O CASAMENTO COMO UMA RELAÇÃO PSICOLÓGICA

Resumo

A tese central: casamento só é de fato uma relação psicológica na medida em que existe consciência entre os parceiros. Jung argumenta que, enquanto predomina a inconsciência, os dois ficam numa indiferenciação primitiva — mais fusão do que relação entre dois “eus” separados.

Ele desenvolve isso em algumas frentes: primeiro, o quanto a escolha do parceiro é movida por mecanismos inconscientes ligados às relações com os pais — apegos não resolvidos, positivos ou negativos, que empurram a escolha na direção oposta ao que a pessoa conscientemente pensa estar buscando. Depois, divide o casamento em duas metades — a primeira dominada por instinto e reprodução biológica, harmonia mais orgânica que psicológica; a segunda, tipicamente a partir da meia-idade, trazendo crise e a chance de expansão da consciência, quando a pessoa passa a reconhecer o parceiro real em vez da projeção que carregava. E fecha com o par anima/animus — as imagens arquetípicas de feminino/masculino que cada um projeta inconscientemente no outro, produzindo atração forte mas muitas vezes ilusória, que tanto pode virar dependência quanto ponto de partida pra desenvolvimento genuíno se reconhecida como projeção.

Dá pra ver o mesmo padrão estrutural do texto sobre os estágios da vida — a virada na meia-idade como eixo central da psicologia junguiana.

Texto original

Collected Works, Vol. 17

De:”The Development of Personality” Vol 17,pages 324-345

(Inicialmente publicado como “Die Ehe als psychologische Beziehung” em “Das Ehebuch” (Celle, 1925), editado pelo Conde Hermann Keyserling, traduzido por Theresa Duerr na versão Inglesa, “O Livro do Casamento” (New York, 1926). O original foi re-publicado na “Seelenprobleme der Gegenwart”, (Zurich, 1931). O ensaio foi novamente traduzido para o Ingles por H.G. e Cary F.Baynes na “Contributions to Analytícal Psychology” (Londres e N.York, 1928)), e esta versão foi usada para esta tradução, extraída do “The Portable Jung”, editado por Joseph Campbell, Copyright “The Viking; Press, New York, 1971”

Visto como uma relação psicológica, o casamento é uma estrutura altamente complexa, feita de uma serie completa de fatores objetivos e subjetivos, a maioria de natureza bastante heterogênea.

Como desejo confinar-me aos aos problemas puramente psicológicos do casamento, eu preciso desprezar do objetivo principal fatores de natureza social e legal, contudo estes fatores não falham em ter uma influencia pronunciada na relação psicológica entre os parceiros no casamento

Sempre que falamos de uma relação psicológica, nos presupomos que ela é CONSCIENTE, porque não  existe tal coisa como uma relacão psicológica entre duas pessoas que estão em estado de inconsciência. Do ponto de vista psicológico eles não  teriam relação alguma. De qualquer outro ponto de vista, do fisiologico, por exemplo, eles poderíam ser vistos como relacionados, mas não se poderia chamar este relacionamento de psicológico.É preciso admitir que embora tal total inconsciência como eu assumi nunca ocorra, existe contudo um grau parcial de inconsciência consideravel, e a relação psicológica é limitada ao grau para o qual esta inconsciência existe.

Na criança, a consciência emerge das profundezas da vida psiquica, no inicio como ilhas separadas, as quais gradualmente se unem formando um “continente”, uma massa de terra continua de consciência. Desenvolvimento mental progressivo siginifca, na. verdade, extensão da consciência. Somente com o emergir da consciência,e nunca antes, uma relação psicológica se torna possivel. Tanto quanto sabemos, a consciência é uma ego-consciência. Afim de ser consciente de mim mesmo, eu preciso ser capaz de me distinguir dos outros. Relacionamento somente pode correr quando esta distinção existe. Mas embora a distinção possa ser feita de forma genérica, normalmente ela é incompleta, porque grandes áreas da vida psiquica ainda permanecem inconscientes. Como não é possivel fazer diferenciação no que tange ao conteúdo do inconsciente, neste terreno nenhum relacionamento pode ser estabelecidos; ali ainda reina a condição de inconsciência original da identidade primitiva do ego com os outros, em outras palavras, uma completa ausencia de relacionamento.

