Colonoscopia e diagnóstico errado
Para entender o que chamo de mão de Deus, é preciso primeiro contar a parte que não tem nada de metafísico — só imprevistos, mal-entendidos e a minha própria cegueira antes de enxergar o que já estava à minha frente.
Em outubro, comecei a notar que minhas fezes estavam escuras e, mesmo tendo um plano médico que cobriria o exame, paguei, do próprio bolso, um exame de sangue para investigar. Voltou positivo. Levei o resultado ao meu cardiologista, que conseguiu, com um amigo gastroenterologista, uma colonoscopia, e a biópsia de um dos pólipos removidos confirmou o diagnóstico: câncer.
A partir daí, todos os envolvidos — gente jovem, ainda inexperiente, embora bem formada — convergiram rapidamente para a mesma resposta: remover cirurgicamente, “que nem ia precisar usar bolsinha”, segundo a médica responsável pela colonoscopia. Todos, menos meu gastro de confiança, que ainda não sabia de nada disso. O médico que tinha entrado no circuito, apenas para acelerar a colonoscopia, pediu uma ultrassonografia, que apontou possíveis alterações no fígado, e foi ele quem me encaminhou a um chefe de cirurgia para avaliação.
Esse cirurgião pediu uma ressonância — sem especificar que deveria ser feita com contraste. O exame saiu malfeito, e o laudo, como vim a saber depois, já continha sinais de metástase no fígado e no pulmão que não foram mencionados. A atenção de todos estava voltada só para o procedimento cirúrgico já decidido — inclusive num exame de toque malfeito, que só muito depois meu gastro de confiança corrigiria, esclarecendo que o tumor estava a 10 cm do reto.
Eu queria operar o quanto antes: era final de novembro, meus filhos viriam para o Natal, e eu disse que gostaria de estar recuperado a tempo de passar as festas com eles. Ficou combinada a cirurgia para a primeira semana de dezembro, fora da cobertura do meu convênio, portanto com custo adicional relevante. Aceitei, e achei que o problema estava resolvido.
Poucos dias depois, com tudo já autorizado, fui informado de que o valor combinado tinha mudado, e que, para manter o prazo, seria necessário ainda mais dinheiro. Aquilo me tirou do sério. Cancelei tudo.
O problema é que meu gastro de confiança, notoriamente rígido com a própria agenda, não abre atalho para ninguém — foi por isso, aliás, que no início tínhamos recorrido a outro médico, já que ele só me receberia dali a meses.
Estávamos sem saber o que fazer, e liguei para minha cunhada por um motivo completamente alheio a tudo isso, sem fazer ideia de onde ela estava. Ela me disse que estava, naquele exato momento, em consulta com o meu gastro de confiança. Pedi a ela, ali mesmo, que dissesse a ele que eu estava “com CID C19” — o código exato do meu diagnóstico, que eu sabia que teria peso suficiente para abrir uma exceção.
Funcionou. Ele me chamou para o dia seguinte, pediu uma tomografia — desta vez, insistiu no contraste — e, com o resultado em mãos, diagnosticou: “Seu problema não é o cólon, é o fígado, e tem que tratar com quimioterapia — não adianta querer operar o cólon. Pode procurar terceira opinião onde você quiser, até no Einstein.”
Eu aceitei na hora, pois conheço sua competência e sua seriedade, e ele ligou diretamente para uma ex-aluna dele, que é oncologista. Ela me aceitou, furando uma fila complicada, e providenciou a inserção do Port-a-Cath para a quimioterapia no dia 27 de dezembro. Em 8 de janeiro eu já estava na minha primeira sessão de quimioterapia.
Reconto essa sequência com o maior detalhe possível porque é nela, e não em nenhum sinal sobrenatural, que reconheço a mão de Deus. Não houve milagre na tomografia com contraste, nem no telefonema para minha cunhada, nem no diagnóstico corrigido — houve uma cadeia de atenções: a minha, ao observar o próprio corpo antes de qualquer sintoma grave me obrigar a isso; a de um médico entre tantos que só enxergavam a cirurgia; e a minha outra vez, ao reconhecer, no acaso de uma ligação qualquer, a única janela que eu tinha para escapar de um caminho que já estava errado antes mesmo de começar.
Que essa sequência tenha transformado um mal em bem é, para mim, quase indiscutível — mesmo sabendo que chamar isso de mão de Deus é, na minha própria visão de mundo, uma afirmação controversa. Corro o risco, então, de soar ingrato ao dizer o contrário: talvez ela não tenha empurrado nada — talvez tenha apenas esperado que alguém, na hora certa, estivesse com os olhos abertos. As duas leituras não se resolvem uma na outra. Fico com as duas.
Naquele momento, com a visão de mundo antes do câncer