transitórias que apontam em duas direções: de um lado para as doenças mentais, e de outro para as doenças nervosas.

A característica sem margem para erros das neuroses é o fato de que suas causas são psíquicas, e que sua cura depende inteiramente dos métodos psíquicos de tratamento. As tentativas para delimitar e explorar este campo especial – tanto do lado da psiquiatria quanto do lado da neurologia – tem levado à descobertas que não são bem vindas para a ciência da medicina: isto é, a descoberta que a psique é um fator etiológico causal da doença. No decorrer do século 19 a medicina formalizou seus métodos e teorias de tal maneira a se tornar uma ciência natural, adotando para isto o compromisso básico das ciências naturais: causa material. Para a medicina a psique não existia no seu próprio direito, e a psicologia experimental também fez tudo que pode para se constituir como uma psicologia sem a psique.

A investigação contudo, tem estabelecido de forma a não deixar dúvidas que o cerne das psico-neuroses tem que ser encontrado nos fatores psíquicos, que isto é a causa fundamental do estado doentio, e que precisa desta forma ser reconhecido no seu próprio direito juntamente com outros fatores patogênicos, tais como hereditariedade, disposição, infecção bacteriológica e assim por diante. Quaisquer tentativas de explicar a psique em termos de fatores físicos mais elementares foram destinados ao fracasso. Não havia promessa na tentativa de delimitar o fator psíquico pelo conceito de “drive”(motivação) ou instinto (em alemão uma palavra cobre as três coisas) – um conceito que foi tomado da biologia. É bem sabido que os instintos são “urgências” fisiológicas que são traceáveis ao funcionamento das glândulas e que, a experiência o demonstra, eles influenciam os processos psíquicos. O que poderia ser mais plausível então, do que procurar as causas específicas das psíco-neuroses nas noções místicas da “alma”, mas nos distúrbios dos impulsos que poderiam em último recurso serem curados pelo tratamento médico das glândulas? Na verdade, este é o posicionamento de Freud quando estabelece sua bem conhecida teoria com a qual ele explica as neuroses em termos de distúrbios do impulso sexual. Addler da mesma forma recorreu ao conceito de “drive” e explica as neuroses em termos de distúrbios da “urgência” de querer o poder. Nós temos que admitir que este conceito é na verdade tirado da fisiologia e é de um conceito mais psíquico, do que o de “drive” sexual.

O conceito de instinto é tudo, menos bem definido em termos científicos. Ele se aplica a manifestações biológicas de grande complexidade, e não é nada senão mais que uma noção de conteúdo bem indefinido que não tem quantidade conhecida. Eu não quero aqui entrar numa discussão quanto aos critérios dos conceitos de instinto. Ao invés disto eu consideraria a possibilidade que o fator psíquico é apenas uma combinação de instintos que por sua vez, podem ser reduzidos ao funcionamento das glândulas. Nós podemos até mesmo discutir a possibilidade que tudo que seja normalmente chamado psíquico esteja abarcado na soma total dos instintos, e que a psique ela mesma, seja portanto somente um instinto ou um conglomerado de instintos, sento em última análise nada mais do que um funcionamento de glândulas. Esta afirmação, contudo, não tem sido provada, e nenhum extrato glandular que possa curar uma neurose foi até então  encontrado. Por outro lado, nós temos aprendido dos muitos erros da medicina orgânica nas suas tentativas falhas de curar as neuroses. Estes métodos psíquicos são tão efetivos quanto nós poderíamos supor serem os extratos glandulares. Até hoje, então, conforme nossa experiência o indica, as neuroses são influenciadas ou curadas por as considerarmos não como função do lados dos seus elementos glandulares, mas sim por as encararmos como atividades psíquicas, que têm que serem tomadas como realidade. Por exemplo, uma explanação cabível ou uma palavra de conforto ao paciente pode fazer algo no sentido de curá-lo da mesma forma como se fizessem suas glândulas funcionarem. As palavras do médico, na verdade, são “somente” vibrações no ar, mas mesmo assim, constituem um conjunto particular de vibrações que correspondem a um estado psíquico especial do médico. As palavras são efetivas somente no quanto elas converjam uma sentido ou significado. É o seu sentido que tem significado. Mas “sentido” é algo mental ou espiritual. Chame-o de ficção se você preferir. Contudo nos permite influenciar o curso de uma doença de forma muito mais efetiva do que com preparados químicos. Nós podemos até mesmo influenciar os processos bioquímicos do corpo desta maneira. Se a ficção surge em mim espontaneamente ou me atinge pela forma da fala humana, pode curar-me ou me fazer adoecer. Nada é mais intangível e irreal do que ficção, ilusões e opiniões, e no entanto, nada é mais efetivo na psique ou mesmo dentro do cerne psicofísico.

Foi por reconhecer estes fatos que a ciência descobriu a psique e agora nos fazemos a honra de admitir sua realidade. Tem sido demonstrado que o “drive”, ou instinto, é uma condição de atividade psíquica, sendo ao mesmo tempo que os processos psíquicos parecem condicionar os instintos.

Não é falha das teorias de Freud e Addler que elas estejam baseadas em “drives”; o único problema delas é que são unilaterais. O tipo de psicologia que elas representam deixa de fora a psique, e é mais indicado para pessoas que acreditam que elas não têm necessidades espirituais ou aspirações. Quanto a este assunto, tanto o médico quanto o paciente se enganam. Embora as teorias de Freud e Addler cheguem muito mais próximas do fundo das neuroses do que quaisquer idéias anteriores no ramo da medicina, elas ainda são falhas por causa da sua preocupação exclusiva com os “drives”, para satisfazer as necessidades espirituais do paciente. Elas ainda são ligadas pelas premissas da ciência do século 19, que são também auto evidentes – elas dão pouco valor aos processos ficcionais e imaginativos. Numa palavra, elas não dão sentido suficiente à vida. E é somente o que tem sentido que nos liberta.