A pessoa jovem em idade de casar possui, claro, uma ego-consciência (as garotas mais do que os homens, como regra), mas como uma vez que ela recentemente emergiu das brumas da inconsciência original, ela tem com certeza grandes areas que ainda permanecem na sombra e que tornam impossivel, como consequencia, ate este limite a formação da relação psicológica. Isto significa, na pratica, que o jovem (ou a jovem) pode somente ter um entendimento incompleto de si mesmo e dos outros e, por isto mesmo, esta assim imperfeitamente informado(a) quanto aos seus. Via de regra os motivos que a levam (ou o levam ) são largamente inconscientes. Subjetivamente, claro,ela(e) pensa que esta muito consciente e conhecedora da situação, porque nos frequentemente super-estimamos o conteúdo da consciência e é uma grande e surpreendente surpresa descobrir que o que consideravamos o cume final não é nada senão o primeiro passo de uma subida uito longa. Quanto maior a area de inconsconsciência, quanto menor o casamento é materia de livre escolha, como é mostrado subjetivamente na.compulsão fatal que uma pessoa sente quando esta agudamente apaixonada. A compulsão pode existir mesmo que a pessoa não  esteja apaixonada, embora de forma menos agradavel.

As motivações inconscientes são de natureza pessoal e geral. Primeiramente existem os motivos de influencia dos pais. O relacionamento entre o jovem e sua mãe, e a da jovem com o pai, é fator determinante neste aspecto. É a força da ligação aos pais que inconscientemente influencia a escolha do marido ou esposa, tanto positiva como negativamente. Amor consciente por qualquer dos pais favorece a escolha de um companheiro(a) semelhante enquanto que uma ligação inconsciente, (que não precisa por nenhuma razão ser expressada conscientemente como amor) faz a escolha dificil e impõe modificações características. Afim de entende-las, precisa-se conhecer primeiramete todas as causas da ligação inconsciente aos pais e em que caso ela forçosamente modifica, ou mesmo impede, a.escolha consciente. Duma maneira geral, toda a vida que os pais poderiam ter vivido, mas da qual eles se frustaram por não faze-lo por motivos artificiais, é passada para as crianças de forma. substitutiva. Isto quer dizer que as crianças são inconscientemente empurradas na direção intencionada para compensar por tudo que foi deixado vazio nas vidas de seus pais. Desta forma, pais excessivamente moralistas tem o que são chamados crianças “imorais” ou então um pai excessivamente perdulario tera um filho morbidamente ambicioso e assim por diante. Os piores resultados provem de pais que permaneceram artificialmente inconscientes. Tome por exemplo o caso da mãe que delíberadamente se torna inconsciente de tal maneira a não perturbar a imagem falsa de um casamento satisfatorio. Inconscientemente ela vai atar seu filho a ela, mais ou menos como um substituto pelo marido. O filho se não for forçado diretamente na homosexualidade é compelido a modificar sua escolha de maneira a contrariar sua verdadeira natureza. Ele pode, por exemplo, casar um. garota que é obviamente inferior a sua mãe e assim incapaz de competir com ela; ou ele se apaixonara por uma mulher de disposição tiranica ou dominadora, que talvez tenha exito em desligá-lo de sua mãe. A escolha do companheiro, se os instintos não  foram viciados, pode permanecer livre destas influencias, mas mais cedo ou mais tarde elas se farão sentir como obstaculos. Uma escolha mais ou menos instintiva pode ser considerada a melhor do ponto de vista de manter a especie, mas não é sempre feliz psicológicamente, porque existe frequentemente uma enorme difer.nça entre a personalidade puramente instintiva e aquela que é individualmente diferencial. E, embora em tais casos a raça possa ser revigorada por uma escolha puramente instintiva, a felicidade pessoal tende a sofrer.(A ideia de “instinto” é, claro, nada mais do que uma coleção de termos de todos fatores orç;anícos e psíquicos cuja natureza é na sua maior parte desconhecida).

