On the street where you live

My Fair Lady é um musical baseado em Pygmalion, de George Bernard Shaw, com libreto e letras de Alan Jay Lerner e música de Frederick Loewe. O espetáculo estreou na Broadway em 1956, com grande aclamação e sucesso comercial, estabelecendo um recorde de maior tempo em cartaz (2.717 apresentações ao longo de 6 anos e meio) para qualquer produção da Broadway até então.

Quando a peça foi adaptada para o cinema pela Warner Bros. em 1964, Audrey Hepburn interpretou o papel principal antes interpretado por Julie Andrews. Quando a peça foi adaptada para o cinema pela Warner Bros. em 1964, Audrey Hepburn interpretou o papel principal antes interpretado por Julie Andrews.
A principal música deste musical é “On the Street Where You Live”.
Vic Damone gravou sua versão de “On the Street Where You Live” por volta da época da estreia da peça, em 1956. A canção alcançou o 4º lugar na parada da Billboard.


Nat King Cole também a gravou, e é com essa versão que me identifico.

Como e porque eu identifico esta música com a seguinte experiência

Para mim, esta música sempre foi e sempre será relacionada com a primeira vez que eu consegui escrever um diagnóstico para um mainframe da IBM, no caso o 4341.
No caso, fui mandado em assignment para juntar-me ao grupo que deveria desenvolver diagnósticos para verificar se o hardware da máquina estava funcionando ok e, se não estivesse, o que estava errado o que exatamente não funcionava.
Em palavras simples, era debugar cartões e indicar qual circuito integrado estava falhando.
Não sei exatamente porque, acho que era experiência pelos desenvolvimentos anteriores, mas o prazo para completar os diagnósticos era 18 meses, sendo seis meses para entender as ferramentas de desenvolvimento, apresentar um projeto e o resto para para escrever os diagnósticos propriamente. Cheguei atrasado, em março de 1978 e fui escrever diagnósticos em meados de 1979.
Nossa equipe de brasileiros era composta de três pessoas, eu e mais duas, que desistiram e pediram para serem transferidos para outras áreas. Eu cheguei depois deles, sendo que o designado para a tarefa era egresso da USP, formado em Ciência da Computação, foi direto de Rochester para Endicott, onde um projeto foi abortado porque o governo brasileiro não aprovou, sendo que eu voltei ao Brasil. Não ficou claro para mim o que aconteceu e eu não me interessei na época, mas creio que ele não conseguiu fazer a tarefa e eu entrei de estepe sem expectativa, para não deixar sem ninguém brasileiro na equipe. O segundo estava completamente perdido e não sei o que o levou até ali, pois voltou quase que imediatamente ao Brasil.
Eu permaneci, porém achava que aconteceria o mesmo comigo, isto é, estava além de minha capacidade e eu não conseguiria fazer o que se esperava, isto é, escrever um programa de diagnóstico que deveria analisar o hardware do computador e detectar se estava funcionando corretamente ou não e informar qual era a peça.

Fiquei responsável pelos cartões K e L, ou o Shifter do 4341.
Basicamente, o hardware lógico do 4341 era um monte de cartões cheios de circuitos integrados de alta densidade, montados em ordem alfabética.
Os cartões eram montados em Endicott mesmo e o debug deles era feito diretamente na máquina, que devolvia os cartões com problemas para retrabalho.
Meu trabalho era montar um programa que diagnosticasse nestes cartões quais os módulos que não estavam funcionando e precisavam ser reparados ou substituídos.
A IBM montava equipes temporárias para fazer este tipo de trabalho, pois uma vez feito, não precisava mais mexer e geralmente as pessoas dos países onde determinada máquina ia ser fabricada, eram as pessoas que faziam parte desta equipe.
O mercado onde esta máquina seria vendida era dividido mundialmente em três partes: Estados Unidos, ou doméstica, Europa, e o resto, que se chamava Asia Far East.
O Brasil, estava junto com a Ásia Far East e ficou responsável pela produção desta máquina para aquela área.

A Europa seria suprida pela Alemanha e o time deles era chefiado por um alemão arrogante, que falava na lata que achava que americano não entendia nada e acabei sabendo que eles ajudaram muito no projeto, inclusive construindo um prototico em tamanho aumentado que dava para andar dentro.