Sermos razoáveis, julgamento humano próprio e ciência são como um compêndio de bom senso, certamente nos ajudam uma boa parte da jornada, porém não nos levam além das fronteiras da vida humana que cercam os lugares comuns e as verdades observáveis, meramente medianas que permeiam o dia à dia. Estas  idéias não nos permitem resposta às questões de sofrimento espiritual e seu sentido mais profundo. Uma psico-neurose tem que ser compreendida como o sofrimento do ser humano que não descobriu o que a vida significa para ele. Mas toda a criatividade dentro do espírito bem como quaisquer avanços psíquicos do homem surgem de um estado de sofrimento mental e é a estagnação espiritual, a esterilidade psíquica, que causa este estado.

O médico que percebe esta verdade vê um território aberto diante dele e que ele se aproxima com a maior hesitação. Ele se vê confrontado com a necessidade de fornecer ao seu paciente a ficção que cura, o sentido que liberta – pois que é isto que o paciente espera, acima e sobre toda e qualquer razão que a ciência lhe possa dar. O paciente esta à procura de algo que tomara fosse dele e que dará sentido e forma para a confusão da sua mente neurótica.

Está o médico à altura desta tarefa? Inicialmente, ele provavelmente enviará seu paciente para o clérigo ou o filósofo, ou o abandonará à esta perplexidade que é a tônica dos nossos dias. Como médico ele não tem por obrigação de ter uma idéia acabada da vida, e sua consciência profissional não lhe demanda isto. Mas o que ele faz quando percebe claramente por que seu paciente está doente, quando ele percebe que isto surge por falta de amor, em troca da sexualidade, da falta de fé, por que ele tem medo de tatear no escuro, sem esperança por que eles está desiludido pelo mundo e pela vida, e sem compreensão por que falhou no entendimento de sua própria existência?

Existem muitos outros pacientes educados que simplesmente recusam a se consultar com um clérigo. Com um filósofo muito menos, pois a história da filosofia os deixa frios, e problemas intelectuais lhes parecem mais secos que o deserto. E o que dizer dos grandes sábios que simplesmente não falam sobre o sentido da vida e do mundo, mas que, em verdade, o possuem? O pensamento humano não pode conceber nenhum sistema ou verdade  final que não dê ao paciente o que ele precisa afim de que possa viver, isto é, fé, esperança, amor e compreensão.

Estas quatro maiores realizações do esforço humano são dons da graça, que não são nem ensinados nem aprendidos, nem dados nem tirados, nem contidos nem ganhos, uma vez que eles vêm pela experiência, que algo DADO, e por isto fora do capricho humano. Experiências não podem ser FEITAS. Elas acontecem – e ainda assim afortunadamente sua independência das atividades humanas não é absoluta, mas relativa. Nós podemos chegar perto delas – apenas isto fica dentro do alcance humano. Existem caminhos que nos levam perto da experiência. Ainda assim nós deveríamos chamar estes caminhos de “métodos”. A própria palavra tem um efeito amortecedor. A maneira de experimentar, além disto, não é possível ser feita com esperteza ou truque, é mais na verdade uma empreita que nos requer assumir nós mesmos como um todo.

Desta forma, na tentativa de atingir as demandas feitas sobre ele, o médico é confrontado por uma questão que lhe parece uma dificuldade insuperável. Como ele pode ajudar o sofredor a atingir a experiência de libertação que permitirá os quatro dons da graça e lhe curará sua doença? Nós não podemos aconselhar o paciente com a melhor das intenções que ele deveria ter amor verdadeiro, e não podemos sermonizá-lo com  a frase: “Conhece a ti mesmo”. Mas como é que o paciente, antes que ele tenha a experiência, pode obter aquilo que somente a experiência lhe pode dar?

Saul deveu sua conversão nem ao verdadeiro amor, nem à verdadeira fé, nem a qualquer outra verdade. Foi somente seu ódio aos cristãos que o fez seguir o caminho de Damasco, e a passar a experiência decisiva que o fez decidir o curso completo de sua vida. Ele foi trazido para esta experiência seguindo uma convicção completamente errada. Isto nos abre uma maneira de enfrentar os problemas da vida que nós nunca levamos a sério. E isto confronta o psicoterapeuta com a questão que o leva a ficar ombro a ombro com o clérigo: a questão do bem e do mal.

Na verdade é o clérigo ou o padre, ao invés do médico que deveria estar mais preocupado com o problema do sofrimento espiritual. Mas na maioria das vezes o sofredor consulta primeiramente o médico, porque ele se supõe fisicamente doente e porque certos sintomas neuróticos podem ser aliviados com drogas. Mas, por outro lado, se o clérigo é consultado, ele não pode persuadir o doente que o problema é psíquico. Como regra lhe falta conhecimento específico que o permitiria discernir os fatores psíquicos da doença, e seu julgamento é feito sem o peso da autoridade.

Existem, contudo, pessoas que, enquanto que bem cientes da natureza psíquica da sua queixa, contudo se recusam a dirigir-se para o clérigo. Elas não acreditam que ele as possa ajudar. Tais pessoas não confiam no médico pela mesma razão, e elas estão com razão pelo fato de que o médico e o clérigo lhes oferecem as mãos vazias, senão, o que é pior com palavras vazias. Não podemos esperar que o médico tenha algo a dizer sobre as questões últimas do espírito. É do clérigo, não do  médico, que o sofredor deveria esperar tal ajuda. Mas o clérigo protestante freqüentemente se encontra ele mesmo face a face com uma tarefa quase impossível, porque ele tem que enfrentar dificuldades de ordem prática, o que ao padre católico é poupado. Acima de tudo, o padre tem a autoridade da igreja por trás dele, e sua posição econômica é segura e independente.

Isto é bem mesmo verdade no caso do ministro protestante, que pode ser casado e estar ardendo de responsabilidades com a família, e não pode esperar, se tudo ou mais falhar, ser suposto de receber o auxílio da comunidade ou ser levado para uma vida monástica. Mas o padre, se for também um jesuíta, tem à sua disposição os ensinamentos psicológicos mais atualizados possíveis. Eu sei, por exemplo, que meus próprios escritos foram estudados em Roma muito antes do que qualquer pastor protestante pensasse que eles valessem a pena serem lidos.