Se o indivíduo for visto somente como um instrumento para manter a especie, então a escolha puramente instintiva do companheiro é de longe a melhor. Mas, uma vez que as fundações de tal escolha são inconscientes, somente um tipo de ligação impessoal pode ser construída. entre eles, tal como pode ser observada ao limite da perfeição entre os povos primitivos. Isto se pudermos falar aqui de algum relacionamento, pois, na melhor das hipóteses, isto é somente uma palida reflexãao do que queremos dizer, um estado muito distante de relacionamento com uma característica decididamente impessoal, totalmente regulada pelos costumes e preconceitos tradicionais, o prototipo de todo casamento convencional.

Portanto, se a razão, ou o calculo, ou o tão falado “amor materno/paterno” dos pais não arrange o casamento, e os sentimentos puros da criança não tenham sido viciados por falsa educação ou por influencias de complexos dos pais accumulados ou negligenciados, a escolha seguira normalmente as motivações insconscíentes do instinto. Inconsciência resulta em não diferenciação, ou identidade insconsciente. A consequencia pratica disto é que o indivíduo presupõe no outro uma estrutura psicológica similar à sua. Vida sexual normal, tanto como uma experiência compartilhada com fins aparentemente similares, tendem a reforçar o sentimento de unidade e identidade. Este estado é descrito como de completa harmonia e é glorificado como uma grande felicidade (“um só coração e uma só alma”) não sem boa razão, uma vez que o retorno a condição de unidade inconsciente é como o retorno a idade infantil. Dai os gestos infantis de todos os amantes. Ainda mais é um retorno ao utero da mãe, nas profundidades da concepção de uma criatividade não ainda consciente. É na verdade, uma genuína e incontestavel experiencia do Divino cuja força transcendental oblitera e consome tudo no indivíduo; uma comunhao real com a vida e o poder impessoal do destino. A vontade do indivíduo para auto-possessão é quebrada: a mulher se transforma em mãe, o homem em paí,e, desta maneira, ambos são roubados de sua liberdade e feitos instrumentos da sede da vida por ela mesma.

Aqui a relação permanece dentro dos limites dos objetivos biologicos, a preservacão da especie. Uma vez que este objetivo é de natureza coletiva, a ligação psicológica entre o marido e a mulher tambem sera essencialmente coletiva, e não pode ser olhada como um relacionamento individual no sentido psicologico. Nós somente poderemos falar disto quando a natureza das motivações inconscientes forem reconhecidas e a identidade original quebrada. Raramente o casamento se desenvolve para uma relação individual maciamente e sem crises. Não existe nascimento de consciência se. dor.

As maneiras que levam para a realização consciente são muitas mas seguem leis definidas. Duma maneira geral, a mudança começa na virada da segunda metade da vida. O período intermediario da vida é de enorme importancia psicológica.

Quando criança, a pessoa começa sua vida psicológica dentro de limites muito estreitos, dentro do circulo magíco da mãe e da familia. Com sua progressiva maturação, ela abre seu horizonte e sua esfera de influencia; suas esperanças e intenções são dirígidas com a finalidade extender o objetivo do seu poder pessoal e suas possessões; o desejo avanca para fora no mundo numa distancia cada vez maior. A vontade da pessoa se torna mais e mais identica com os objetivos naturais perseguidos pelas suas motivações inconscientes. desta maneira, a pessoa respira sua vida nas coisas, ate que finalmente elas começam a viver por si mesmas e se multiplicar; e imperceptivelmente ela é ultrapassado por elas. As mães são subjugadas pelos seus filhos, os homens pelas suas proprias criações, e o que foi originalmente trazido à existencia com apenas trabalho e o maior dos esforcos não pode mais ser mantido. Primeiro era paixão, depois se transformou em dever, e, finalmente em carga intoleravel, um vampiro que suga a vida do seu criador. A idade madura é o momento da grande abertura, quando a pessoa ainda se dá ao trabalho com toda sua energia e toda sua vontade.Mas neste momento, nasce o alvorecer, e a segunda metade da vida começa. A paixão transforma sua face e é agora chamada obrigação; “eu quero” se transforma inexoravelmente em “eu preciso”, e as,curvas da estrada que uma vez trouxeram surpresa e descobertas se tornam monótnas pelo uso. O vinho fermentou e começa a assentar e clarear. Tendencias conservadoras se desenvolvem se tudo for bem; em vez de olhar para frente a pessoa olha para tras, a maior parte do tepo involuntariamente, e a pessoa percebe com. sua vida se desenvolveu ate este ponto. As motivações reais são procuradas e verdadeiras descobertas são feitas. O reconhecimento critico de si mesmo e de seu destino permite à pessoa conhecer suas peculiaridades. Mas estas visoões intimas não vêm para ela facilmente, elas são obtidas atraves dos mais severos dos choques.