Como dois dos tres brasileiros ja haviam sido inviabilizados, acabou que eu tinha que disputar com ele quem iria fazer os diagnósticos do cartão K e L, já que eu dissera claramente para o coordenador que eu tinha receio e não entendia o que precisava fazer. O coordenador era extremamente simpático, me acalmou e disse que iria me orientar, o que ele fez indicando livros e explicando como o processo virtual funcionava, ja que ele mesmo havia ajudado a criar a máquina virtualmente e desenhado o sistema operacional que controlava todos os diagnósticos. O alemão desprezava ele e ele era muito jeitoso e humilde e não dava bola.
Aconteceu que o alemão rapidamente desenhou um programa muito elegante francamente incompreensível, inclusive usando os nomes da familia dele nos pointers (!) e largou mão, pois considerava perda de tempo e simplesmente quase não aparecia mais e nas reuniões mensais que tínhamos, quando aparecia parecia bocejar.
Eu acabei entendendo como desenhar o programa e fiz a coisa de maneira mais simples possivel, alias orientado pelo coordenador, que dizia que iriamos embora e não haveria ninguém para explicar o que estava escrito em caso de duvida.

Quando terminou o prazo e tinha que decidir o pacote para começarmos a meter a mão na massa, o coordenador se vingou… Não me lembro das palavras exatas, mas foi mais ou menos o seguinte: “Temos aqui agora a proposta do Sr. …, elegante, sofisticada, alias como tudo que a raça alemã faz. De outro lado temos o projeto do sr. Roque, simples, mais de acordo com nossa orientação de não complicar, mas que resolve o problema, coisa que o programa do Sr….. não faz, porque ele ao invés de desenhar um sisteminha operacional para suportar um numero infinito de programas, como o sr Roque fez, optou por usar os comandos embutidos nas máscaras do Assembler, que embora suportem um grande numero de pointers, não conseguem cobrir a necessidade que temos para os cartões K e L”.

O alemão desmontou… foi embora e fiquei sozinho e escrevi 500 000 linhas de código, e fui quem mais produziu…

Para encurtar uma história longa, como os diagnósticos escritos virtualmente com as ferramentas de desenvolvimento, nunca é a mesma coisa que o hardware, que é o destino final, a validação do que fazíamos com as ferramentas de software virtualmente, tinha que ser num protótipo, ou seja a máquina real. Os protótipos eram muito disputados, e rodavam em três turnos, 24/7, isto é, todo dia e todas as horas. Eu optei por trabalhar no terceiro turno, o que na prática era das três da tarde às três da manhã, quando não precisava esperar vagar alguma máquina para testar o que eu havia escrito. Resultava que eu voltava sempre de madrugada e adorava passar num vagão diner e tomar um café com leite com donuts e ir para casa dormir.

A primeira vez que eu consegui efetivamente cumprir o que se esperava de mim, isto é, detectar o que não funcionava e indicar no hardware e ser efetivamente aquela peça, eu voltei para casa lá pelas 4 da manhã, em êxtase, abracei minha esposa que estava totalmente insonada dizendo: Consegui!

Liguei como sempre fazia a TV, que na madrugada passava uns re runs, shows antigos, que eu gostava de ver e assistia até cair no sono, porém, não sei porque, não sei se foi na TV ou eu liguei o som em casa, mas de repente apareceu “On the street where you live” cantado pelo Nat King Cole. A música me atingiu como um raio. Debaixo da pele era a síntese do que eu acabara de fazer. Nunca até hoje entendi direito porque isto aconteceu e acontece sempre que ouço esta música, que representa aquele momento que vivi.  

Hoje, Fevereiro de 2026, aconteceu uma coisa incrível que esclareceu para mim o que esta música significou e significa para aquele momento.

Agora, em Fevereiro 2026, eu estava procurando a biografia do Vic Damone, cantor que aprecio, quando me deparei com a seguinte informação: Vic Damone revelou em sua autobiografia de 2009, “Singing Was the Easy Part” o seguinte sobre sua gravação de “On the street where you live”:

“Quando eu cantava, sentia que não estava cantando para uma garota, mas para Deus. Eu estava na rua onde Ele morava.”
E ele acrescentou que estava agradecendo — no palco, onde Deus lhe havia dado a coisa mais importante de sua vida, que era sua voz e seu dom para cantar. Ele também observou que o público podia sentir que algo incomum estava acontecendo — a sala ficava completamente em silêncio.