Desta maneira criamos um sério impasse. O êxodo da igreja protestante alemã é apenas um dos muitos sintomas que deveria deixar claro que simples admoestações para acreditar, ou fazer atos de caridade, não dão para o homem moderno o que ele está procurando. O fato que muitos clérigos procuram suporte ou auxílio prático das teorias de Freud sobre a sexualidade ou em Addler com suas teorias sobre poder é fantástico, levando-se em conta que estas duas categorias são hostis aos valores espirituais, sendo, como eu disse, psicologia sem psique. Elas são métodos racionais de tratamento que na verdade impedem a realização de experiência significativa. De longe o maior número de psicoterapeutas são os discípulos de Freud ou de Addler. Isto significa que a grande maioria dos pacientes são necessariamente alienados do ponto de vista espiritual – um fato que não pode ser um assunto indiferente para alguém que tenha as realizações dos valores espirituais dentro do coração. A onda de interesse na psicologia que no presente varre os países protestantes da Europa está longe de ceder. Ela coincide com o êxodo geral da igreja. Nas palavras de um ministro protestante, posso dizer: “Hoje as pessoas vão ao psiquiatra ao invés de irem ao clérigo”.

Eu estou convencido que esta afirmação é verdadeira apenas para pessoas relativamente educadas, não para o homem da massa. Contudo, não podemos nos esquecer que dentro de uns vinte anos as pessoas da massa estarão pensando o que pensam as pessoas educadas de hoje. Por exemplo, a obra de Buchner “Força e Matéria”, se tornou um dos mais lidos livros nas bibliotecas públicas da Alemanha uns vinte anos depois que as pessoas educadas tinham começado à esquece-lo. Eu estou convencido que o que hoje é interesse vital em psicologia entre as pessoas educadas será amanhã por todo mundo.

Eu deveria chamar a atenção para os seguintes fatos.

Durante os últimos trinta anos, pessoas de todos os países civilizados têm me consultado. Eu tenho tratado centenas de pacientes, sendo a maior parte protestantes, um número pequeno de judeus, não mais que cinco ou seis católicos crentes. Dentre todos os meus pacientes na segundo metade da vida – isto é, acima de trinta e cinco anos – não havia um único cujo problema em última análise não fosse o de encontrar uma solução religiosa para sua vida. É seguro se dizer que qualquer um deles caiu doente porque perdeu aquilo que as religiões vivas de todas as épocas têm dado aos seus seguidores, e nenhum ficou realmente curado se não conseguir recuperar sua visão religiosa da vida. Isto, é claro não tem nada a ver com uma religião ou crença em particular.

Aqui, então o clérigo se coloca diante de um vasto horizonte.

Mas parece que ninguém percebeu isto.

Seria mais como se o ministro protestante de hoje estivesse insuficientemente equipado para enfrentar as urgentes necessidades psíquicas da nossa era.

Na verdade vivemos um período áureo para o clérigo e o psicoterapeuta juntarem suas forças para enfrentar esta grande tarefa espiritual.

Aí está um exemplo concreto que vai para demonstrar o quanto de perto estes problemas nos tocam. Há cerca de dois anos os Líderes da Conferência dos Estudantes Cristãos em Aarau (Suíça) colocaram diante de mim a questão se as pessoas nos dias de hoje quando em crise espiritual preferem consultar um médico do que um clérigo, e qual a razão desta escolha. Esta pergunta era bastante direta e concreta. Nesta época eu apenas sabia obviamente que meus pacientes haviam consultado o médico ao invés do clérigo. Me pareceu aberto a dúvidas se isto seria geralmente o caso ou não. De qualquer maneira, eu não lhes pude dar uma resposta definitiva. Desta maneira, me pus a pesquisar, através de conhecidos meus, dentre as pessoas que eu não conhecia, enviei um questionário que foi respondido por protestantes suíços, alemães e franceses, bem como por alguns católicos. Os resultados são muito interessantes, conforme o seguinte sumário o demonstra. Aqueles que se decidiram pelo médico representaram 57% dos protestantes e somente 25% dos católicos, enquanto que aqueles se decidiram pela divindade formaram 8% dos protestantes e 58% dos católicos. Estas decisões foram inequívocas. Cerca de 35% dos protestantes não conseguiram decidir-se enquanto que somente 17% dos católicos estavam indecisos.

A razão dada para não consultar o ministro da igreja foi geralmente sua falta de conhecimento psicológico e visão, e isto cobriu cerca de 52% das respostas. Cerca de 28% acharam que ele era preconceituoso em seus pontos de vista e demonstrava uma postura dogmática e orientação unilateral tradicional. Curiosamente, um pastor que se decidiu pelo médico e um outro fez um comentário irritado dizendo: “Teologia não tem nada a ver com tratamento de seres humanos.” Todos os parentes dos clérigos que responderam meu questionário foram contra a idéia de se dirigirem a clérigos.

O fato de que esta enquete foi restrita a pessoas educadas lhe confere o peso de uma palha de vento. Eu estou convencido de que as classes menos educadas teriam reagido diferentemente. Mas eu estou inclinado a aceitar os resultados como mais ou menos válido no sentido de que as opiniões das pessoas educadas valida a impressão que sua indiferença em matéria de igreja e assuntos religiosos é indiferente e continua a aumentar neste sentido. E temos de levar em conta a verdade da psicologia social, a qual eu já me referi: demora cerca de vinte anos para uma visão geral da vida filtrar das classes mais educadas para as menos educadas.

Quem por exemplo, ousaria profetizar vinte anos atrás que a Espanha, o mais católico dos países europeus, sofreria a transformação espiritual pela qual passou e que estamos assistindo hoje? Ainda assim, irrompeu com a violência de um cataclisma.[1]

Parece-me que, lado a lado com o declínio da vida religiosa, as neuroses aumentaram notavelmente e em freqüência. Ainda existem estatísticas que nos permitem provar este aumento nos seus números reais. Mas de uma coisa eu tenho certeza, que em todos os lugares o estado mental dos homens europeus demonstra uma alarmante falta de equilíbrio. Nós estamos inegavelmente vivendo um período de maiores distúrbios, tensão nervosa, confusão e desorientação de perspectiva. Dentre os meus pacientes, de muitos países, todos eles pessoas educadas, existe um número considerável que veio me ver não porque estivessem sofrendo de uma neurose, mas porque não podiam encontrar sentido na vida ou continuar a se torturar com questões que nem a filosofia atual nem a religião pode responder. Alguns deles talvez pensassem que eu conhecia uma fórmula mágica, mas eu me vi logo forçado a dizer-lhes que eu, também, não tinha resposta par dar. E isto nos traz para considerações de natureza prática.

