Chartres — ou: como se faz uma peregrinação sem saber

Há viagens dentro das viagens. Na semana que passamos em Paris, separamos um dia e tomamos o trem até Chartres — cidade pequena, a pouco mais de uma hora da capital, dominada por uma catedral gótica que se vê de longe antes de qualquer outra coisa.

Não chamei de peregrinação na hora. Só percebi depois, resgatando a memória, que era exatamente isso que tinha sido.


O trem dos fumantes

Mas antes de chegar à espiritualidade, chegamos ao trem.

Pegamos, sem perceber, um vagão de fumantes. E os franceses de 1993 fumavam — não como quem tem um vício, mas como quem exerce um direito natural e inalienável, com prazer visível e sem a menor consideração pelo ar dos demais. Em minutos o vagão estava envolto numa nuvem densa e democrática que não distinguia fumantes de não fumantes, turistas de locais, crentes de agnósticos.

Chegamos a Chartres levemente defumados e prontos para a purificação.


O que eu procurava

Fui a Chartres com duas coisas na cabeça.

A primeira era Jung — cujo sistema de psicanálise me acompanhava há anos e que eu vinha estudando com mais atenção. Chartres é um dos lugares do mundo onde o cristianismo católico e as crenças pagãs anteriores se encontram de forma mais explícita e mais honesta. A catedral foi construída sobre um local sagrado muito anterior ao cristianismo — e isso não é coincidência, é política espiritual de milênios. Jung explica isso como a permanência dos arquétipos sob formas diferentes — o sagrado muda de roupa mas não de endereço.

A segunda era uma intuição sobre as catedrais góticas que me perseguia e que depois eu desenvolveria num post inteiro — deixo aqui apenas o ponteiro para quem se interessar: Isto vai matar aquilo. O argumento, resumido numa frase, é que as catedrais eram os livros dos que não sabiam ler — e que Gutemberg, ao inventar a imprensa, tornou aquela linguagem de pedra, luz e vitral progressivamente desnecessária. Mas isso é assunto para outra conversa.


O que Cristina procurava

Cristina foi a Chartres como quem vai para casa.

Devota de Nossa Senhora, a catedral de Chartres é um dos grandes santuários marianos do mundo ocidental — guarda o que a tradição chama de véu de Maria, e atrai peregrinos há séculos. Para ela não era pesquisa nem intuição intelectual. Era simplesmente o lugar certo para estar.

Enquanto eu circulava tentando entender as camadas pagãs sob as pedras cristãs, ela encontrava o que tinha ido buscar de forma muito mais direta.

Somos assim há décadas — chegamos ao mesmo lugar por caminhos completamente diferentes e nos encontramos lá dentro.


O café e a foto

Depois da catedral, um café. A foto que ficou desse dia mostra nós dois sentados num banco de couro azul escuro, uma jukebox atrás, uma bandeirinha olímpica da Coca-Cola num porta-guarda-chuvas ao fundo — e dois sorrisos de casal que está exatamente onde quer estar.

Cristina com aquele sorriso luminoso de sempre. Eu com o ar satisfeito de quem encontrou algo que procurava sem saber exatamente o nome do que era.

Foi só ao voltar, resgatando a memória, que entendi o nome: Peregrinação.

Peregrinação

Os vitrais e a estatuaria são analisados em detalhe no site

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