Uma vez que os objetivos da segunda metade da vida são diferentes dos da primeira metade, hesitar muito na atitude juvenil produz uma divisão da vontade. A consciência ainda pressiona para frente em obediência, como se fosse pela sua propria inercia, mas o inconsciente fica para tras, porque a força e a decisão intimos necessarios para sua posterior expansão foram enfraquecidas. Esta disputa consigo mesmo originam descontentamento e uma vez que o indivíduo não esta consciente do real estado das coisas ele projeta suas causas no parceiro. Uma atmosfera critica então desenvolve, o preludio necessario para realização do consciente. Normalmente este estado de coisas não começa simultaneamente para ambos os parceiros. Mesmo os melhores casamentos não conseguem expurgar as diferenças individuais tão completamente que o estado mental dos parceiros é absolutamente identico. Na maioria dos casos um deles se adaptará ao casamento mais rapidamente que o outro. Aquele que sta baseado numa relação positiva com os pais achara pouca ou nenhuma diculdade em ajustar-se com seu ou sua parceira, enquanto o outro pode ser impedido por um laço inconsciente profundo ligado aos pais. Ele desta maneira somente encontrara completa adaptação posteriormente e, porque a conseguiu com maior dificuldade, pode mesmo provar ser a mais duravel.

Estas dilerenças de ritmo e o grau de desenvolvimento espiritual são as principais razões das dificuldades tipicas que fazem sua parição nos momentos críticos. Ao falar em “desenvolvimento espiritual”, da personalidade, eu não quero dizer que implica numa natureza especialmente rica ou magnanima. Não é de forma nenhuma este o caso. Eu quero dizer, ao inves disto, um. certa complexidade mental ou de natureza comparavel como uma pedra preciosa de muitas facetas, e outra pedra preciosa da forma de um simples cubo. Existem muita. naturezas multi-facetadas e um tanto problematicas carregadas com traços hereditarios que são muitas vezes dificeis de reconciliar. Adaptação a tais naturezas, ou sua adaptação a personalidades mais simples, é sempre um problema. Estas pessoas, tendo uma certa tendência à dissociação, geralmente tem a capacidade de separar os traços irreconcilíaveis por longos períodos, desta forma passando por pessoas muito mais simples do que são; ou pode ser que sua multifacetação, sua versatílidade, os leve para um “charme” particular. Seus parceiros podem facilmente se perder em tal natureza labirintea, encontrando nela tal abundancia de possíveis experiencias que seus interesses pessoais são completamente absorvidos, algumas vezes de maneira não muito agradavel, uma vez que sua ocupação exclusiva consiste em seguir o utro atraves das curvas e viradas do seu caracter. Existe sempre tanta experiencía disponível que a personalidade mais simples é envolvida, senão submersa pela outra, ela é engolida pelo seu parceiro mais complexo e não enxerga sua saida. É uma ocorrência regular para a mulher ser totalmente contida, espiritualmente no seu marido, e para seu marido ser totalmente contido emocionalmente e. sua mulher. Isto poderia ser descrito como o problema do “conteúdo” e “o-que-contem”.

[1]Aquela (pessoa) que é contida se sente como se vivesse inteiramente dentro do confinamento do casamento, sua atitude para parceiro do casamento é individida; fora do casamento não existem obrigações essenciais ou interesses pendentes. O aspecto desagradavel deste companheirismo é a inquietante dependência sobre a personalidade do outro que nunca pode ser vista inteiramente, e por isto não é acreditavel e confiavel. A grande vantagem deste relacionaento reside na sua indivisibilidade e este fator não pode ser subestimado na economia psiquica.