Vamos tomar, por exemplo, a mais comum e a mais freqüente das questões: Qual é o sentido da minha vida, ou da vida em geral? Os homens de hoje crêem que sabem o que o clérigo lhes dirá – ou melhor, precisa dizer – para esta pergunta. Eles sorriem ao simples pensamento da resposta do filósofo e, em geral, não aceitam muito do médico. Mas do psicoterapeuta que analisa o inconsciente – dele se poderia indubitavelmente aprender algo. Ele desenterrou talvez das profundidades da mente, dentre outras coisas um sentido para a vida que pode ser comprado por uma taxa! Deve ser um alívio para uma pessoa séria ouvir que o psicoterapeuta também não sabe o que dizer. Tal confissão é freqüentemente o início da confiança do paciente nele.

Eu descobri que o homem moderno tem uma inerradicável aversão por opiniões tradicionais e verdades herdadas. Ele é um bolchevista (revolucionário) para o qual os padrões espirituais e formas do passado perderam sua validade, e que desta forma quer experimentar no mundo  do espírito como o bolchevista experimentou com a economia. Quando confrontados com esta atitude moderna, todos os sistemas eclesiásticos ficam pobres, quer sejam eles católicos, protestantes, budistas ou confuncionistas. Dentre estes modernos existem, é claro, aqueles que têm natureza perversas, destrutivas e que denigrem – excêntricos desequilibrados – que nunca estão satisfeitos em nenhum lugar que por isto seguem qualquer nova bandeira, muito em prejuízo destes movimentos e empreitadas, na esperança de encontrar de uma vez aquilo que lhes afinará por um baixo custo as suas próprias insuficiências. Não preciso dizer que no exercício da minha profissão vim a conhecer muitos homens e mulheres modernos, bem como muitos pseudo-modernos patológicos dentre eles. Mas prefiro deixá-los de lado. Aqueles a quem me refiro não são de nenhuma forma doentes excêntricos, mas o mais freqüente é que sejam excepcionalmente capazes, corajosos e pessoas eretas que repudiaram nossas verdades por razões honestas e decentes e não por maldade de coração. Todos eles de alguma forma tem o sentimento que as verdades religiosas os deixaram de alguma forma vazios. Ou eles não conseguem reconciliar o pensamento religioso com a ciência ou os dogmas cristãos perderam sua autoridade e sua justificativa psicológica. As pessoas não se sentem mais que foram redimidos por Cristo, elas não podem acreditar – elas não são compelidas a acreditar, não importando o quão feliz elas considerem aqueles que crêem. O pecado se tornou para elas algo relativo: o que é mau para uns, é bom para outros. Afinal, por que Buda não poderia estar certo?

Não há ninguém que não esteja familiarizado com estas questões e dúvidas. Ainda assim, a psicanálise freudiana encosta todas estas questões como irrelevantes. Ela mantém que o problema básico é o da sexualidade reprimida, e que dúvidas filosóficas ou religiosas somente mascaram a verdadeira natureza do problema. Se nos examinarmos o indivíduo em questão de perto veremos distúrbios peculiares na esfera sexual bem como na esfera dos impulsos inconscientes em geral. É a maneira de Freud ver nestes distúrbios uma explicação para o distúrbio da psique como um todo; ele está somente interessado nas interpretações causais dos sintomas sexuais. Ele despreza completamente o fato que, em certos casos, as supostas causas da neurose sempre estiveram presentes, mas não tiveram nenhum efeito patológico até que um distúrbio da atitude consciente se instalou e levou para uma perturbação neurótica. É como se fosse, porém, quando um navio estivesse afundando por um vazamento, a tripulação somente estivesse interessada na constituição química da água que estivesse entrando. Distúrbios na espera das motivações inconscientes não são de origem primária, mas fenômenos secundários. Quando a vida consciente perde seu sentido e promessa, é como se despertasse o pânico e é quando nós ouvimos a exclamação: “Vamos beber e comer, pois amanhã morreremos!” Este estado de espírito, nascido da falta de sentido na vida é que causa a perturbação do inconsciente e provoca os impulsos dolorosamente contidos de interromper tudo e recomeçar. As causas da neurose estão no presente, bem como no passado, e somente uma causa ainda existente pode manter uma neurose ativa. Um homem não fica tuberculoso por que foi infectado vinte anos atrás por um bacilo, mas porque focos de infecção ainda estão ativos no seu corpo hoje. A questão de como e quando a infecção ocorreu é bastante irrelevante para sua condição presente. Mesmo o mais acurado conhecimento da história prévia do  caso não pode curar a tuberculose. E o mesmo é verdade para o caso das neuroses.[2]

Isto é porque eu enxergo os problemas religiosos que o paciente traz para mim como relevante para a neurose e como das possíveis causas dela. Mas se eu os levar bem a sério, eu tenho que admitir ao paciente que seus sentimentos são justificados. “Sim, eu concordo, Buda pode estar certo tanto quanto Jesus. O pecado é somente relativo, e é difícil ver como nós nos podemos sentir de alguma maneira redimidos pela morte do Cristo.” Como médico eu posso facilmente admitir estas dúvidas, enquanto que é algo difícil para um padre ou pastor. O paciente sente minha atitude como de compreensão, enquanto que a hesitação do pastor o atinge com o preconceito tradicional, que provoca um estranhamento entre ambos. Ele se pergunta então: “O que diria então o pastor se eu começasse a lhe dizer sobre os dolorosos detalhes das minhas perturbações sexuais?” Ele suspeita com razão que os preconceitos da moral do pastor é ainda mais forte do que seu preconceito dogmático. Com relação a isto existe uma boa história sobre o presidente americano “Silente Call” Coolidge.[3] Quando ele estava voltando de uma de suas habituais saídas na manhã do domingo, sua esposa lhe perguntou aonde ele tinha ido, ao que ele lhe respondeu: “À Igreja”, e então ela lhe disse: “E que disse o ministro?”, ao que ele respondeu: “Ele falou sobre o pecado” e ela, ainda uma vez: “E o que ele disse sobre o pecado?” ao que ele respondeu ainda uma vez: “Ele era contra.”