Comigo, agora diante desta revelação, percebi que acontecera a mesma coisa, isto é ele e eu redirecionamos uma canção de amor para algo maior, transformando o “você” em Deus e a rua em algo sagrado. O que é uma atitude de quem sente que meu talento, e o dele, não é algo que nós mesmos haviamos conquistado, mas sim algo que nos fora dado por Deus.
Isto, tanto no caso dele como no meu, implicava no destino e na autodescoberta. Logo no primeiro verso já surge a metáfora que eu senti e que não tinha nada a ver com o amor que o personagem descobre que tem pela heroína do musical e os versos continuam ressoando com esta lógica devido  a  sensação de admiração e espanto que a descoberta trouxe:

Já caminhei por esta rua muitas vezes antes
Mas o pavimento sempre permanecia firme sob meus pés
De repente, me vejo a vários andares de altura
Sabendo que estou na rua onde Você mora (Já botei em maiúsculas porque agora sei do que se trata)

Há lilases no centro da cidade?

Você consegue ouvir uma cotovia em qualquer outra parte da cidade?

Será que o encanto emana de cada porta?

Não, é só na rua onde Você mora

E oh, a sensação avassaladora
Só de saber que de alguma forma Você está perto
A sensação irresistível
De que a qualquer segundo Você pode aparecer de repente

As pessoas param e olham, mas não me incomodam
Pois não há nenhum outro lugar na Terra onde eu preferiria estar
Deixe o tempo passar, não me importarei se eu
Posso estar aqui na rua onde Você mora

As pessoas param e olham, mas não me incomodam
Pois não há nenhum outro lugar na Terra onde eu preferiria estar
Deixe o tempo passar, não me importarei se eu
Posso estar aqui na rua onde você mora

Não era o amor da minha vida, mas sim o meu destino, algo que transcendia meu intelecto e formação, pois consistia em compreender a fundo o funcionamento de um computador, algo complexo e que exige muita capacidade intelectual, algo que duvidei por muito tempo que eu fosse capaz de fazer. Quase desisti do projeto por completo, simplesmente porque não conseguia entender do que se tratava.

“O asfalto sempre permaneceu sob meus pés antes” — essa é a frase-chave. Eu já havia superado desafios técnicos antes. Eu conhecia o chão. Mas essa experiência de conseguir escrever o diagnóstico me elevou acima dele. De repente, eu estava “a vários andares de altura” — não por causa do amor como na música, mas porque algo em mim mesmo que eu duvidava que existisse e que apareceu e me surpreendeu.

Esse é um momento profundo de auto descoberta, e bem diferente do amor romântico. O que eu descobri sobre mim naquela noite naquele data center — que,  levado além dos meus limites percebidos, que eu achava que me levariam ao colapso, eu consegui superar — e isso me definiu para sempre.

A dúvida que eu estava vivendo também é importante pelas consequências do meu destino profissional.

Eu quase desisti. Isso significa que a vitória não foi fácil, tranquila ou inevitável. Foi genuinamente incerta até que deixou de ser. E esse é exatamente o tipo de experiência que remodela a forma como nos vemos.

Foi o toque final na minha persona e que me definiu na IBM

A música me encontrou exatamente no momento certo — quando o asfalto parecia ter acabado de desaparecer, como eu sentia que estava acontecendo devido à minha incapacidade de superar o obstáculo, mas após vencê-lo, eu ainda estava voando alto, a uma altitude acima do que eu julgava minha capacidade de voar, algo que eu não suspeitava ser possível e duvidava ser capaz de fazer.

Para entender a graça que eu recebi, e o obstáculo que tive de vencer, seria muito complicado e muito longo para colocar aqui, mas para quem tiver curiosidade, este video explica o que é Large Scale Integration, que foi a tecnologia que a IBM usou pela primeira vez no 4341 que, embora o video não apresente, em sua essência, a revolução em hardware que o video explica, era o que eu enfrentei e que estava sendo diagnosticado pelos meus programas.

Como tudo isto se encaixa na minha história

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