Aquela (pessoa) que contem, por sua vez, e que esta em concordancia com sua tendência para dissociação e tem uma necessidade especial de unificar-se num amor indivisível pela outra pessoa, sera deixado para tras neste esforco pela personalidade mais simples, o que é naturalmente muito dificil para ela. Enquanto que ela esta procurando na ultima todas as sutilezas e complexidades que a complementariam, e corresponderiam às suas proprias facetas, ela é perturbada pela simplícídade do outro. Uma vez que dentro de circunstancias normais a simplicidade sempre tem vantagem sobre a complexidade, la muito cedo sera obrigada a abandonar seus esforços para levantar sutis e intricadas reações na natureza mais simples. E muito cedo, seu parceiro, que em concordancia com sua natureza mais simples espera respostas simples dela, lhe dará bastante o que fazer constelando suas complexidades com sua perpetua insistência em respostas simples. Por compulsão, ela precisa retirar-se em si mesma diante da influencia da simplicidade. Qualquer esforço mental, como o processo da conscientização ele mesmo, é de tantõesforço para o homem comum que ele invariavelmente prefere ser simples, mesmo que isto não seja verdade. E quando isto representa meia verdade, então, para ele esta bom. A pessoa de natureza mais simples trabalha no metodo mais complicado, como um comodo que é muito pequeno, que não permite espaço suficiente para a outra. A natureza complicada, por outro lado,da para o mais simples muitos comodos com muito espaço, de tal maneira que ela nunca sabe aonde ela pertence. Desta maneira é natural que a pessoa mais complicada contenha a mais simples. O primeiro não pode ser absorvido no ultimo, mas o contem sem ser ele mesmo contido. Alem dísto, a pessoa mais complicada tem talvez uma necessidade maior de ser contida que a outra, ela se sente sempre fora do casamento e em conformancia com isto sempre desempenha o papel problematico. Quanto mais aquele que é contido tenta segurar, mais aquele que contem se sente fora da relação. O que é contido se empurra na relação por segurar e quanto mais ele puxa, menos aquele que contem tem capacidade de responder. Desta forma, o indivíduo tende a espiar fora da janela, sem duvida inconscientemente no início; mas no inicio da idade madura acorda nele um desejo mais insistente por esta unidade e indivisibilidade que é especialmente necessaria para ele por conta de sua natureza dissociada. Nesta conjuntura, as coisas estão aptas a ocorrer de tal maneira que o conflito vem a tona. Ele se torna consciente do fato que esta procurando completar-se, procurando o conteúdo e a indivisão que sempre lhe faltou. Para o contido isto é somente uma confirmação da insegurança que ele sempre sentiu tão dolorosamente; ele descobre que nos comodos que aparentemente lhe pertenciam vivem outros hospedes não desejados. A esperança de segurança desaparece e seu desapontamento o impele para si mesmo. ao menos que por esforço desesperado e violento ele possa conseguir forçar seu parceiro a capitular, extorquindo a confissão que seu desejo por unidade não era nada senão uma fantasia morbida infantil. Se estas taticas falharem, sua aceitação da derrota lhe fara bem verdadeíro, pois que o forçara a reconhecer que a segurança que ele tão desesperado estava procurando no outro tem que,ser encontrada em si mesmo. Desta maneira ele se encontra em si mesmo e descobre na sua propria natureza simples todas as complexidades que seu contenedor tinha procurado em vão.

Se o contenedor não quebra em face do que costumamos chamar “infidelidade”, mas continua acreditando na justifícação intima do seu desejo por unidade, ele tera que guardar para si sua auto-divisão para aquele momento. A dissociação não é curada pela separação, mas por uma desintegração mais completa. Todas as forças que angustia. por unidade, todo o desejo saudavel de individualidade resistira à desintegração e, desta maneira ele se tornara consciente da possibilidade de integração intima, o que antes ele sempre tinha procurado fora de si. Desta maneira ela encontrara finalmente seu premio no seu indivisível eu.