É possível que se suponha que seja fácil para o médico demonstrar compreensão a este respeito. Mas as pessoas se esquecem que mesmos os médicos têm escrúpulos morais, e que certas confissões de certos pacientes são duras de engolir mesmo para o médico. E ainda assim o paciente não se sente aceito se o pior de si também não for aceito. Ninguém pode fazer por meras palavras, isto somente vem através da sinceridade do médico e através da sua atitude com relação a si mesmo e ao seu maléfico. Se o médico quiser oferecer orientação à outros ou mesmo acompanhar alguém alguns passos, ele precisa estar em contato com esta outra vida psíquica da pessoa. Ele nunca estará em contato quando julgar. Não importa se ele julga por palavras, ou mantém para si mesmo, não faz a menor diferença. Tomar posição oposta e concordar com o paciente, Também não tem utilidade alguma, mas o afasta tanto quanto a condenação. Nos somente poderemos ter contato com alguém senão através de atitude completamente livre de preconceitos e objetiva. Isto pode soar como um preceito científico, e pode ser confundido com uma atitude puramente intelectual e desligada. Mas o que quero dizer é algo bem diferente. É uma qualidade humana – um tipo de respeito profundo por fatos e eventos e pela pessoa que os sofre – um respeito pelo segredo de tal vida humana. A pessoa verdadeiramente religiosa tem tal atitude. Ela sabe que deus permitiu todos os tipos de coisas estranhas e inconcebíveis a existirem, e deseja das formas mais curiosas penetrar no coração do homem. Ela então, sente em tudo a presença invisível da vontade divina. Isto é o que eu chamo de “atitude livre de preconceitos e objetivos”. É uma conquista moral da parte do médico, que não deveria deixar-se repugnar pela doença e pela corrupção. Nós não poderemos mudar nada ao menos que o aceitemos. A condenação não libera, ela oprime. Eu sou o opressor da pessoa que eu condeno, não seu amigo e igual em sofrimento. Eu não quero de forma nenhuma dizer que não devemos julgar nos casos de pessoas a quem desejamos ajudar a melhorar. Mas se o médico deseja ajudar um ser humano ele precisa ser capaz de aceitá-lo como ele é. E ele somente poderá fazer isto em verdade somente quando ele já o tiver aceito a si mesmo como ele é.

Talvez isto soe muito simples, mas as coisas simples são sempre as mais difíceis. Na vida real é requerida a maior disciplina para se ser simples, e a aceitação de si mesmo é a essência do problema moral e a coroação de toda uma perspectiva sobre a vida. Que eu alimente os famintos, que eu perdoe um insulto, que eu ame meu inimigo em nome de Cristo, – tudo isto indubitavelmente são grandes virtudes. Aquilo que eu fizer ao menor da minha prole, eu farei ao Cristo. Mas o que fazer se eu descobrir que o menor dentre todos, o mais problemático dos pedintes, o mais impune de todos os ofensores, o próprio inimigo ele mesmo – que eles estão dentro de mim e que eu mesmo sou meu inimigo que precisa ser amado – o que fazer então? Como regra, a atitude cristã é então invertida, não existe mais quaisquer questões de amor ou sofrimento; nós dizemos para o irmão dentro de nós “Raca”, e o condenamos e nos enfurecemos contra nós mesmos. Nós o escondemos do mundo, nos negamos a admitir jamais ter encontrado isto dentre as partes mais baixas de nós mesmos. Tivesse Deus Ele mesmo, colocado esta forma desprezível, nós a teríamos negado mil vezes antes que o galo cantasse.

O homem que usa psicologia moderna para ver por trás das cenas não somente das vidas dos seus pacientes bem como mais especialmente a de si mesmo – e o moderno psicoterapeuta precisa fazer isto se ele não quiser ser uma fraude inconsciente – admitirá que em toda sua maldade é uma das mais difíceis tarefas, e uma quase impossível de ser cumprida. Apenas o pensamento disto nos pode deixar lívidos de medo. Desta forma não hesitamos, mas de coração leve escolhemos o complicado curso de permanecermos ignorantes de nós mesmos enquanto nos ocupamos de outras pessoas e seus problemas e pecados. Esta atividade nos confere um ar de virtude e desta forma nós nos enganamos e aos outros que nos cercam. Desta maneira, graças a Deus, nós conseguimos escapar de nós mesmos. Existem incontáveis pessoas que podem fazer isto com impunidade, mas nem todo mundo o pode, e estes poucos se arrebentam na estrada para Damasco e sucumbem para uma neurose. Como eu posso ajudar estas pessoas se eu mesmo sou um fugitivo, e talvez também um sofredor do MORBUS SACER de uma neurose? Somente quem se tiver aceito completamente possui uma “atitude livre de preconceitos e objetiva”. Mas ninguém pode contar a vantagem de que ele se aceitou plenamente. Nós podemos apontar para o Cristo, que ofereceu sua tradicional “polarização” (bias)  como sacrifício para o Deus nele mesmo (em minúsculo no original), e desta maneira viveu sua vida como ela era até seu amargo fim, sem se preocupar em convenções ou pelos padrões morais dos fariseus.

Nós protestantes precisamos cedo ou tarde enfrentar esta questão: Temos que entender a “imitação de Cristo” no sentido que deveríamos copiar sua vida e, se eu posso usar a expressão, macaquear seu estigma, ou no sentido mais profundo, que nós temos que viver nossas próprias vidas verdadeiramente como ele viveu a dele em todas as suas implicações? Não é tarefa fácil viver uma vida que é modelada na do Cristo, mais é muito mais difícil viver a própria vida como Cristo viveu a dele. Todos que fossem fazer isto contrariariam forças do passado, e embora desta maneira ele possa estar preenchendo seu destino, não seria menos mal-julgado, difamado, torturado e sacrificado. Ele seria um tipo de bolchevista louco que merecesse a cruz. Nós preferimos portanto a imitação historicamente sancionada do Cristo que é transfigurada pela santidade. Eu não deveria nunca perturbar um monge na sua prática de identificação com Cristo, pois que ele merece o nosso respeito. Mas nem eu nem meus pacientes somos monges, e é minha obrigação como médico mostrar aos meus pacientes como eles podem viver suas vidas sem se tornarem neuróticos. A neurose é uma ruptura interna – o estado de estar em guerra consigo mesmo. Tudo que acentua esta ruptura faz o paciente piorar, e tudo que a mitiga tende a curar o paciente. O que leva as pessoas a ficarem em guerra consigo mesmo é a intuição ou o conhecimento de que eles são constituídos de duas pessoas em oposição uma a outra. O conflito pode ser entre o homem sensual e espiritual ou entre o ego e a sombra. É o que Fausto quer dizer quando ele diz: “Duas almas, alas, trabalham dentro do meu peito separadas.” Uma neurose é uma dissociação de personalidade.

A cura pode ser chamada de um problema religioso. Nas esferas sociais ou de relações entre nações, o estado de sofrimento pode ser o de guerra civil, e este estado será certamente curado pela virtude Cristã do perdão, daqueles que nos odeiam. Aquilo que nós tentamos com a convicção de bons cristãos aplicar à situações externas, nós também devemos aplicar para o estado íntimo no tratamento da neurose. é por isto que o homem moderno já ouviu bastante sobre o pecado e a culpa. Ele já está suficientemente machucado pela sua má consciência, e quer ao invés disto aprender a reconciliar-se com sua própria natureza – como ele pode amar o inimigo no seu próprio coração e chamar o logo de seu irmão.

Além disto, o homem moderno não está ansioso para saber de que maneira ele pode imitar o Cristo, mas de que maneira ele pode viver sua própria vida individual, não importando o quanto pobre e desinteressante ela possa ser. É porque todas as formas de imitação lhe parecem mortas e estéreis, que ele se rebela contra a força da tradição que o prenderia aos formatos bem batidos tradicionais. Todos estes formatos, para ele, levam na direção errada. Ele pode não sabe-lo mas ele se comporta como se sua própria vida individual fosse toda ela instintiva com a vontade de Deus que precisa a todo custo ser preenchida. Esta é a fonte do egoísmo que um dos mais tangíveis males do estado neurótico. Mas a pessoa que lhe disser que ele é egoísta perde sua confiança, e muito justamente, pois que esta pessoa o empurrou ainda mais fundo na sua neurose.

Se eu desejo efetuar a cura dos meus pacientes eu sou forçado a reconhecer o significado do seu profundo egoísmo. Eu deveria ser cego, na verdade, se eu não reconhecesse nisto a verdadeira vontade de Deus. Eu preciso mesmo ajudar o paciente a prevalecer no seu egoísmo, se ele conseguir isto, ele se separará dos outros. ele os abandonará, e eles voltarão a sim mesmos – como deveriam, pois que eles procuram roubá-lo do seu “sagrado” egoísmo. Isto deve lhe ser permitido, porque é seu poder mais sadio e sua maior força, é como eu disse, a verdadeira vontade de Deus, que algumas vezes o leva a completo isolamento. Não importando o quanto este estado seja miserável ele também permite uma postura adequada, pois somente deste maneira ele pode perceber sua medida e aprender que valioso tesouro é o amor do próximo. Além disto, é  somente em estado de completo abandono e solidão que nós experimentamos os benefícios poderosos das nossas próprias naturezas.

Quando alguém tiver visto este desenvolvimento acontecer várias vezes, não poderá mais negar que o que era mal tornou-se bem, e que parecia bem manteve vivas as forças do mal. O arquidemônio do egoísmo nos leva à nobre estrada para esta colheita íntima que a experiência religiosa demanda. O que nós observamos aqui é uma lei fundamental da vida – A Enantiodromia – os reversos se tornando em opostos, é isto que permite a reunião das metades em guerra da personalidade e por isto encerrando a guerra civil.

Eu tomei o egoísmo do neurótico como um exemplo porque é dos seus sintomas mais comuns. Eu poderia igualmente ter tomado quaisquer outros dos seus sintomas característicos para mostrar a atitude que o médico precisa adotar com relação às deficiências dos seus pacientes, e como ele precisa enfrentar o problema do mal.

Não há dúvida que tudo isto soa muito simples. Na realidade, contudo, a aceitação do lado sombrio da natureza humana chega perto do impossível. Considere por um momento o que significa dar o direito de existência ao que não é razoável, sem sentido e mau! Pois é exatamente nisto que o homem moderno insiste. Ele que viver com todos os lados de si mesmo – saber o que ele é. Por isto que ele joga fora sua história. Ele que quebrar com a tradição de maneira que ele possa experimentar com sua vida e determinar que valor e sentido as coisas têm e si mesmas a parte das tradicionais pressuposições. A juventude moderna nos dá surpreendentes exemplos desta atitude. Para demonstrar o quanto longe esta tendência pode ir, eu por exemplo exporei uma pergunta que me foi feita por uma sociedade alemã. Me foi perguntado se incesto tem que ser algo reprovável, e que fatos podem ser colocados contra isto!