Isto é o que acontece muito frequentemente na idade madura, e nesta sabedoria nossa milagrosa natureza humana força sua transição da primeira metade da vida para a segunda. É uma metamorfose em que o individuo parte do estado de ser apenas uma ferramenta da natureza instintiva para outro estado em que ele não le mais uma ferramenta, mas. ele mesmo: uma transformação de natureza em cultura, de instinto em espirito.

É necessário tomar grande cuidado para não interromper este desenvolvimento necessário por atos de violência moral, pois quaisquer tentativas de criar uma atitude espiritual pela amputação ou supressão dos instintos é uma falsificação. Nada é mais repulsivo do que uma espiritualidade furtivamente luxuriosa; é tão desagradavel como sensualidade grosseira. Mas a transição toma grande tempo e a grande maioria das pessoas afunda nos primeiros estágios. Se nós pudéssemos, como os primitivos deixar o inconsciente tomar conta de todo este processo de desenvolvimento psicologico que o casamento proporciona, estas transformações poderiam proceder mais completamente e sem tanto atrito. Muito frequentemente entre os chamados “primitivos” cruzamos com personalidades espirituais que imediatamente os inspiram respeito, como se elas fossem os produtos maduros de um destino imperturbavel. Eu falo aqui de experiencia pessoal. Mas entre nós europeus atuais podemos encontrar alquem não foi deformado por atos de violencia moral? Nós ainda somos barbaros que ainda acreditamos em ascetiscismo e seu oposto. Mas a roda da historia não pode voltar; nós somente podemos lutar em direção a uma atitude que nos permitira viver nosso destino tão imperturbavelmente como o primitivo pagão em nós realmente deseja. Somente nesta condição nós podemos ter certeza de não estarmos pervertendo espiritualidade em sensualidade e vice-versa; porque ambas tem que viver, cada uma gerando vida para a outra.

A transformação que eu descrevi brevemente acima é a essencia final da relação psicológica no casamento. Muito poderia ser dito sobre as ilusões que serve. para os fins da natureza e que trazem as transformações que são características da idade madura. A harmonia peculiar que caracteriza o casamento durante a primeira metade da vida – quando o ajuste teve exito – é largamente baseada na projeção de certas imagens arquetipos, como a fase critica o faz claro.

Todo homem carrega dentro dele a imagem eterna da mulher, não  a imagem desta ou daquela mulher, mas uma ímagem feminina definida. Esta imagem é fundamentalmente inconsciente, um fator hereditario de origem nos primordios gravada no sistema vivo organico do homem, como uma impressão do “arquetipo” de toda. as experiencias ancestrais da femea, um deposito, como se fosse, de todas as impressões jamais feitas por mulher- em resumo, – um sistema herdado de adaptação psiquica. Mesmo que não existissem mulheres, seria ainda possivel, em dado momento, deduzir desta imagem inconsciente, exatamente como uma mulher deve ser constituída psiquicamente. O mesmo é verdade para a mulher: Ela tambem tem sua imagem inata do homem. Atualmente sabemos da experiencia que seria mais preciso descrever isto como uma imagem do homem enquanto que no caso do homem é antes a imagem da mulher. Uma vez que esta imagem é inconsciente, la é sempre inconcientemente projetada sobre a pessoa do amado e é uma das razões basicas por atração apaixonada ou por aversão. Eu chamo isto de “anima”, enquanto que a escolastica questão “Habet mulier animam?” (tem a mulher  “anima”) eu a acho especialmente interessante, uma vez que do meu ponto de vista é uma pergunta inteligente porque a duvida parece justificada. A mulher não tem “anima”, ou alma, mas ela tem “animus” A “anima” tem um carater. erotico, emocional, o “animus” um racional. Por isto que a maior parte do que os homens falam sobre erotismo feminimo e particularmente sobre a vida emocional feminíma, é derivado das proprias projeções des sua “anima” e, por isto mesmo, distorcidas. Por outro lado, as ideias e fantasias que as mulheres fazem sobre os homens vem da atividade do “animus”, que produz um inesgotavel suprimento de argumentos ilógicos e explicacões falsas.