Aceitas estas tendências, os conflitos nos quais as pessoas podem cair não são difíceis de serem imaginados. Eu posso muito bem entender que alguém gostaria de não deixar nada sem experimentar para  proteger seu próximo de tais aventuras. Mas curiosamente nós nos encontramos sem meios para fazer isto. Todos os velhos argumentos contra a irracionalidade, auto-decepção e imoralidade, que já foram tão poderosos, perderam  sua efetividade. Nós estamos agora colhendo os frutos da educação do século 19. Neste período a Igreja pregou para os jovens o mérito da fé cega, enquanto que as universidades inculcaram um racionalismo intelectual, com o resultado que hoje nós advogamos em vão se pela fé ou pela razão. Cansado desta guerra de opiniões, o homem moderno deseja por si mesmo saber como as coisas são. E, embora este desejo desande uma tempestade com as mais perigosas possibilidades, nós não podemos deixar de ver isto como uma corajosa empreitada não sem um tanto de simpatia. Não é uma aventura desvairada, mas um esforço inspirado por um profunda preocupação espiritual para trazer sentido mais uma vez na vida baseado na experiência viva e sem preconceitos. O cuidado tem seu valor, não há dúvida, mas não podemos recusar nosso suporte para uma séria empreitada que clama o todo da personalidade no todo da ação. Se nós nos opusermos a isto, nós estamos tentando suprimir o que há de melhor no homem – sua coragem e sua aspiração. E se nós conseguíssemos, nós apenas estaríamos impedindo a inestimável experiência que poderia ter dado sentido para a vida. O que teria acontecido se Paulo tivesse permitido a sim mesmo desistir de sua jornada para Damasco?

O psicoterapeuta que toma seu trabalho a sério precisa chegar a um acordo com esta questão. Ele precisa decidir em cada passo separadamente se ele esta ou não desejando ficar ao lado do ser humano com aconselhamento sobre o que possa ser uma tentativa corajosa que venha ser uma desgraça. Ele não pode ter idéias fixas sobre o que é certo ou errado, – pois de outra maneira ele vai tirar a riqueza da experiência. Ele precisa manter em perspectiva o que acontece na realidade – e somente aquilo que opera, o que é real. Se algo que me parece um erro se demonstra mais efetivo que a verdade, então primeiro eu preciso seguir o erro, pois que nele está o poder e a vida que eu perco se eu me mantiver o que parece para mim verdade. A luz tem necessidade da escuridão – de outra maneira como ela poderia parecer como luz?

É muito bem sabido que a psicanálise Freudiana está limitada à tarefa de tornar consciente o lado sombrio e mau que está dentro de nós. Ela somente põe em ação a guerra civil que estava latente, e deixa nisto. O paciente precisa manobrar isto da melhor forma que puder. Freud infelizmente desprezou o fato de que o homem nunca foi capaz ainda que desarmado aguentar-se sozinho contra os poderes sombrios do mal – isto é, do inconsciente. O homem sempre teve necessidade de auxílio espiritual, que cada religião de cada indivíduo o tem sustentado. A abertura do inconsciente sempre tem significado a erupção de intenso sofrimento espiritual; é como se a florescente civilização fosse abandonada à invasão de hordas de bárbaros ou como se campos férteis fossem expostos à explosão de um dique diante de uma torrente de água. A guerra mundial (1a.) foi tal erupção que demonstrou, como nada mais o poderia  faze-lo, como são finas as paredes que separam um mundo ordenado de um caos furtivamente emboscado. Mas é uma vergonha para todo ser humano e seu razoavelmente ordenado mundo. Sua razão deu violência a forças naturais que procuram sua vingança e somente esperam o momento quando o biombo cai para engolfar a vida consciente com destruição. O homem tem estado consciente deste período deste o primórdio dos tempos, mesmo nos estágios mais primitivos da cultura. Foi para armar-se contra este período e para curar a ofensa feita que ele desenvolveu práticas mágicas e religiosas. É por isto que o curandeiro também é padre; ele é o salvador do corpo bem como da alma, e as religiões são sistemas de cura para doença psíquica. Isto é especialmente verdade das duas maiores religiões do homem, o Cristianismo e o Budismo. O homem nunca é ajudado no seu sofrimento pelo que ele pensa por si mesmo, mas somente por revelações duma sabedoria maior do que a dele mesmo. É isto que o levanta do seu sofrimento.

Hoje, esta erupção de forças destrutivas já aconteceu, e o homem sofre disto no espírito. Por isto que pacientes forçam o psicoterapeuta no papel do padre, e esperam e exigem dele que ele os livre do seu sofrimento. Por isto que nós, psicoterapeutas, precisamos nos ocupar com problemas que, falando estritamente, pertencem ao teólogo. Mas nós não podemos deixar estas questões para a teologia responder; a urgência, as necessidades psíquicas de pessoas em sofrimento nos confrontam com isto todos os dias. Uma vez que, via de regra, todos os conceitos e pontos de vista que nos passaram do passado nos tem falhado, nós precisamos encontrar o fio da meada com o paciente em direção à pista da sua doença – a pista do seu erro que aguçou seus conflitos e aumentou sua solidão até que ela ficasse insuportável – na esperança que das profundidades psíquicas que forjaram os poderes de destruição também venham as forças de salvação. Quando eu tomei pela primeira vez esta direção, eu não sabia onde ela levaria. Eu não sabia o que está escondido nas profundidades da psique – esta região que eu desde então chamei de “inconsciente coletivo” e cujos conteúdos eu designei como “arquétipos”. Desde tempos imemoriais, erupções do inconsciente tem ocorrido, e sempre se tem repetido. A consciência não existia do princípio, e em toda criança ela tem que ser construída novamente nos primeiros anos de vida. A consciência é muito fraca neste período formativo, e a história demonstra-nos que o mesmo é verdade para a humanidade – o inconsciente facilmente toma o poder. Esta luta deixou suas marcas. para colocar em termos científicos: mecanismos de defesa instintivos tem sido desenvolvidos que intervém automaticamente quando o perigo é máximo, e sua entrada em ação é representado em fantasia por imagens de auxílio que estão fixadas na psique humana de força impossível de erradicar. Estes mecanismos entram em ação sempre que a necessidade é grande. A ciência somente pode estabelecer a existência destes fatores psíquicos e tentar uma explicação racional pela inferência de uma hipótese quanto à suas fontes. Isto, contudo, somente joga o problema um degrau atrás e de forma alguma resolve a charada. Desta maneira nós chegamos até a questão em última instância: De onde surge a consciência? O que é a psique? E neste ponto toda a ciência termina.