“Anima” e “animus” são ambos caracterizados por uma extraordinaria multifacetação. No casamento sempre é o contido que projeta esta imagem sobre o “contenedor” enquanto que este ultimo é somente parcialmente capaz de projetar sua imagem inconsciente sobre seu parceiro. Quanto mais unificado e simples seu parceiro, menos completa a projeção. Sendo que, neste caso, uma imagem altamente fascinante fica pendendo como se estivesse no ar, como se estivesse esperando ser preenchida por uma pessoa viva.

Existem certos tipos de mulheres que parecem ser feítas pela natureza para atrair projecões da “anima”. Verdadeiramente pode -se falar quase de um “tipo animal’. O tão repetido caracter tipo “esfinge” é parte indispensavel deste equipamento, tambem um ar equivoco, uma característica fugaz e intrigante – não indefinida – de forma a nada a oferecer, mas de uma indefinição cheia de promessas, como o silencio que fala da Mona Lisa. Uma mulher deste tipo é ao mesmo tempo velha e jovem, mãe e filha, de castidade mais do que duvidavel, infantil e ainda assim maliciosa e capaz de desarmar qualquer homem.[2] Nenhum homem de verdadeiro poder intelectual pode ser “animus”, porque o “animus” tem que ser um “.senhor”, não no sentido de apenas boas ideias, mas como tambem de palavras adequadas – palavras aparentemente cheias de sentido que pretendem deixar muito sem ser dito. Ele precisa tambem pertencer à classe “incomprendida”, ou de alguma maneira estar desajustado com seu ambiente, de tal maneira que a ideia de auto-sacrificio possa se insinuar ela mesma. Ele precisa ser um heroi. questionavel, um homem com possibilidades, o que não  é dizer que uma projeção de um “animus” não possa descobrir um heroi real muito antes dele se tornar perceptível à percepção lerda dos indivíduos de “inteligencia media”.[3]

Para o homem tanto quanto para a mulher, desde que eles sejam “contenedores”, o preenchimento desta ímagem é uma experiencia carregada de consequencias, porque ela possue a possibilidade da resposta de suas proprias complexidades respondida por uma diversidade correspondente. Grandes horizontes parecem se abrir nos quais o indivíduo se ve abraçado e contido. Eu disse “parecem” intencionalmente, porque a experiência pode ser de duas faces. Tanto pode a projeção do “animus” da mulher frequentemente pegar um homem de real valor e não reconhecido na massa e na realidade ajuda-lo a alcancar seu verdadeiro destino com seu suporte moral, como pode também o homem criar para si mesmo uma “femme ínspiratrice” pela projeção de sua “anima”. Mas muito frequentemente acaba sendo uma ilusão com consequencias destrutivas, um. derrota porque sua fé não foi suficientemente forte. Para os pessimistas, eu diria que estas imagens psíquicas primordiais tem um extraordinario valor positivo, mas para os otimistas eu preciso avisa-los contra fantasias e a semelhança das aberrações mais absurdas.

Na. se deve de maneira nenhuma considerar esta projecção como sendo uma relação consciente. Nos primeiros estágios, é longe disto, porque cria uma dependência compulsiva baseada em motivos inconscientes não biológicos. A obra “She” de Rider Haggard[4] dá alguma indicação do curioso mundo de ideias que existe sob a projeção da “Anima”.[5]

São em essencia de conteúdo espiritual, frequentemente disfarçados eroticamente, fragmentos óbvios de uma mentalidade primitiva mitologica que consiste de arquetipos e cuja totalidade constitue o inconsciente coletivo. Desta maneira, tal relação esta no fundo do coletivo e não do individuo. (Benoit, que criou “L’Atlantide”, uma figura de fantasia similar até em detalhes a “She”, nega que plagiou Rider Haggard)[6]

Se tal projeção se fixa em alquem dos parceiros dum casamento, uma relação espiritual coletiva conflita com o coletivo biológico e produz no “contenedor” a divisão ou desintegração que eu ja descrevi anteriormente. Se ele (a) for capaz de manter sua cabeça fora da água, ele (a) vai se encontrar atraves deste mesmo conflito. No caso da projeção, embora perigosa nela mesma, o (a) terá ajudado a passar de uma relação coletiva para uma individual. Esta quantidade de plena consciência de relacionamento que o casamento traz. Uma vez que o objetivo desta discussão é a psicologia do casamento, a psicologia da projeção não nos deve preocupar aqui. É suficiente mencioná-1a como um fato.