É como se na culminação da doença, os poderes destrutivos fossem convertidos em poderes de cura. Isto ocorre porque os arquétipos provém de vida independente e servem como guias espirituais para personalidade, desta forma suplantando o inadequado ego com sua fútil vontade e desejo de luta. Como a pessoa de orientação religiosa diria: a orientação veio de Deus. Com a maioria dos meus pacientes eu tenho evitado estas formulações, porque lembram demais o que eles rejeitaram. Eu preciso me expressar em termos mais modestos, e dizer que a psique acordou à vida espontânea. E na verdade esta fórmula é a que mais de perto se encaixa nos fatos observados. A transformação ocorre no momento quando em sonhos ou fantasias aparecem temas cuja fonte não pode ser demonstrada na consciência. Para o paciente não é nada menos do que uma revelação quando das profundidades escondidas da psique algo se levanta para confrontá-lo – algo estranho que não é  o “eu” e que por isto está fora do alcance do capricho pessoal. Ele ganhou acesso às fontes da vida psíquica, e isto marca o princípio da cura.

Este processo, se queremos deixar claro, deveria sem dúvida ser discutido com a ajuda de exemplos aplicáveis. Mas é quase impossível achar uma ou mais ilustrações convenientes, porque normalmente é uma coisa sutil e complicada. O que simplesmente é efetivo é a profunda impressão causada no paciente pela maneira independente na qual o sonhos tratam das suas dificuldades. Ou pode ser que sua fantasia aponte para algo que sua mente consciente não se achava preparada para receber. Muito freqüentemente seu conteúdo é de natureza arquétipa, ligado de uma determinada maneira, que exerce uma forte influência por si mesmo sendo ou não entendido pela mente consciente. Esta atividades espontânea da psique freqüentemente ser torna tão intensa que visões de figuras ocorrem e vozes íntimas são ouvidas. Estas são manifestações do espírito diretamente experimentadas hoje como o tem sido desde os tempos imemoriais.

Tais experiências premiam o sofredor pelas dores de percorrer o labirinto. Desde ponto em diante uma luz brilha através da confusão; ele pode se reconciliar consigo mesmo e com sua guerra íntima e desta maneira ligar a mórbida divisão na sua natureza a um nível mais alto.

Os problemas fundamentais da moderna psicoterapia são tão importantes e de tal alcance que sua discussão em um ensaio impede qualquer apresentação de detalhes, não importando o quanto isto fosse desejável em benefício da claridade. Meu objetivo principal foi colocar em evidência a atitude do psicoterapeuta no seu trabalho. Um entendimento adequado disto é afinal mais compensador do que selecionar alguns preceitos e indicadores como método  de tratamento, pois que estes não são em nenhum caso efetivos ao menos que sejam aplicados com correto entendimento. A atitude do psicoterapeuta é infinitamente mais importante do que as teorias e métodos de psicoterapia, e é por isto que eu me tenho preocupado em fazer esta atitude conhecida. Eu acredito que  eu tenha dado um testemunho confiável. Quanto às questões de que maneira e até quanto o clérigo pode juntar-se ao psicoterapeuta nos seus esforços e labutas, eu somente posso transmitir informações que permitirão à outros decidir. Eu também acredito que o quadro que eu desenhei na perspectiva espiritual do homem moderno corresponde ao atual estado das coisas – embora, claro, eu não possa garantir que sou infalível. De qualquer maneira, o que eu disse sobre curas de neuroses, e os problemas envolvidos, é a verdade sem máscaras. Nós médicos agradeceríamos naturalmente o entendimento com simpatia dos clérigos na nossa labuta para curar o sofrimento psíquico, mas estamos plenamente conscientes das dificuldades fundamentais que se interpõem no caminho da cooperação plena. Minha própria posição é de extrema esquerda no congresso da opinião protestante, e mesmo assim eu seria o primeiro a prevenir as pessoas por generalizarem da sua própria experiência de uma maneira não judiciosa. Como um suíço eu sou um inverterado democrata, mesmo reconhecendo que a natureza é aristocrática e, ainda por cima, esotérica (para iniciados). QUOD LICET JOVI, NON LICET BOVI[4] é uma verdade desagradável mais eterna. Quem é perdoado dos seus muitos pecados? Aqueles que amaram muito. Mas aqueles que amam pouco, seus poucos pecados lhes são cobrados. Eu estou firmemente convencido de que um vasto número de pessoas pertencem às fileiras da Igreja Católica e a nenhum outro lugar, porque estes estão mais adequadamente alojados lá. Eu também estou igualmente convencido do fato que, como observei pessoalmente, uma religião primitiva é melhor adequada ao homem primitivo do que o cristianismo, que é tão incompreensível para eles e tão estranho ao seu sangue que eles somente o podem macaquear de uma maneira repugnante. Eu acredito, que também devem haver protestantes contra a Igreja Católica, e também protestantes contra o Protestantismo – pois que as manifestações do espírito são verdadeiramente fantásticas e tão variadas como a Criação ela mesma.

O espírito vivo cresce e mesmo ultrapassa suas formas anteriores de expressão; ele livremente escolhe os homens no qual ele habita e que o proclamam. Este espírito vivo é eternamente renovado e persegue seu objetivo de uma maneira variada e com muitas formas e de inconcebíveis maneiras através da história da humanidade. Medidos contra ele, os nomes e formas que os homens o têm dado tem pouco significado; são somente folhas e flores dos galhos da árvore eterna.


[1] Esta modificação de costumes radical criou um fermento para a eclosão da guerra civil e a regressão ao sistema tradicional através do franquismo, o que de certa forma foi o caso da Itália e Alemanha, tendências coletivas estas que Jung apreciaria dentro dos seus conceitos de arquétipos e símbolos mais para o fim da década de 30 e década de 40.

[2]Este argumento torpedeia a psicanálise e valida o behaviourismo. (REC)

[3]Calvin Coolidge. O apelido é um trocadilho intraduzível que quer dizer “chama quieto” Coolidge.(REC)

[4] Creio que quer dizer que quem está por cima fica, quem está embaixo, também, mas me falha o latim. (REC)

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