Não se pode manusear com a relação psicológica do casamento sem mencionar, mesmo com risco de incoinpreensão, a natureza das suas transições críticas. Como é muito bem sabido, não se entende nada de natureza psicológica se não se experimentou em si mesmo. Não que isto previna alquem de sentir-se convencido que seu proprio julgamento é o uníco verdadeiro e competente. Este fato desconcertante vem da necessaria supervalorização do conteúdo momentaneo da consciência, porque sem esta concentração de atenção ninguem poderia ser consciente. Desta forma, que cada período da vida tem sua verdade psicológica, o mesmo aplica-se a todos estágios de desenvolvimento psicológico. Existem alguns estágíos que somente uns poucos podem alcançar, sendo uma questão de raça, familia, educação, talento e paixão. A natureza é aristocratica. O homem normal é uma ficção, ainda que certas leis gerais validas existam. A vida psíquica é um desenvolvimento que pode ser facilmente preso nos níveis mais baixos. É como se cada indivíduo tivesse uma gravidade especifica, pela qual ele sobe, ou afunda, para o nível que ele encontra seu limite. Suas convicções e pontos de vista serão determinados proporcionalmente. Não é de se extranhar, portanto, que um numero muito maior de casamentos encontre seu limite psicológico superior no preenchimento da finalidade biológica, sem dano para a saude espiritual ou moral. Relativaente poucas pessoas caem em profunda desarmonia consigo mesmos. Aonde existe uma grande pressão de fora, o conflito não é capaz de desenvolver muita tensão dramatica por pura falta de energia. A insegurança psicológica, contudo, aumenta em proporção da segurança social, inconsciente no inicio, causando neuroses e então conscientemente, trazendo consigo separação, dircordia, divorcios e utras desordens conjugais. Em níveis mais altos, novas possibilidades de desenvolvimento psicologico são distinguídas, tocando na esfera da religião aonde o julgamento critico para.

O progresso pode ser permanentemente preso em quaisquer destes níveis, com completa inconsciência do que poderia ter se seguido no proximo estágio de desenvolvimento. Como regra, a graduação para o proximo estágio é barrada por preconceitos violentos e medos supersticiosos. Isto, contudo, serve a um fim muito util, uma vez que um homem que é jogado por acidente a viver num nível muito alto para ele se torna um tolo e uma ameaca.

A natureza não é somente aristocratica, ela tambem é esoterica.[7] Alem disto, nenhum homem de entendimento sera por isto induzido a fazer segredo do que ele sabe, porque ele percebe de maneira clara que o segredo do desenvolvimento psíquico não pode nunca ser traido, simplesmente porque o desenvolvimento é uma questão de capacidade individual.


[1] Nos paragrafos que se sequem a colocação masculina ou femini.a não expressa a condíção da mulher ou do homem, qualquer dos dois pode encarnar qualquer papel e vice-versa. Foi seguido o texto. (REC)

[2] A Ellis Regina canta uma música do Chico Buarque que descreve isto admiravelmente. O filme “Rebecca”discute isto. (REC)

[3] O ator James Dean, no filme “Juventude Transviada”, é um ótimo exemplo disto. (REC)

[4] Não consegui informações, quer sobre o autor, quer sobre a obra. Meus exemplos acima perfazem o ponto que Jung quer fazer.

[5] Extendendo um pouco os exemplos, Greta Garbo, Rodofo Valentino, Clark Gable, Marylin Monroe, etc., etc., incarnavam isto no imaginario das pessoas. (REC)

[6] Autor e obras desconhecidos. O ambiente literario do início do século era outro. (REC)

[7] Para iniciados (REC)

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